\ A VOZ PORTALEGRENSE: Agosto 2006

quinta-feira, agosto 31, 2006

Crónica de Nenhures

Exumação de cadáveres polacos na Floresta de Katyn
por soldados alemães (1943)

Guernica após o bombardeamento alemão (1937)

Guernica, Katyn e Fernando J. B. Martinho

1. O ‘Jornal de Letras’ n.º 937, de 30 de Agosto a 12 de Setembro de 2006, tem como tema central ‘A Guerra Civil de Espanha - Presença na Literatura e na Arte portuguesas’.
Nesse dossier, visto de Esquerda, está um trabalho na página 17 de Fernando J. B. Martinho (Portalegre, 1938) intitulado ‘Carlos de Oliveira, Guernica’.
Nele, Fernando J. B. Martinho lembra os poemas de Álvaro Feijó, João Rui de Sousa, Orlando de Carvalho e Jaime Cortesão, tendo como temática Guernica e o seu significado para eles. Em seguida detém-se no neo-realista Carlos de Oliveira e no seu poema ‘Descrição da Guerra em Guernica’, escrevendo que ‘é um dos poemas mais altos da tradição de uma poesia ecfrástica moderna em Portugal, impulsionada, em larga medida, por Metamorfoses, de Jorge de Sena na primeira metade dos anos 60’. Continuando, afirma que ‘como o próprio título sugere, trata-se de um poema que pertence ao género da ekphrasis, que a leitura do poema vem, depois, confirmar’.
O poema do Autor de ‘Uma Abelha na Chuva’ é a pormenorizada descrição da pintura ‘Guernica’ de Pablo Picasso, e encontra-se em ‘Entre duas Memórias’ (1971), e integra-se, segundo o poeta e ensaísta portalegrense, ‘em posição medial, num conjunto de três que abre o livro, sob o título Cristal em Sória’.

2. O ataque realizado pelo 3.º Esquadrão da Legião Condor a Guernica, no País Basco, ocorreu na segunda-feira 26 de Abril de 1937, numa fase em que a vitória já pendia para as forças nacionalistas.
Esta cidade não seria um alvo importante no contexto da guerra em curso, mas as patentes militares responsáveis decidiram levá-lo a cabo, encarregando os aliados alemães para tal.
Dele resultou a destruição de Guernica, e, segundo dados oficiais pós-franquismo, 1.664 mortos e 889 feridos, numa população de cerca de 7.000 pessoas. O ataque começou cerca das 16 horas e 45 minutos, levado a cabo por Heinkels-11, e durou cerca de duas horas e três quartos. A repercussão negativa foi tão grande em termos públicos, que os nacionalistas passaram a atribuí-la aos ‘vermelhos’.
Um facto que depois se veio a apurar é que havia crateras provocadas por cargas de dinamite em eixos viários e em fábricas de Guernica, destruição que não pode ser atribuída aos alemães, nem aos italianos que mais tarde conquistarão a cidade. Será a clássica táctica de ‘guerra queimada’ utilizada em todo o tipo de guerra, neste caso levada a efeito pelos republicanos enquanto abandonavam Guernica.

3. O Massacre de Katyn teve lugar numa floresta junto a Gneizdovo, perto de Smolensk, na Rússia, em 1940, por ordem de Estaline e levada a cabo pelo NKVD.
Foi o fuzilamento de militares, na grande maioria oficiais, e civis polacos, feitos prisioneiros pelos soviéticos quando a URSS invadiu a Polónia em Setembro de 1939, resultado do Pacto de não agressão Germano-Soviético, estabelecido entre Hitler e Estaline em 1938 para, entre outras situações, a divisão da Polónia entre a Alemanha e a Rússia.
Em Março de 2005, as autoridades russas terminaram uma longa década de investigações sobre o Massacre na Floresta de Katyn, e o Procurador Militar Russo Alexander Savenkov, principal responsável deste projecto, assumiu que o total de mortes cifrava-se em 14.540 polacos.
Mas, quando da invasão da Rússia pela Alemanha, logo que os alemães descobriram as valas comuns em Katyn, e divulgaram publicamente este caso, os soviéticos de imediato atribuíram aquela chacina aos próprios alemães. Só depois do fim da URSS é que aceitaram o veredicto da História, e assumiram a responsabilidade por aquele acto de guerra injustificado.

4. Guernica é um símbolo para a Esquerda, representando a barbárie do Fascismo e do Nazismo. Os poemas daqueles poetas portugueses sobre aquele episódio da Guerra Civil de Espanha são exemplo disso. Para a Direita é um acontecimento que em nada contribuiu para o desenrolar da guerra, dispensável sob o ponto de vista militar e de nenhum significado ideológico.
Katyn é um Crime contra a Humanidade, perpetrado por uma ideologia totalitária, que é o comunismo, neste caso o comunismo soviético, fundamentalmente um crime de classe, justificado pelo leninismo. A Esquerda ignora-o. A Direita coloca os Mortos polacos, respeitosamente, no Panteão das Vítimas do Comunismo.

MM

terça-feira, agosto 29, 2006

Homenagem


O 'Clube do Livro e da Nova Cultura', foi uma iniciativa do maior alcance nos finais dos anos oitenta.
Aqui deixamos o nosso Obrigado, a quem liderou este Bom Combate.
MM

Tradição


For Evola, the word Tradition had a meaning very similar to that of Truth. The doctrine of the four ages and a broad characterization of the attributes of Tradition, and their manifestations in traditional societies compromised the bulk of Evola's major work Revolt Against the Modern World.
Revolt Against the Modern World (Rivolta contro il mondo moderno) is a book by Julius Evola, first published in Italy, in 1934. Widely seen as his magnum opus, it is an elucidation of his Traditionalist world view.
The first part of the book deals with the concepts of the Traditional world; its knowledge of the bridge between the earthly and the transcendent worlds. The second part deals with the modern world, contrasting its characteristics with those of traditional societies: from politics and institutions to views on life and death. Evola denounces the regressive aspects of modern civilisation (using Tradition as a normative principle).

P'ra um novo Cancioneiro

Como evoluiu a poesia erótica e satírica, desde os nossos Cancioneiros medievais, até à poetisa Natália Correia!
Agora, nos alvores do século XXI, eis que surge novo Vate a cultivar este género literário, de seu nome BigMac.
Como exemplo exemplar da sua veia poética, é o poema que o novel poeta, quiçá, futuro Nobel, tem num comentário ao seu trabalho ‘Problemas Linguísticos’ do passado Domingo 27 de Agosto.

Eu não minto
Eu invento
E se tomo vinho tinto
Logo me esquento!
Quando sinto,
Eu tento.
Percorro o labirinto,
Busco o vento.
Arranco o teu cinto,
Deixo-te sedento
Aí vejo o teu pinto
E sento!
Acabado o serviço
Ponho o cinto
Lavo o carro sem desdém
Para caro MM se sentir bem.

Lembrando o verso de José Carlos Ary dos Santos, «Poeta castrado, Não!»
Obrigado BigMac.
MM

sábado, agosto 26, 2006

O dedo na ferida

Manuel Azinhal n’ ‘O Sexo dos Anjos’, em ‘O nascer do Sol’, com a maior clareza, e dureza, expõe a importância do novo semanário ‘Sol’, nos meios jornalísticos, económicos e políticos indígenas.
Recorde-se que o nome ‘Sol’ já pertenceu a um também semanário no pós-Abril de 1974.
Tendo ‘O Diabo’ sido proibido em 18 de Fevereiro de 1976 pelo Conselho da Revolução, Vera Lagoa funda outro semanário que intitula ‘O Sol’, cuja sede virá a sofrer um atentado bombista. Finda a proibição, deu novamente lugar a ‘O Diabo’. [mj]

Ronald Reagan

Ronald Wilson Reagan (February 6, 1911 - June 5, 2004)
The 40th President of the United States (1981–1989)
The 33rd Governor of California (1967–1975)
*
Temos por Ronald Reagan, a maior admiração. Sobre tal, haverá oportunidades para o afirmar e justificar.
Agora, transcrevendo no post anterior o texto de João Carlos Espada, pretendemos, pela primeira vez neste espaço global, referir a Grandeza daquele Americano.
MM

Reaganeconomics

Ronald Reagan
Há 25 anos, o Presidente Ronald Reagan lançou o «Economic Recovery Tax Act» - o pacote reformista com que - em associação com Margaret Thatcher - começou a pôr cobro à crise de confiança da América e do Ocidente.
Foi, de facto, em Agosto de 1981. Perante a indignação da «inteiligentsia» bem pensante, o velho «cowboy» baixou os impostos em 25%, abrindo caminho a uma espectacular recuperação económica e a uma nova era de prosperidade e confiança.
Já poucos se lembrarão do clima que então reinava no Ocidente. O ciclo de inflação e desemprego elevados - a chamada estagflação - parecia imparável. A revista «Newsweek» escrevia nessa altura que Reagan enfrentava «a crise económica mais perigosa desde que Franklin Roosevelt tomou posse, há 48 anos». A União Soviética parecia também imparável: avançava no Afeganistão, em vários pontos de África, na Nicarágua e outros países da América Latina.
Foi nesta situação que Ronald Reagan anunciou a ruptura com o consenso estatista dominante de «tax and spend». Esse consenso foi inesquecivelmente descrito por ele: «se algo se move, apliquem-lhe um imposto; se continuar a mover-se, aumentem o imposto; se parar, dêem-lhe um subsídio». Reagan anunciou uma política radicalmente diferente: cortar nos impostos e nos subsídios, encorajando as pessoas a poupar e as empresas a trabalhar, ganhar, poupar e investir.
Em artigo recente, «The Wall Street Journal» recorda os incríveis resultados dessa mudança - incríveis mesmo para aqueles que a defenderam. Nos últimos 25 anos, a riqueza americana cresceu em 25 triliões de dólares Foram criados 40 milhões de novos postos de trabalho, mais do que no resto do mundo industrializado. O imposto máximo sobre os rendimentos pessoais e das empresas é hoje de 35%, contra 70% e 48%, respectivamente, em 1981 — antes do «Economic Recovery Tax Act», de Ronald Reagan.
A nova política de Reagan foi ganhando eco na Europa. Nos países industrializados, a média do imposto sobre os rendimentos pessoais é hoje de 43%, contra 67% em 1980. A média do imposto sobre as empresas é 29%, contra 48% naquela data. O império soviético entretanto implodiu, e os ex-membros lideram agora o campeonato mundial para baixar os impostos: impostos únicos («flat tax») tendem a ser a norma; no Leste europeu rondam os 25% e a Rússia tem hoje 13%.
Muita gente continua a ver na política de Reagan a marca do desprezo pêlos pobres e do favorecimento dos ricos. Ignoram os factos e a origem intelectual dessa política. Adam Smith e os iluministas escoceses que a inspiraram eram filósofos morais, defensores da benevolência e da compaixão - que viam emergir do sentimento natural de «fellow-feeling». E acreditavam que esses sentimentos não eram contraditórios com outro legítimo impulso natural: o de melhorar a condição de cada um e da sua família. Benevolência e empreendimento seriam impulsionados por um sistema de liberdade natural: comércio livre, impostos baixos, justiça célere e imparcial. Parece impossível. Mas funcionou.
João Carlos Espada, ‘Mar Aberto’
in, Expresso, 26 AGOSTO 06, Caderno 1, pg. 19

Do Expresso ao Sol

A guerra começou!
Francisco Pinto Balsemão/Henrique Monteiro têm ‘medo’ de José António Saraiva/José António Lima?
O ‘Expresso’ projectou para uma semana antes da saída do novo semanário ‘Sol’ de António José Saraiva, a mudança de formato (passa a «berliner»), de grafismo (criou o caractere ‘expresso’), de logótipo, enfim, até vai oferecer filmes!
A ‘coisa’ promete…
O ‘Sol’ sai a 16 de Setembro, e a 9 de Setembro o ‘Expresso’ apresenta ‘nova roupagem’.
Sinal de fraqueza?
O pior é se o arqt. Saraiva, e é pessoa para isso, vem ‘com mais do mesmo’.
Então, o ‘Expresso’ ganhará, não ‘aos pontos’, mas por KO! [mj]



Batalha Final e o Club de l'Horloge

Trofim Denissovitch Lyssenko (Setembro de 1898 em Karlovka, Ukrania - 20 de Novembro de 1976 em Kiev) foi um herói da URSS na Agricultura. Está na origem de uma teoria genética não científica que ajudou a impor na União Soviética durante a ditadura de Estaline.
*
No notável ensaio de Rodrigo Nunes na sua ‘Batalha Final’ da passada quarta-feira 23 de Agosto, intitulado ‘O Club de l´Horloge e a “preferência nacional”’, é afirmada a importância dos Grupos de Pensamento como o GRECE e o Club de l´Horloge, na formação de uma elite política.
Há muito afastados das iniciativas deste último, fomos colher informação ao seu site. E logo deparámos com uma iniciativa que reputamos do maior interesse e significado. Referimo-nos a ‘Le prix Lyssenko - prix de la désinformation scientifique ou historique’, que esta instituição criou em 1990, e que serve para preservar na história das ciências esta fraude científica.

http://www.clubdelhorloge.fr/lyssenko.php

A figura de Lyssenko surge-nos pela primeira vez no ‘Nova Direita Nova Cultura’, páginas 129 a 132, de Alain de Benoist, das Edições Afrodite.
Na parte dos ‘Fundamentos’, no tema ‘Biólogos’, é dissecado o que ficou conhecido como a tentativa de conciliação do marxismo com a genética, e que originou na Rússia um gravíssimo retrocesso naquela ciência.
Escreve Alain de Benoist:
“Durante os seus trabalhos, o ucraniano inteirou-se que os princípios gerais da «genética burguesa» não confirmavam em nada a teoria marxista segundo a qual o indivíduo é maleável, à vontade, sob influência do ambiente. Achou-se então na obrigação de fundar uma outra baseada em hibridações miraculosas. Nesta «nova ciência», todas as diferencias observadas nos seres vivos são levadas à conta do ambiente (educação, meio social, clima, etc.). Modificando o meio, Lyssenko espera poder modificar, da mesma cajadada, a constituição física e psicológica e tornar transmissíveis de caracteres adquiridos».

Ficaremos atentos aos Estudos e Iniciativas do Club. [mj]

sexta-feira, agosto 25, 2006

Portugal Pequenino - II.ª Parte

Apêndice
Tendo em conta os últimos desenvolvimentos no planeta futebolístico português, em relação ao denominado ‘Caso Mateus’, que agora envolve três clubes, há duas situações possíveis:
- Fica tudo na mesma, e a zona do Porto fica com cinco clubes, tantos como a zona de Lisboa.
- Desce ‘Os Belenenses’, e fica a zona de Lisboa com quatro equipas e a zona do Porto com seis.
Como se depreende, decida-se o que se decidir, os dezasseis clubes estarão sempre na Madeira, zona de Lisboa, do Porto e do litoral entre Leiria e Aveiro, como já acontecia.
MM

Crónica de Nenhures

Portugal Pequenino
Começa hoje a Liga Portuguesa de Futebol Profissional, época 2006-2007.
Sem pretendermos fazer qualquer futurismo, limitamo-nos a falar da geografia da I.ª Liga.
É um facto que ela ‘passa-se’ entre os aeroportos de Funchal, Lisboa e Porto, nas visitas aos clubes da Madeira e destes às outras catorze equipas, e nas auto-estradas A1 (Leiria, Lisboa, Coimbra, Porto), A2 (Setúbal), A3 (Braga, Vila das Aves), A4 (Paços de Ferreira), A9 (Amadora), A14 (Figueira da Foz) e A25 (Aveiro).
Segundo a ‘ViaMichelin’, exceptuando as deslocações à Madeira, a maior distância é entre Setúbal e Braga, que é de 394 quilómetros.
Os dezasseis clubes pertencem a doze cidades, um em Setúbal, três em Lisboa, um na Amadora, um em Leiria, um em Coimbra, um na Figueira da Foz, um em Aveiro, dois no Porto, um em Paços de Ferreira, um em Vila das Aves, um em Braga, e dois no Funchal.
Em termos de regiões, há duas equipas na Madeira, cinco na zona de Lisboa, quatro na zona Litoral Centro, e cinco na Zona do Porto.
Todo o campeonato vai-se disputar junto ou muito perto do mar. Amadora, Leiria, Coimbra, Paços de Ferreira, Vila das Aves e Braga não têm mar, as outras cidades são marítimas.
As assimetrias económicas de Portugal estão fielmente retratadas nesta análise. Os clubes da Madeira são apoiados pelo Governo Regional, condição para poderem disputar este campeonato. Depois, há somente três regiões representadas, e que correspondem às mais desenvolvidas do país: Lisboa, Porto e a região entre Leiria e Aveiro, esta em franco crescimento económico.
MM

quinta-feira, agosto 24, 2006

O Passado e a Reconstrução da História

Ontem, em a ‘História em Construção’, Humberto Nuno de Oliveira, no ‘Reverentia’, revisita a sua Faculdade de Letras de Lisboa, e no segundo parágrafo afirma que ‘a História, disciplina científica nos métodos que emprega, não nas conclusões que apresenta, é, de facto, uma realidade em permanente construção’. A seguir acrescenta que ‘quase sempre sujeita a versões convenientes para os detentores do poder ocultarem a realidade dos factos, a história foi sempre submetida a uma cuidadosa manipulação’, vindo a concluir ser ‘razão pela qual urge confrontá-la com os documentos tentando a sua mais fiel aproximação do sucedido', e terminando com a afirmação de que ‘este movimento de revisão da História - REVISIONISMO - não só é desejável como imperativo’.
Dentro desta linha de pensamento está o trabalho de Jörg Friedrich intitulado ‘Der Brand. Deutschand im Bomberkrieg, 1940-1945’ (2002), que na versão espanhola é ‘El Incêndio. Alemanha Bajo Los Bombardeos, 1940-1945’ (2003).
Passados anos sobre o clássico de David Irving, ‘The Destruction of Dresden’, o livro levantou na altura grande polémica na Alemanha, se bem que o seu Autor fosse um homem de esquerda, ao tratar este tema fora dos cânones tradicionais, isto é, da ‘culpa’ alemã. Afinal os alemães também sofreram. [mj]

Passado Presente Futuro

Ao recordarmos ontem a obra de António José de Brito ‘Para a compreensão do Pensamento Contra-Revolucionário’, é justo hoje lembrar o número 21-22, Extra-Série, 1985, do 'Futuro Presente', onde estão vários estudos sobre pensadores contra-revolucionários europeus. Nele está o ensaio ‘O pensamento de Alfredo Pimenta’, que o livro também inclui.
É de bom-tom, à cause de…, reavivar a apresentação e o índice. [mj]
*
Este «Número-Especial» de Futuro Presente contém uma série de estudos dedicados a figuras do pensamento e da acção da Europa contemporânea. Poder-se-á perguntar qual o denominador ou denominadores comuns que levaram a reuni-las neste caderno, já que nem a nacionalidade, nem a época, nem o próprio estilo de mensagem ou intervenção, poderiam reunir personalidades tão diversas como as estudadas aqui neste número.
Donoso Cortes foi um católico tradicionalista e contrarevolucionario na Espanha do século XIX; Alfredo Pimenta, polemista e pensador monárquico e nacionalista fascizante no Portugal da I República e do Estado Novo; António Ferro, jornalista, intelectual modernizante e «grande patrão» das Artes e da Propaganda do Salazarismo; Serrano Suñer, homem de acção e ponte entre o conservadorismo e o falangismo, Ministro dos Estrangeiros de Franco; Henri de Man, um socialista belga com simpatias pelo populismo fascista e uma personagem controversa na Europa de entre-duas-guerras.
O denominador comum está num estilo de pensar e viver a Europa e as suas pátrias diverso de uma cartilha uniforme e dos modelos instituídos, numa meditação e num risco de empenhamento «ao contrário» do comum. Por isso ele pertence ao futuro presente.
§
Sumário
2 Donoso Cortes: uma filosofia contra-revolucionária da história
Luc Tirenne
9 O pensamento de Alfredo Pimenta
António José de Brito
25 António Ferro - vários espelhos para um só rosto
António Maria Zorro
31 O Neo-Socialismo de Henri de Man
Nuno Rogeiro
45 Entrevista a Ramón Serrano Suñer
Arnaud Imatz
50 José António - esse desconhecido
Arnaud Imatz

quarta-feira, agosto 23, 2006

A Coragem quando Ela era precisa


António José Aguiar Alves de Brito (22 de Novembro de 1927)
*
Associamo-nos à Homenagem do ‘Fascismo em Rede’, que hoje lembra a Figura e a Obra do Professor António José de Brito. [mj]

MEC em 'Casablanca'

Como acaba «Casablanca»?
CASABLANCA é um grande filme romântico, porque, tal como nos romances da vida real, os actores não sabem para onde vão nem como vão acabar. É mesmo verdade: houve tantos problemas com o guião, que foi escrito durante as filmagens, e ninguém sabia qual era a história que se estava a contar.
Esta deliciosa desorientação é visível nos rostos de Humphrey Bogart e de Ingrid Bergman - chega a ser uma máscara de estupidez -, mas consegue reclassificar-se como encenação de um amor louco.
Eles estão confusos; tentam cobrir as possibilidades narrativas que ainda estão por definir; agem como se estivessem perdidos num mar de expressões abstractas. Ou seja: parecem mesmo apaixonados.
Todo o filme é erguido sobre esta incerteza. O coração chama para um lado; o dever para outro; a coerência dramática para não sei onde. Deste caos tão habilmente disfarçado - ninguém pode revelar que ainda não existe uma história - emergem simulacros perfeitos da amizade, da primazia da ética, da saudade e, sobretudo, do triunfo da memória sobre a realidade.
Casablanca é a história de um amor interrompido que não acaba; que continua; que não precisa de ser retomado só porque os dois amantes se reencontram. É por isso que o filme pode ser visto tantas vezes: porque é um «loop» contínuo em que a heroína está sempre a reaparecer e a desaparecer. No meio de tantos intercâmbios entre éticas e egoísmos, é Bergman/llsa que faz o maior sacrifício: só ela trai o seu amor uma segunda vez. E, mesmo assim, a incerteza flutuante de Casablanca deixa tudo em aberto.
A última vez que vi Casablanca, por exemplo, fiquei com a impressão de que estavam todos a divertir-se; a marcar tempo. Que Rick e lisa acabariam por juntar-se, mal a guerra acabasse, mas que, entretanto, Rick até preferia mais uns tempos de paz e sossego lá no bar dele em Casablanca.
Quem sabe? Poder saber-se tudo e nada acerca de um filme que se conhece tão bem é o que torna Casablanca no grande filme que pode não ser - mas grandemente parece.
Miguel Esteves Cardoso
14 ÚNICA 19 Agosto 2006 Expresso

terça-feira, agosto 22, 2006

A Tribute to Isadore "Friz" Freleng


De manhã, no noticiário da Rádio Antena 1, tomámos conhecimento que se celebra hoje o centenário do seu nascimento.
Na nossa memória permanecem todas estas figuras (Porky Pig, Tweety Bird, Sylvester, Yosemite Sam, Speedy Gonzales, e, mais tarde, a Pantera Cor de Rosa) que admirámos quer na televisão, quer no cinema.
Obrigado Friz Freleng, sem as suas personagens a nossa infância não teria sido tão feliz! [mj]
§
Isadore "Friz" Freleng (August 21, 1906 - May 26, 1995) was an animator, cartoonist, director, and producer best known for his work on the Looney Tunes and Merrie Melodies series of cartoons from Warner Bros.
He introduced and/or developed several of the studio’s biggest stars, including Porky Pig, Tweety Bird, Sylvester the cat, Yosemite Sam (to whom he was said to bear more than a passing resemblance) and Speedy Gonzales.
The senior director at Warners’ Termite Terrace studio, Freleng is also the most honored of the Warners directors, having won four Academy Awards.
After Warners shut down the animation studio in 1963, Freleng and business partner David DePatie founded DePatie-Freleng Enterprises, which produced cartoons like the Pink Panther, feature film title sequences, and Saturday morning cartoons through the early 1980s.

segunda-feira, agosto 21, 2006

Requiem por Jan Palach

O «requiem» de Praga: 21 anos em Portugal
.
Quatro anos antes do 25 de Abril, a RTP transmitiu, à noitinha, um programa musical onde surgia, a certa altura, uma canção bela e sombria, que se disse ser «subversiva». Chamava-se «Requiem por Jan Palach», o seu autor era o escritor nacionalista José Valle de Figueiredo. Celebrava a memória do jovem estudante de Filosofia Jan Palach, que se imolou pelo fogo na cidade de Praga, pouco depois da invasão soviética. Depressa se tomou num cântico de referência para os nacionalistas-revolucionários portugueses, ao lado dos poemas de Jean Pax Mefret, Leo Valeriano, Compagna Dell’Anello, Michel Sardou, Ângelo Branduardi e, mais recentemente, Chris de Burgh.
21 anos depois, lembramos aqui essa letra histórica. O «Requiem para Jan Palach».
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«Requiem por Jan Palach» (*)
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Arde o coração de Praga.
Arde o corpo de Jan Palach.
Podemos dizer que o Rei Venceslau,
montado em seu cavalo,
também viu crescer o fogo
em que arde o coração de Praga.
João Huss, queimando o seu corpo,
também arde na Praça de Praga.
E os cavaleiros da Boémia,
o povo e os grão-Senhores,
os operários de Pilsen,
os poetas e cantores da Eslovóquia,
todos ardem nessa tarde e nessa praça.
Queimamos a coragem e o heroísmo,
queimamos a nossa infinita resistência.
Não é verdade, Soldado Schweik?

Eles vieram das estepes e disseram:
É proibido morrer pela Pátria,
é proibido resistir à opressão,
é proibido combater a ocupação. (Refrão)
É proibido amar os campos verdes do seu país.
É proibido amar o verde da esperança.
É proibido amar a Esperança

Estás proibido, Jan Palach!
És proibido, Jan Palach!
Estás proibido de existir, Jan Palach!
Estás proibido de morrer!

Eles vieram das estepes a disseram
todas estas palavras.
Mas também é verdade que disse um dia o Rei Venceslau,
montado em seu cavalo:
«Esta nossa terra será livre,
e nela crescerão livres
as virgens, as mães e os filhos.
E nela crescerão livres as flores.»
E das flores virão rosas,
rosas brancas, para cobrir a campa
de Jan Palach.
Arde o Coração de Praga,
arde o corpo de Jan Palach,
arde o corpo do Futuro.
E já cresce a Primavera!

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(*) Letra de José Valle de Figueiredo, escrita no fim dos anos 60. Música de Manuel Rebanda. Jan Palach imolou-se pelo fogo no fim de 1968, em pleno centro da Praça Venceslau, em Praga, símbolo do fundador da nacionalidade.

O semanário ‘O Diabo’ de 29 de Agosto de 1988, na página 13, traz uma notícia sobre aquela obra poético-revolucionária, que reproduz.
Apenas referência quanto à data da morte de Jan Palach, que não foi em finais de Dezembro de 1968, como se lê no jornal, mas sim em 16 de Janeiro de 1969.
Mário Casa Nova Martins

domingo, agosto 20, 2006

Hugo Eugenio Pratt (praia de Lido di Ravenna, Rimini, Itália, 15 de Junho de 1927 - Lausana, Suíça, 20 de Agosto de 1995)

Lembro-Vos que passam hoje onze anos que Ele nos deixou.
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20 de Agosto de 2006
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Vosso







Comunicados do PDC e MFA

Na edição de Dezembro de 1975, no seu jornal ‘Presença Democrática’, o PDC faz o relato do acontecido durante a crise político-institucional provocada pelo 11 de Março de 1975.
Dele, ressaltam dois comunicados que reproduzimos, porque clarificam as posições quer do partido, quer do Movimento das Forças Armadas. [mj]
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MANIFESTO AO PAÍS
do
Partido da Democracia Cristã

O Partido da Democracia Cristã foi proibido de ir às urnas. O Decreto que acaba de suspender as actividades do PDC fundamenta a decisão revolucionária em pressupostos de emprego, incitamento e provocação ao uso de violência, de perturbação da ordem pública e de desrespeito pelo Programa do MFA, por parte da Democracia Cristã.
Nestas circunstâncias, é, pois, devida urna palavra ao Pais, nomeadamente aos muitos milhares de adeptos e simpatizantes da Democracia Cristã em Portugal.
Quanto às supostas perturbações da ordem pública, de emprego ou incitamento à violência, não têm os órgãos dirigentes do PDC conhecimento de quaisquer atitudes, mesmo individuais, de perturbação da ordem pública por parte de democratas cristãos. Nem, até à data, houve a mais ligeira referência a tal em qualquer meio de comunicação social. A razão é simples: o Partido da Democracia Cristã é absolutamente contrário a atropelos à ordem democrática e a atentados à integridade física de qualquer pessoa. Se a situação do Secretario Geral do Partido aparece como suspeita, esse facto não pode ferir todo um Partido cuja confiança pode ter sido traída. Do mesmo modo, não serão forçosamente culpados todos os elementos do aquartelamento pelo facto do comandante ser suspeito ou réu de sedição.
O Partido da Democracia Cristã sempre combateu a violência e defendeu um processo democrático na legalidade. Vitima foi o PDC de ataques e violências que nunca foram punidas - o caso do Pavilhão dos Desportos e a destruição das suas Sedes no Pais. E por partidos que não foram ilegalizados ou suspensos.
Quanto a qualquer desrespeito pelo Programa do MFA, também essa acusação revolucionária não atingeo PDC. Senão, vejamos: apreciando o Programa do MFA, nos pontos que ora interessam, verifica-se que a Democracia Cristã sempre defendeu uma evolução política sem convulsões internas, sempre apoiou que o Governo Provisório fosse composto por civis representativos de grupos e correntes políticas, sempre o PDC aceitou, conforme o mesmo Programa que a Junta de Salvação Nacional se mantivesse na cena política, sempre a Democracia Cristã defendeu a inteira liberdade de reunião, associação política e a liberdade de expressão do pensamento sob qualquer forma, como é do mesmo Programa. Mais: sempre o PDC defendeu que o julgamento dos próprios crimes contra o Estado sejam julgados não por tribunais especiais como no regime fascista, mas, como aponta o mesmo Programa, por tribunais ordinários; sempre o PDC defendeu que a política económica estivesse ao serviço das classes trabalhadoras para melhoria da qualidade de vida dos Portugueses; sempre defendeu o PDC a estratégia antimonopolista.
Correspondendo aliás ao anelo que o Programa dirigiu à participação sincera, esclarecida e decidida na vida política nacional, é que foi formado o PARTIDO DA DEMOCRACIA CRISTÃ em Maio de 1974.
Vê-se agora a Democracia Cristã em Portugal discriminada politicamente, impedida de concorrer às urnas depois de ter desenvolvido todas as actividades legais conducentes também a esse fim. Para tal, o PDC foi considerado pelo Supremo Tribunal de Justiça como Partido político por preencher os requisitos legais, nomeadamente o de se integrar no espírito do Programa do MFA. Recolheu mais de 8 000 assinaturas, número que nunca foi atingido por qualquer outro partido. Em coligação, desenvolveu o PDC a tarefa de organização do processo de candidaturas a Deputados para a Assembleia Constituinte, por todos os círculos eleitorais.
O PDC foi inscrito na União Europeia das Democracias Cristãs. Desenvolveu contactos internacionais com os Partidos democratas cristãos da Europa e América do Sul; realizou o Congresso na Figueira da Foz e comícios e sessões de esclarecimento sempre na melhor ordem interna.
O balanço rápido que se apresenta apenas pretende chamar a atenção do Pais para as actividades ordeiras e democráticas do PDC.
Depois de legalizado pelo Supremo Tribunal, o Partido da Democracia Cristã tem de aceitar, disciplinadamente, a decisão do órgão da Administração de suspensão da actividade política. Sempre se julgou a Democracia Cristã uma linha de força do Povo Português: o programa do PDC, baseado nas Encíclicas da Igreja, nos princípios da democracia pluralista e no Programa do MFA, parecia não ter sofrido desvios e estar a ser correctamente interpretado. Não julgou assim o órgão da Administração. Não restou, pois, a oportunidade de ser o Povo, através do Voto a marginalizar este ou outro Partido. Julgava até o PDC que, através da coligação, poderia obter uma esmagadora adesão popular. Era essa, aliás a convicção generalizada no Pais e a opinião de alguns Partidos que ficam na cena política, agora substancialmente marxista.
Sempre a Democracia Cristã condenou as perseguições políticas do regime deposto em 25 de Abril, nomeadamente a repressão ao Partido Comunista.
Apesar da exclusão do Partido da Democracia Cristã, reconhece-se todavia, que continua assegurada a democracia pluralista de que falou o Presidente da República ao fixar o dia 12 de Abril como o dia das primeiras Eleições livres em Portugal.
O que fica declarado constituirá a clara e inequívoca reafirmação de lealdade do PDC ao Programa do MFA e à defesa que sempre fez dos princípios da Doutrina Social da Igreja.
Limitado agora no seu direito de reunião (proibido de realizar Comícios), limitado no seu direito de expressão (proibido de fazer propaganda política do seu ideário), o PARTIDO DA DEMOCRACIA CRISTÃ reduzirá a sua actividade ao serviço de secretaria, conforme lhe é permitido. Espera, todavia, o PDC que a decretada suspensão, por injusta, venha a ser revista antes das Eleições.
Entretanto, para melhor cumprimento da marginalização a que foi votada a Democracia Cristã em Portugal, na impossibilidade de reunir um Congresso para o efeito, os órgãos dirigentes do PDC protestam uma vez mais a sua fidelidade ao Programa do MFA, rejeitam completamente as insinuações em contrário e declaram-se alheios a tomadas de posição individuais que, porventura possam ser tomadas.

VIVA A REVOLUÇÃO DO 25 DE ABRIL
VIVA O PROGRAMA DO MFA
VIVA PORTUGAL LIVRE

Lisboa, 19 de Março de 1975

Os órgãos directivos
do Partido da Democracia Cristã

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CONSELHO DA REVOLUÇÃO
RESOLUÇÃO

O Conselho da Revolução, reunido em sessão plenária em 22 de Março de 1975, apreciou a reclamação do Partido da Democracia Cristã (PDC) contra a decisão que motivou a suspensão parcial da sua actividade política decretada pelo decreto nº 137-E/75 de 17 de Março de 1975.
Vistas as considerações apresentadas, o Conselho da Revolução reconheceu continuarem plenamente validas as razões que motivaram a decisão anterior e designadamente:
a) - Desrespeito ao programa do Movimento das Forças Armadas traduzido por ataques públicos e frequentes ao MFA e ao 1º Ministro, conforme consta da sua propaganda e das declarações dos responsáveis, em comícios realizados.
b) - Envolvimento directo ou indirecto no golpe contra-revolucionário de 11 de Março, como o prova a fuga para o estrangeiro e às suas responsabilidades do seu secretario geral, major da reserva Sanches Osório.

Nestas condições o Conselho decidiu não dar provimento à reclamação, mantendo a sansão de suspensão aplicada e dar conhecimento publico desta decisão.

Palácio de Belém, 22 de Março de 1975

sábado, agosto 19, 2006

Vanguarda e a História do PDC

No ‘Reverentia’ o Ilustre Blogger da ‘Vanguarda’ deixou este comentário, ao qual vou responder, segundo a minha leitura dos factos.
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Como não consigo deixar comentário na "Voz Portalegrense" deixo-o aqui:
Já tinha lido algures qualquer coisa sobre essa coligação (PDC+CDS), que acabou por não ir para a frente porque o PDC foi proibido de participar na eleição para a Constituinte, certo? Já agora, qual o argumento para proibir a participação na eleição para a Constituinte?
O MRPP, por exemplo, também foi proibido de participar, salvo erro com o argumento do que o seu emblema (foice e martelo) era confundível com o do PCP, e como o MRPP se recusou a alterar o emblema ficaram de fora (é claro que a razão real seria não dividir o voto do PC).
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«E uma das curiosidades deste processo tem a ver com o facto de na época o PDC ter uma maior implantação nacional que o CDS, ter sido reconhecido internacionalmente primeiro, e foi aquele que foi proibido.» Talvez porque fosse mais "perigoso" que o inócuo CDS... Mas, foi depois proibido? Então o PDC não existiu até há poucos anos? Foi reconstituído após essa proibição?
*******
O PDC foi proibido de participar nas eleições porque ‘estava envolvido’ no 11 de Março, principalmente o então seu Secretário-Geral José Sanches Osório, um dos fundadores do partido, spinolista convicto e porta-voz da Junta de Salvação Nacional.
Esta é a justificação oficial.
Tenho também, o número seguinte da ‘Presença Democrática’, n.º 8, datado de Dezembro de 1975, em que este caso está explicado, negando a ‘tese oficial’.
O curioso deste caso, é que o PDC não foi ilegalizado, como por exemplo o Partido do Progresso - Movimento Federalista Português no pós - 28 de Setembro de 1974, podendo no futuro concorrer a eleições.
Quanto ao MRPP, se bem que na época fosse comprador e leitor do ‘Luta Popular’ (no fundo, o jornal mais anti-PCP da altura…), já não recordo as razões.
Concordo quando escreve que o PDC era mais perigoso que o CDS. Lendo os locais em que se realizavam comícios e comparando as fotografias de comícios na ‘Presença Democrática’ do PDC e na ‘Democracia 74’ do CDS, vê-se a diferença de implantação e mobilização daqueles partidos.
O CDS (embora recusando sempre o epíteto de da Direita) é indiscutivelmente uma ‘criação’ do MFA, que necessitava de uma Direita (polida e cordata) para credibilizar o regime. Recordo que a social-democracia do PPD apresentava no seu programa inicial abundantes laivos de marxismo.
Depois, o PDC continuou o seu caminho. Lembrava apenas uma coligação que fez com o MIRN e a FN, e que no blog ‘Fascismo em Rede’ há uma fotografia com os símbolos dos três partidos unidos.
Sem concorrer a eleições e sem apresentar contas às instituições devidas, diria que o PDC se auto-dissolveu.
Pela qualidade pessoal, política e intelectual dos seus fundadores e dirigentes, o PDC merecia ter tido outra História.
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Post Scriptum - Sem conseguir datar, recordo uma tentativa de assimilação do PDC por parte do CDS.
Sanches Osório sai do PDC em 22 de Junho de 1979 para o CDS.
Terá sido nessa altura?
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O Professor Pardal da política portuguesa


Sexta-feira, Agosto 18, 2006
Digam lá que a política tuga não tem interesse
O Correio da Manhã, na sua edição desta sexta-feira, informa a freguesia de que o prof. Marcelo (o dos mergulhos no Tejo, não o de ontem) terá mais uma vez afirmado no seu interessantíssimo programa televisivo que eu até já vi por duas ou três vezes, que o partido do dr. Monteiro é de extrema-direita. Em resposta, o Manel sentiu-se caluniado e ofendido (talvez fosse até caso para mais!), assinalando toda a sua indignação nos jornais. Já passou a silly season; agora estamos na fase playhouse disney.
publicado por pedro guedes da silva
§
O professor Marcelo Rebelo de Sousa é, de certa forma, o disneyano Professor Pardal.
Ele está a dormir e ‘inventa’ factos políticos’, ele está acordado e ‘cria’ factos políticos.
É um grande ‘criador/inventor’!!!
Hoje em dia vê-se o professor Marcelo na televisão, como se vê o professor José Hermano Saraiva. Acha-se graça às ‘afirmações afirmativas’, às ‘verdades verdadeiras’. Muitos vezes pensa-se ou diz-se carinhosamente em surdina ou em voz alta um ‘olhe que não, olhe que não’, e pouco mais.
A ligeireza com que tratam os acontecimentos políticos e históricos, respectivamente, minimiza as indiscutíveis altas qualidades intelectuais e o conhecimento científico que ambos possuem.
Agora, no caso concreto apresentado por Pedro Guedes no seu hoje aniversariante ‘Último Reduto’, isto é, definir o Partido da Nova Democracia como de extrema-direita, poderá ser uma maneira do professor Marcelo Rebelo de Sousa criar um facto político para que se fale do partido, uma vez que, entre dizer-se mal ou ignorar, é melhor o primeiro caso porque é sempre possível a réplica.
Mas, na cabeça de Marcelo Rebelo de Sousa tudo pode ‘fermentar’!
Mário Casa Nova Martins

Zé Carioca Português/Brasileiro do Mundo


No universo da Disney há uma personagem que ‘fala’português.
Bem, não é português de Portugal, mas sim português do Brasil.
Por arrastamento, Zé Carioca entra em Portugal, sem nunca perder o sotaque brasileiro.
Não é uma personagem das mais famosas.
O papagaio José Carioca (vulgo Zé Carioca) foi criado para o filme ‘Alô, amigos’ de 1942, da Disney.
Era um desenho que mostrava a América do Sul, no qual o Zé fazia de cicerone ao Pato Donald em terras brasileiras.
A personagem foi criado pela Disney, diz-se, para ganhar a simpatia dos brasileiros, já que na época os EUA procuravam aliados para a Segunda Guerra Mundial.
§
Zé Carioca é um papagaio bem-falante. Os quadradinhos retratam-no como o típico malandro carioca, sempre a escapar dos problemas com o 'jeitinho' característico.
Vive na Vila Xurupita, diz-se 'alérgico ao trabalho' e convive com os seguintes personagens:
Nestor - Seu grande amigo. Um urubu, que teme por todos os planos do Zé.
Pedrão - Faz a melhor feijoada do mundo e sempre briga com o Zé porque ele rouba as suas jacas.
Afonsinho - Um tímido pato louco.
Rosinha – A sua namorada. O seu pai é o milionário Rocha Vaz, que odeia o Zé.
Zé Galo – O seu rival, deseja namorar a Rosinha.
ANACOZECA - Associação Nacional dos Cobradores do Zé Carioca. Faz de tudo para conseguir cobrar o malandro.
Zico e Zeca - Os dois sobrinhos ‘pestinhas’ do Zé.
Frequentemente aparecem primos do Zé nas suas histórias, todos partilhando o seu primeiro nome e possuindo características tipo da região de origem:
Zé Paulista - O primo de São Paulo, o seu oposto por ser demasiado trabalhador.
Zé Jandaia - O arretado primo nordestino.
Zé Pampeiro - O primo gaúcho, o verdadeiro macho de facão dos pampas.
Zé Queijinho - O primo mineiro, o caipira da roça que anda sempre acompanhado da sua cabrita Gabriela.
Ele tem ainda uma identidade secreta, o super-herói da vila Morcego Verde (uma paródia do Batman) [mj]

sexta-feira, agosto 18, 2006

Der Fall Grass


Porventura, a esta hora Günter Grass estará (quem sabe se na sua casa algarvia) a festejar a contínua entrada de royalties na sua conta bancária.
É que a primeira edição do ‘Descascando a Cebola’ já esgotou, e outras se esgotarão…
*
Por esse mundo fora, a Esquerda está furibunda!
Quanto à Direita, que continue no Palanque a ‘ver a banda passar'!!!
Por muito que custe à intelectualidade indígena ou estrangeira, a partir de agora todos os livros de Günter Grass terão uma leitura diferente.
O seu anti-nazismo soa a oco. Não passa de pechisbeque. É o ridículo.
Viva Günter Grass!
Mário Casa Nova Martins
Günter Grass (16 de Outubro de 1927, Dantzig)
Durante a Feira do Livro de Frankfurt, em 9 de Outubro de 2004

Memórias de HNO


Em ‘Arrumando o sótão…’, Humberto Nuno de Oliveira recorda hoje no seu ‘Reverentia’ a proibição do PDC concorrer a eleições.
Esse facto político teve lugar nas eleições para a Assembleia Constituinte, em 25 de Abril de 1975.
No rescaldo dos acontecimentos do 11 de Março de 1975, o PDC foi impedido de concorrer às eleições que iriam ter lugar no mês seguinte.
Concorria em coligação com o CDS, a UCDC (União do Centro e Democracia Cristã).
Era uma coligação ‘imposta’ pela então União Europeia das Democracias Cristãs, que ‘obrigava’ os seus membros a coligarem-se no mesmo país.
Por essa altura, PDC e CDS ‘lutavam’ para serem aceites como membros de pleno direito naquela organização europeísta, e não meros observadores.
Convirá lembrar o nascimento destes dois partidos. Enquanto o CDS era fundado com a bênção do MFA, o PDC surge da vontade de gente que estava foram do regime.
E uma das curiosidades deste processo tem a ver com o facto de na época o PDC ter uma maior implantação nacional que o CDS, ter sido reconhecido internacionalmente primeiro, e foi aquele que foi proibido. Quiçá, mais uma particularidade daqueles tempos.
E ficou como a ‘direita possível’, o CDS.
José Sanches Osório, ao tempo Secretário-Geral do PDC, deixou uma memória escrita destes acontecimentos, de que existe tradução portuguesa. [mj]
*

quinta-feira, agosto 17, 2006

Wilhelm Gustloff e Günter Grass

Na gelada noite de 30 de Janeiro de 1945, o submarino soviético S13, comandado por Alexander Marinesko, atingiu com três torpedos o Wilhelm Gustloff, um barco alemão com cerca de 6000 pessoas a bordo, entre as quais 4000 crianças.
Todos eram refugiados de uma guerra e de um País que, à data, estava derrotado.
Somente uma centena, principalmente homens, se salvou deste horrendo naufrágio.
Esta tragédia marítima foi o tema escolhido por Günter Grass para o seu livro ‘In Krebsgang’, traduzido para português por Maria Antonieta Mendonça como ‘A passo de Caranguejo’ e editado pela então Editorial Notícias em Outubro de 2003.
Quando lemos o livro não ‘reconhecemos’ o autor d’ ‘O Tambor’ ou d’ ‘A Ratazana’, apenas se aproximava d’ ‘O Meu Século’.
Agora, através da leitura de elementos jornalísticos conhecidos sobre a sua autobiografia, intitulada 'Beim Häuten der Zwiebel' (Descascando a Cebola), percebemos que o Prémio Nobel da Literatura em 1999 se estava a metamorfosear.
A escolha deste Crime contra a Humanidade cometido às ordens do Comunismo Soviético, para enredo do livro, como que preparava a ‘confissão’ que agora surge. Günter Grass, sentiu a necessidade de justificar uma sua decisão política de juventude, e como que antecedeu esse facto público, escrevendo este livro.
Fraca coisa!
Mário Casa Nova Martins
*
Para conhecer a dramática história do Wilhelm Gustloff, é fundamental a consulta de ‘A Memorial to the Wilhelm Gustloff, by Jason Pipes’, em:
http://www.feldgrau.com/wilhelmgustloff.html
Por sua vez, existe um filme que relata este Crime, e pode ser encontrado em:
Nacht fiel über Gotenhafen

A Passo de Caranguejo

O livro de Günter Grass é de leitura obrigatória para quem quiser conhecer o sofrimento do Povo Alemão durante a Segunda Guerra Mundial.
Este tema ficou a ser tabu durante a existência da Alemanha dividida. Durante a Guerra Fria não convinha hostilizar a URSS, e só depois da queda do Muro é que este e outros ‘crimes dos vencedores’ puderam vir à luz do dia.
De referir as excelentes ‘Notas da Tradutora’.
Mário Casa Nova Martins

quarta-feira, agosto 16, 2006

A Direita e as Direitas

( Capa: Marcello de Moraes)

No segundo número da revista ‘Futuro Presente’, ‘Setembro - Outubro - 1980’, vem um importante texto de João Bigotte Chorão sobre Giuseppe Prezzolini, intitulado ‘Um Italiano Útil’. Depois, está uma entrevista feita por Cláudio Quarantotto a Prezzolini, cuja primeira pergunta é:
Quarantotto - Tendo contestado todas as definições de Direita dadas por outros, só te resta dizer a tua. O que é a Direita?
Prezzolini - É o conjunto das Direitas, das que recordámos e das que esquecemos.

Giuseppe Prezzolini (1882-1982)

*

Não há ‘uma’ Direita, mas sim várias Direitas.
Esse facto, ao contrário de ser reducionista, faz da Direita uma comunidade de pensamento plural.
As Direitas, por mais antagónicas que se julgem ser, conhecem o que as une, embora, à primeira vista, pareçam sempre desunidas.
A blogosfera é, será, o exemplo mais recente da multiplicidade das Direitas, que se guerreiam verbalmente, mas que têm, quando é preciso decidir-escolher, o sentido da responsabilidade, que se traduz na perfeita identificação do amigo-inimigo, segundo Carl Schmitt.
O texto que Manuel Azinhal publicou no seu blog ‘O sexo dos anjos’ em 25 de Julho passado, e que, com a devida vénia, reproduzimos no post anterior, vem no seguimento do que acabámos de afirmar.
O Autor começa pela afirmação negativa, o que não é, e termina pela afirmação positiva, o que é.
A sua escrita revela um grito de angústia perante a realidade daquela Direita que se ‘vende por um prato de lentilhas’, e que será maioritária.
A Direita dos Valores, que se opõe à Direita dos Interesses é, e será sempre, minoritária.
Manuel Azinhal pertence à primeira. Mas não está, estará, tão sozinho como pensa.
Não é fácil assistir ao ‘espectáculo’, daí a ‘escrita de raiva’ com que começa, bem diferente daquela com que termina, em que faz a apologia de uma Direita Pura.
Lemo-lo, relemo-lo e tornámos a lê-lo. Ao transcrevê-lo propositadamente agora, num nosso período intermédio de férias, queremos com isso mostrar a simultaneidade da crueza e beleza de um texto, importante e sempre actual, com o qual nos identificamos na sua plenitude. [mj]

Explicação breve

The Scream (The Cry) - 1893
Edvard Munch (1863 - 1944)

Terça-feira, 25 de Julho de 2006

Explicação breve

Das esquerdas não gosto, que me repugnam com a sua paixão mesquinha pelo sonho cinzento da igualdade, a sua compulsão crónica contra tudo o que se eleva, o refocilar permanente na inveja e no ressentimento.
Com as direitas tenho as maiores dificuldades.
Se aceitar o rótulo será certamente por uma direita outra, nacional e popular, moderna e tradicionalista, justicialista e identitária.
Não tenho paciência para a direita roncante, bem representada na conversa de taxista, a do todos mortos, fritos e esfolados.
Fui sempre alérgico à direita catita, a do ar condicionado, sempre atenta serventuária de todos os poderes, eterna embevecida por pastas e postos.
Aquela direita que se diz extrema só por ladrar mais grosso que as outras também não marchará ao meu lado.
A mera reacção nunca me atraiu, e a função de gladiador da burguesia também não.
Nada me une aos que medem o seu patriotismo pela sua propriedade, os que acham que tudo é negociável desde que se salvem as pratas, os que sentem que qualquer ordem é melhor do que a revolta, e não concebem o mundo sem um polícia à porta.
Com adoradores do sol, que caem de cu e se babam de gozo extasiados perante a exibição da força bruta, também não me sento à mesa. Os melhores dos nossos disseram que amavam a justiça que reina pela força. Mas era a Justiça o objecto que amavam, a força era só o instrumento para a servir.
Não, mil vezes não. Um homem pode viver só, não pode é viver sem alma.
Perguntarão o que me resta.
Resto eu, e aqueles todos, muitos ou poucos, daquela direita rebelde e insubmissa que preza mais os seus mártires que os seus ministros.
Aquela direita de homens livres, sempre desconfiada do poder, de todos os poderes. Daqueles homens altivos que são difíceis e frequentemente desalinhados, porque lhes custa acreditar, mas podem responder orgulhosamente que gato escaldado é céptico com todo o direito.
Manuel Azinhal
‘O Sexo dos Anjos’

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