\ A VOZ PORTALEGRENSE

segunda-feira, junho 21, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho

O Congo foi, para os alunos do Secundário no meu tempo, uma matéria de estudo, embora sumário. Hoje, creio, até já nem será bem assim, talvez para pior ainda. Por isso, parece conveniente conhecer, ou recordar, algo de essencial sobre o tema.
A designação genérica de Congo refere uma vasta região no centro da África, dominada pelo grande rio navegável, com este nome, e ocupada desde a Antiguidade por tribos Bantos da África Oriental e por povos do rio Nilo, que ali fundaram os reinos de Baluba e do Congo.
Os navegadores portugueses chegaram ao Congo em 1484 e, poucos anos depois, o rei da região ter-se-á convertido ao catolicismo, que já tinha penetrado na Etiópia séculos antes. Em 1575, os portugueses invadiram Angola e transformaram esta região do Congo numa colónia. Entretanto, outros povos europeus foram ocupando mais territórios nesta zona.
É o caso do explorador inglês Henry Stanley que, em 1878, estabeleceu entrepostos comerciais no rio Congo, sob as ordens do rei dos belgas, Leopoldo II. Em 1885, na Conferência de Berlim, que dividiu a África pelas potências europeias, Leopoldo II recebeu o território como possessão pessoal, sob pretexto de civilizar os seus povos.
Em 1908, o chamado Estado Livre do Congo deixou de ser propriedade pessoal da Coroa e tornou-se oficialmente uma colónia da Bélgica, sob a designação de Congo Belga.
O que na realidade aconteceu durante o longo domínio pessoal de Leopoldo II sobre o Estado Livre do Congo rivaliza com os mais abjectos relatos da brutalidade humana. Sob uma hipócrita fachada filantrópica, foi ali estabelecido um regime de terror destinado à mais desenfreada exploração económica, sobretudo nos domínios da borracha selvagem e do marfim. Cada agente de Leopoldo tornou-se um tirano, com absolutos direitos de vida e de morte sobre os naturais congoleses, usando o trabalho escravo, a violação, a tortura e o próprio extermínio em massa.
Atrocidades quase indescritíveis reduziram a população do Congo, em apenas quatro décadas, de 20 para 10 milhões de habitantes...
Alguns historiadores colocam Leopoldo II a par de Hitler no rol dos maiores monstros da Humanidade, estabelecendo no entanto uma profunda diferença entre ambos: o estilo propagandístico do segundo versus a notável discrição do primeiro.
Porém, num Guiness da bestialidade humana, Leopoldo levaria a palma: 10 milhões de congoleses negros massacrados contra “apenas” 6 milhões de judeus (quase todos) brancos dizimados...
O Mundo, incluindo a Bélgica, viveram por demasiado tempo no “inocente” desconhecimento da barbárie que se vivia no Congo. Esta é, também, uma atenuante para Hergé.
Sob a sua máscara filantrópica, uma das proezas culturais de Leopoldo II foi a criação, em 1898, do Museu Real da África Central, precisamente a fonte principal de inspiração para a obra de Hergé em apreço.
O restante da história recente do Congo é mais conhecida.
Os seus movimentos nacionalistas iniciam-se em finais da década de 50, sob a liderança de Patrice Lumumba, opondo-se às tendências separatistas de rica região do Katanga.
Em Junho de 1960, o Congo conquista a independência com o nome de República do Congo. Lumumba, partidário da União Soviética, assume o cargo de primeiro-ministro do jovem país.
A maioria dos colonos europeus deixa em sobressalto o país e, pouco depois, eclode uma rebelião separatista comandada por Moisés Tshombé, que reivindica a região de Katanga. Lumumba acaba por ser assassinado em Janeiro de 1961, diz-se que devido à secreta participação do governo belga.
A ONU envia tropas para o Congo para conter aí as lutas separatistas. Quando os “capacetes azuis” se retiram, Tshombé torna-se primeiro-ministro mas renunciará pouco depois, em 1965.
Mobutu Désiré torna-se ditador, apoiado pelas multinacionais que operam no território. Durante a longa ditadura de Mobutu, na década de 70, o nome do país muda para Zaire e a sua capital (ex-Leopoldville) designar-se-á doravante Kinshasa.
Em 1994, mais de um milhão de refugiados ruandeses invadem o leste do Zaire e estabelece-se aí uma rebelião que leva Laurent Kabila ao poder. Foi em Maio de 1997, quando os rebeldes entram em Kinshasa, forçando a fuga e o exílio do ditador Mobutu.
Kabila adopta para o país a designação de República Democrática do Congo, suspende os partidos políticos e proibe manifestações. Novas amotinações geram então uma autêntica guerra civil, com todo o horror que esta comporta. O acordo de Lusaka, em Agosto de 1999, nada resolve e a ONU vê-se forçada a intervir, uma vez mais.
Em 2001, Laurent Kabila foi assassinado, sucedendo-lhe um seu filho, Joseph Kabila. Este esforça-se por conseguir a paz interna mas, após algum ligeiro interregno, o conflito regressa com maior intensidade em 2004.
As eleições de 2006, em que Kabila triunfou e procurou um entendimento com os oposicionistas, não resolveram o problema, ainda latente.
O que é hoje a República Democrática do Congo? Um país rico de recursos disputados por multinacionais, paraíso dos “senhores da guerra”, palco do abominável contrabando de armas, onde muitas crianças aprendem mais depressa a manejar uma arma do que a dominar os segredos da alfabetização.
Para muitos observadores imparciais, o Congo tornou-se a crise mais esquecida do Mundo. A sua interminável guerra civil é objecto das mais díspares interpretações, onde a verdade costuma ser censurada, manipulada ou escondida.
Onde é que já ouvimos isto?
Ao que relatam algumas fontes insuspeitas, contabilizam-se no Congo 10 milhões de mortos. Não, não se trata outra vez dessa macabra estatística dos tempos de Leopoldo II; este massacre é novo e conta, “apenas”, desde 1996...
António Martinó de Azevedo Coutinho
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Os dois clips de vídeo seguintes são bem demonstrativos da situação do Congo nos tempos coloniais e na actualidade.
O primeiro, com a chancela da BBC, é um excerto da série dedicada ao Racismo. Legendada em Português, recria de forma brutal as crueldades exercidas sobre a população negra e, depois, faz uma interessante análise ao Museu de Tervuren, precisamente aquele onde Hergé se documentou mais abundantemente.
O segundo, não legendado, é constituído pelo trailer de um documentário recente (2008) da autoria do cineasta Dan Balluff, intitulado Crianças do Congo: da Guerra às Bruxas. Revela sobretudo um pouco da drama dos refugiados e sobretudo a vida das crianças, as vítimas mais indefesas dos actuais conflitos internos, apesar dos esforços quase sobre-humanos das Organizações não Governamentais.
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segunda-feira, novembro 08, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho

Já foi abordada a posição oficiosa da Sociedade Moulinsart a propósito do presente caso judicial.
Já antes do início deste, em 2007, a página patente na Web -(tintin.com, um excelente site, diga-se!- ostentava alguma curiosa informação sobre o tema Tintin no Congo. Entre a diversa documentação aí disponível encontra-se uma colecção de cadernos de viagem dedicados a alguns dos locais míticos que foram cenário das aventuras do herói. Assim, podemos saber que parte dos dossiers temáticos publicados se relaciona com o Médio Oriente, o Peru, o Tibete, a China, os Estados Unidos da América, a América do Sul e, precisamente, o Congo.
A página permite mesmo um acesso virtual às páginas da cada um destes pequenos, bem elaborados e densos álbuns.
De forma interactiva podemos folhear o dedicado ao Congo, dotado de 96 páginas em língua francesa, abundantemente ilustradas e contendo explicitamente um prévio “convite para descobrir o Congo de hoje e o de ontem, para abordar os temas da colonização e a visão de um mundo e de uma civilização muito diferentes dos nossos... sobretudo em 1930.” Enfim, um conteúdo aliciante que, de certo modo, corresponde a estes objectivos.
O sumário é composto por diversos capítulos: A Saber; Paisagens & Geografia; História; Nos vestígios de Tintin no Congo; Galeria de Fotos.
A Saber corresponde a uma breve introdução à actual República Democrática do Congo, nos seus aspectos sumários como país, superfície, população, etnias, língua, etc. Em Paisagens & Geografia dispomos duma apresentação genérica dos aspectos gerais, a costa, a orografia, e a hidrografia, com especial menção ao lago Tanganica e, sobretudo, ao rio Congo.

História é o primeiro capítulo com algum desenvolvimento, onde surge menção ao nosso navegador Diogo Cão que em 1485 atingiu o rio Zaire (ou Congo), sendo dos primeiros europeus em África digno dessa menção. David Livingstone, um missionário, merece também citação especial. Um mundo muito diferente do nosso - eis o subtítulo que nos introduz no contexto congolês de 1930, quando o imenso e rico território era uma colónia belga. A partilha de África por esses tempos, onde Portugal é também citado, constitui outra informação aqui incluída.
Segue-se uma abordagem, ligeira, às Origens do Colonialismo, da antiga Roma aos conquistadores espanhóis. O caso de Gibraltar é aqui referido, talvez um pouco a despropósito...
Em Retratos do Colonialismo relata-se sumariamente o drama da escravatura e o seu final. A reprodução de uma página com publicidade “colonial” a uma cadeia belga de grandes armazéns (Au Bon Marché) surge aqui, como ilustração.
O que se sabia do Congo, em 1930 - é a proposta seguinte, onde surgem naturais referências a Livingstone (novamente), a Gordon Bennet e a Stanley (o mítico boula matari). E atingimos, no relato, um ponto culminante -O Congo de Leopoldo II-, com lógicas alusões à Conferência de Berlim e, sobretudo, aos abusos e atrocidades cometidos na época... Ainda assim, a descrição parece-me algo “branqueada”.
Significativamente, o subcapítulo seguinte intitula-se Uma Fortuna que se chama Congo, incluindo-se a borracha, o marfim, o algodão, o cacau e o café, mais o óleo de palma. No domínio mineiro, contam-se cobre, diamantes, zinco, prata, platina, cobalto, manganés e chumbo. Como nota saliente, embora com expressão apenas a partir de 1940, está o urânio do Katanga, que permitiu aos Estados Unidos produzir as suas primeiras bombas atómicas...
Assim termina a parte descritiva, genérica, que aborda o “cenário” da aventura. Segue-se a abordagem propriamente dita a esta, sob a designação Nos vestígios de Tintin no Congo.
Em marcha com Tintin! evoca o embarque do herói em Anvers, no Thysville. Segue-se A Aventura começa no mar, onde podemos conhecer o paquete, antecedendo Com Tintin, a bordo do Thysville, Uma longa viagem pelo mar, A Cidade flutuante, até Tintin chega ao Congo. Os conteúdos de cada uma destas partes descritivas subentendem-se facilmente, apenas devendo destacar-se a riqueza e a variedade da original ilustração alusiva.
A Informação, versão congolesa 1930 constitui oportuna abordagem a um sector fundamental na época, onde encontramos uma rádio balbuciante e uma imprensa embrionária. Como nota mais significativa, registe-se a inclusão, local, do tam-tam.
Depois, Na Estrada, com Tintin refere a saga do Ford T, o “excelente modelo transariano”, assim descrito pelo vendedor.
Animais desconhecidos e As duas Paisagens congolesas (savana e floresta) são os naturais desenvolvimentos seguintes, onde o rio Congo e os seus afluentes dispõem de justa referência. Depois, vêm as Imagens da Colonização Belga, introduzidas por um significativo parágrafo: “O Congo que Tintin descobre está cheio de paternalismo, de humanidade e de espírito comercial.” Está aqui quase tudo...
Depois, o percurso do herói continua: Tintin na Escola, Os Homens-leopardo... e a Feitiçaria (com alusão ao animismo), O Crepúsculo, Um Périplo no Caminho-de-Ferro, O Preço do Comboio (a lembrança, cruel, dos milhares de mortos em seu nome sacrificados!) até ao Adeus ao Congo. Aqui, registe-se uma curiosidade: o voo de Tintin entre o Congo e a Bélgica (de 11 de Junho, quando se conclui a história, a 9 de Julho, quando “chega” a Bruxelas) significaria, ao tempo, uma marca para o Guiness - menos de um mês para percorrer 8.125 quilómetros!
Finalmente, a Galeria de Fotografias, muito bem recheada por imagens na maioria inéditas: os Aniotas, a escola, as liteiras, anúncios e capas da revista, decalcomanias alusivas (editadas em 1954, quando ainda não havia autocolantes), avisos na imprensa da época, o feiticeiro, soldados congoleses, o gramofone, uma histórica foto de arquivo com Hergé e o seu amigo (e discípulo) congolês Barly Baruti, etc.
E assim termina o interessante caderno de viagem dedicado ao Congo, sobretudo o do tempo da publicação original da história de Tintin “vivida” naquelas distantes paragens. Este seu mérito é, simultaneamente, o seu defeito essencial: o de se limitar a uma espécie de explicação ou justificação do antigo contexto, quase nada contribuindo para esclarecer, ou antecipar, as actuais e duras críticas.
António Martinó de Azevedo Coutinho

segunda-feira, junho 28, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho

Após a breve e dramática reflexão anterior, a proposta de um regresso à ficção aliviará, pelo menos um pouco, as nossas consciências...
Voltemos, pois, a Tintin au Congo e, a propósito, tentemos penetrar um pouco na própria consciência de Hergé.
Os tempos de construção desta história são vividos pela Europa colonialista (sobretudo pela França, Bélgica, Portugal, Inglaterra e também pela Alemanha, Itália e Holanda, menos pela Espanha) como um período de certo apogeu, confirmado pela Exposição Colonial de Paris, em 1931. Nunca deveremos perder de vista este quase atmosférico contexto.
Depois, explorando o êxito da anterior encenação, o padre Wallez vai agora repeti-la, fazendo regressar Tintin e Milou do Congo, no dia 9 de Julho de 1931, às 16h50, na mesma Gare du Nord. O “intérprete” do jovem jornalista é que será outro, já que o anterior tinha crescido demasiado...
Depois, acontece a seguir uma conjugação de factos determinantes para o futuro de Hergé: o convite profissional de uma importante editora, a Casterman, em Abril de 1932, e a saída do padre Wallez do Vingtième Siècle, em Agosto de 1933, na sequência de um pequeno escândalo político-social que o envolvera.
Por tudo isto, nos inícios de 1934, Georges Remi abre oficialmente o Atelier Hergé, sociedade autónoma de produção criativa. Porém, as aventuras de Tintin continuarão a ser publicadas, ainda, no Petit Vingtième. Nesse ano de 1934, Georges Remi ganha uma progressiva consciência das estereotipias, do maniqueísmo e dos preconceitos que tinham informado as suas obras iniciais, sobretudo as passadas na Rússia e no Congo. Isso acontece a partir do momento em que é anunciada a partida de Tintin para o Extremo Oriente, mais concretamente para a China. Alertado por amigos, fazendo depois uma amizade que vai durar até à morte com um jovem chinês, estudante de Belas-Artes em Bruxelas, ele vai crescer interiormente.
À consciência do valor de uma rigorosa recolha de documentação teórica, Hergé vai agora juntar, convictamente, a importância dos testemunhos práticos. E nunca mais repetirá alguns erros primários, a partir dessa fase onde o humanismo reflectido vai ocupar o lugar da pura improvisação.
E Georges Remi seguirá a sua vida, particularmente intensa nos aspectos sentimental, cívico, político e profissional. Quanto aos trabalhos pioneiros, há notícia relativa à segunda metade dos anos 40, quando inicia uma meticulosa obra de recuperação e modernização dos seus conteúdos, já liderando uma brilhante equipa de criativos. Não se atreve a tocar na aventura russa, de há muito esgotada, e, quanto ao Tintin au Congo, podemos assinalar três tipos de intervenção: a sintetização da narrativa das 110 originais para as 62 páginas, já “clássicas”, dos modernos álbuns; a aplicação do colorido, em tons pastel, que tão bem complementou o estilo da “linha clara”; a “redução” ou “abolição” dos traços mais primários e mais evidentes de racismo, de paternalismo e de colonialismo.
E, tanto quanto parece, este “retocado” trabalho vai atravessar, sem notórios acidentes de percurso, toda a década de cinquenta.
É no início dos anos 60 que, em pleno surto dos movimentos coloniais independentistas, se vai despoletar a até hoje imparável onda de críticas sobre Tintin au Congo. Talvez que alguns “fantasmas” ou recalcamentos escondidos e sufocados durante décadas tenham subitamente despertado da sua prolongada hibernação...
O pontapé de saída foi dado no jornal Le Canard Enchaîné, no seu número de 12 de Janeiro de 1960, onde se incita os pais a desconfiarem de Tintin, “herói para quem os Brancos são todos brancos e os Pretos, todos pretos. Se os vossos filhos devem ser sensatos com as imagens, evitem que estas sejam do desenhador Hergé.
Na revista Jeune Afrique, a 3 de Janeiro de 1962, Gabrielle Rolin vai considerar, com alguma má-fé, todos os álbuns de Tintin como irremediavelmente reaccionários!
Por estas alturas, a Casterman, prudentemente, não se atreve a reeditar Tintin au Congo, o álbum mais atacado e desde há muito esgotado. Hergé, convicto de que a “limpeza étnica” a que sujeitara a obra há anos tinha eliminado grande parte dos seus veniais e juvenis “pecadilhos”, bem vai insistindo, em vão, na desejada reedição.
O destino revela-se, por vezes, em inesperadas ironias. A revista congolesa Zaïre, no seu número de 29 de Dezembro de 1969, inicia a publicação integral de Tintin au Congo, a história “maldita”. Numa curiosa introdução, o articulista escreve: “Tintin au Congo foi, para várias gerações de crianças belgas, o primeiro contacto com este fabuloso país de que ouviram falar: o Congo. (...) O Congo descoberto por Tintin é decerto o Congo dos pais e até mesmo, se virmos melhor, o dos avós. (...) O Congo de Tintin é sobretudo uma espécie de paraíso terrestre reencontrado pelo homem branco que, há trinta anos como hoje, procura o éden onde poderá, por fim, desfrutar a felicidade de uma humanidade fraternal. Esta humanidade fraternal, para Hergé (e para milhares de leitores cujo sonho ele exprime), é a dos congoleses. A humanidade fraternal é obviamente povoada de gente simples. E esta gente simples, visto que são negros, tem como é natural as caras achatadas e, se falam, falam como é óbvio à preto; este palrar que aqueles que nunca viram África a não ser em sonhos e os povos oriundos de África a não ser em clichés obsoletos da Cabana do Pai Tomás atribuem aos filhos dos homens com pele negra. (...) Há uma coisa que os brancos que interromperam a circulação de Tintin au Congo não perceberam. E isso é: se algumas imagens caricaturais do povo congolês dadas por Tintin au Congo fazem sorrir os brancos, elas fazem francamente rir os congoleses, porque os congoleses encontram nelas pretexto para se rirem do homem branco que os via desta forma!
Resultado quase imediato, após dois anos de ausência: em Maio de 1970, o álbum Tintin au Congo foi colocado de novo à venda na Bélgica e na França...
António Martinó de Azevedo Coutinho
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Mais um clip de vídeo complementa o presente capítulo. Consiste num curto excerto de outro documentário -Moi, Tintin- este rodado em 1976, sob a direcção conjunta de Henri Roanne e Gérard Valet. Mostra, uma vez mais, o vulgar colonialismo quotidiano vivido na Bélgica nos tempos da criação de Tintin no Congo.

Moi, Tintin:
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segunda-feira, setembro 06, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho

Outro dos testemunhos com grande significado, contrariando as teses do senhor Bienvenu, chega-nos também do próprio Congo. É pela pena de Alain Mabanckou, jovem e premiado escritor congolês (natural de Pointe Noire), que o seu novo “blog” -Black Bazar- nos traz uma abalizada opinião, pessoal em entrevista conduzida pelo jornalista David Caviglioli, do Nouvel Observateur. Daí retiramos algumas breves passagens:
Li os Tintin durante a minha infância, no Congo. Nessa época não dispunha de recuo para compreender a face escondida das coisas. Ficava divertido, seduzido como a maior parte dos gaiatos da minha idade.” (...)
“É claro que em Tintin no Congo as representações do Preto -não diria do Negro- têm uma conotação paternalista, racista e colonialista. O álbum apareceu em 1931 e sofreu arranjos posteriores. Hergé percebeu todas as críticas formuladas contra essa obra.” (...)
Não, não sou partidário da interdição desta banda desenhada. Ela deve ficar como um sinal do espírito belga dos anos trinta. É uma das provas históricas de uma certa forma de pensar ocidental – mas não de todo o pensamento ocidental! A polémica que rodeia esta obra arrisca-se a roçar o ridículo, por força de apenas ler as coisas sob um ángulo africanista e fundamentalista. Não foi a partir de Tintin no Congo que o pensamento do Branco sobre o Negro se formou. Quando Tintin chegou ao Congo, a ideologia racista e colonialista acerca do Negro estava já bem estabelecida.”
Pierre Assouline é um prestigiado jornalista e historiador francês, nascido em Casablanca, que entre muitas outras obras é autor de uma notável biografia de Hergé.
Sobre o tema em apreço, Pierre Assouline recusa falar em censura e também não é favorável à inserção de uma nota explicativa do editor, como apresentação do álbum. Isso constituiria uma falha de pensamento, uma abdicação, um autêntico recuo. Seria necessário proceder assim, afinal, para com todas as bandas desenhadas da época. Ele acredita que em França se estará ao abrigo de medidas do género e acredita que a censura estabelecida nos Estados Unidos (o caso da biblioteca de Brooklin) apenas aconteceu devido ao facto de Tintin não dispor aí do mesmo apreço e popularidade de que desfruta na Europa. No entanto, conclui, as coisas poderão evoluir rapidamente nos EUA depois do anunciado filme de Steven Spielberg sobre Tintin.
Um nome de prestígio no universo da BD europeia é Alain De Kuyssche, belga, antigo redactor-chefe da revista Spirou e argumentista de Jacques Martin. Hoje dirige uma empresa especializada em comunicação, consultora da Moulinsart.
Em relação ao actual pleito, ele acha “estranho que se faça muito menos caso da denúncia das práticas esclavagistas, a Este de África, no álbum Coke en Stock (Carvão no Porão).” (...) “Querer proibir um livro, um álbum de BD ou uma qualquer obra, vinte, cinquenta, cem anos, mil anos depois, com o pretexto de que tal obra não está conforme com a nossa época moderna, com o nosso sistema de pensamento ou com o politicamente correcto ambiente, isso faz-me pensar perigosamente na obra de Orwell, 1984, onde o Big Brother modifica o passado –não se dirá mais..., dir-se-á...” (...) “É particularmente estúpido, com o pretexto que vejo em 2009 num país democrático, que se deva apagar milénios de história da humanidade, sob a desculpa de que uma obra vista pelas nossas lunetas do século XXI é considerada como racista ou não-conforme. Proponho, por que não?, autos- de-fé para as obras de Balzac, porque este homem considerava que a forma do crânio era sinónimo da inteligência duma pessoa. Ele fez menção disto em quase todas as suas obras; por consequência ele pensava, tal como os seus contemporâneos depois dos estudos científicos da época (sec. XIX), que os Africanos eram intelectualmente inferiores aos Asiáticos e aos Europeus.” (...)
Tintin no Congo é pois uma simples fotografia de um período da história; interditá-lo seria de uma aflitiva estupidez, porque ele ensina, tal como os arquivos do INA (Instituto Nacional do Audiovisual) , o que foi o período colonial para os Europeus dos anos 30.”
A popular revista belga Télémoustique, no seu número 4526, de 25 de Agosto de 2007, dedicou a capa e um dossier a Tintin no Congo. Curiosamente, o semanário foi no passado dirigido por Alain De Kuyssche. Acontece que, perante o conteúdo divulgado, um conhecido historiador, politólogo e professor na Universidade Livre de Bruxelas, Joël Kotek, escreveu um artigo, Tintin au Congo: la crispation des Belges, que fez depois publicar. Entre outros argumentos, já conhecidos, o autor diz:
Se não partilho em nada a proposta do senhor Mbutu Mondondo de censurar o álbum (isto seria ao mesmo tempo absurdo e irrealista: como pensar em proibir uma ficção literária?), devo confessar que a entendo. Ela testemunha a crescente frustração dos jovens de origem congolesa, como aliás os de Ruanda e Burundi, face ao branqueamento da história colonial belga. Os tempos coloniais belgas são ainda os do silêncio.” (...) “Tintin no Congo é provavelmente um dos melhores testemunhos da mentalidade colonial. Em vez de o proibir, deve-se, pelo contrário, usá-lo como um instrumento de ensino.” (...) “Este novo caso Tintin é positivo na medida em que foi possível abrir um debate, ainda que tímido e parcial, mas que tem o mérito de existir. Este tipo de debates devia permitir a eventual cura das feridas memoriais de que sofrem os povos colonizados pela Bélgicas dos meus papás, sobretudo se for seguida, não de um mero acto de arrependimento, mas do reconhecimento oficial dos danos morais e materiais causados pela experiência colonial belga. Uma reparação simbólica é necessária. Nenhum país pode livrar-se do seu próprio passado.”
Na realidade, um outro debate foi aberto recentemente a propósito, aproveitando as modas informáticas. Referimo-nos a um espaço aberto no Facebook, intitulado J’aime Tintin au Congo... et alors?
Dispondo de mais de dois milhares de membros, no momento, o grupo é dinamizado por jovens partidários do visconde Philippe Le Jolis de Villiers de Saintignon, mais conhecido como Philippe de Villiers, um político francês, deputado europeu, nacionalista, criador do Movimento para a França.
Os fundamentos patentes no “site” são reveladores da disposição dos seus membros directores, militantes do movimento Jovens pela França, que apoia Philippe de Viliiers:
Dois anos após uma queixa por racismo e xenofobia, na Bélgica, um processo equivalente deve ser apresentado na França contra o álbum Tintin no Congo, como atesta o advogado Claude Njakany, a quem foi entregue o dossier. (...) O assunto teve origem quando um tal Bienvenu Mbutu Mondondo, um contabilista de 41 anos, de origem congolesa, apresentou queixa por racismo e xenofobia contra a obra de Hergé.
É preciso saber que em bibliotecas americanas e inglesas o álbum foi reservado ao público adulto. Em suma, estamos em pleno delírio ideológico. Para quando a proibição de:
• Montesquieu, pelas Cartas Persas?
• Daniel Defoe, por Robinson Crosue?
• Jules Verne, pelo conjunto da sua obra ?”
Philippe de Villiers já participou, com uma mensagem pessoal, em J’aime Tintin au Congo... et alors? Daí se transcreve uma breve e esclarecedora passagem:
“(...) Ele (Bienvenu) faria melhor concentrando a sua energia na luta contra a circuncisão feminina no seu próprio país... e que agora é um oportuno pretexto para pedir asilo político na Europa. A Europa é muito criticada por todos os africanos, mas não basta sonhar com uma coisa... para participar nela. Olhe-se para o que está acontecendo no Congo... ou no Senegal, onde se organizam canais de emigração ilegal para a Europa.”
No dia 16 de Fevereiro de 2010, o senhor Bienvenu enviou a Alberto II, rei dos Belgas, um apelo escrito, onde lhe “explicou” as suas opiniões contra Tintin no Congo, a propósito da visita oficial do monarca a este país durante as comemorações dos 50 anos da sua independência. E terminou a sua carta, desejando que não lhe ofereçam um quadro, como é costume fazer em Kinshasa em relação a cada personalidade belga que chega ao Congo, sobre o qual seria provavelmente inscrito o título “Alberto II no Congo”, em referência ao álbum “Tintin no Congo”. E o senhor Bienvenu garantiu aí ao soberano que tal não seria do gosto dos congoleses que, como ele, tudo fazem para que a adaga “antes da colonização igual a depois da colonização” seja apagada das suas memórias...
O destino revelou-se particularmente cruel para com o senhor Bienvenu. Os meios de comunicação social difundiram pelo mundo as imagens da oferta ao enviado especial do rei, o ministro belga da Defesa, Pieter De Krem, logo durante as negociações prévias da visita, de um belo quadro com a réplica da capa do “álbum maldito” e a temida inscrição: “Albert II au Congo”...
Tenho a certeza de que na face do senhor Bienvenu se vislumbrou um largo sorriso... amarelo!
Sem qualquer intenção de piada racista, entenda-se.
António Martinó de Azevedo Coutinho

segunda-feira, outubro 25, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho

Tintin no Congo - eis uma proposta interessante, a de tentar saber, pelos indícios possíveis, como Tintin é interpretado no Congo, antes e depois da presente polémica.
Conhecemos, como dado muito significativo, o facto de num momento delicado ter sido precisamente na República Democrática do Congo que despertou um inequívoco sinal de tolerância -inteligente, culto e descomplexado- apto a resolver o receoso impasse que a casa editora europeia entretanto alimentara quanto ao relançamento do álbum há muito esgotado. Convém realçar o acontecimento, pela sábia tomada de posição de Clément Vidibio, um considerado jornalista congolês infelizmente já desaparecido, na revista Zaïre, quando em 1969 foi aí decidido publicar a “BD maldita”. Para além do que atrás já ficou transcrito, é oportuno recordar a propósito outras palavras de C. Vidibio: “Os homens bons são sobretudo congoleses e Tintin, o generoso, luta contra o mal encarnado por um mau Branco.” (...) “Seria injusto separar o Congo deste jovem herói cuja ternura pelo nosso país não é preciso demonstrar.”
Um testemunho autorizado, pelo conhecimento privilegiado que possui, é o do desenhador Barly Baruti, provavelmente o mais conhecido e apreciado criador congolês de BD da actualidade. Nome destacado na escola nacional da sua especialidade, ele viveu a rara oportunidade de estagiar em Bruxelas no atelier de Hergé, no princípio dos anos 80, para aí apreender os segredos do estilo “linha clara”. Ele declarou muito recentemente: “Hoje, este álbum pode chocar, é verdade. Mas Tintin no Congo não foi concebido para lançar as pessoas umas contra as outras. Fiz um estágio nos Estúdios Hergé no princípio dos anos 1980. Pude aí consultar a documentação que o autor utilizou; revistas e livros que louvavam os méritos da Bélgica colonial. É preciso recordar que este álbum é uma página da história comum da Bélgica e do Congo. É neste sentido que devemos lê-lo e compreender o seu sentido crítico. Tintin no Congo exige lucidez. Convida o leitor a compreender as coisas em relação àquele período. Não é um livro colonialista. É um livro paternalista, porque o paternalismo estava no espírito desses tempos. Não há motivos para o queimar!”
O desenhador congolês quis mesmo comentar uma recente visita efectuada por Alberto II da Bélgica à República Democrática do Congo, em Julho de 2010, a quando das comemorações dos 50 Anos da Independência deste país. E disse a tal pretexto: “Existem muitos encontros frustrados entre a Bélgica e o Congo no plano histórico. Isso faz com que as pessoas se interessem por tudo o que nos liga, como é o caso de Tintin no Congo. Neste contexto, ele é um símbolo comum ao qual tanto os Belgas como os Congoleses podem recorrer.”
Palavras serenas e simples que definem o fenómeno, sem paixão nem complexos, antes com um realismo que parece faltar a outros conterrâneos do desenhador...
Uma visita ao Congo, ainda que apenas virtual, pode revelar-nos ostensivas demonstrações públicas do apreço de que, em termos populares, a figura de Tintin continua a gozar.
Bastam-nos dois distintos mas complementares exemplos. Um consiste nas imagens do herói pintadas em murais ou representadas em efígie, tanto em paredes como em jardins.
Nos restos de um antigo comboio turístico, como na fachada de um bar, na parede de um parque infantil como num cuidado relvado, numa ilustração pintada a acrílico como na inscrição publicitária pública relativa a uma companhia petrolífera (esta patente na vizinha Angola, atenção!), aqui ficam evidentes alguns pormenores da inegável presença de um herói querido, na memória colectiva dos que o não esqueceram.
O outro exemplo, mais pragmático, conduz-nos a um capítulo com real significado económico, na área do artesanato congolês. Para além das peças clássicas, de grande qualidade estética radicada numa tradição secular, algumas oficinas de artesanato, em Kinshasa e noutras cidades congolesas, produzem efígies de Tintin, na sua maior parte inspiradas no álbum em apreço. O Ford T e o cadeirão de baloiço, com o herói neles sentado, são os temas mais frequentes. O testemunho dos próprios artesãos é inequívoco sobre o interesse despertado por este específico sector da produção local, com grande procura por parte dos turistas, sobretudo dos belgas e outros europeus. Como Baruti sintetizou, com rara oportunidade, Tintin continua e continuará como um comum símbolo de unidade, sem qualquer vocação para divisionismos...
É possível encontrar esta simbologia comum também sob a chancela oficial. Neste campo, o mais significativo evento consistiu numa emissão conjunta de selos, validando pela filatelia um entendimento do mais alto nível entre a Bélgica e a República Democrática do Congo.
Em 2001, numa emissão conjunta dos dois países, impressa em Malines, foi lançada uma série de selos comemorativa dos 70 anos da aparição do álbum Tintin no Congo. Os selos, com dois motivos e dois valores, são:
• Capa do álbum – com taxas de 0,84 do euro na Bélgica e de 461 francos congoleses na R.D.C.;
• Tintin colonial (reprodução parcial de um extra-texto de uma edição do álbum) – com taxas de 0,42 do euro na Bélgica e de 190 francos congoleses na R.D.C.
Para além desta emissão conjunta, destaque-se a aposição de um carimbo especial, com dois motivos complementares:
• 2800 Mechelen 31-12-2001 (Bélgica) – com Milou atrás de arbustos (duma vinheta do álbum);
• Kinshasa 31-12-2001 (R.D.C.) – com Tintin atrás de arbustos (duma vinheta do álbum).
Postais alusivos, para corresponderem a tradições filatélicas alusivas a este tipo de emissões (“máximo postal” e outras), foram também disponibilizados, constituindo hoje peças muito apreciadas e como tal devidamente valorizadas pelos coleccionadores.
Recentemente, mais um marco decisivo foi lançado no universo da comunicação, tendo como tema essencial Tintin au Congo de Papa. Trata-se de um interessante e oportuno álbum, organizado pelo jornalista belga Daniel Couvreur, de Le Soir, com a contribuição do nosso já conhecido Alain De Kuyssche. Numa edição inédita da Moulinsart, esta obra foi disponibilizada com o jornal Le Soir do dia 30 de Junho de 2010, constando de um elaborado conjunto -em texto e imagem- de depoimentos actuais e da curiosa recensão das fontes originais, de 1930.
Constituindo ainda uma sagaz e competente resposta aos argumentos do senhor Bienvenu, a obra veio trazer para a liça uma colectânea de rigorosas provas histórico-culturais de elevado nível, que desmontam com inatacável vigor algumas aleivosias em voga.
Tintin (está) no Congo? Sim, e para sempre!
António Martinó de Azevedo Coutinho

segunda-feira, agosto 09, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho

Natural da República dos Camarões, Marie-Rose Maurin Abomo é professora e investigadora em França. A sua especialidade é a linguagem e a cultura da África Negra, sendo autora de numerosos artigos e estudos nesses domínios.
Em 1993, publicou na revista Textyles um interessante trabalho intitulado Tintin au Congo ou La nègrerie en clichés. A pertinente análise semiótica da doutora Abomo atinge, sumariamente, uma conclusão que aqui se cita: “Esta coincidência da aparição da mensagem visual com a idade de ouro do colonialismo provoca equívocos. Mas é difícil falar aqui de racismo, mesmo quando tudo leva a acreditar no contrário. A linguagem do desenho conduz-nos a uma visão paternalista, mas, não o esqueçamos, Hergé é essencialmente um artista”.
A formação desta especialista permite-lhe uma isenção científica que deve ser realçada, na nítida separação que faz entre a forma e o conteúdo de Tintin no Congo, sem esquecer -bem pelo contrário!- o decisivo contexto socio-político da época. De resto, ela considera e confronta as duas versões (p/b e cor), faz uma abundante recensão dos preconceitos colonialistas dos anos 30, traça o paralelo entre a linguagem do relato em imagens e os clichés da literatura de viagens, revelando sobretudo um profundo conhecimento dos códigos da BD. Marie-Rose Abomo destaca mesmo o facto de Tintin no Congo pertencer tanto à história de um país, a Bélgica, como ao património mundial de um novo género literário -a BD- que começava a implantar-se na Europa depois de um grande sucesso nos Estados Unidos da América.
Cinco anos depois, em 1998, é publicado o livro Les fantômes do roi Léopold II. Un holocauste oublié, da autoria de Adam Hochschild. Jornalista e professor universitário norte-americano, já o conhecemos da intervenção num documentário da BBC sobre o Congo. Recordando o genocídio praticado um século antes no então Congo Belga, o autor relembra páginas esquecidas da história do colonialismo e dos horrores a esta associados. Adam Hochschild serve-se de testemunhos do rei, do explorador Henry Morton Stanley, do escritor Joseph Conrad e de outros, traçando um retrato preciso e bem documentado de todas as sucessivas etapas de uma verdadeira tragédia colectiva humana.
Em Janeiro de 2005, La Revue Nouvelle publica um extenso e incisivo artigo de Théo Hachez, significativamente intitulado Tous les petits Blancs y en être comme Tintin. O autor, respondendo afirmativamente à questão Tintin no Congo merece mais uma denúncia pelo seu carácter politicamente pouco correcto?, desenvolve uma análise sociocrítica sobre o maniqueísmo moral e a hipocrisia de belgas e americanos intervenientes na história em apreço.
Théo Hachez (1957/2008), publicista belga ligado a movimentos operários católicos, foi director e colaborador da revista onde publicou o artigo. Profunda análise de Tintn no Congo, contém o justo aviso de que esta obra não é um manual de História nem possui um estatuto de Catecismo. Considerando virtualmente o Congo como um território de caça e de jogo, Tintin desenvolve aí uma espécie de safari-reportagem, onde encontra as duas faces da presença do homem branco, entre o Bem e o Mal. Os apelidos anglo-saxónicos marcam aqui uma fronteira nítida.
O autor destaca, nas duas edições em confronto, as diferenças linguísticas nas falas dos congoleses, as quais assinalam a “promoção” dos pretos a negros... Depois, assinala alguns episódios marcantes, quase “clássicos”, que serão retomados em críticas posteriores, como por exemplo o do discurso na sala de aula.
Enfim, Théo Hachez, no sua notável análise, assinala a ausência de contradições no Congo de Tintin, com valores assentes numa sociedade carenciada, na alvorada de uma “feliz” globalização de que os belgas (1930) ou os europeus (1946) são portadores. Neste contexto, Tintin instala-se numa posição de herói que encarna um consenso moral prático, onde chega ao exagero de se mascarar de Tom (um dos bandidos) ou de animal selvagem (macaco e girafa), para melhor concretizar os seus “nobres” objectivos.
Eis o “clima” de permanente, embora surda, contestação onde surge, em 27 de Julho de 2007, a demanda judicial de Bienvenu Mbutu Mondondo junto da justiça belga, acusando Tintin no Congo de racismo e xenofobia...
Neste mesmo ano, logo em Agosto, Le Figaro divulga um artigo assinado pela jornalista Alexandrine Bouilhet, correspondente daquele jornal em Bruxelas. Sob o título La BD Tintin au Congo taxée de racisme, o artigo relata o incidente despoletado pela queixa, destacando-lhe os contornos, assim como a pronta e firme reacção da Sociedade Moulinsart a tal propósito.
Finalmente, ainda em 2007, a edição de Setembro/Outubro da revista MRAX info, n.º 179, incluiu um texto intitulado Tintin au Congo... à interdire aux enfants, absolument!
O MRAX (Movimento contra o Racismo, o Anti-Semitismo e a Xenofobia) é uma organização não governamental belga que procura desenvolver uma intervenção cívica específica, sob a controversa direcção de Didier de Laveleye.
O artigo é interessante, muito bem ilustrado, e ridiculariza as intenções de um dossier pedagógico contra o racismo, inserido na revista Spirou. Depois, acentua a tonalidade racista de Tintin no Congo, apoiando-se no facto de serem aí atribuídos traços físicos e características pejorativas uniformemente conotadas com um mesmo grupo, o dos negros, assim definido como inferior a um outro grupo, contrastado, o dos brancos. Esta oposição explícita, que desumaniza os africanos, será igualmente atribuída aos animais.
No entendimento do MRAX, a tecnologia usada por Tintin insere-se no projecto colonialista inseparável da ideologia de um progresso apenas justificativo da pretensa superioridade dos brancos sobre os negros. Os episódios do comboio, da “salomónica” intervenção de Tintin e da congratulação deste para com a obra missionária são igualmente considerados como imposições dos valores, das crenças e dos modelos ocidentais.
Piedosamente, enquanto pela aceitação das “explicações” de Hergé se permite “absolver” o autor, o artigo classifica a obra como claramente condenável. E conclui: “Deixar tais obras entre as mãos das crianças sem prestar atenção a isso significa aceitar que somos cúmplices de um dos principais vectores do racismo: a reprodução mecânica de reflexos xenófobos e de preconceitos herdados por vezes de muito longe, dos nossos pais ou... das nossas leituras de infância”.
Como complemento, o artigo inclui a carta enviada pela organização irmã francesa (MRAP) às Edições Casterman. Usando argumentos similares, e no respeito pelos Direitos do Homem, é aí solicitada a inserção de um aviso aos leitores esclarecendo sobre o contexto histórico contemporâneo da obra e apelando à vigilância contra os preconceitos racistas da obra Tintin no Congo.
António Martinó de Azevedo Coutinho

segunda-feira, julho 05, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho

Prometêramos, a propósito desta ida ao Congo, a tentativa de penetrar um pouco na própria consciência de Hergé.
Antes de o fazermos, recapitulemos com um maior desenvolvimento o recente episódio parlamentar acontecido em França, já atrás sumariado.
O deputado Christian Vanneste interrogara o ministro da Cultura e da Comunicação, Frèdèric Mitterrand, sobre a aplicação de censura ao livro Tintin no Congo solicitada por algumas associações comunitárias ou de extrema esquerda.
A sociedade Moulinsart, que administra as obras de Hergé, divulgou por esses finais de 2009 o seguinte comunicado: "Ler em pleno século XXI um álbum de Tintin, datado de 1931, exige um mínimo de honestidade intelectual. Isto evitaria que mergulhássemos tanto nos mais fáceis anacronismos como nas mais correntes complacências. A sociedade veria com bons olhos a opinião do Governo sobre este assunto”.
E essa opinião, divulgada oficialmente, foi a seguinte:
As contestações que visam actualmente Tintin no Congo são o prolongamento de uma polémica que ressurge a intervalos regulares. As solicitações para proibir o álbum de Hergé, ou as exigências da inserção de um aviso para os leitores, vêm na sequência de um processo intentado na Bélgica e de decisões tomadas por bibliotecas e por uma rede de livrarias estrangeiras, no sentido de confinar a obra a sectores reservados aos adultos. A versão do álbum em questão é a que Hergé publicou em 1931. O autor empreendeu a sua reformulação em 1946, consciente de ter sido influenciado por representações coloniais que caracterizaram a sua época e o seu meio. No entanto, o álbum de Hergé não revela nem virulência ideológica nem características odiosas. Os limites permitidos pela legislação francesa sobre o princípio da liberdade de expressão são definidos de forma estrita e não justificam a aplicação sistemática dos pedidos de proibição. Tal evolução seria contrária tanto ao espírito como à letra da Lei de 13 de Julho de 1990, tendente a reprimir os actos racistas, anti-semitas ou xenófobos. O caso específico das publicações destinadas à juventude, regulamentado pela Lei de 1949, que confere competências sobre o tema à autoridade administrativa, também não autoriza a banalização da censura. A aplicação destas disposições exige uma vigilância extrema e um particular discernimento, a fim de se obter uma rigorosa preservação da liberdade de criação, as penalidades aplicadas às violações da dignidade humana e o respeito pela pluralidade das identidades.”
Georges Remi já não assistiria a mais este episódio. Mas viveu os outros, já relatados, sobretudo a partir dos anos 60.
O seu testemunho mais expressivo sobre as acusações raciais de que foi alvo ficou contido no volume Tintin et Moi - Entretiens avec Hergé, redigido por Numa Sadoul e editado pela Casterman, em 1975. Aí se contêm as notáveis entrevistas realizadas em Outubro de 1971, com excepção de um pequeno excerto publicado em Cahiers da la Bande Dessinée n.º 14/15, Especial Hergé, em Dezembro de 1971.
Eis as suas passagens mais expressivas quanto ao assunto em causa:
SadoulVocê fala de convenções: é certo que fazer os Negros falar “à preto” deriva mais duma popular tradição cómica do que de um subjacente racismo. Mas, enfim, não é mau de todo por vezes desprezar as tradições... Creio que Tintin no Congo, por razões análogas, terá sofrido uma longa quarentena, ou não?
Hergé – Sim. Mas sabe onde isso foi anotado pela primeira vez? Numa revista zairense!...
Sadoul – Disseram e repetiram muitas vezes que você é racista. É chegado o momento de pôr ordem nas coisas: que tem a dizer em sua defesa? Que responde quando o tratam como “racista”?
HergéRespondo que todas as opiniões são livres, incluindo essa que pretende que eu seja racista... Mas, enfim, seja! Houve Tintin no Congo, reconheço-o. Foi em 1930. Não conhecia desse país senão o que as pessoas contavam na época: “Os negros são crianças crescidas... Felizmente para eles, nós estamos lá! Etc...” E eu desenhei-os, esses Africanos, segundo tais critérios, no mais puro espírito paternalista que era o da época, na Bélgica. (...) Para o Congo, tal como para Tintin no País dos Sovietes, aconteceu que eu estava influenciado pelos preconceitos do meio burguês onde vivia. Com efeito, os Sovietes e o Congo foram pecados da juventude.
(...)
SadoulJá falámos muito dos Sovietes; podemos portanto passar directamente a Tintin no Congo.
HergéO Congo... Porque e como fiz O Congo?... Na realidade, teria preferido enviar Trintin directamente para a América depois do seu regresso da Rússia. Mas o padre Wallez persuadiu-me a começar pelo Congo: “A nossa bela colónia, que tem agora necessidade de nós e para a qual é preciso suscitar as vocações coloniais”, taratata taratabum! Isso não me inspirava por aí além, mas rendi-me a esses argumentos, e toca a marchar para o Congo! Fiz essa história, como já disse, segundo a óptica da época, isto é, num espírito tipicamente paternalista... que era, afirmo-o, o da Bélgica inteirinha. Passemos, sem mais demora, ao álbum seguinte.
Eis as palavras sinceras, simples e honestas de Georges Remi.
António Martinó de Azevedo Coutinho
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Este clip, retirado duma raríssima entrevista “ao vivo” concedida por Hergé, em 1976, é de origem flamenga, e como tal legendado, ainda que falado em língua francesa. Por este oportuno documento, podemos tomar conhecimento da forma clara e inequívoca, além de culturalmente honesta, como o autor assume as suas “culpas” perante os “erros” cometidos na juventude... Aqui se confirmam, em absoluto, as palavras transcritas no presente capítulo.
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Entrevista Hergé
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