\ A VOZ PORTALEGRENSE

sexta-feira, maio 06, 2022

Desabafos 20221-2022 - XVI

No distrito de Portalegre, o CDS teve a sua sede distrital na Rua do Arco em Portalegre. Mais tarde, a mesma sede distrital passou, na mesma cidade, para a Rua Diogo Fonseca Achaiolli.

Hoje o CDS já não tem sede distrital no distrito de Portalegre.

Essa sede distrital também era a sede da concelhia de Portalegre.

A crise política do CDS, que passa fundamentalmente pela sua ausência no Parlamento, só veio agravar a sua situação económica que era de pré-falência económica e financeira.

Razões há muitas para explicar esta situação. Contudo, as duas últimas presidências, Assumpção Cristas e Francisco Rodrigues dos Santos, conduziram aceleradamente o CDS para a falência económico-financeira e política.

Mas é o ultimo consulado que ditou a situação presente.

E no distrito de Portalegre, os resultados das últimas legislativas foram terríveis.

Mas o descaramento é tal, que agora publicamente atacam o actual presidente, Nuno Melo, esquecendo-se que sempre que tiveram lugares de direcção, concelhia ou distrital, conduziram o CDS à insignificância eleitoral.

Quem agora vem com ‘lágrimas de crocodilo’ perorar sobre o actual CDS, não tem moral política para dizer seja o que for contra Nuno Melo.

Mário Casa Nova Martins

2 de Maio de 2022

Rádio Portalegre

Desabafos 2021/2022 - XV

Seis anos em política é quase uma ‘eternidade’. Seis anos de governo, aos quais se juntarão mais quatro e meio, o que serão em termos de política? Quiçá, mais de uma década perdida neste Portugal de cariz e matriz socialista, no qual quanto mais o Povo empobrece, mais força tem o PS!

Parece um paradoxo, mas é a crua realidade.

Que balanço, em termos de recordes, destes últimos seis anos de Socialismo?

O governo socialista liderado por António Costa bateu o recorde de governo mais extenso deste regime. É recordista da carga fiscal e da receita de impostos sobre os combustíveis. Detém o recorde de Portugueses sem médico de família, um milhão e duzentos mil em Janeiro de 2022 É recordista de cirurgias em atraso, duzentos mil portugueses esperam uma intervenção. Alcançou uma elevadíssima taxa de desemprego jovem, que estava em 20% em Janeiro deste ano.

António Costa é o chefe de governo que viu mais países europeus ultrapassarem Portugal durante os seus mandatos, até ver quatro, mas em vias de serem cinco, com a ultrapassagem da Roménia.

E quanto ao futuro da política interna, Saúde, Justiça, Educação, sem perspectivas de melhoria, bem pelo contrário.

Na economia, uma inflação a galopar. A tributação indirecta vai aumentar. No IRC Portugal passa a ter as mais altas taxas da Europa. No IRS Portugal passa a ser o país da União Europeia com mais escalões.

Em suma, cada dia que passa, o Portugal socialista caminha alegremente para a cauda da Europa.

Como se comprova pelos resultados das últimas eleições legislativas, quanto mais Portugal empobrece, mais força tem o PS!

Mário Casa Nova Martins

18 de Abril de 2022

Rádio Portalegre

Desabafos 2021/2022 - XIV

“Segundo estimativas do Eurostat, Portugal foi ultrapassado por duas economias de leste em 2021. Em apenas seis anos a economia portuguesa recuou três lugares.”

Compreende-se que os seis anos referidos correspondem ao governo do Partido Socialista. Em vinte e sete países, Portugal está em 21.º.

Com o Socialismo, Portugal ficou mais pobre face aos países da União Europeia!

E que não haja dúvida que daqui a quatro anos, final de dez anos de governação do Partido Socialista, Portugal estará no fim da lista dos actuais vinte e sete estados-membros da União Europeia, em termos de PIB per-capita em paridade de poder de compra.

O Socialismo não cria riqueza. O Socialismo empobrece os Povos, empobrece as Nações. Portugal é hoje um país com uma economia de tipo socialista, onde o Estado controla a economia. Vive-se um estado de subsidiodependência face ao próprio Estado. O Estado criou uma clientela, que apoia através de subsídios, deixando-a dependente dele. O Estado sufoca a sociedade civil com impostos e taxas.

Cada vez mais o Estado controla a vida das pessoas, da escola, das empresas, da sociedade.

Vive-se um tempo Orwelliano, fruto da praxis do Socialismo.

Mas em eleições livres o Povo português votou no Socialismo, pelo que não se pode queixar da vil e apagada pobreza em que vive.

As bancarrotas desta Terceira República foram provocadas por governos do Partido Socialista. E o Povo ‘perdoa’ e volta a votar no Socialismo!

Factos são factos, e este Portugal socialista, numa Europa em que o Socialismo foi banido em eleições também livres, é a marca de um certo ‘viver habitualmente’, que se traduz em obscurantismo e pobreza material e espiritual, fruto de quase meio século de Socialismo.

Mário Casa Nova Martins

4 de Abril de 2022

Rádio Portalegre

segunda-feira, março 28, 2022

Desabafos 2021/2022 - XIII

Na passada semana, o céu português cobriu-se de uma cor alaranjada, motivado, segundo os cientistas, por poeira vinda do deserto do Saara.

Este fenómeno de meteorologia é cíclico, tal como o tempo.

A cor do céu fazia lembrar a do planeta Arrakis, na mais recente transposição para o cinema por Denis Villeneuve, da intemporal obra «Dune» de Frank Herbert, escrita em 1965.

Arrakis, conhecido como Duna pelos fremen, e chamado de Rakis após a queda do Imperador-Deus, era um planeta desértico localizado na extremidade do Imperium no sistema estelar Canopus. Mais tarde, tornou-se o centro do Imperium sob o governo de Paul Atreides. Foi a fonte original e por muito tempo a única fonte da especiaria melange, vital para viagens espaciais.

Esta versão tem duas partes, a primeira saiu em 2021 e a segunda virá em 2023.

Existe uma versão anterior, «Dune», realizada por David Lynch em 1984. Esta, na altura não foi compreendida, mas hoje é um filme de culto.

A história principal é a guerra, não pelo controlo da produção da especiaria, mas uma guerra de traição por parte do Imperador para com a Casa Atreides, na pessoa do filho do duque Luke Atreides, Paul.

Uma história que explora as complexas interacções entre política, religião, ecologia, tecnologia e escolhas e consequências em alicerce às emoções humanas.

Estando hoje a Europa em guerra, provocada pela tentação do domínio global do planeta, na sua vertente económica, ler esta obra magistral de ficção científica, e ou ver as suas versões cinematográficas, ajuda a perceber que a evolução da Humanidade nunca foi linear.

Mário Casa Nova Martins

21 de Março de 2022

Rádio Portalegre

quinta-feira, março 10, 2022

Jaime Nogueira Pinto - A guerra das ideologias e a ideologia da guerra

A guerra das ideologias e a ideologia da guerra

Putin diz que invadiu a Ucrânia para a “desnazificar”. Os ucranianos comparam Putin a Hitler. Não será certamente ideológica a razão da guerra.

Putin, profusamente caricaturado como Hitler, usa como principal justificação ideológica para as suas “operações militares” na Ucrânia a “desmilitarização” e “desnazificação” do país, enquanto o seu ministro da Defesa convoca para Agosto “o primeiro congresso antifascista do mundo”, a realizar em Moscovo, para “unir os esforços da comunidade internacional na luta contra a ideologia do nazismo”. Por cá, o Partido Comunista Português, que endossa as raízes do conflito para o imperialismo americano, condena o líder russo, não pelas suas “desnazificantes operações militares” em Estado alheio, mas pelo facto de o actual inquilino do Kremlin criticar o “grande Lenine”, acusando-o de ter inventado a moderna Ucrânia independente.

Reductio ad Hitlerum

É sintomático que o nacionalista autoritário Putin, ao procurar uma narrativa legitimadora para uma guerra decorrente de razões securitárias, de Realpolitik, não resista ao Reductio ad Hitlerum ou Reduction ad Nazium dos dirigentes ucranianos.

Quem cunhou a expressão em 1951 foi Leo Strauss, um original pensador conservador nascido na Alemanha, judeu emigrado e naturalizado americano por causa de Hitler. Para Strauss, havia que evitar a falácia de substituir o reductio ad absurdum por um então cada vez mais frequente reductio ad hitlerum, que remetia uma opinião, qualquer que fosse, para o inapelável reino do inadmissível e do indiscutível pelo simples facto de ter sido partilhada por Hitler. Strauss sabia bem de quem falava e do que falava; hoje, mesmo para quem não sabe de quem fala ou do que fala, os “maus” de qualquer fita são, por inerência, “hitlerianos” – até para poderem corresponder à encarnação do mal absoluto que o maniqueísmo das guerras exige. Só sendo hitlerianos, nazis ou fascistas, podem isentar-se da raça humana e passar a ser Unmensch (como outrora os judeus para Hitler), logo, legitimamente elimináveis. Talvez por isso, no actual conflito, os contendores de um e de outro lado se acusem mutuamente de nazismo, fascismo e hitlerismo.

Assim, Putin que, como “o mau” desta fita tem vindo a ser insistentemente comparado com Hitler, devolve a acusação às milícias ucranianas mais radicais, como o chamado Batalhão Azov, símbolo supremo da nazificação de uma Ucrânia que urge “desnazificar”. De facto, e como que corroborando a tese de Putin, Cora Engelbrecht, em “Far-right militias in Europe plan to confront Russian forces” (New York Times 25-02-20202), cita o site Intelligence Group para noticiar que o Batalhão Azov convidou voluntários estrangeiros para se juntarem às forças ucranianas no combate aos invasores russos, e que líderes dessas milícias de extrema-direita, em França e na Finlândia, fizeram apelos à mobilização dos seus simpatizantes.

Entretanto, os principais partidos europeus da direita nacionalista, como o Rassemblement Nacional, de Marine Le Pen, e o Vox de Santiago Abascal, mostram-se críticos de Putin, com Giorgia Meloni, dos Fratelli d’Italia, a solidarizar-se inequivocamente com o Ocidente e a Ucrânia na conferência conservadora de Miami. E o mesmo fizeram quase todos os conservadores “iliberais”, encabeçados pela “iliberal” Polónia, de portas e braços abertos aos refugiados.

Talvez por isso o presidente Zelensky, no seu apelo internacionalista a voluntários para defender a Ucrânia, evite linhas vermelhas ideológicas. Ao contrário, os organizadores da manifestação pró-Ucrânia em Lisboa convidaram o Partido Comunista Português, que votou contra a Ucrânia no Parlamento Europeu, e o Bloco de Esquerda, que se absteve, e não convidaram o CHEGA, que apoiou Kiev. Ou seja, como estava decidido que era Putin o nazi-fascista, convocavam-se os anti-fascistas do costume.

Ideologia e realidade

Todo este delirante folclore ideológico vem lembrar-nos, não só que todas as guerras precisam de bons e de maus – e de maus que sejam a própria encarnação do mal –, mas também que o centro do conflito aqui não é ideológico mas nacional e geopolítico. A Rússia sentiu-se ameaçada por uma Ucrânia que podia servir de base a um ataque “ocidental” ao seu Heartland; e a Ucrânia, incomodada pelos russos e russófilos do Donbass, que não tem tratado exemplarmente, pagou as custas do “medo” russo. E para melhor justificar a ajuda das democracias euroamericanas, proclamou a sua luta pela independência como uma luta “pela liberdade e pela democracia”. A leste, e para confundir mais ainda os alinhamentos ideológicos, os governos “iliberais” que, no passado, sofreram às mãos da Rússia e a têm por perto, juntaram-se à cruzada das democracias liberais euroamericanas, que os têm ostracizado na batalha das ideias.

É curioso como, apesar das profecias dos Fukuyama e Hariri, a nação, as fronteiras, as identidades continuam a ser a razão primeira e principal das lealdades e dos conflitos, mais do que as indispensáveis narrativas de cobertura que, de ambos os lados, distinguem os partidários do bem dos partidários do mal, como quem distingue os iluminados dos bárbaros, os fiéis dos infiéis os humanos dos sub-humanos. Talvez para os globalistas mais eufóricos identidades e fronteiras sejam águas passadas, mas a verdade é que, se a natureza humana não muda muito, a natureza dos Estados e dos povos também é capaz de não ser muito diferente. Assim, não será tanto porque evoluímos e nos tornámos mais pacíficos, racionais, tolerantes e inclusivos que hoje deixámos de recorrer mais à guerra, mas porque, muito prosaicamente, não queremos que NOS caia em cima uma super-Hiroxima. Da mesma maneira, ninguém no “Ocidente” parece importar-se muito com os povos da Ásia, da África e do Médio Oriente, vítimas de guerras e invasões de europeus, russos e americanos – talvez por estarem longe e não fazerem parte da “civilização liberal e democrática”.

As narrativas ideológicas invocadas por Putin, como a “desnazificação” e a “desmilitarização”, a par da memória do Império soviético cristalizada em certas esquerdas, tinham tudo para fazer do Presidente russo um antifascista e um pacifista de primeira ordem. Mas não. No entanto, quererá isso dizer que a sua conduta é inexplicável ou puramente maléfica? Ou que os defensores da Rússia são partidários do mal absoluto e todos os outros arautos do bem?

Ainda que as “sociedades de informação” se tenham transformado em palcos de histeria colectiva, onde quaisquer argumentos que saiam da bipolarização maniqueísta incomodam, quando não indignam, “o público”, há aqui uma distinção que não pode deixar de fazer-se: explicar as raízes de uma conduta não é defendê-la.

Explicar não é defender

George Kennan, quando escreveu o “Longo Telegrama” para explicar a Rússia e a URSS e os comunistas soviéticos e Estaline ao State Department e depois aos americanos e ao mundo, não estava a ser “russófilo” nem a defender ou justificar Estaline, a Rússia e o Comunismo. Estava a explicá-los. E, graças a ele, a Contenção funcionou. Kennan, que era inteligente, independente e prudente, anteviu, a partir da História, as possíveis consequências trágicas dos entusiasmos clintonianos e neoconservadores. Consequências que desabam agora sobre a Ucrânia.

Os actuais dirigentes do Ocidente, com raras excepções, são políticos profissionais alheios à História. Pior, acham que a História começou quando chegou a televisão e a democracia liberal. Para trás, ficaram tempos de barbárie, de opressão, de guerra, longe da Idade de Ouro que as novas máquinas e até a possibilidade científica de o homem vencer a própria morte vieram inaugurar. A história das “profecias” não cumpridas, como a de Augusto Comte, que previu que a Indústria ia acabar com a Guerra, não os comove especialmente.

A Paz ou a convivência pacífica são bens frágeis e trabalhosos que só se constroem a partir da verdade e da realidade, por mais duras e menos lisonjeiras que sejam. Por isso, se quisermos entender a História numa perspetiva de racionalidade e realismo, temos de partir do princípio de que a auto-preservação é uma regra poderosa, não só dos seres vivos, mas também dos povos, e dos povos que atingiram a comunidade política, o Estado.

A Rússia passou no último século e meio por um processo de ascensão e queda complicado e traumatizante: a derrota na guerra da Crimeia, em que se sentiu atraiçoada pelas nações cristãs, França e Grã-Bretanha, que se aliaram aos turcos contra ela; um processo revolucionário longo seguido do assassínio pela esquerda radical dos reformadores, Alexandre II e Stolipin; uma revolução e uma guerra civil sangrentas. A construção da utopia comunista transformou-a num vasto campo de concentração e num matadouro dos seus próprios filhos. A Ucrânia, então República Socialista, foi das mais barbaramente tratadas pelos Planos Económicos da Central Comunista, que lhe confiscaram as reservas alimentares para exportar e financiar a Industrialização. Foi o Holodomor.

A invasão hitleriana foi mais uma punição para a Rússia. No final, com a conquista e ocupação da Europa Oriental, veio o Império Soviético – que ampliou o seu domínio, capitalizando e explorando a ideologia comunista e esmagando impiedosamente os rebeldes (como os húngaros, em 1956). Se era o comunismo que servia a Rússia ou se era a Rússia que servia o comunismo é uma longa discussão.

De qualquer foram, a Rússia perdeu a Guerra Fria, que só foi fria por causa das armas atómicas dos dois protagonistas – Ocidente/Estados Unidos, Leste/URSS –, o Império desfez-se e seguiram-se 10 anos de profunda humilhação, nos tempos de Yeltsin. Humilhação objectiva ou subjectiva, pouco importa, importa que os russos a sentiram.

Putin, um quadro médio do Império que viu esse Império desfazer-se (e não deve ter gostado) tornou-se há vinte anos o líder supremo da Nova Rússia: melhorou a economia, investiu na renovação das Forças Armadas, e geriu com eficácia os trunfos que tinha – oil and gas e armamento. Usou a força militar na Geórgia, na Síria e na Crimeia cirurgicamente, e teve sucesso. Internamente, fez uma aliança com a Igreja Ortodoxa e, nessa linha da ortodoxia, inscreveu o nome de Deus na Constituição na reforma de 2020 e prosseguiu políticas conservadoras em relação às “causas fracturantes”, em flagrante contraste com as políticas da actual Administração americana. A Rússia é um Estado autoritário cujo Presidente concentrou em si o poder sobre o partido dominante, a Administração Pública, as Forças Armadas, a Comunicação Social. E Putin deixou bem claro aos oligarcas que podem enriquecer e gozar da riqueza mas que não podem defender ou patrocinar políticas alternativas às do Estado.

Dois Impérios

Olhando para Rússia, podemos dizer que estamos perante um “Império infeliz” e detectar nessa “infelicidade” razões, motivos ou raízes para uma percepção de injustiça e ressentimento perante a História e alguma vontade de rectificação. Bem ao contrário, os Estados Unidos foram, desde há mais de um século, um “Império feliz”; uma República imperial, como Roma, um Império invisível mas dominante, com vicissitudes, com altos e baixos, com formas de domínio de soft power, mas com múltiplas intervenções militares quando foi preciso e até quando não foi.

Depois da guerra com a Espanha, em 1898, os EUA anexaram Cuba, Porto Rico, as Filipinas, parte das Caraíbas e o Canal do Panamá. Através do “Império invisível” de Hollywood e da Banca mundial, foram hegemónicos, usando a guerra quando necessário, umas vezes bem, outras vezes mal – Coreia, Vietname, Iraque, Afeganistão. Estão agora a preparar-se para enfrentar a China, um poder ascendente, não-democrático, não euroamericano, não-cristão, oficialmente comunista mas, na prática, capitalista de direcção central. No entanto, por várias razões, os EUA estão agora internamente divididos ideologicamente. Entre os promotores da Agenda Woke e similares e os Evangélicos e os partidários do law and order, as tensões são grandes e inconciliáveis.

Nesse sentido, o conflito com a Rússia não podia vir em pior altura: Biden, apesar do silêncio complacente dos media, tem vindo a descer em popularidade, e a pandemia, que, a crer nos mesmos media, teria subitamente acabado com a saída de Donald Trump, continua a fazer estragos. A Administração americana, refém da minoria ideológica radical do Partido Democrático – aparentemente mais preocupada, no sector militar, com a discriminação dos transgender na tropa, do que com o resto –, ainda que tenha muitos académicos e alguns políticos transitados da Administração Obama, não parece especialmente focada no confronto geopolítico.

Perante esta América e o seu “imperialismo feliz” e uma Europa também em progressiva divisão ideológica e radicalização interna, uma Europa no pós-pandemia e a pagar o preço da conversão energética para “salvar o planeta”, a Rússia parece politicamente unida ou, pelo menos, unida a nível institucional.

Frente a frente

Aparentemente, Putin preparou-se para resistir às previsíveis sanções económicas ocidentais e tem o claro apoio da República Popular da China, que segue oficialmente a situação com comunicados confucianos.

Segundo o “South Asia Index”, a Rússia convidou já a República Popular da China para o grande congresso de Agosto, destinado “a combater o fascismo” – além da Índia, da Arábia Saudita, dos Emiratos Árabes, do Paquistão, do Azerbaijão, do Usbequistão e da Etiópia …

De fora do congresso anti-fascista de Putin ficará seguramente o Irão, podendo eventualmente vir a alinhar com a frente ocidental pró liberdade e democracia de Biden – ou assim nos garantiu o Presidente norte-americano no seu discurso do Estado da União do passado dia 1 de Março: “Putin may circle Kyiv with tanks, but he’ll never gain the hearts and souls of the Iranian people.” (sic)

Vivemos tempos incertos e perigosos.

É bom deixar claro que a invasão da Ucrânia pela Rússia é uma agressão condenável, acima de tudo pelo sofrimento causado a milhões de civis, apanhados no meio do conflito. Desencadear uma guerra ao abrigo implícito da chantagem pelo nuclear abre um precedente que pode ter consequências catastróficas.

Tudo indica que a Rússia tentará, nos próximos dias, obter uma vantagem no terreno, nomeadamente a sul, fechando o acesso da Ucrânia ao Mar Negro e mantendo Kiev e Khirkiv sob pressão. Isto vai traduzir-se em mais mortes, mais refugiados, mais destruições urbanas. O Presidente russo sabe também que o tempo correrá, a partir daí, contra ele, com possíveis brechas na sua frente interna – não só a nível popular como da hierarquia partidária e militar.

Zelensky vai tentar, neste período, uma escalada-envolvimento que acabe por comprometer política e militarmente a NATO, mesmo com os riscos de uma guerra nuclear – riscos que, na Europa e nos Estados Unidos, ninguém, governantes ou povo, quer correr.

https://observador.pt/opiniao/a-guerra-das-ideologias-e-a-ideologia-da-guerra/

quarta-feira, março 09, 2022

Jaime Nogueira Pinto - Filhos da Guerra Fria

Os poetas, mais que os comentadores políticos, têm às vezes um sexto ou sétimo sentido que adivinha o tempo que vem. Sarhiy Zhadan é um poeta ucraniano, nascido em Starobilsk, no Lugansk (agora república separatista), autor de Catálogo de Barcos, um livro cujos poemas espelham um clima de tensão e guerra que parece profetizar as imagens das cidades da Ucrânia invadida que agora nos entram em casa. Zhadan parte da Ilíada, do mítico Catálogo dos Barcos da expedição contra Troia, mas não é de Troia que fala:

“Então vou falar disto

Do olho verde de um demónio no céu colorido

Um olho que espreita do lado de fora do sono de uma criança.”

“Ucrânia Oriental, no fim do Segundo Milénio

O mundo transborda de música e fogo

Peixes voadores e animais que cantam vozeiam na escuridão

Entretanto, quase todos os que aqui se casaram morreram

Entretanto, os pais da gente da minha cidade morreram

Entretanto, muitos heróis morreram.”

Foi este o tempo que chegou à Ucrânia na quinta-feira de manhã, quando os mísseis e a artilharia russa bombardearam as bases militares e as cidades, e os tanques entraram, à desfilada, em eixos de invasão que cortam o país a meio, de Norte a Sul. E com os mísseis e os tanques chegam as imagens das tragédias e dos desastres da guerra que, quem a eles foi poupado, se habituou a ver em Bruegel, em Goya ou em filmes e documentários: gente que sofre, gente que foge, gente que leva crianças pela mão, gente que morre para vir depois a engrossar a lista das “vítimas colaterais”.

O grande irmão americano

Segundo o Politico, os rumores do ataque iminente chegaram a Washington em primeira mão. O Presidente Biden disse aos aliados europeus que Putin atacaria a 16 de Fevereiro e deu instruções aos americanos na Ucrânia para abandonarem o país o mais depressa possível. Nos dias seguintes, os jornais e televisões do outro lado do Atlântico foram repetindo os avisos, com Biden a insistir que os russos não brincavam e que iam mesmo atacar; e que, em caso de ataque, a América não lutaria contra a Rússia, mas imporia sanções.

O modo como o Presidente dos Estados Unidos foi sucessivamente anunciando datas para uma invasão russa da Ucrânia lembra os pueris “Não és homem, não és nada …” dos tempos em que parecia mal não ser “homem” e se esperava que o acicatado, ofendido na sua masculinidade e sem olhar a consequências, provasse desvairadamente que o era. E quanto mais provocável, belicoso e suscetível de perder a cabeça fosse o desafiado, melhor (ou pior). Muitas vezes, o provocador, o que dizia “Não és homem não és nada”, era também o que, aparentemente preparado para uma luta em que não fazia tenção de se arriscar, pedia aos que o rodeavam: “Agarrem-me que eu vou-me a ele”.

O trágico resultado ficou à vista na quinta-feira, 24 de fevereiro.

A insistência e o ruído da “informação programada”, numa escalada com velhos processos de desinformação de parte a parte, serviu para alimentar um clima de suspeição e desafio que contribuiu para que o Presidente russo ficasse na confortável alternativa diabólica de “invadir ou perder a face”. E como o Presidente russo é um “artista”, tratou de reconhecer as “repúblicas” de Donetsk e Lugansk, na região do Donbass, arranjando um pretexto e deixando ao “Ocidente” o ónus da resposta. E a resposta veio em coro de Washington e das capitais europeias: haveria retaliações económicas, mas o uso de força armada estava fora de questão. Moscovo interpretou a mensagem como um sinal verde, ou, quando muito, amarelo, e sentiu-se confiante para avançar.

Embora a História nos ensine que há sempre o risco de que a razão – e até o interesse próprio – fiquem esquecidos em processos de escalada e jogadas de prestígio, hoje, com armas nucleares, uma guerra global seria totalmente irracional.  As declarações euro-americanas de que a NATO não iria intervir militarmente vêm também nesse sentido – mas talvez fosse melhor que não tivessem sido tão veementemente declaradas.

Conhece o teu inimigo

Em 1815, no Congresso de Viena, os vencedores da guerra contra o Império napoleónico tiveram o cuidado de não humilhar a França, de fazer de conta que a Revolução e Napoleão eram os únicos culpados dos 25 anos de guerra na Europa, que esses anos de guerra e sofrimento não tinham nada a ver com o povo francês e que a restauração dos Bourbon curava as feridas passadas.

Cem anos depois, os vencedores da Grande Guerra fizeram do Tratado de Versalhes uma paz punitiva para a Alemanha e para o povo alemão, pondo a primeira pedra para o que seria a vertiginosa ascensão de Adolf Hitler.

Em 1945, as políticas seguidas com a Alemanha e o Japão vencidos foram diferentes. A Alemanha ficou dividida, mas como a Guerra Fria começou logo a seguir, soviéticos e ocidentais, depois dos primeiros tempos de brutal ocupação, tiveram o cuidado de tratar bem os “seus” alemães.

A vitória do Ocidente na Guerra Fria resultou da aliança de uma tríade – Reagan, Thatcher, João Paulo II – que, alimentando a resistência polaca, rearmando militarmente e usando o bluff da SDI-Guerra das Estrelas, forçou Gorbachev a “reformar” o sistema, retirando-lhe aquilo que o sustentava – o medo.

Assim, as Repúblicas Soviéticas, usando as suas constituições “independentes”, abandonaram uma estrutura que era mantida pela hegemonia do Partido Comunista e pelo sistema securitário. Porém, uma das preocupações nas negociações finais entre americanos e soviéticos foi a salvaguarda de um certo espaço livre entre as fronteiras da NATO e da Rússia.

O Presidente George H. Bush e os seus colaboradores, especialmente o Conselheiro Nacional de Segurança, general Brent Scowcroft, homens de formação realista, avessos a paixões ideológicas e conhecedores da História e da mentalidade russas, prepararam com toda a cautela o soft landing da URSS, percebendo que um Estado com semelhante poder militar e nuclear tinha de ser respeitado e bem tratado para não dar origem a fenómenos de ressentimento nacional de tipo hitleriano.

Fenómenos que não estiveram longe de vingar. No princípio dos anos 90, o líder do Partido Liberal Democrático da Rússia (PLDR), Vladimir Zhirinovski, um radical populista que prometia nos seus discursos dar “um homem a cada mulher e uma garrafa de vodka a cada homem”, lançou-se numa corrida ao poder, apelando aos sentimentos de frustração e vingança do povo russo.

O PLDR teve um certo sucesso eleitoral em 1993, o que levou ao aparecimento de outras formações semelhantes, uma das quais a do general Alexandre Lebed, que criou o movimento Pátria e Honra e ficou em terceiro lugar na eleição presidencial de 1996, ganha por Yeltsin, logo seguido pelo candidato comunista Zingarov.

Entretanto, Bill Clinton, na euforia da vitória da Guerra Fria, de que fora herdeiro e não artífice, e daquilo que então foi chamado pelos otimistas “o fim da História” (a Era em que o capitalismo e a democracia iam estender-se urbi et orbe) estimulou a avançada para Leste da NATO e da influência americana, numa espécie de grande cruzada democrática.

Mas, na América, nem todos ficaram eufóricos.

Em 1998, numa entrevista a George Friedman para o New York Times, George Kennan, o grande inspirador da estratégia de contenção dos Estados Unidos face à URSS durante a primeira Guerra Fria, foi claro no aviso, quanto à política da Administração Clinton de expansão da NATO para Leste:

“Penso que é o princípio de uma nova Guerra Fria. Os russos vão reagir, gradualmente, de modo hostil, porque esta expansão vai afetá-los. Penso que é um erro trágico. Ninguém agora ameaça ninguém. E este nosso expansionismo faria os nossos Founding Fathers revirarem-se nas sepulturas. Comprometemo-nos a proteger uma série de países, embora não tenhamos nem os recursos nem a intenção de o fazer de um modo sério. A expansão da NATO foi uma decisão tomada de ânimo leve por um Senado que não se interessa particularmente por política externa.”

Kennan acrescentava que o que mais o irritava era a manifesta “superficialidade” e “falta de informação” da discussão no Senado. Com lucidez e liberdade, o autor do “Longo Telegrama”, que tinha sido embaixador em Moscovo, lembrava que a política de expansão para Leste mostrava falta de conhecimento e compreensão da História da Rússia. Kennan estava certo de que, quando confrontados com a reação de Moscovo no futuro, os responsáveis ocidentais iriam dizer que a culpa era dos russos, que eram assim, maus e imperialistas, mas que a provocação vinha dos “ocidentais”.

Infelizmente o seu aviso não foi seguido. No mesmo sentido, mas em relação à Ucrânia, escreveu Henry Kissinger em 2014:

“O Ocidente deve perceber que, para a Rússia, a Ucrânia nunca pode ser apenas um país estrangeiro. A História da Rússia começou no que foi a chamada Rússia de Kiev. A religião russa disseminou-se dali. A Ucrânia fez parte da Rússia durante séculos e as duas histórias estiveram entrelaçadas desde então. Algumas das mais importantes batalhas pela liberdade da Rússia, a começar pela batalha de Poltava, em 1709, foram travadas em solo ucraniano. A frota do Mar Negro, o instrumento de projeção do poder russo no Mediterrâneo, está baseada, por um aluguer de longo prazo, em Sebastopol, na Ucrânia. Mesmo dissidentes famosos, como Alexandre Soljenitsin e Jozeph Brodski, insistiram que a Ucrânia é parte integrante da História da Rússia e, na verdade, da Rússia.”

“Never corner an opponnent”

Nos últimos vinte anos, as guerras da América no Médio Oriente, da invasão do Iraque à guerra do Afeganistão e sua humilhante conclusão, deviam servir de lição para presentes e futuros entusiasmos e pretextos ideológicos, sobretudo em conflitos que podem, pela primeira vez na História, envolver potências nucleares. O realismo não é de esquerda nem de direita e, neste momento, faz muita falta. Perante alguém como Putin, um jogador de xadrez, com sentido estratégico, os apelos à retórica nunca iriam contar muito. Vladimir Putin tem – ou, pelo menos, tinha – um retrato de Nicolau I na antecâmara do seu gabinete e há, por isso, quem sublinhe o seu perfil nacional-autoritário e de defensor do cristianismo ortodoxo para o comparar com o Czar que reprimiu os Dezembristas, defendeu a autocracia e foi para a guerra da Crimeia contra turcos, ingleses e franceses. É também conhecida a sua afirmação de que o desmantelamento da União Soviética foi o maior desastre geopolítico do séc XX. E apesar de a Rússia de hoje não ter nada que ver com a ideologia marxista-leninista, persiste em Putin, como noutros contemporâneos e servidores da URSS, a nostalgia do que era também um grande Império. Os dados estavam todos lá.

O pôr de parte, à cabeça, a dissuasão militar (embora não se visse na Europa nem nos Estados Unidos grande vontade popular em morrer por Kiev) foi uma espécie de garantia de imunidade. Para as sanções económicas, Putin está preparado, com a quarta maior reserva financeira do mundo, parte em ouro e uma “opinião pública”  autocraticamente controlada.

Na crise de Cuba, John Kennedy foi firme mas foi também inteligente e subtil, metendo-se na pele de Kruschev e pondo-se no lugar dos russos. No fim, trocaram-se os mísseis de Cuba pelos mísseis americanos na Turquia. Kennedy percebera bem a recomendação de B. H. Liddell Hart, outro realista e um dos grandes historiadores militares e mestres de Estratégia do século XX, sobre a atitude que um líder político na idade nuclear deveria ter; recomendação que o Presidente citaria no Saturday Review of Literature:

“Keep strong if possible. In any case, keep cool. Have unlimited patience. Never corner an opponent and always assist him to save his face. Put yourself in his shoes – so as to see the thing through his eyes. Avoid self-righteousness like the devil – nothing is so self-blinding.”

Os conselheiros do Presidente Biden deviam ter-lhe recomendado a leitura deste texto. Agora, é tarde, mas pode sempre vir a servir para o futuro.

https://observador.pt/opiniao/filhos-da-guerra-fria/

terça-feira, março 08, 2022

Desabafos 2021/2022 - XII

Vivem-se tempos conturbados na Europa, os 'tambores da guerra' ouvem-se a Leste.

Desde a chamada Guerra dos Balcãs de 1991 a 2001, onde o 'Urso' foi humilhado, que não se ouviam soar as sirenes.

Quando a Geografia e a Economia são determinantes em vez da Diplomacia, a Paz é substituída pela Guerra.

Quando os interesses Geopolíticos se sobrepõem aos Povos, a saída é a Guerra.

Quando se tenta humilhar o fraco, a cobardia é lei.

Hoje, dois factos ideológicos, motivados pela presente Guerra na Europa, rescaldo da implosão do Comunismo no Leste Europeu, marcam a actualidade política: o chamado pacifismo e o anticomunismo.

Uma onda de dito pacifismo varre a Europa, mediatizada pelas imagens televisivas, como só aconteceu nos tempos em que 'os amanhãs que cantam' pisavam a Liberdade em nome de regimes totalitários.

Na Europa, desses Totalitarismos resta a memória sangrenta, começada em 1917 e terminada em 1989. E são os 'filhos' cujos 'pais' marchavam em nome desses ‘amanhãs’ que hoje estão ao lado de imperialismos em nome de pacifismos.

É a crueza dos tempos.

Agora faz-se 'profissão de fé' no anticomunismo.

'Ontem' o mal era fascismo. 'Hoje' o mal é comunismo.

Fascismo e Comunismo, tal como Nacional-Socialismo, estão há muito no 'caixote de lixo da história'. Mas 'ressuscitam' quando convém!

Longe vai o tempo em Portuga em que quem era anticomunista era ostracizado, perseguido, insultado, agredido.

Hoje é o contrário, ser-se anticomunista é atributo de democrata.

Tempos estes!

Mário Casa Nova Martins

7 de Março de 2022

Rádio Portalegre

quarta-feira, março 02, 2022

Desabafos 202172022 - XI

Vai haver novo governo. É um governo com maioria absoluta e de um só partido.

O seu líder, na qualidade de primeiro-ministro, já foi chamado de Afonso Costa por dois radicais de esquerda, Fernando Rosas e Pacheco Pereira.

Apenas uma nota de rodapé. José Pacheco Pereira é militante do PSD, mas nunca abandonou a praxis marxista, mantendo o seu radicalismo maoista.

Chamar a António Costa de Afonso Costa, e logo por quem, Pacheco Pereira e Fernando Rosas, mostra o que aí vem.

Afonso Costa foi a figura marcante da Primeira República. É mais conhecido pelo seu anticlericalismo, de quem Fernando Rosas e Pacheco Pereira são discípulos.

Mas a acção governativa de Afonso Costa caracterizou-se pelas fases de maior intolerância do Partido Democrático. Afonso Costa e o Partido Republicano, depois Partido Democrático, fizeram do País um campo de guerra civil latente, com bombas, atentados, prisões e assassinatos.

Afonso Costa defendeu o maior radicalismo na política e é o principal responsável pelo fim da Primeira República.

Pacheco Pereira e Fernando Rosas, ébrios dos malefícios de Afonso Costa, quererão que António Costa seja o Afonso Costa desta Terceira República!

E há indícios de cinismo e prepotência no discurso do indigitado primeiro-ministro, ao defender que há partidos políticos de primeira e outros de segunda, mostrando que considera que há o voto que é ‘bom’, e o voto que é ‘mau’.

Quem já esqueceu a ameaça, que o tempo veio a provar ser real, de que “quem se mete com o PS, ‘leva’!”?

Mário Casa Nova Martins

21 de Fevereiro de 2022

Rádio Portalegre

sexta-feira, fevereiro 18, 2022

José Sócrates - Há que não esquecer!

quarta-feira, fevereiro 16, 2022

Mário Silva Freire e Faria de Vasconcelos

Faria de Vasconcelos: 

para uma aprendizagem ao longo da vida

Mário Silva Freire

Professor coordenador aposentado do Instituto Politécnico de Portalegre, perito orientador, segundo o modelo de Faria de Vasconcelos, pelo Instituto de Orientação

Introdução

Uma pessoa deve ser avaliada, fundamentalmente, pela obra que realiza. E se essa obra, depois da pessoa morta, deixa rastro, se dela permanece algo que contribuiu para a valorização do Homem, se ela inspirou novas realizações que vão no mesmo sentido, então essa obra merece ser estudada e divulgada.

Ora, Faria de Vasconcelos é um dos nomes maiores das Ciências da Educação e da Psicologia em Portugal da primeira metade do século XX. A sua obra, porém, talvez não tivesse sido tão suficientemente conhecida se não houvesse o trabalho excepcional levado a cabo pelo Professor José Ferreira Marques, ao organizar as Obras Completas de Faria de Vasconcelos. Na verdade, foi este Professor e Investigador que trabalhou a sua obra, recolhendo e ordenando cronologicamente os cerca de duzentos títulos entre livros, conferências, artigos, comunicações a congressos nacionais e internacionais. Todos os títulos foram organizados em 7 grossos volumes e publicados pela Fundação Calouste Gulbenkian. Cada volume tem, a iniciá-lo, um estudo do Professor Ferreira Marques que historia e enquadra os textos ali contidos.

Apesar da grandeza e profundidade da Obra de Faria de Vasconcelos, ele tornou-se mais conhecido no estrangeiro do que em Portugal. Basta dizer-se que o seu livro Une école nouvelle en Belgique, a sua obra de maior divulgação, editado em 1915, em Bruxelas, teve tradução em língua inglesa em 1919, em língua espanhola em 1920 e só 100 anos depois, em 2015, conheceu a tradução em língua portuguesa (Vasconcelos, 2015). Por isso, o Professor Manuel Ferreira Patrício diz na revista Seara Nova, secção Memória, que a sua participação nesta revista foi uma ocasião de “contribuir para quebrar o pesado silêncio que estranhamente caiu sobre uma figura tão grande, notável e séria de intelectual e cidadão” CITATION Pat10 \l 2070 (Patrício, 2010).

António de Sena Faria de Vasconcelos Azevedo nasceu em Castelo Branco.

Em 2019, foram celebrados nesta cidade os 80 anos do seu falecimento (Agosto de 1939) com um colóquio e o lançamento de um livro de vários autores, coordenado pelo Professor Ernesto Candeias Martins (Martins, 2019), sobre as diferentes vertentes, no âmbito da educação, que mereceram o estudo de Faria de Vasconcelos.

Este artigo tem por objectivo dar uma breve panorâmica sobre a intervenção cívica e a obra psicopedagógica, no estrangeiro e em Portugal, de Faria de Vasconcelos.

Tendo este ilustre pedagogo nascido em Março de 1880, este artigo constitui, igualmente, uma homenagem à sua memória, neste ano de 2020, 140 anos após o seu nascimento.

Faria de Vasconcelos, um pedagogo no mundo

Filho e neto de juízes, não admira que cursasse Direito, terminando-o em 1901, na Universidade de Coimbra.

Logo após o termo do curso, em 1902, já estava inscrito na Universidade Nova de Bruxelas, na Faculdade de Ciências Sociais. Dois anos lhe bastaram para terminar o doutoramento, “especializando-se em questões psicológicas e pedagógicas” (Marques, 2012, p. 1).

Entre 1904 e 1914 Faria de Vasconcelos regeu a disciplina de Psicologia e Pedagogia na Universidade onde adquiriu o seu grau académico. Entretanto, quase desde o início da sua estadia na Bélgica, envolveu-se profundamente no Movimento da Escola Nova, de que eram expoentes máximos Edouard Claparède, Adolphe Ferrière e Pièrre Bovet. Estes três grandes nomes do Movimento estavam a trabalhar no Instituto Jean-Jacques Rousseau, em Genebra (Suíça).

Dando corpo à Escola Nova, Faria de Vasconcelos cria em 1912, próximo de Bruxelas, em Bierges-Lez-Wawre, uma Escola que tinha como propósito pôr em prática o modelo definido pelo Bureau International des Écoles Nouvelles. Dos princípios em que assentou, dos objectivos que pretendeu alcançar, das actividades que desenvolveu em Bierges, nasceu o livro Une école nouvelle en Belgique. Esta foi, sem dúvida, a sua obra que maior expansão teve na altura e que ainda hoje é uma referência no panorama pedagógico internacional.

Foi membro da Comissão Executiva da Sociedade Belga de Pedotecnia.

Residindo na Bélgica, Faria de Vasconcelos não se divorciou do seu País, tendo participado no enriquecimento cultural de Portugal cuja Monarquia estava a dar os seus últimos suspiros. Assim, ele proferiu uma série de palestras na Sociedade de Geografia de Lisboa, promovidas pela Liga da Educação Nacional, as quais se destinaram a professores do Ensino Primário; elas foram, depois, compiladas e publicadas em 1909, sob a designação de Lições de Pedologia e Pedagogia Experimental.

Com o início da I Grande Guerra e com a invasão da Bélgica, termina a sua actividade quer como professor na Universidade, quer como director da Escola de Bierges. Vai, então, para a Suíça.

Neste país, Faria de Vasconcelos começa a trabalhar com Claparède, Ferrière e Bovet, no Instituto Jean-Jacques Rousseau. Profere conferências, muito especialmente sobre a Escola que fundou em Bierges, dos princípios que a orientavam e dos resultados que obteve. Daqui resultou o livro, atrás referido, editado em Genebra.

Por indicação de Ferrière às autoridades cubanas, dirige-se para Cuba.

Neste país, Faria de Vasconcelos orienta a Reforma Pedagógica de 1915, exercendo o cargo de Inspector Especial. Funda, igualmente, em Cuba, Escolas Novas, tentando repetir a experiência belga de Bierges.

Em 1917 ruma para a Bolívia, onde desenvolveu uma obra notável no âmbito das Ciências da Educação quer na formação de professores, quer como conferencista, quer como autor de artigos.

Em La Paz, na presença do Ministro da Instrução Pública, faz a conferência de inauguração do Instituto Normal Superior, como director da secção de Ciências da Educação (ibidem, p.4).

Em Sucre, onde assumiu as funções de director e professor da Escola Normal, publicou um Syllabus do Curso de Gestão e Organização das Escolas. Trata-se de um livro que comunica a informação do curso e define metas, objectivos e responsabilidades. Fez sair, ainda, na Revista Pedagógica, vários textos onde expõe as suas ideias em vários domínios da Didáctica tão díspares como a metodologia das Ciências Naturais, as inovações a introduzir no ensino dos Trabalhos Manuais ou as novas maneiras de actuar nos jardins-de-infância bolivianos.

Implica-se, também, na acção política, tendo tomado posição a favor da Bolívia, pelo facto de o Chile se ter apropriado de todo o litoral, impedindo este país, assim, de ter acesso ao mar. Esta sua posição foi tomada na Sociedade das Nações, uma organização internacional fundada em 1919, na sequência da I Guerra Mundial, onde as potências vencedoras se reuniram para negociar um acordo de paz.

Faria de Vasconcelos e a sua obra em Portugal

Nos finais de 1920, Faria de Vasconcelos regressa a Portugal, vindo da Bolívia, agora para se dedicar de corpo e alma ao seu País.

Tão vasta é a sua obra aqui publicada, que apenas se referirão aqueles títulos e actividades cujo significado se julgaram mais relevantes.

Na segunda década do século XX gerou-se em França um movimento, as Universidades Populares, tendo em vista contribuir para a educação geral do povo. Esta educação era feita através de filmes, bibliotecas e conferências. Portugal não ficou alheio a este movimento. Ora, Faria de Vasconcelos, chegado ao País, de imediato se implicou nesta Universidade, a Universidade Popular Portuguesa (U.P.P.). Esta Universidade, dizia ele num artigo de 1921, na Revista Educação Popular: A U.P.P.

“tem uma vida própria, organismo seu. O seu título é claro e preciso, é nitidamente uma obra de educação e de instrução popular. Não é um centro de estudos e de investigações científicas, mas somente um centro de difusão de conhecimentos e de cultura espiritual entre o povo.” (Vasconcelos, O que deve ser a Universidade Popular Portuguesa, 2006, p. 3)

Entre os muitos projectos que ele tinha em mente era o de uma educação para o povo. No mesmo artigo ele refere, no âmbito da Universidade Popular Portuguesa, a

“criação dum Instituto de Orientação Profissional, destinado a esclarecer os pais e os filhos na escolha da carreira mais apropriada às aptidões do indivíduo, à semelhança do que hoje se faz em todos os países cultos.” (ibidem, p.8)

Ainda no ano de 1921, surge a revista Seara Nova, em que a política, a cultura, a crítica e a educação eram temas relevantes. Nela ir-se-ia encontrar Faria de Vasconcelos, como co-fundador, ao lado de Raul Proença, Jaime Cortesão, António Sérgio e de alguns outros intelectuais que pretendiam que a intelectualidade portuguesa se aproximasse mais da realidade.

De destacar, na colaboração nesta Revista, os artigos intitulados Bases para a Solução dos Problemas da Educação Nacional que Faria de Vasconcelos escreve em 1921 e 1922. Logo no início desta rubrica ele refere que

“não basta dizer que é preciso reformar a educação e a instrução e convertê-las em funções adequadas às necessidades de toda a ordem que experimentamos (…). Importa saber em que sentido devem fazer-se as reformas e como levá-las à prática. É indispensável conhecer as condições às quais devem obedecer a sua concepção e execução (…); uma condição essencial reside na maneira de fazer as reformas, na necessidade de proceder com tino, com reserva, com verdadeiro espírito científico, evitando as aplicações em globo, as generalizações imprudentes, que resultam de um ardor ideológico, que nem sempre tomam em conta as realidades palpáveis e que tantas vezes, para acabar com o que há de mau, destroem o que há de bom.” (Vasconcelos, Bases para a soluçãodos problemas da Educação Nacional, 2006, p. 78)

Como estas ideias ainda hoje têm actualidade!

Como professor de Pedagogia da Escola Normal Superior de Lisboa, onde iniciou funções em 1921, decorre a publicação de duas obras: uma, a primeira série de Problemas Escolares, a que lhe junta uma segunda série, em 1929; a outra, Didáctica das Ciências Naturais, de 1923, era a versão portuguesa de um trabalho anteriormente publicado, em espanhol, na Bolívia e de que seria o primeiro volume, aliás o único que veio a público, de um projecto de colecção de didácticas que incluía mais 10 disciplinas.

Em 1922 apresentou-se a concurso de provas públicas, na Faculdade de Letras de Lisboa, com a dissertação Ensaio sobre a Psicologia da Intuição. Integrou, a partir desta data, o quadro docente da Faculdade, assegurando até à sua morte a regência de várias cadeiras, entre as quais, a disciplina de Psicologia Geral.

Participou com António Sérgio na proposta de lei sobre a reorganização do ensino, apresentada para discussão pública, pelo ministro João Camoesas que, aliás, também era elemento activo quer da Seara Nova, quer da Universidade Popular.

O ano de 1925 constituiu, em Portugal, um dos marcos mais importantes para a Orientação Vocacional com a criação do Instituto de Orientação Profissional (I.O.P.). Faria de Vasconcelos foi o seu fundador e primeiro director. Já antes desta data ele, em vários artigos, se tinha referido à importância da escolha de uma profissão, de como ela não deve ser fruto do acaso mas de um processo em que estariam em jogo quer as capacidades da pessoa, quer o conhecimento que ela tem das profissões, quer as características exigidas pelo exercício dessas mesmas profissões.

Vários vertentes marcaram a acção deste Instituto:

Uma, foi o estudo da Psicologia, nos seus aspectos teóricos e experimentais, aplicado à Orientação e Selecção Profissionais. Neste campo de intervenção situavam-se o intercâmbio com instituições científicas estrangeiras congéneres e os trabalhos dentro do Instituto e junto da comunidade.

As publicações do I.O.P. foram uma outra marca deixada por Faria de Vasconcelos: o Boletim do Instituto de Orientação Profissional, com artigos de natureza científica da autoria de investigadores nacionais e estrangeiros ligados a esta área e as Monografias Profissionais, com o estudo, segundo várias perspectivas, de algumas profissões. A partir de 1969, estas publicações deixaram de existir.

O Curso de Peritos Orientadores, a outra marca do Instituto, visou formar especialistas no domínio da orientação e selecção profissionais que pudessem actuar quer junto das escolas, quer das empresas. Tratava-se de um Curso presencial de dois anos lectivos a que só tinham acesso 10 candidatos por ano, médicos escolares e professores efectivos, já com a devida formação pedagógica (Curso de Ciências Pedagógicas, Estágio e Exame de Estado). A conclusão do Curso só era feita após a discussão pública de um trabalho de natureza investigativa, a realização de três monografias profissionais e a prestação de provas práticas, escritas e orais nos domínios da psicologia e da orientação e selecção profissionais. O Curso de Peritos Orientadores esteve suspenso entre 1948 e 1960. A sua reabertura, segundo o modelo criado por Faria de Vasconcelos, devido à sua extrema exigência e difícil compatibilização com o exercício profissional, durou até 1969. A partir desta data, o Instituto de Orientação Profissional afasta-se da directriz traçada pelo seu fundador e o Curso de Peritos Orientadores sofre uma alteração profunda. Alargou-se a base de recrutamento e todas aquelas provas e trabalhos por que tinha que passar o candidato a Perito Orientador deixaram de existir.

Mostrando a importância da existência do Instituto de Orientação Profissional, num escrito de 1926, um ano depois da criação deste organismo, Faria de Vasconcelos, após ter tecido considerações sobre a importância da escolha profissional e do desprezo que votavam a este tema os adolescentes, os pais e as escolas, referiu o que na época já se fazia noutros países. Assim, nos Estados Unidos, durante o período da I Guerra Mundial, já existiam instituições para dar resposta ao problema da escolha profissional; na Inglaterra, em 1910, o Education Act estabelecia a criação de comissões de orientação profissional. Indica, depois, o que se estava passando na Suíça, Holanda e Bélgica em que os principais centros populacionais eram servidos por institutos “modelares”, segundo dizia, de orientação profissional. Na Alemanha, em 1921, diz Faria de Vasconcelos, 465 institutos de orientação profissional estavam em funcionamento e na altura em que escrevia o texto (1926) o seu número estava a aproximar-se do dobro. Quanto à França, tinha sido criada uma direcção de serviços de orientação profissional e que nas principais cidades francesas já funcionavam institutos de orientação profissional. Quanto à Espanha, referiu a existência de um instituto “modelar” de orientação profissional em Barcelona. (Vasconcelos, O Instituto de Orientação Profissional "Maria Luísa Barbosa de Carvalho", 2009, pp. 5-15)

Faria de Vasconcelos não descansa. E assim, a partir de 1925, no mesmo ano em que funda o I. O.P., acumula com a direcção da Revista Escolar. Esta publicação foi fundada em 1921 e, inicialmente, destinava-se aos professores do ensino primário. Faria de Vasconcelos amplia-lhe o seu âmbito e procura apresentar ideias e experiências pedagógicas feitas no mundo. Assim, para além da temática da orientação profissional, ele vai escrevendo sobre muitos outros temas como a leitura silenciosa, o self-government na escola, os trabalhos manuais…, até 1932.

Em comunicação apresentada em 1931, numa reunião da Associação Internacional para a Protecção da Infância, que decorreu em Lisboa, ele representou o Instituto de Reeducação Mental e Pedagógica, fundado no ano anterior. Ora, ele verificou que haveria, na altura, entre a população escolar, cerca de 30-40% de crianças com défices em várias áreas do desenvolvimento, e que estes se deviam quer a dificuldades de memória, atenção, vontade, linguagem, etc., quer por não compreenderem o que estudavam nem progredirem, não “por defeito de desenvolvimento mental” mas pela maneira como aprendiam. Por isso, ele diz nessa comunicação que

“Le but de l’Institut consiste precisément dans la réeducation mentale et pédagogique de ces enfants, de façon à leur permettre soit récuperer leurs conditions normales, soit d’atteindre le maximum du développement dont ils sont susceptibles.” (Vasconcelos, Monographie de L'Institut de Reéducation Mentale et Pédagogique, 2009, p. 437).

Embora, segundo as palavras de Faria de Vasconcelos, este Instituto se apresentasse como uma instituição cheia de futuro, o seu tempo de existência foi efémero.

Como atrás já foi referido, na sequência das suas lições como professor da Escola Normal Superior de Lisboa, Faria de Vasconcelos publicou um trabalho designado por Problemas Escolares. Nesta obra, incluindo material já publicado na 1ª e na 2ª série, o autor reorganiza-o, junta-lhe outro, seja artigos publicados entre 1921 e 1933, seja o proferido em conferências. E assim nasceu, em 1934, a obra Problemas Escolares, em 2ª edição (Vasconcelos, Problemas escolares - 2ª ed., 2010, pp. 1-271).

Este trabalho constitui um dos pilares do pensamento pedagógico de Faria de Vasconcelos. Ele compõe-se por 5 partes: Filosofia da Educação; Educação Física e Higiene; Educação Manual; Educação Intelectual; Educação Artística, Moral e Social. As partes estão organizadas por vários capítulos cujos conteúdos explicitam os princípios, os métodos e os processos de cada uma delas.

Um outro grande empreendimento pedagógico em que Faria de Vasconcelos se empenhou foi o da chamada Biblioteca de Cultura Pedagógica (Vasconcelos, Biblioteca de Cultura Pedagógica, 2010, pp. 273-918 (vol.V) e pp. 1-478 (vol.VI)). Trata-se de uma obra que contém 15 capítulos, publicados entre 1933 e 1939, num total de 1123 páginas. Ela está organizada em torno de sete campos temáticos, a saber: Biologia Aplicada, Didáctica, Escolas Novas, Orientação Profissional, Pedagogia, Psicologia Aplicada e Sociologia Aplicada.

A Biblioteca de Cultura Pedagógica constitui o outro pilar estruturante, a par dos Problemas Escolares, do pensamento pedagógico de Faria de Vasconcelos.

Outros temas, fora do âmbito da Pedagogia e da Psicologia, foram abordados pelo Autor, tais como Filosofia, Biografia, Ficção…

Conclusão

O nome de Faria de Vasconcelos, apesar de em 2019 lhe ter sido feita uma homenagem na sua terra natal, e de estar prevista a publicação de mais um conjunto de estudos relacionados com este pedagogo em 2020, parece, ainda, não ter a notoriedade que mereceria.

Faria de Vasconcelos, para além de um estudioso, ele foi um dos pioneiros, a nível mundial, do Movimento da Escola Nova, com a sua escola de Bierges, na Bélgica, pondo em prática os princípios daquele Movimento.

Ele andou por terras latino-americanas, desempenhando vários cargos de política educacional, tendo levado àqueles povos o gérmen de uma nova maneira de aprender e de ensinar. Faria de Vasconcelos fez, ainda, a defesa dos direitos do povo boliviano, no âmbito do direito internacional da Sociedade das Nações.

Os seus trabalhos atravessam todas as fases da vida, desde a educação para a infância até à sua participação activa na difusão da cultura entre o povo. Mas Faria de Vasconcelos, com a criação do Instituto de Orientação Profissional, tornou-se o introdutor da orientação vocacional em Portugal.

Se ainda hoje muitas das suas ideias de vanguarda não foram cumpridas, outras continuam a ter plena actualidade.

Faria de Vasconcelos morreu com 59 anos de idade. Foi uma vida curta no tempo mas rica na participação cívica e na variedade e profundidade dos temas que estudou.

Bibliografia

_ Marques, J. F. (2012). Faria de Vasconcelos e as suas obras de psicologia e de ciências de educação. Lisboa: Academia das Ciências.

_ Martins, E. C. (2019). António S. Faria de Vasconcelos - Nos meandros do Movimento da Escola Nova: pioneiro da educação do futuro. Castelo Branco: Câmara Municipal de Castelo Branco.

_ Patrício, M. F. (2010). A Seara Nova no itinerário pedagógico de Faria de Vasconcelos. Seara Nova, Secção Memória, 1712.

_ Vasconcelos, F. d. (2006). Bases para a soluçãodos problemas da Educação Nacional. In J. F. Marques, Obras Completas de Faria de Vasconcelos (1921-1925) (Vol. III). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

_ Vasconcelos, F. d. (2006). O que deve ser a Universidade Popular Portuguesa. In J. F. Marques, Obras Completas de Faria de Vasconcelos (1921- 1925) (Vol. III). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

_ Vasconcelos, F. d. (2009). Monographie de L'Institut de Reéducation Mentale et Pédagogique. In J. F. Marques, Obras Completas de Faria de Vasconcelos (1925-1933) (Vol. IV). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

_ Vasconcelos, F. d. (2009). O Instituto de Orientação Profissional "Maria Luísa Barbosa de Carvalho". In J. F. Marques, Obras Completas de Faria de Vasconcelos (1925-1933) (Vol. IV). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

_ Vasconcelos, F. d. (2010). Biblioteca de Cultura Pedagógica. In J. F. Marques, Obras Completas de Faria de Vasconcelos (1936-1939) (Vol. VI). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

_ Vasconcelos, F. d. (2010). Biblioteca de Cultura Pedagógica. In J. F. Marques, Obras Completas de Faria de Vasconcelos (1933-1935) (Vol. V). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

_ Vasconcelos, F. d. (2010). Problemas escolares - 2ª ed. In J. F. Marques, Obras Completas de Faria de Vasconcelos (1933-1935) (Vol. V). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

_ Vasconcelos, F. d. (2015). Uma Escola Nova na Bélgica (Vols. Prefácio de Adolphe Ferrière; posfácio e notas de Carlos Meireles-Coelho). (A. C. Carlos Meireles-Coelho, Trad.) Aveiro: Universidade de Aveiro.

segunda-feira, fevereiro 14, 2022

"Donos disto tudo" - Jaime Nogueira Pinto

O que distingue uma democracia liberal de outros regimes é aceitar, na competição legal pelo poder, todos os partidos votados pelos cidadãos. Mesmo os iliberais.

O regime ou sistema democrático não é uma espécie de religião laica, com a transferência directa da infalibilidade do Deus do Ancien Règime – que pela Sua graça tornava sagradas as dinastias – para o conjunto dos cidadãos eleitores. É uma forma de governo que procura um modelo consensual, pacífico e ordeiro de institucionalizar a escolha dos representantes de uma comunidade nacional, de um povo.

A sua legitimidade não vem, assim, de uma qualquer superioridade ético-política, mágica ou misteriosa, de conteúdo revolucionário ou conservador; vem do facto de se socorrer de um processo histórico que, alicerçado na aceitação de determinadas regras de jogo e com base em princípios de liberdade de opinião e de respeito pela opinião dos outros, procura tornar governável o Estado. Como as opiniões são diferentes – excepto quanto à aceitação da prevalência da opinião maioritária – não pode haver descriminação de opiniões.

Os valores políticos, as normas de orientação colectiva, as regras sobre o público e o privado, o respeito pela vida, os usos e costumes permitidos ou punidos – são a expressão dos programas ou projectos políticos que os partidos admitidos a concurso, dentro da Constituição, propõem ou põem em discussão e levam a votos. Querer pôr este princípio em questão, é pôr em questão o regime democrático, é viciar o jogo, desencorajar a participação e corromper o sistema.

Vem isto a propósito da indignação, real ou simulada, em painéis de debate e discussão televisivos, contra um partido-pária que ousou apresentar como lema “Deus, Pátria, Família e Trabalho” – coisas, aparentemente, malditas, escandalosas e proscritas, por terem sido já o apanágio do “fascismo” doméstico do Estado Novo de Salazar.

Sobre a inutilidade da História das Ideias Políticas

A discussão sobre o “fascismo” do Estado Novo é uma discussão que não vale muito a pena ter, num caldo político, intelectual e social em que, por resignação, ignorância ou táctica, se aceita a palavra como sinónimo do antigo regime ou se esgrime como insulto indiferenciado.

De qualquer forma, o Manuel Lucena, que dava importância a coisas como a História das Ideias Políticas, tinha um argumento interessante e importante sobre o assunto, que talvez valha a pena aqui repetir: o Estado Novo tinha aspectos do fascismo-regime mas pouco ou nada tinha que ver com o fascismo-ideologia nem com o fascismo-movimento, até porque nascera da Ditadura Militar, e não de um movimento político revolucionário que disputara o poder nas ruas com comunistas e socialistas, fazendo depois da Marcha Sobre Roma um pacto com as forças conservadoras da sociedade italiana.

O Estado Novo resultara, primeiro, do fracasso dos seus antecessores, que tinham imposto um jugo oligárquico de 16 anos num quadro teoricamente liberal e “democrático”, mas que a violência tornara monopolista; depois, de uma vaga europeia autoritária, condicionada pela ameaça comunista; finalmente, de um contrato entre os militares, sem projecto político próprio, com Salazar, que tinha um projecto político. Há pontos comuns entre o projecto salazarista e o fascismo – o nacionalismo, o anti-parlamentarismo, o autoritarismo –, mas o fascismo (apesar da Concordata de Latrão) tinha um espírito nietzschiano, pagão, e era estatocrático, sendo o Partido, o PNF, um elemento essencial no poder e do poder. Bem ao contrário, o salazarismo era nacional-conservador e social-católico. Não pretendia, pela política, mudar a sociedade, mas antes mantê-la como estava. Pertencia à direita conservadora, enquanto o fascismo pertencia à direita revolucionária. Os fascistas – e Mussolini em particular – queriam, pelo menos ideológica e idealmente, “viver perigosamente”; Salazar queria que os portugueses vivessem habitualmente.

Assim também a União Nacional, ainda que fosse a única organização de cariz político permitida no Estado Novo, funcionava como uma mera plataforma para a selecção e apresentação de candidatos à Assembleia Nacional; era uma organização que, como tal, não riscava quase nada nas decisões políticas e à qual os ministros não tinham de pertencer. Ver o Estado Novo como um regime totalitário de partido único – como o hitlerismo, o fascismo italiano ou o comunismo soviético – é não ver ou falsear a realidade.

Deus, Pátria, Família, Liberdade, Igualdade, Fraternidade

“Deus, Pátria, Liberdade e Família” é uma divisa de Afonso Augusto Moreira Pena, o 6º Presidente do Brasil, entre 1906 e 1909. Pena era natural de Minas Gerais e distinguiu-se no movimento abolicionista. Foi várias vezes ministro durante o Império e um dos introdutores na República de um certo espírito tecnocrático e industrialista. Não terá sido propriamente um fascista, ou sequer um proto-fascista.

“Deus, Pátria, Liberdade e Família”, na versão de Pena, “Deus, Pátria e Família”, na versão salazarista, ou “Deus, Pátria, Família e Trabalho” na versão de André Ventura, são enunciados de valores políticos, nacionais e conservadores que, com esta enumeração ou outra, estão presentes na maioria dos ideários conservadores europeus e euroamericanos. Estes e outros valores proclamados – tais como Liberdade, Igualdade e Fraternidade ou Laicismo, Humanidade, Progresso, Socialismo (que têm uma bem mais longa e sangrenta história totalitária e de manipulação) – tanto podem ser defendidos autoritariamente, em ditadura, como podem ser defendidos democraticamente, em democracia.

Quando já não é proibido proibir

Achar que Deus, Pátria e Família é “fascista”, mesmo na pouco esclarecida qualificação do regime português, só pode resultar de ignorância ou táctica. Achar que, a partir de um centro enviesado à esquerda que se autoproclama democraticamente imaculado, podem traçar-se diabólicas linhas vermelhas para um lado e angélicos arco-íris inclusivos para o outro, é mau sinal. Achar que, independentemente da votação obtida, há um partido e um conjunto de eleitores que devem ser, à partida, excluídos da possibilidade consagrada pela praxe constitucional de ver eleito um candidato, “seja ele quem for”, a vice-presidente do Parlamento é, pela lógica do regime, indefensável. Achar natural que esse mesmo partido fique a um canto da Assembleia com orelhas de burro enquanto os “partidos de bem” avançam, cantando e rindo, para as “conversas em família” com o primeiro-ministro que quer falar com todos, é uma prática de discriminação aleatória que tem tudo para correr mal.

É esta narrativa e esta prática ideologicamente enviesada para aguentar no poder e defender os interesses dos que se assumem como “mais iguais que os outros” que começa a levantar cada vez mais dúvidas a cada vez mais pessoas. Afinal, o que distingue a democracia liberal dos outros regimes é a aceitação e integração, nas suas regras de jogo, de todas e quaisquer forças políticas que, independentemente dos valores que defendam, actuem pelas vias pacíficas e de acordo com as leis constitucionais e civis. Mesmo as iliberais.

Não creio, por isso, que o presente policiamento ideológico e as “linhas vermelhas” com que se procura segregar um partido e os seus eleitores vão sequer beneficiar quem está no poder e muito menos o regime. Limitam-se a expor sob uma luz cada vez mais crua a exemplar democraticidade dos que se acham “donos disto tudo”.

Jaime Nogueira Pinto

https://observador.pt/opiniao/donos-disto-tudo/