\ A VOZ PORTALEGRENSE

terça-feira, maio 22, 2007

No dia do Centenário de Hergé

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Em 1936, Portugal foi o primeiro país do mundo a publicar tintim a cores. Foi o começo de uma curiosa relação de Hergé – que nasceu há 100 anos – com Adolfo Simões Müller
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Carlos Pessoa
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No final de Abril de 1936 Hergé recebeu em Bruxelas um envelope de Portugal. Ao abri-lo, encontrou alguns exemplares da revista O Papagaio e teve uma grande surpresa: viu pela primeira vez uma história de Tintim impressa a cores (Tintim na América).
"Fiquei encantado por ver os meus desenhos aparecerem a cores", diz Hergé numa carta que enviou a 12 de Maio desse ano ao padre Abel Varzim, que o contactara em Maio de 1935, em nome da publicação, para negociar a divulgação das histórias de Tintim.
O herói chama-se Tim-tim, é apresentado como repórter português de O Papagaio - na versão original é um repórter belga do Le Petit Vingtième - e tem como companheira uma cadela chamada Rom-Rom, de cor acastanhada (e não o cão Milú branco).
Mas o que verdadeiramente desagradou ao artista belga foi outra coisa. O editor português tinha remontado as pranchas, destruindo o efeito de suspense da narrativa na edição original. Hergé comenta a situação ("une petite remarque", escreve) lembrando que "os desenhos são concebidos como num folhetim para terminar em cada semana com um desenho palpitante destinado a prender a atenção do leitor".
Este incidente não chegou para comprometer as relações entre o criador de Tintim e a revista portuguesa, que divulgou mais oito aventuras do herói até ao final da sua existência, em Fevereiro de 1949. Além de efectuar a primeira publicação em quadricromia do mundo, O Papagaio foi também a primeira revista de um país não francófono a divulgar Tintim.Adolfo Simões Müller (1909-1989), que foi um dos directores da revista, é a peça-chave para explicar a curiosa relação que Hergé teve com Portugal.
Uma parte significativa da correspondência que os dois homens mantiveram ao longo de 30 anos foi recentemente tornada pública pelo holandês Jan Aarnout Boer (De Avonturen van Kuifje in Portugal), membro da associação Hergé Genootschap (Os Amigos de Hergé) que teve acesso aos arquivos da Fundação Hergé, na Bélgica."Para ser franco, a publicação prematura de Hergé em Portugal não teve impacto na sua obra ou na tradução dos álbuns para outras línguas", disse ao P2 Jan Boer. "Hergé achava piada que houvesse pessoas em Portugal interessadas nos seus livros, mas tanto para ele como para o seu editor [Casterman], estas traduções tinham pouco interesse."

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Direitos por géneros
Quando começou a ser publicado em Portugal, o artista belga estava prestes a fazer 29 anos - nasceu exactamente há 100 anos, a 22 de Maio de 1907. Vivia a fase ascensional da sua carreira, ainda só tinha cinco das 23 histórias que imortalizariam Tintim.A internacionalização da sua obra era um fenómeno novo para si. Por isso, não surpreende que o criador belga recorra à Societé du Droit d"Auteur (Paris), fixando em 50 francos franceses o preço por episódio (o equivalente a uma dupla página dos álbuns a preto e branco).
Em 1937, Hergé delega em Jean-Louis Duchemin, secretário-geral do Syndicat de la Proprieté Artistique, a gestão dos seus direitos de autor, precisando que a redução do preço - agora negociada por Simões Müller e fixada em 35 francos franceses - só se aplicará a Tintim na América.
Outro episódio trazido à luz do dia pela correspondência entre Hergé, Abel Varzim e Müller diz respeito à intenção deste último lançar uma nova revista (Diabrete) para disputar o mercado a O Papagaio.
Em carta não datada (mas provavelmente do final de 1940 ou início do ano seguinte), Müller pede a concessão do exclusivo das aventuras da série Quick et Flupke, ressalvando que O Papagaio continuará a publicar Tintim se assim o entender.Hergé concorda, mas é notório que as suas preocupações imediatas são de outra ordem. A invasão da Bélgica pelas tropas de Hitler teve como consequência, no plano pessoal, o aprisionamento do seu irmão mais novo Paul Remi num campo de concentração alemão. Na resposta a Simões Müller, de 24 de Abril de 1941, pede-lhe para este enviar de vez em quando produtos alimentares não perecíveis (sardinhas de conserva, chocolate, biscoitos, etc.) ao irmão e, se possível, também para si próprio. O montante dispendido deveria ser descontado nos direitos de autor a pagar.
"Foi um nobre gesto da parte de Hergé", comenta Jan Boer. Mas os pacotes de alimentos nunca chegaram ao irmão. No final do período O Papagaio, quando o acerto de contas foi feito, constata-se que todas as encomendas foram enviadas para o próprio Hergé. Por outras palavras, a história dos envios para o irmão tem que ser um pouco rectificada."
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Última batalha
O braço de ferro entre Varzim e Müller pelos direitos de Tintim conhece novos desenvolvimentos no início de 1943. A 25 de Janeiro, Hergé recebe uma carta muito contundente de Varzim, defendendo com unhas e dentes a sua publicação: "O nosso jornal - como pode constatar - é para a elite das famílias portuguesas. O Diabrete não passa de um jornal para as classes menos bem, pois para poder viver vende-se a metade do preço do nosso, não tendo mesmo tentado colocar-se ao nível do Papagaio."
As posições radicalizam-se, mas Hergé procura não desagradar a nenhum dos contendores. "É curioso ver como ele tenta encontrar uma solução que satisfaça as duas partes e manter-se amigo de ambos. Mas quando os dois querem os direitos de Tintim, isso é difícil", diz Boer. De facto, só com o desaparecimento de O Papagaio é que Tintim será finalmente publicado no Diabrete, a partir de 1949.
Simões Müller continua a cultivar a sua relação com o artista belga, que se traduz na publicação quase ininterrupta das histórias de Tintim. A última prancha de As Sete Bolas de Cristal é publicada a 29 de Dezembro de 1951 naquela revista e a 5 de Janeiro do ano seguinte é apresentada a primeira prancha de O Templo do Sol no Cavaleiro Andante.Na efémera revista Foguetão (13 números, em 1961), é a vez de Tintim no Tibete, que depois transitará para o Cavaleiro Andante. E quando a revista Zorro surge nas bancas (1962-1966), os leitores poderão ler as primeiras sequências de As Jóias de Castafiore.
É a última vez que Müller está associado à publicação da série franco-belga. A edição portuguesa da revista Tintim, lançada em 1968, já terá outros protagonistas.
De passagem, Müller trava a sua última batalha pelos direitos de Tintim e perde-a. Numa carta enviada a Hergé em Março de 1960, Müller pede a "intervenção" de Hergé para evitar que "outro editor português faça uma edição que eu me proponho fazer há muito tempo e sobre a qual julgo ter um indiscutível direito de prioridade".A resposta de Hergé chega em 22 de Março: Casterman, o editor belga, reconhece em Müller um "amigo da primeira hora", mas "a lógica dita que seja utilizada a edição brasileira igualmente em Portugal". Assim será até 1988, quando Tintim passa a ser editado pela Verbo.

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Carlos Pessoa
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Hergé achou a ideia boa, mas Müller não encontrou apoios
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Adolfo Simões Müller tinha "um plano gigantesco" e em Abril de 1939 escreveu uma carta a Hergé com a proposta: fazer-se uma aventura de Tintim em Portugal.
O filho de Simões Müller, Luís Müller, lembra-se do projecto. "Hergé chegou a falar com o meu pai, pedindo-lhe informação sobre a História de Portugal", contou ao P2.
Também se lembra de ouvir o pai dizer que a ideia era encontrar, para a história, um elo de ligação entre o Brasil, Portugal e a Índia. A resposta do criador belga foi prudente.
Achou boa a ideia, mas manteve alguma distância, pois queria assegurar o controlo das coisas.
Nomeou seu representante Jean-Louis Duchemin, do Syndicat de la Proprieté Artistique (SPA, Paris) que apresentou uma estimativa de custos a Simões Müller e propôs uma repartição dos encargos: 10 por cento do preço de cada álbum teria de ser suportado pelo português, e 40 por cento desse montante entregue directamente ao SPA.
A ideia não teve seguimento porque não houve capacidade financeira para investir no projecto, nem possibilidade de encontrar apoios públicos ou privados.

segunda-feira, janeiro 03, 2011

António Martinó de Azevedo Coutinho

Entre as décadas de 40 e 50 do passado século acontece em Portugal um dos mais férteis períodos na edição dos quadradinhos.
O Papagaio arrastava-se já na sua fase terminal, mas surgia em 1936 o título que correspondeu, para muitos apreciadores, à mais significativa revista nacional de todos os tempos: O Mosquito. Cinco anos depois, teve a companhia do Diabrete, logo seguido d’O Faísca, em 1943, embora este efémero. Porém, a revolução maior no género foi protagonizada pel’O Mundo de Aventuras. As anteriores publicações usavam material essencialmente nacional -algumas com exclusividade- ou de origem espanhola, inglesa ou franco-belga. O Mundo de Aventuras vem trazer-nos, sobretudo, as novidades norte-americanas, incluindo os super-heróis.
Esta política editorial terá reflexos, também, no campo que aqui se pretende abordar, o das relações entre BD e publicidade.
Entretanto, uma forma interna de divulgação publicitária unira o ABC-Zinho a O Mosquito. Por vezes -sobretudo este- inseriram frases, desenhos e estribilhos de cariz auto-promocional, realçando os méritos das suas iniciativas editoriais.
Já no Diabrete, n’O Faísca, n’O Mosquito e n’O Mundo de Aventuras são concretizadas outras oportunas práticas promocionais junto dos seus jovens leitores, como a passagem de diplomas e certificados, a adesão a clubes internos ou a organização de concursos com prémios interessantes. Todo este conjunto de iniciativas tem como denominador comum um claro objectivo de fidelização dos leitores eventuais, transformando-os em seguros assinantes.
Aquilo em que O Mundo de Aventuras inovou consistiu na “importação” de alguns pormenores de cariz publicitário, com origem nos EUA, divulgados nas próprias páginas reproduzidas. Naturalmente, esta forçada “importação” não teve efeitos directos junto dos consumidores portugueses...
Apresentam-se, apenas, dois casos distintos. O primeiro, numa página de Flash Gordon (S.O.S. em Mongo), consiste na promoção dos chamados “bónus de guerra” (For Victory, buy United States War Bonds and Stamps), uma espécie de fundo de investimento público destinado a apoiar o considerável esforço dos EUA devido à sua participação na II Guerra Mundial. Este apelo foi uma das formas explícitas com que os comics participaram no flagelo bélico. Como bem se sabe, alguns dos heróis e super-heróis norte-americanos desempenharam um papel muito significativo na mentalização do público para a causa aliada, através das suas aventuras em pleno cenário de combate, da Europa ao Extremo Oriente, lutando contra os nazis e os japoneses.
A BD conseguiu participar nesta campanha em pleno conflito, ao contrário do cinema, que apenas se fez eco, a posteriori, das façanhas dos Aliados. Esta página de Alex Raymond está datada de 1942, pela própria agência distribuidora, a poderosa King Features Syndicate.
O outro exemplo é muito distinto, pois, em vez do apelo ao patriotismo actuante, está agora em causa a divulgação turística. Nesta página do Princípe Valente, o herói percorre locais sagrados da Terra Santa, com particular e invulgar destaque, por meio de dispensáveis mas “oportunas” legendas. O mestre desenhador Harold Foster colocou Valente num percurso desde Jerusalém, onde visitou a Igreja do Santo Sepulcro, passando depois pela Torre de David e, entre a Cúpula do Rochedo e Gethsemani, pelo Vale de Cedrón, até ao Mar Morto.
A guerra e a paz, quase se poderia definir assim o conjunto destes dois exemplos soltos vindos da distante América por via d’O Mundo de Aventuras.
António Martinó de Azevedo Coutinho

terça-feira, maio 22, 2007

No dia do Centenário de Hergé

Temos um curioso caderno encadernado à mão, onde na capa é apresentada uma aventura de Tintin e Milou.
Lá dentro está a aventura incompleta, que, cotejada com a original, é cerca de quarenta por cento.Refere-se a “Le Sceptre d’Ottokar”, e, embora não se conheça a data de publicação, é identificada como sendo publicada pelo «Diabrete».
A duas cores e sem o título da aventura, a par da curiosidade de Tintin ‘ser’ Tim-Tim e de se conhecer a sua idade, e Milou ser tratado por Rom-Rom, está a apresentação, que transcrevemos:
AVENTURAS DE TIM-TIM E ROM-ROM
Tim-Tim, o famoso jornalista de treze anos, a cujo espírito observador e audacioso se deve a descoberta de vários mistérios, entra para o serviço do «Diabrete». Uma manhã destas subia ele a Avenida, na companhia do inseparável e astuto Rom-Rom…
MM

terça-feira, setembro 26, 2006

Aventuras de Tim-Tim e Rom-Rom

Chegou-nos um curioso caderno encadernado à mão, onde na capa é apresentada uma aventura de Tintin e Milou.
Lá dentro está a aventura incompleta, que, cotejada com a original, é cerca de quarenta por cento.
Refere-se a “Le Sceptre d’Ottokar”, e, embora não se conheça a data de publicação, é identificada como sendo publicada pelo «Diabrete», porventura, a primeira vez que tal acontece.
A duas cores e sem o título da aventura, a par da curiosidade de Tintin ‘ser’ Tim-Tim e de se conhecer a sua idade, e Milou ser tratado por Rom-Rom, está a apresentação, que transcrevemos:
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AVENTURAS DE TIM-TIM E ROM-ROM
Tim-Tim, o famoso jornalista de treze anos, a cujo espírito observador e audacioso se deve a descoberta de vários mistérios, entra para o serviço do «Diabrete». Uma manhã destas subia ele a Avenida, na companhia do inseparável e astuto Rom-Rom…
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Certamente que este é um documento importante para a história destas personagens em Portugal. Quem poderá acrescentar mais elementos a esta ‘história’? [mj]
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domingo, janeiro 04, 2009

António Martinó de Azevedo Coutinho

CROMOS DA BD - I
(1946/47)

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Deixemos por agora os cromos da bola e detenhamo-nos num outro tipo de colecção em tudo semelhante excepto na temática das pequenas estampas lambuzadas. Desta feita entraremos no mundo dos Quadradinhos, onde não há brindes nem cromos numerados com direito a uma bola a sério...
O pretexto é uma caderneta editada pelo já distante ano de 1946 ou talvez pelo seguinte. No seu pequeno formato (23 x 17,5cm) e nas suas vinte páginas, a caderneta assumiu um papel de álbum de BD, uma vez que o seu conteúdo foi uma aventura de índios e cowboys ou bons e maus, ao formal estilo da época.
Antes do mais, convirá dizer que esta edição não consta de nenhuma das listagens específicas disponíveis na Net. As únicas curtas referências a esta raridade podem e devem ser procuradas em estudos de especialistas da BD, e apenas encontrei três, no decurso de aturadas pesquisas que fiz a tal propósito.
Detenhamo-nos nas particularidades exteriores da caderneta, “Brinde de A Oriental”, uma fábrica de caramelos sedeada na Rua do Terreirinho, 38, 2.º, com o telefone 24448, em Lisboa. A impressão desta, assim como dos cromos, foi trabalho da Litografia Valério, também na capital.

O título não podia ser mais sugestivo: “Aventuras de Fred Bill - O Terror do Texas”! A história, composta por 120 pequenos cromos (5 x 4cm, ocupando a mancha colorida 4,5 x 3,5cm) e o respectivo texto em separado, foi distribuída por 14 das páginas da brochura. Esta distribuição não foi uniforme, pois a 9 cromos em cada uma das primeiras 12 páginas correspondem apenas 6 em cada uma das duas páginas finais.
É curiosa a crónica desta iniciativa editorial que corresponderá ao primeiro dos muitos álbuns-cadernetas sobre temáticas em BD que viriam a ser divulgados, a partir de algumas décadas mais tarde, pela Agência Portuguesa de Revistas, pelo Clube do Cromo, pela Disvenda, pela Ibis, pela Impala e, mais recentemente, pela Panini, para citar apenas as mais conhecidas editoras do género. No entanto, deve acrescentar-se que a maior parte destas colecções auto-proclamadas como BD’s não se integram exactamente nas definições correctas de Banda Desenhada, pois são constituídas por cromos que reproduzem fotogramas cinematográficos e não por desenhos em sucessão narrativa...
Tudo nascera num efémero jornal de Histórias aos Quadradinhos denominado O Pluto. Semanário, apenas durou 25 números, publicados entre 30 de Novembro de 1945 e 24 de Maio de 1946. O director d’O Pluto foi um nome famoso na história lusa da 9.ª Arte, Roussado Pinto, que deixou a sua obra ligada a muitas das melhores publicações nacionais da especialidade. Alguns entendidos na matéria consideram-no como o melhor argumentista português de todos os tempos...
Entre as várias iniciativas e rubricas patentes n’O Pluto contou-se uma história em BD - impressa a preto e branco ou a duas cores - denominada Três Balas, que, como outras, ficou incompleta. Os seus autores foram, também, personalidades de destaque no mundo dos Quadradinhos nacionais: Orlando Marques (argumento) e Vítor Péon (desenhos).

Orlando Marques, incansável autor de contos, novelas e, sobretudo, argumentos de BD, nasceu em 1921, no Funchal. Vindo para o continente, empregou-se no escritório duma firma comercial de Lisboa e dedicou-se à sua paixão literária. Estreou-se aos 18 anos, n’O Mosquito, e depois na Colecção de Aventuras, O Faísca, O Pluto (onde foi Chefe de Redacção!), O Mundo de Aventuras, Colecção Audácia, Colecção Condor, etc. Um dos criadores de BD com quem mais trabalhou em estreita colaboração foi precisamente Vítor Péon.
Vítor Péon nasceu em Luanda em 1923. Muito novo, com 10 anos, veio para Lisboa e ingressou como retocador de fotogravuras na conhecida Tipografia Bertrand & Irmãos. Começou a desenhar cartazes de montras e distinguiu-se na criação de motivos nacionais para bandejas de prata destinadas à Exposição do Mundo Português. Desde que, em 1940, se estreou na BD com uma capa para a Colecção de Aventuras, deixou a sua arte abundantemente espalhada em O Mosquito, Diabrete, O Pluto, O Papagaio, Camarada, O Século Ilustrado, O Mundo de Aventuras, Colecção Condor, Colecção Audácia, Flecha, Titã, Cavaleiro Andante, etc. Depois emigrou, vivendo na Escócia, na Inglaterra e em Paris. Voltou a Portugal, onde morreria, em 1991, ano em que também desapareceria Orlando Marques.
É precisamente Três Balas, essa obra incompleta assinada por ambos nas páginas d’O Pluto, que está na origem da caderneta de cromos que aqui e agora se revela. Esta mesma história, embora adaptada através duma remontagem sumária das imagens - agora plenamente coloridas! - e com o texto muito ampliado e dotado de uma pretensa função “didáctica”, pouco tempo depois da sua inicial divulgação na imprensa infanto-juvenil vai servir de tema a uma original colecção de cromos de rebuçados.
Na próxima semana, dedicar-nos-emos a apresentar aqui interessantes pormenores da caderneta “Aventuras de Fred Bill – O Terror do Texas”.
António Martinó de Azevedo Coutinho

segunda-feira, maio 03, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho

CARTA PÓSTUMA AO JORNAL

O DISTRITO DE PORTALEGRE

Caro companheiro de mais de meio século de vida

É piedoso costume, com muitos seguidores, este de se dizer apenas bem de quem morre. É normal esquecermos as coisas más, ou assim-assim, e exagerarmos o que foi bom.
Contigo, vou ser sincero; aliás costumo ser sempre sincero mesmo quando isso dói.
Ainda estou um pouco estupefacto perante a tua morte, tão recente. Era mais ou menos público que o teu estado era mau, mas a gente vai-se habituando às doenças crónicas. Neste Portugal piegas é assim e Portalegre não é excepção...
Sabíamos todos que estavas ligado às máquinas, a soro e com respiração assistida. Mas, mesmo assim, tenho dificuldade em perceber porque morreste, como morreste e precisamente agora. Já lá vamos.
Prefiro começar pelo princípio, porque o teu fim não teve piada nenhuma.
Conheci-te, era eu ainda gaiato e tu já crescido, tinhas para aí uns cinquenta anos.
Lia-te, reconheço, com menos interesse do que o dedicado a O Mosquito ou ao Diabrete, por exemplo. Tinhas poucos bonecos para o meu gosto, sabes?
Apesar de, depois, o Jaime Eustáquio te ter emprestado um pouco da sua arte. Poucos, talvez, se lembrarão hoje disso. Mas aconteceu, foi bonito de ver e eu fui testemunha de tais tempos.



Depois cresci, tu também, e um dia abalei provisoriamente da nossa terra. Foi lá para os meados do século passado, quando a minha função de mestre-escola me levou até às Galveias, antes ainda da tropa. Então assumi como mais oficial a nossa relação, fazendo-me teu “sócio”, na esperança de que te tornasses um remédio para aliviar saudades. E assim aconteceu. Pela minha parte, fui fiel à aliança, mantendo sempre as quotas em dia. Até agora, porque desististe... e de vez.
Mas também quero ser fiel à minha promessa da sinceridade. Algumas vezes, em especial nas últimas décadas, fui eu que estive para desistir. Achei que estavas a trair a nossa aliança, quando te esquecias da qualidade que tinhas assumido como timbre de honra e te apresentavas recheado de matérias intragáveis, ou quase. Tenho a certeza de que, se o pudesses agora fazer, reconhecerias sem esforço que atravessaste fases desastradas quando permitiste que gente com poucos escrúpulos ou com mediocre qualidade se tivesse apoderado das tuas inocentes páginas. Mas enfim, devo reconhecer que fizeste depois um nítido esforço de melhoria.
Já agora, quero levar mais longe esta confissão. Sabes o que me obrigou a nunca desistir, mesmo quando o deveria ter feito, sem disso me ficar o mais leve remorso? Foi a lembrança, incontornável, dos amigos que ligava, e sempre ligarei, à tua própria e longa existência. E lembro apenas três, os que mais me marcaram ainda que de diversas formas e em distintos momentos: Anacleto Martins, José Patrão e Fernando Farinha. Dos três recebi lições de vida e provas de amizade que nunca olvidarei. Do padre Anacleto recordo a coerência máxima de vida e a dádiva total aos outros; do padre Patrão evoco a amizade simples e fraterna assim como a cultura partilhada; do padre Fernando Farinha lembro a natural inteligência e a franqueza mais autêntica.
Vale a pena reler agora António Ventura que, na forma simples e erudita que o caracteriza, relatou o essencial da tua longa vida no seu livro Publicações Periódicas de Portalegre (1836-1974). Podemos aí evocar um significativo conjunto de personalidades locais, e não só, que deixaram as suas vida e obra ligadas ao teu nome. Abstenho-me de aqui as arrolar, pois prefiro remeter os eventuais interessados para uma oportuna consulta da obra.
Já agora, que estamos neste regime de confidências, quero dizer-te que a notícia do teu falecimento me levou à nossa Biblioteca Municipal, desta feita para me embrenhar nas memórias escritas que nos deixaste.
Com alguma emoção, confesso-o, vi os concretos testemunhos da tua rica existência: o primeiro número, o dos cinco anos, o da primeira década de vida mais o dos 25 anos, o do cinquentenário e, sobretudo, o fabuloso número dos cem anos!!!
Podes crer que foi emocionante recordar-te, ia a dizer ao vivo, quando penosamente devo emendar para ao morto... É que ainda não me habituei ao teu estado. Definitivo, apesar das promessas.
Para alguém, como eu, que nem sequer crê na eternidade, mais dificil se torna acreditar em milagres. Até porque, mesmo que “ressuscitasses”, nunca mais serias o mesmo. Pois, sei no que pensas (se é que ainda pensas em alguma coisa!), que na tua história mais do que centenária contam-se umas três ou quatro interrupções. Sim, é verdade, mas nunca como agora te foi passada uma auto-certidão de óbito.
Antes de terminar esta penosa carta póstuma, meu caro O Distrito de Portalegre, quase me apetece dizer -parafraseando Camões- que morres um pouco com a tua pátria chica que isto vai de mal a pior por todo o norte alentejano, a começar pela nossa comum terra natal.


Mas deixa-me recordar contigo o tal -como lhe chamei- fabuloso número comemorativo dos teus cem anos de vida. Sim, não o desmintas, ainda estavas então bem vivo ou, pelo menos, não apresentavas sintomas visíveis de uma moléstia mortal.
Foi o histórico n.º 5877, relativo -lembras-te?- ao dia 27 de Abril de 1984. É um exemplar de referência assinado pelo saudoso padre José Patrão. O seu conteúdo é notável, quase antológico. Aqui e agora, quero recordar -e sobretudo recordar-te- uma voz profética aí contida. Falo do texto Mas temos uma Imprensa Diocesana?, da autoria do malogrado padre J. Cabral. Transcrevo dessa peça dois simples excertos: “... a vida da Igreja não terá já hoje capacidade para o impacto de ser notícia, ela que se inaugurou pela força da “grande notícia” – o evangelho?”; “... julgo que não temos imprensa diocesana. É viável um órgão diocesano? A nossa Igreja Diocesana tem suficiente vitalidade eclesial para um órgão destes? E ainda: - haverá vontade “política” (como agora se diz) ou pastoral (se se quiser) a nível diocesano, em ordem à consecução de pessoas capazes e de disponibilidade de meios para isso?
Caro ex-companheiro de jornada, desculpa o ar demasiado sério que isto tomou. Mas estas palavras que recordei talvez ajudem a explicar a tua precoce morte anunciada, talvez ajudem a perceber como se pode praticar, em ambiente de cristandade, uma espécie de piedosa eutanásia.

Fala claramente o teu número póstumo -e cito- no vil metal e diz que o que tem de ser tem muita força. São outra vez, qual eterna maldição, os trinta dinheiros, desta vez em falta...
E assim se “explica” porque ficas dispensado da firme e cabal eliminação dos fétidos vestígios ainda restantes da cobarde, injusta e nojenta campanha pública contra o teu bispo, assim como da lógica função de trazeres aos fiéis diocesanos os ecos da próxima visita papal.
E assim se explica como é praticado o mau gosto de ser associada uma efeméride de vida, mais um aniversário, a um sinal de morte, o deliberado fim de uma carreira ainda por fazer...
A tua última página -acredita, custa-me dizer-te isto!- mostra os sinais desta contradição, nos cravos ainda vermelhos mas caídos por terra, na horizontal...
Morres afinal com a Pátria ou com a Democracia? Não, isso nunca!
Deixas saudades e, disso tenho a certeza, não apenas neste teu velho companheiro de jornada, mas também urbi et orbi. Parece que a vida é mesmo assim, a morte é que bem se dispensava de o ser.

Um abraço fraterno do
António Martinó de Azevedo Coutinho
Portalegre, no 1.º de Maio de 2010

segunda-feira, janeiro 31, 2011

António Martinó de Azevedo Coutinho

...E continuamos, com a abordagem de um tema quase interminável.
Mais alguns exemplos interessantes são-nos fornecidos pela publicação, nas páginas do já desaparecido vespertino A Capital, da biografia em BD do grande e malogrado ciclista Joaquim Agostinho, patrocinada por uma bebida fortificante.
Num suplemento da revista Cavaleiro Andante, podemos certificar-nos de que uma grande companhia petrolífera (no cabeçalho) apoia a divulgação das proezas de Michel Vaillant, ás do volante...
Depois, em páginas de diversas publicações, como Tintin, verifica-se a inserção de uma prancha d’As Aventuras Extraordinárias de Adele Blanc-Sec, de Tardi, onde o conteúdo dos balões foi adaptado à sua auto-promoção, numa curiosa espécie de meta-linguagem susceptível de curiosas análises. Basicamente, trata-se de uma banda desenhada que se auto-publicita, portanto a si própria!

Regressando à mais famosa dupla de heróis francófonos dos quadradinhos, Astérix e Tintin, eis mais alguns exemplos.
Do primeiro temos uma colecção de 300 cromos gigantes, onde se reproduz uma das suas super-aventuras, assim como uma vasta série de figuras de plástico, que constituiam brindes, tanto de uma conhecida marca de detergentes em pó, como de uma não menos conhecida marca de gelados, daqueles de pauzinho...
Quanto a Tintin, facilmente reconheceremos que a sua aplicação foi bastante mais criativa, prestando-se as caricas de um popular refrigerante a funcionar como peças de um clássico jogo de loto, cujas folhas-base foram distribuídas pela revista com o seu nome.
Estas caricas, aliás, também serviam para praticar o popular jogo alusivo pelos passeios públicos fora, nos tempos felizes em que não precisávamos de playstation para nos divertirmos...
O caso a seguir escolhido é também curioso. Como folhas intercalares volantes, em revistas infanto-juvenis, surgiu a promoção de uma “banda desenhada radiofónica” (sic!) emitida pelo saudoso Rádio Clube Português, sob o prometedor título A Ilha Misteriosa, de Júlio Verne. Talvez este imortal romance de aventuras tenha sido dos mais adaptados sob a forma de BD, portanto impressa, mas -que se saiba!- nunca ele terá importado esta designação de forma tão criativa e oportuna.
Porque é tempo de dar por finda esta análise -parcelar e descontraída- duma época muito rica em exemplos de interessantes “alianças” entre a banda desenhada e a publicidade, aqui fica, para conclusão, um trio muito diverso.
A abrir, eis um dos folhetos de promoção de um afamado detergente, organizado sob a forma de uma curta historieta desenhada, simples, directa, funcional.
A seguir, recorda-se uma célebre marca de pastilhas elásticas que, entre as mais diversas manifestações publicitárias usadas para a sua própria divulgação, se atreveu a editar uma revista de BD, intitulada O Pirata, mais tarde apenas Pirata. Vale a pena dedicar alguma atenção a esta quase ignorada publicação, surgida em meados de 1968 e conseguindo manter-se até 1982. Embora a qualidade gráfica fosse deficiente, o seu conteúdo atingiu níveis interessantes, incluindo criadores e séries com real significado.
Na conclusão deste capítulo, inclui-se uma curta sequência de uma conhecida aventura de Tintin, no original e na “tradução” portuguesa (no Diabrete), quando o capitão Haddock, distraído com a absorvente leitura do jornal, esbarra num placard publicitário, onde se lê, precisamente, que aquelas informações batem..
Infelizmente, a “tradução” atraiçoa um pouco o sentido e o próprio grafismo...
Publicidade e banda desenhada - eis a “parábola” profeticamente aqui contida.
E passemos aos tempos modernos, pós-Revolução de Abril.
António Martinó de Azevedo Coutinho