Novelas Im(prováveis) - Avelino Bento
Ex. Sr. Prof. Dr. João Emílio
Alves
Ex.ª Sr.ª Vereadora Eng. Lurdes
Porto
Ex. Sr. Dr. Adriano Bailadeira
Meu Caro Prof. Dr. Avelino Bento,
Vivemos o momento da apresentação
da última obra de Avelino Bento, professor jubilado desta Casa.
A anterior «Trilogias poéticas»
segue «Quarent’ (Ena mais Poemas!)», e agora nesta obra Avelino Bento volta ao
conto. Recorde-se a belíssima série de contos «Os últimos putos neo-realistas»,
memórias de uma infância feliz à beira-rio, assim como «A geração que quis ser
feliz», retrato-novela também de memórias mas agora da guerra de África, onde
esteve presente.
Mas foi com «No rio… onde começa o
mar», que a sua poesia é pela primeira vez tornada acessível ao grande público,
criando aí leitores para as obras que se seguiram, seja poesia, novela ou
conto.
Fora destas temáticas, Avelino
Bento publicou em 2003 «Teatro e animação: outros percursos do desenvolvimento
sócio-cultural no Alto Alentejo», obra de uma dimensão transversal e
multidisciplinar, primeiro passo no estudo contextualizado do teatro e animação
sócio-cultural com reflexos nas dinâmicas culturais locais instituídas ou a
instituir.
Seguiu-se «O meu blog deu-me o
mundo – Antologia de textos sobre Cultura, Educação, Arte e Animação.
Tributos», Instituto Politécnico de Portalegre, 2010.
O livro agora apresentado
intitula-se «Três Novelas (Im)prováveis» e é constituído por novelas de amor,
«A Balada para Yulipa Azarova», «Paredes comuns / Paredes meias» e «Abusados / Abusadores».
Estas histórias ou estórias que o
Autor apresenta em «três novelas (im) prováveis», onde o amor é peça central,
têm uma escrita próxima dos romances camilianos. Curtos, escorreitos, num
português vivo, trazendo temáticas da vida real, e onde aquela frase-feita
“viveram felizes para sempre” é uma quimera.
Todavia, será o amor tema
reservado aos romancistas e aos poetas? Romeu e Julieta, Werther e Charlotte,
foram imortalizados por Shakespeare e Goethe. Para Werther a vida só teria
sentido junto à sua amada Charlotte, Julieta e Romeu vivem um amor que só a
morte separará.
Não se pode duvidar da realidade
do amor e da sua importância. Ele é imanente a todo o ser humano.
Quem não conhece os amores de
Pedro e Inês, D. Pedro I e D. Inês de Castro, que inspiraram Henry de
Montherlant na sua obra «La Reine Morte»? Inês, ‘aquela que depois de morta foi
rainha’.
E «A Ceia dos Cardeais», tão
esquecida quanto bela, onde pela pena de Júlio Dantas, o espanhol cardeal Rufo,
o francês cardeal de Montmorency e o português cardeal Gonzaga falam do seu
grande amor. Longe da mocidade de outrora, lembram o grande amor das suas já
longas vidas.
Lembrando Camilo Castelo Branco,
Avelino Bento faz sair dos prelos mais uma obra, não de poesia, não de conto,
mas constituída por três novelas de amor, «A Balada para Yulipa Azarova»,
«Paredes comuns / Paredes meias» e «Abusados / Abusadores».
Amores infelizes, trágicos,
impossíveis, contrariados, enchem páginas de vasta obra de Camilo. Os seus
amores não foram fáceis, tal como a própria vida. Essa conjunção reflectiu-se
na obra literária. Mas tal facto fez com que a sua escrita percorresse o tempo
sem perder vida e actualidade, muito pelo contrário. Camilo é contemporâneo,
eterno.
É desses amores camilianos que
Avelino Bento trata, de uma forma que comove mas que também deixa interrogações
sobre a natureza humana das personagens, pessoas comuns mas com histórias de
vida que deixaram marcas.
Na primeira novela é o desencontro
que caminha ao longo do enredo, muito bem construído e com um final agridoce,
onde o sentimento do amor, e também do amor filial, permanece e é perene.
A segunda trata de um amor juvenil
que a distância e a circunstância separam. O reencontro é agradável, mas a crua
realidade impõe-se, ficando uma saudade que o afastamento não irá apagar.
A terceira novela é a mais curta,
mas a mais intensa. Trata de um amor que começa por ser apenas prazer, mas que
com os anos se torna em puro terror. O fim é forte, ficando uma sensação de
angústia e de alívio, simultaneamente.
As três formas de amor que as
novelas de Avelino Bento apresentam não são de felicidade pura, muito menos a
última onde ela nunca esteve presente. O Autor tem uma sensibilidade muito
própria, que se reflecte principalmente na sua obra poética.
Também é um excelente contador de
histórias. Nesta novelística, que é a obra presente, retracta a realidade da
vida e do amor, que não é um “conto de fadas”, mas é aquele amor nunca
esquecido, que deixa marcas profundas no ser.
Talvez por isso não é fácil amar,
mas quando se ama, esse sentimento perdura eternamente. O amor incondicional, o
amor romântico, o amor platónico, o amor físico, o amor místico, todas
diferentes formas de amar, transportam o ser para formas sublimes de
consciência e de prazer.
Stendhal fala no amor-paixão, no
amor-gosto, no amor-físico e no amor-vaidade. Do primeiro refere o de soror
Mariana Alcoforado e o de Heloísa e Abelardo. O segundo encontra-se em memórias
e romances daquele Paris da segunda metade de mil e setecentos, lembrando
Charles Duclos ou Louise d’Épinay. O terceiro é seco e infeliz. Quanto ao
último, algumas vezes existe amor-físico, mas nem sempre, porque muitas vezes
nem sequer há prazer físico.
O amor vive-se, sente-se. Aqueles
que por uma vez tiveram o privilégio de amar, de ter um grande amor, como o de
Romeu e Julieta, de Pedro e Inês, ao lerem esta obra de Avelino Bento,
sentirão, por certo, esse ‘fogo’ que um dia os fez sentir aquela felicidade
eterna, guardada para sempre na memória.
Avelino Bento é um Homem de
Cultura, um Académico ligado às Artes, com uma vivência do Mundo
extraordinária. Ao enveredar agora pela novela, mostra a sua polivalência na
escrita.
Com esta obra quis também deixar
um testemunho das suas viagens e dos lugares que conheceu e que amou. Évora e
Canadá estão reiteradamente presentes no seu imaginário, seja poético, ou de
prosa. Crente, com forte formação ideológica, deixa sempre viva essa marca na
sua cada vez mais vasta obra. E jamais esquece o Teatro e a Dança, tal como as
suas raízes da beira-rio, aquele Trancão que o encanta e comove.
O Autor lembra que neste livro
aborda flagelos presentes no presente, como a violência doméstica ou a
pedofilia.
Como escreve, «entre paisagens
bucólicas, ambientes domésticos e memórias persistentes, estas três narrativas
interrogam os limites da humanidade e convinda o Leitor a reflectir sobre as
marcas que o amor deixa nas vidas e nas gerações.»
«Três Novelas (Im)prováveis» prova
a importância de se conhecer o Autor. Ler Avelino Bento enriquece.
Auditório
da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais
Portalegre,
16 de Maio de 2026
Mário Casa Nova Martins
















































