\ A VOZ PORTALEGRENSE

domingo, setembro 05, 2021

Jaime Nogueira Pinto - Num mundo de laranjas mecânicas

Stanley Kubrick (1928-1999) é um dos mais extraordinários criadores do século XX. Digo criadores em vez de realizadores porque num tempo de decadência e cancelamento culturais, em que a imaginação e a criação que dela resulta vão sendo cada vez mais raras, Kubrick aparece como um grande inovador e criador.

E viveu e trabalhou em plena segunda metade do século XX, onde não faltaram, no cinema, grandes inovadores e criadores: na Anglo-América – Orson Welles, Elia Kazan, John Huston, Alfred Hitchcock, Billly Wilder, John Ford, Brian de Palma – e no resto do mundo – Serguei Eisenstein, Luis Buñuel, Federico Fellinni, Luchino Visconti, Akira Kurosawa, Werner Herzog, Jean Renoir, René Clément, Jean Luc Godard, Pedro Almodovar. E muitos outros admiráveis “caçadores de imagens” que deixo de fora mas a quem agradeço milhares de horas de sonho e de luz.

Em quase cinquenta anos de carreira e depois de um início de film noir, Kubrick realizou uma série de filmes magistrais sobre os grandes temas da Humanidade e da América, começando por duas fitas protagonizadas por Kirk Douglas – Paths of Glory (1957) e Spartakus (1960).

Como com Kubrick a verdade das coisas se impõe ao resto, Paths of Glory é um filme antimilitarista, numa época em que contestar o establishment militar não estava muito na moda, que sublinha a estupidez cínica dos altos comandos que ganham promoções e condecorações à custa de massacres da sua própria tropa. E Spartakus é uma ilustração do pensamento nietzschiano de que a revolta é a nobreza do escravo.

Em 1962, faz a adaptação de Lolita, o livro-escândalo de Nabokov, num filme de culto com James Mason, Shelley Winters, Sue Lyon e Peter Sellers. Depois, vem a charge à Guerra Fria, em Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, com Sellers, George C. Scott e Sterling Hayden.

Em 1968 2001 Odisseia no Espaço, em 71 Laranja Mecânica, em 75 Barry Lindon e em 1980 um filme de terror, The Shining, a partir do thriller de Stephen King. O Vietname de Kubrick ficou em Full Metal Jacket. Pelo meio deixou de parte projectos avançados sobre o Holocausto e Napoleão. No fim fez a sátira social Eyes Wide Shut, com Nicole Kidman e Tom Cruise, que estreou postumamente. É toda uma obra invulgarmente original e variada na sua universalidade.

O mecanismo da laranja

A Clockwork Orange, A Laranja Mecânica, foi apresentado em Nova Iorque, em 19 de Dezembro de 1971, inspirado no romance distópico de Anthony Burguess, de 1962. Numa Inglaterra futura, Alex Delarge lidera um quatuorde delinquentes juvenis – Dim, Georgie, Pete e o próprio Alex. São violentos, roubam, assaltam, agridem, violam, matam. A deles, é uma violência gratuita, cobarde, sem riscos. Nas suas andanças, assaltam a casa de campo de um escritor, Mr. Alexander e espancam-no e violam e matam-lhe a mulher, ao som de Singing in the Rain.

Alex, magnificamente interpretado por Malcolm McDowell, gosta especialmente de Beethoven e particularmente da Nona Sinfonia e gosta de temperar sadicamente o mal que faz com a harmonia da música.

Mas depois do crime vem o castigo: Alex entra em ruptura com os cúmplices, que o traem e entregam, é preso, julgado e condenado por homicídio. Ao fim de dois anos de cárcere, voluntaria-se para uma experiência de “aversion therapy”, um sofisticado processo pavloviano que associa sensações desagradáveis a práticas de violência. O condenado Alex vê projectadas no écran cenas de sexo e de brutalidade ao som de Beethoven, enquanto lhe injectam doses de mal-estar. Assim, vai ficando pacífico e impotente até terminar com sucesso a sua “reeducação” de duas semanas, para grande satisfação do Ministro do Interior.

É então posto em liberdade, mas está na miséria; e aqueles a quem prejudicou vão vingar-se. É atacado por mendigos, leva uma sova de Dim e Georgie, que, entretanto, ingressaram na Polícia, e acaba descoberto e punido por Mr. Alexander, o escritor agredido, que está agora numa cadeira de rodas mas que, com a ajuda de amigos, o tortura ao som da Nona Sinfonia. Alex tenta suicidar-se, mas acaba por ficar a trabalhar para o Ministro, na campanha eleitoral, como testemunha-cartaz dos admiráveis feitos da Ciência e efeitos da reeducação médica dos criminosos.

“A voz do Fascismo”

Assim se fecha o ciclo da brutalidade, o crime e castigo segundo Burgess e Kubrick. O filme estreava num tempo de revolta juvenil e de libertarianismo de costumes, um tempo que sucedia aos quietos anos cinquenta. A partir dessa sua trágica opera-bufa, Kubrick retratava a violência dos gangues que queimavam os “sem-abrigo”, macaqueavam orgias romanas e se excitavam e entorpeciam nos paraísos artificiais das drogas. Um mundo tão verdadeiro como o dos políticos corruptos, dos consultores de comunicação enervados, do “recurso à ciência” para fins eleitorais ou de “reeducação”.

Um mundo longe do mundo imaginário de paz e amor cantado, também nesse ano de 1971, por John Lennon (que, de resto, definiria o seu Imagine como uma espécie de “sugar coated communist manifesto”). Talvez por isso A Laranja Mecânica tenha sido objecto da crítica de Fred Hechinger no New York Times, que, em 13 de Fevereiro de 1972, escrevia contra Kubrick:

“Um liberal atento deve reconhecer a voz do fascismo (…) E a tese de que o homem é irremediavelmente corrupto é a essência do fascismo”.

As acusações de Hechinger tiveram, duas semanas depois, a resposta de Kubrick, que contestava que o seu filme fosse uma “apologia anti-liberal e de totalitarismo niilista”. Nessa longa carta, Kubrick, citando a sua observação da História e a teologia cristã, negava a narrativa do homem como naturalmente bom, como um bom selvagem corrompido pela sociedade, pelo poder organizado, pela propriedade, pela religião. Mas acrescentava que o seu pessimismo antropológico, ou o seu realismo, não fazia dele um tirano ou um fascista.

Depois, a propósito da terapia prisional aplicada a Alex, sublinhava que a terapia nunca poderia ser redentora porque suprimia a vontade e a livre escolha, transformando a sociedade numa sociedade de laranjas mecânicas.

E, sem medo, escrevia:

“O homem não é um nobre selvagem, é um selvagem ignóbil. É irracional, brutal, fraco, estúpido, incapaz de ser objectivo em causa própria ou quando se jogam os seus interesses … E qualquer tentativa de criar instituições sociais baseadas na visão falsa da natureza do homem, estará condenada ao fracasso.”

E concluía:

“A falácia romântica de Rousseau, de que é a sociedade que corrompe o homem e não o homem que corrompe a sociedade, coloca uma cortina lisonjeira entre nós e a realidade”.

Para Kubrick, Rousseau substituíra o Deus transcendente e a sua religião pelo culto do homem naturalmente bom. E citava o antropólogo Robert Ardrey, o “autor maldito” de The Social Contract e African Genesis, lembrando que, mais que anjos caídos, nós, os seres humanos, éramos, ou também éramos, macacos levantados do chão, com todos os instintos dos hominídeos – de identidade, de território, de defesa do grupo. E capazes de matar por eles.

Rousseau e os Talibãs

Reagindo ao radical pessimismo de Kubrick e Ardrey, diria que oscilamos entre o anjo e a besta – mas que esquecer a besta nos leva quase sempre ao menos angelical dos mundos.

Li agora nos “Arquivos” de Kubrick, editados por Alison Castle, esta polémica no New York Times. Li-a neste preciso momento, em que vemos e vivemos de perto um mundo devastado e amedrontado pela pandemia, pelos feitos dos bons selvagens talibãs em Cabul e do jihadismo no Norte de Moçambique ou no Sahel e até nas cidades de França. Um mundo em que centenas de milhões de seres humanos continuam a viver na fome, na miséria, dominados pelas tiranias mais diversas, vítimas do crime organizado e da exploração em infinitas formas.

E, no entanto, neste mesmo mundo, o discurso oficial das grandes organizações internacionais e multilaterais continua a ser a versão revista, aumentada e requintada da cartilha de Rousseau, presente nos estatutos, nas declarações, nas resoluções, nas convenções destes respeitabilíssimos areópagos da Humanidade. Areópagos que preferem falar do tempo, das ameaças climáticas, por mais reais e por mais estridentemente anunciadas pela pequena profeta sueca que sejam. Ou então de novos e também verdes e floridos “direitos humanos”, para selvagens cada vez melhores e mais nobres e mais angelicais. Ou da protecção dos dóceis animais, que até tiveram prioridade sobre as pessoas num voo de Cabul para Londres.

E para tudo isto preparam-se agendas especiais, cancelam-se e proíbem-se autores, práticas culturais, modos de vida. E destroem-se estátuas, mudam-se nomes de ruas e universidades, criam-se leis especiais para os “discurso de ódio” e impõe-se o terror e a morte moral dos dissidentes.

A nova Inquisição segue os passos do Sr. Hechinger, esse “liberal atento”, que viu o ovo da serpente, ou o fascismo palpitante na Laranja Mecânica e no pessimismo antropológico de Kubrick. Se fosse hoje Hollywood proibia-o. Talvez ainda o venha a fazer. Também depende de nós deixar que o faça ou que o façam.

Jaime Nogueira Pinto

https://observador.pt/opiniao/num-mundo-de-laranjas-mecanicas/

quarta-feira, junho 23, 2021

Mário Silva Freire

Revista Psicologia e Educação On-Line 2021, Vol. 4, Nº 1, 1 - 8

Aceite: 18/04/2021 

Resumo do artigo publicado na revista da UBI

Trata-se de um estudo das preferências profissionais de duas populações de crianças dos 6-10 de idade, do 1º ao 4º ano de escolaridade, representativas do concelho de Portalegre, separadas 32 anos no tempo, anos escolares de 1987-1988 e de 2019-2020, abrangendo uma amostra total de 1132 pessoas (540 e 592, respectivamente).

Um dos conceitos introduzidos é o de “taxa de dispersão” que traduz o número de profissões diferentes preferidas por cada 100 crianças. Quanto maior for o valor da taxa de dispersão, maior será o número de profissões conhecidas pela população em estudo.

No que se refere às preferências profissionais das crianças de 1987-1988, num total de 77 profissões escolhidas, verificou-se uma diferença acentuada da taxa de dispersão entre rapazes (20,7%) e raparigas (13,8%).

Quanto às preferências profissionais das crianças de 2019-2020, as preferências profissionais distribuíram-se por 116 profissões em que a taxa de dispersão dos rapazes foi de 29,4% e o das raparigas de 26,6%.

Estes valores indicam uma aproximação muito significativa entre os sexos nas crianças de 2019-2020, no que se refere ao conhecimento do mundo das profissões, ao contrário do que se passava com as crianças de 1987-1988.

Quanto às diferenças no conteúdo dessas preferências, nas duas amostras, no léxico de 1987-1988, aparecia a nomeação de profissões como as de peixeiro, taberneiro, apanhador de castanhas, pastor, cantoneiro, carpinteiro, lavadeira, guarda-fiscal, doméstica, polícia-sinaleiro…  que hoje já desapareceram ou estão em vias de extinção.

Quanto às preferências emitidas em 2019-2020, elas abrangem um conjunto alargado de profissões, muitas das quais não são referidas em 1987-1988, algumas exigindo formação superior, como as de astronauta, biólogo marinho, dentista, designer de interiores e de moda, engenharias (agrícola, civil, informática, mecânica), estilista, farmacêutico, jornalista, juiz, paleontólogo… Na profissão de músico ocorreram algumas especialidades (flautista, guitarrista e violoncelista).

Um outro conceito introduzido no estudo foi o de “índice de concentração”, servindo ele de crivo para separar as profissões mais preferidas. Não se entrando na caracterização deste índice, verificou-se que na população de 1987-1988 essas profissões foram, por ordem percentualmente crescente, as seguintes: pedreiro, polícia, mecânico, enfermeiro/a, cabeleireira, futebolista, médico/a e professor/a, correspondendo estas profissões a 60% das crianças. Tal significou que os restantes 40% dispersaram as suas preferências por 69 profissões. Observou-se, ainda, que as profissões de pedreiro, polícia, mecânico e futebolista só foram escolhidas por rapazes; a profissão de cabeleireira só o foi por raparigas; as restantes profissões (enfermeiro/a, médico/a e professor/a), tendo ainda um forte pendor feminista, tiveram preferências em ambos os sexos.

Relativamente às profissões mais escolhidas na população de 2019-2020, elas foram, por ordem percentualmente crescente, as seguintes: estilista, actor/actriz, militar, cozinheiro/a, bombeiro/a, You Tuber, cabeleireiro/a, cantor/a, médico/a, polícia, professor/a, veterinário/a e futebolista, correspondendo elas a 60% das crianças. Os restantes 40% das crianças distribuíram as suas preferências profissionais por 103 profissões. Apenas a profissão de estilista foi preferida pelo sexo feminino, embora as restantes, tendo representação em ambos os sexos, apresentem ainda alguma tendência sexista.

Comparando as duas populações escolares, verifica-se que do ano 1987-1988 para o ano 2019-2020 houve, relativamente às profissões mais preferidas por um só dos sexos, uma descida de 62,5% para 7,7%, o que significa uma diminuição muito acentuada dos estereótipos associados a profissões desempenhadas ou só por homens ou só por mulheres.  

 A abertura da sociedade a ideias mais igualitárias em relação aos papéis do homem e da mulher reflecte-se com muito destaque neste estudo comparativo entre estas duas populações. Com os dados com que se trabalhou pode concluir-se que, para as crianças dos 6-10 anos de idade, do ano escolar de 2019-2020, ao contrário das crianças de há 32 anos atrás, o facto de se ser homem ou mulher ou o lugar onde se reside não é percepcionado como um factor de grande relevância que as limite na concretização das suas preferências profissionais.

http://psicologiaeeducacao.ubi.pt/index.html

http://psicologiaeeducacao.ubi.pt/arquivo.html

terça-feira, junho 22, 2021

Autárquicas 2021 em Portalegre

No concelho de Portalegre, as candidaturas autárquicas, seguem o seu linear caminho.

Bem, nem todas.

O PS tem na Rua 1.º de Maio a sua sede de candidatura, privilegiando as cores, amarelo e preto, do concelho, apresentando o leitmovif, slogans, da campanha, e ultima as listas.

O CLIP tem o ‘trabalho de casa’ feito, está no terreno desde o princípio do ano, ao ‘aparecer’ nos funerais, nos lares, nas associações e ‘em tudo o que mexe’.

O PCP surpreendeu ao ‘trocar o certo pelo incerto’, e está a consolidar a sua base eleitoral, uma vez que com a ‘escolha’ feita perde o ‘voto útil’.

O ‘novato’ Chega está em convulsão ao afastar o candidato à junta de freguesia Sé e São Lourenço (sinais, ‘dores de crescimento’, ou o ‘albergue espanhol’ está a abrir fissuras), mas tem certo uma fatia do eleitorado do CDS, dado ser quem é o candidato à autarquia.

Embora queiram que nada transpire, a verdade é que o PSD tem tido dificuldade no preenchimento das listas. Uns, pura e simplesmente, recusaram entrar nesta ‘aventura perdedora’, outros, dado que a candidata tem a liberdade de escolher quem quer, foram ‘eliminados’, e os que irão aparecer não são mais-valia, são segundas e terceiras escolhas.

É por estes factos internos do PSD que o CDS deve repensar a coligação que, segundo se diz, uma vez que nada é público, terá ‘cozinhado’.

Que o CDS do concelho de Portalegre faça um Plenário de Militantes, que convide simpatizantes, e promova um debate que ponha em cima da mesa a hipótese de uma coligação (que se sabe ser perdedora) com o PSD, ou a hipótese de avançar sozinho.

Defendemos que o CDS deve concorrer com listas próprias!

O CDS nada tem a ganhar em fazer uma coligação eleitoral no concelho de Portalegre com ‘este’ PSD. Perde identidade, divide-se, dilui-se.

O passado de coligações do CDS com o PSD no concelho de Portalegre mostra que o PSD só quer coligação quando está fraco, quando sabe que não vai ganhar a autarquia.

Foi isto mesmo que a sua actual candidata fez no passado em Arronches.

Na candidatura em que sabia que não ganharia (2005), fez uma coligação com o CDS e o PPM. Passados quatro anos, quando todos os dados indicavam que ia ganhar, tal como aconteceu (2009), recusou a reedição da coligação com o CDS.

E factos, são factos!

Mário Casa Nova Martins

quarta-feira, junho 09, 2021

Salazar, o Ditador que se recusa a morrer

Recordo uma conversa de décadas com o dr. Rui Biscaia Tello Gonçalves, sobre um texto meu no extinto semanário «O Distrito de Portalegre». Em finais de Julho desse ano, por altura da data do seu falecimento, escrevera no meu espaço «Conta-Corrente» sobre António de Oliveira Salazar.

Preocupado, como Amigo alertava-me que ainda não era tempo para se falar de Salazar. O meu texto era o que pensava sobre aquela figura política, e ‘fugia’ dos cânones oficiais.

Hoje, passadas décadas, quem se atreve a escrever sobre Salazar, fora desses cânones, sujeita-se a ser insultado e caluniado. Mas, como “os cães ladram e a caravana passa” (abençoado Povo que tais ditados populares tem!), nunca me coibi de dizer e escrever aquilo que para mim é a verdade dos factos.

Esta introdução vem a propósito da leitura do livro «Salazar, o Ditador que se recusa a morrer», editado pela D.QUIXOTE.

Há um texto interessante de João Pedro Castanheira no semanário «Expresso» intitulado «As livrarias estão cheias de lixo sobre Salazar», citado na bibliografia, e é totalmente verdade. Daí se ter o maior cuidado em adquirir livros sobre Salazar e o Salazarismo. Esta temática ‘vende como pães quentes’, tal como outras temáticas que são estória e nada têm de História. Inclusive, se determinada palavra aparece no título, logo é sinónimo de vendas.

Esta obra de Tom Gallagher trata de Salazar, o seu tempo e a sua obra vistos por um estrangeiro, o que desde logo dá um distanciamento do Autor face ao tema que estuda.

O maior interesse, dado que os factos são do domínio público, é, justamente, conhecer a maneira interpretativa de Alguém que embora conheça bem o século XX português, não o viveu presencialmente.

Não se pretende fazer uma crítica pormenorizada sobre o livro. Contudo, refira-se o ‘desmontar’ do mito do ‘justo’ de Cabanas de Viriato, uma das ‘vacas sagradas’ do anti-salazarismo. Interessante a análise sobre Henrique Galvão, Santos Costa, e sobretudo Marcello Caetano. Rolão Preto não é ‘esquecido’, e convirá dizer que recentemente a «Contra-Corrente» editou uma antologia de textos do Nacional-Sindicalismo.

A análise das relações entre Salazar e os americanos é excelente.

Um livro a ler! Sem complexos, na busca da Verdade, em Liberdade.

Hoje em Portugal vigora um regime Socialista, não do tipo totalitário como o soviético, mas é um facto que se tem um Estado excessivamente interventivo nos campos da economia, saúde e educação, e cada dia que passa a Extrema-Esquerda tem mais influência no Governo do PS. Vive-se um Socialismo à portuguesa, que tem conduzido o País para a cauda da União Europeia.

O parágrafo anterior serve de introdução a uma frase do livro, página 88, linhas 24 a 27: _ Mas, como observou um historiador, [Salazar] moldou Portugal «de modo muitíssimo socialista» deixando os portugueses acostumados a uma grande presença do Estado e muitíssimo dependentes do Estado.

O historiador era o socialista A. H. de Oliveira Marques. E, p’ra que conste, nunca fui Salazarista!

Mário Casa Nova Martins

sexta-feira, maio 28, 2021

3.ª Convenção do MEL e as Direitas

O «MEL – Movimento Europa e Liberdade» é um grupo, uma agremiação lobista, no sentido positivo, que pretende divulgar o pensamento de Direita através da intervenção académica, realizando entre outras actividades uma reunião anual a que dá o nome de «Convenção».

Nos passados dias 25 e 26 de Maio realizou a 3.ª Convenção, para a qual convidou gentes das Direitas, e também das Esquerdas. E também convidou os líderes dos quatro partidos com assento parlamentar à direita do PS.

Diz-se ‘à direita’ e não da Direita, porque dos quatro, dois assumem-se de Direita, CDS e Chega, um que se diz nem de Direita nem de Esquerda, IL, e outro que se diz que não é de Direita, o PSD.

Os painéis temáticos tiveram muita qualidade, foram claros e explicativos, ficando a ideia que em Portugal a Lei de Gresham existe de facto na política, mas nos partidos, não nos «espectadores comprometidos» que sabem pensar, que têm ideias e as sabem expressar.

Da intervenção dos quatro líderes parlamentares, começando por Rui Rio, ficou uma vez mais provado o equívoco ideológico que é o PSD. Também se provou que a “profecia” de José Miguel Júdice segundo a qual o PSD não será governo pelo menos até 2027, é bem real. Rui Rio colocou o PSD num gueto, e dele não consegue sair, sendo visto na opinião pública como uma muleta da governação socialista, o aliado indesejável para o próprio PS.

O líder da Iniciativa Liberal, do alto da sua superioridade moral (???) face à Direita, mostrou o que é a IL, um partido ultra-liberal na economia e ‘compagnon de route’ nas causas fracturantes do BE. Extraordinário!

O líder do Chega, foi igual a si próprio. A insistência na ida para o governo ‘aliado’ ao PSD, a insistência no nome de Rui Rio, quase uma súplica, desgasta a imagem de alguém e de um partido que parece apenas ter como ideologia ir para o governo, esquecendo que primeiro tem que conquistar o seu espaço político através de ideias próprias e de realizações políticas que lhe deem a força eleitoral necessária para então ira para a governação.

Por fim, o líder do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos.

Rodrigues dos Santos fez um discurso vigoroso, assertivo. O defunto Freitas do Amaral deve ter dado ‘saltos no caixão’!

Foi desmontado o Centrismo, se é que ele alguma vez existiu. O CDS foi definido da forma que ao longo da sua História a larga maioria dos seus Militantes e Simpatizantes o consideravam, um partido de Direita, mas que vicissitudes da própria natureza desta Terceira República têm impedido de o afirmar.

Sem complexos de qualquer ordem, Francisco Rodrigues dos Santos, foi um líder que deixou nesta Convenção a marca do verdadeiro CDS!

Pena é que no seu ‘exército’ a Lei de Gresham seja tão evidente!

Mário Casa Nova Martins

quinta-feira, maio 27, 2021

Jaime Nogueira Pinto e a "extrema-direira"

Tenho seguido com curiosidade o progresso e a multiplicação de observatórios. Dizem os dicionários que um observatório é “o lugar de onde se observa; um edifício científico equipado para a observação de determinados fenómenos”. É, pois, de Ciência que falamos.

De Ciência e de Progresso, porque longe vão os costumeiros observatórios de Greenwich, da Ajuda ou da Serra do Pilar. Os modernos observatórios sociais já não observam corpos celestes: observam fenómenos patológicos próximos com rotas pré-determinadas. Para tal, recorrem a uma nova estirpe de auxiliares de acção científica: os “activistas” – investigadores reconhecidos, não só pelo seu rigor e isenção, mas também pela sua excepcional capacidade de produzirem verdades científicas a partir da identificação dos pensamentos, palavras, actos e omissões de todo o ser ou povo que, alimentado exclusivamente por fake news, apresente sintomas ou laivos opressivos e difunda patologias ideológicas e comportamentais que ameacem a Democracia e a Humanidade. É esta a verdade científica.

E quem somos nós para contestar a Ciência? Nós, os que, perante os admiráveis avanços da investigação e a excelência dos novos investigadores, oscilamos entre formas de vida, de acção e de pensamento ora ainda primitivas ora já fossilizadas e que, por isso, não estamos nem nunca estaremos cientificamente equipados ou minimamente habilitados, subsidiados e homologados para sermos mais do que o fenómeno observado. E muito menos para questionar o asséptico “lugar de onde se observa” e de onde agora se “faz ciência” – que, como todos sabemos, é um rigoroso “não lugar”, escrupulosamente isento de vírus ideológicos e imune a todo o preconceito. Não está ao nosso alcance escrutiná-lo. É qualquer coisa de científico.

E quais são então os fenómenos patológicos fixados por estes muitos observatórios; os fenómenos que, por afectarem e afligirem a nossa sociedade e por terem, bruscamente, invadido o nosso país, requerem observação e, em tempo de pobreza económica, social, cultural e moral, urgente canalização de recursos estatais? São, evidentemente a xenofobia, a homofobia, a transfobia e outras fobias do género. As observações e os dados científicos recolhidos e tratados neste âmbito seguem depois para as entidades competentes para que semelhantes acidentes e incidentes ou entes e entidades possam ser devidamente expurgados.

Uma reedição da Real Mesa Censória com ecos do orwelliano Grande Irmão? Não. Ciência pura. Simples Progresso. A Carta Portuguesa dos Direitos Humanos na era Digital.

O Observatório da Extrema-Direita

Descobri, com atraso, que entre estes novos observatórios dedicados às várias fobias há um “Observatório da Extrema-Direita”. Seria a “extrema-direita” a observar? Não, que a extrema-direita não tem cientistas nem estudos para ter observatórios: a “extrema-direita” era o fenómeno observado. A única diferença em relação às outras fobias observadas era que aqui a fobia chegava, não do universo alvo, mas do “lugar de onde se observa”, ou do não-lugar onde se aloja a isenta comunidade científica que se confessa consideravelmente alarmada e que por isso se propõe analisar o fenómeno sem outras agendas que não a Verdade e a Ciência.

Curiosamente, o fenómeno, ainda antes de ser entalado na lamela e encaixado no microscópio, já lhes chegara rotulado. E – ou pela urgência de encontrar uma vacina para tão grave patologia ou porque, também aqui, os académicos que integram o observatório contam com o precioso auxílio da nova estirpe activista de auxiliares de acção científica – as perguntas de investigação começam logo por abreviar processos:

“O que é a nova extrema-direita? O que tem de ‘velho’? Quem são os seus protagonistas que se dizem fora do sistema e vivem do sistema? Qual é a sua agenda e os meios de propagação das suas ideias? De que forma se alimenta do racismo, da xenofobia e do conservadorismo?” E mais adiante: “Interessa-nos discutir também quem cria as fake news e porque é que a extrema-direita cresce com elas”.

O processo fica, assim, sabiamente abreviado logo nas perguntas de investigação, com o relatório praticamente pronto a ser enviado às autoridades competentes.

Há quem diga que “o lugar de onde se observa” pode, eventualmente, influenciar a investigação, os pressupostos, a amostragem, as conclusões, e que estes observadores poderão, quem sabe, ter outra agenda que não a Verdade e a Ciência. Talvez de esquerda ou de extrema-esquerda. Mas parece que não, que são mesmo isentos. E que não o sejam: é materialismo científico…e os observatórios estão cientificamente equipados para observar e não para serem observados.

De qualquer modo, os cientistas do observatório estão apreensivos com o fenómeno em análise. E não será para menos. Aquilo a que cientificamente chamam “extrema-direita” (a saber, um polvo que se diz fora do sistema mas que vive do sistema, que se alimenta de racismo e xenofobia ao pequeno almoço, ao almoço e ao jantar e que cresce com as fake news que cria) avança a olhos vistos e em sítios antes impensáveis: na América populista que elegeu Trump em 2016, no Brasil de Bolsonaro, nos conservadores sociais e identitários da Hungria e da Polónia, nos italianos de Salvini e da Meloni; e até em França, onde Marine Le Pen está a escassos pontos de Macron e os generais escrevem cartas em que falam de perigo de guerra civil.

É para estar preocupado. Até porque se dá um fenómeno também muito curioso e preocupante: é que esta subida da dita “extrema-direita” não vem de golpes militares à 28 de Maio ou à Pinochet, ou de violências de rua, preparando “marchas sobre Roma”, ou um Machtergreifung em Berlim. Vem do voto, do voto do povo, em eleições livres e justas. Fica o repto para as vanguardas iluminadas: para quando um Observatório do Povo e do Voto Popular?

O problema é que este é um voto que nem o cientismo histórico-sociológico consegue explicar. Um voto que nem a “relação de forças”, a ferramenta analítica dos bons tempos dos Pais Fundadores do marxismo-leninismo, cujos rostos paternais esvoaçavam nas bandeiras das saudosas confraternizações comunistas, consegue acomodar a um mundo globalizado, onde os donos dos meios de produção parecem alheados de tais preocupações.

O mofo de Dimitrov

Verifico que, no Observatório, ainda vai havendo lugar para experiências arqueológicas a partir do mofo do velho Dimitrov. O pressuposto que ressuscitam é o de ter sido o fascismo (e de ser agora a “extrema-direita”) a última arma de recurso da Burguesia, que, desesperada perante as forças do progresso e da História, recorre à ditadura, às botas de Mussolini e às camisas castanhas do Cabo Austríaco, ou a caudilhos militares sul-americanos ou balcânicos. Infelizmente, em termos de análise marxista – e seguindo a linha mais ortodoxa do mecanicismo soviético, fixada na Vulgata estalinista e dimitroviana –, esta erupção no Ocidente do “fascismo” e da “extrema-direita” pelo voto popular só muito dificilmente poderá explicar-se com base nas relações de classe ou de produção.

Onde estão agora as “forças do progresso e da História em fúria” se não em pleno mainstream? Onde estão se não ao lado do dinheiro com que se fazem os observatórios e no meio da Burguesia?

Acarinhadas e adoptadas pelo poder, promovidas pelos multimilionários da BigTech, omnipresentes nos órgãos de informação do Establishment, a ideologia e a retórica destas novas “forças do progresso” parecem ser bem mais lucrativas e susceptíveis de estar “ao serviço do grande capital” do que o ideário ou os valores identitários e conservadores da pequena classe média e dos reais ou hipotéticos extremistas da direita “fascista”, “neofascista” ou “pós-fascista”. Ao contrário, a “aliança objectiva” que se prefigura é a dos grandes grupos financeiros, dos híper-milionários do Silicon Valey, até dos grandes interesses do capitalismo de direcção central de Pequim e Xangai, com os valores globalistas da extrema-esquerda radical. E se alguma coisa é pública e notória, é o facto de o “grande capital” e “a burguesia dos interesses” se mostrarem especialmente empenhados em afastar a “extrema-direita” e o “neofascismo” que pairam sobre o mundo euroamericano.

O revisionismo marxista de Gramsci

E se a Vulgata não explica o fenómeno, já a versão mais arejada do marxismo-leninismo, a versão revisionista de António Gramsci, registada nos Quaderni del Carcere, poderá entreabrir algumas portas.

Logo perante a revolução de Outubro de 1917, Gramsci observou no Avanti que “a revolução bolchevique era a revolução contra O Capital de Marx”. Queria ele dizer que, segundo Marx e os marxistas clássicos, para fazer a revolução comunista, era preciso esperar pela revolução burguesa, capitalista. Só depois seria possível uma revolução proletária. Lenine estava a sair da linha…

Gramsci leu, como Mussolini, os escritos de marxistas heterodoxos italianos, como António Labriola. E leu também George Sorel, autor da mais fulgurante desconstrução do ideário das Luzes, Les Illusions du Progrès. Leu ainda, como os fascistas Mussolini, Giovani Gentile e Francesco Ercole, Maquiavel e as suas reflexões sobre o poder e o Estado. Com tudo isto, e com a amarga experiência da derrota do comunismo italiano frente ao fascismo, não seria de esperar que o seu espírito, inteligente e inquieto, longe da resignação e do convencionalismo, não reflectisse sobre o acontecido.

E fê-lo no exílio interior e na prisão, numa série de escritos de cerca de três mil páginas, uma peregrinação interior por dentro de Marx e da História da Itália e da Europa, de onde saiu uma revisão de muitos conceitos e uma crítica implícita do mecanicismo economicista e do fixismo progressivamente imposto pela Vulgata soviética. Ironicamente, esta crítica revisionista, escrita numa prisão fascista, não poderia ter sido feita na União Soviética, onde os acusados de revisionismo morriam nas prisões de Estaline, sem que lhes facultassem papel ou licença para escrever.

Até porque Estaline, que não tinha nada de estúpido, nem de intelectualmente boçal, tinha já elaborado, nos anos Vinte, uma “bíblia do rei Jaime” para calar veleidades interpretativas,

Subsídios para uma observação da “extrema-direita”

Gramsci tratou conceitos decisivos para o estudo da Política: os conceitos de hegemonia, de crise orgânica, de momento bonapartista, a autonomia do Estado como espaço do Poder, o papel dos intelectuais e do combate cultural e da sua relação com as determinantes económicas. E o que escreveu pode ajudar alguns elementos mais distraídos ou mais activistas do Observatório – ainda que só para seu entretenimento e ilustração e independentemente das conclusões que julguem por bem tirar a priori.

Tenho, assim, alguma esperança que os observadores do Observatório da Extrema-Direita estejam mais perto de Gramsci do que da Vulgata nas suas análises futuras.

Sem querer ensinar-lhes nada, penso que estamos na Europa e no Ocidente numa clássica “crise orgânica” do sistema, em que “os grupos sociais” se separam dos seus partidos tradicionais, que já não reconhecem como seus representantes.

Será que nos aproximamos daquele momento, também clássico na teoria gramsciana, em que “a continuação da luta não pode concluir-se senão pela destruição recíproca?”

Não sei. De qualquer modo, esta crise parece-me diferente. As forças do sistema, à esquerda e à direita, aproximaram-se demasiadamente umas das outras, criando um centro rotativo, um centrão, entre uma esquerda socialista ou social-democrata, à Blair, e uma direita que, em termos de valores, passou de conservadora a liberal.

Este centrão sofreu com o fim da União Soviética, como inimigo unificador da Euroamérica. E não está a resistir aos custos do globalismo que a desindustrialização da Europa e dos Estados-Unidos e as vagas migratórias resistentes à integração trouxeram. O macroterrorismo do princípio do milénio agitou as águas, mas as águas voltaram à acalmia do costume, pelo menos à superfície.

Desta não resposta do sistema político aos novos problemas, entre a obsessão economicista e liberal das direitas e o abandono da cultura e da ideologia à agenda post-moderna e radical das esquerdas à americana, resultou a orfandade de grandes sectores da população, marginalizados nos seus usos e costumes, nas suas convicções religiosas e patrióticas, no seu estatuto social e na sua renda. Sectores que foram e vão votando nos candidatos que, marginalmente, foram e vão reagindo.

É isto que vem acontecendo na Europa e nos Estados Unidos de há trinta anos para cá. Na Esquerda, depois do fim da URSS, os partidos comunistas foram-se evaporando, substituídos por partidos que abandonaram as “classes trabalhadoras” e foram procurando legitimidade na protecção e projecção de minorias e de causas minoritárias. À direita, os partidos do sistema concentraram-se no liberalismo económico e esqueceram toda a tradição da direita em termos de valores de orientação permanente – religiosos, identitários, familiares, de solidariedade e justiça social.

Assim as direitas, essa amálgama de partidos e de valores a que o anticomunismo e a defesa da liberdade contra as potências comunistas tinha dado alguma coesão, fragmentaram-se e perderam-se ideologicamente. E aderiram ou deixaram de resistir ao discurso globalista do mainstream, moldado pela esquerda radical, deslegitimando-se progressivamente perante o “povo de direita”, que se voltou para as novas forças que ofereciam resistência e alguma antítese ao que estava. É uma situação de crise orgânica gramsciana.

Assim, ao contrário do que pretendem alguns “observadores da extrema-direita”, esta realidade político-social não é explicável por uma acção manipuladora da Burguesia e do Grande Capital neo-liberal, que, vitoriosos desde a Guerra Fria, estariam agora a reinventar o fascismo e a manipular a extrema-direita e os “populistas”.

Tal análise do objecto observado, aqui e na Europa, parece sair mais de uma cartilha clandestina do militante comunista médio dos anos 50, confiscada pela PIDE, de que de um científico e académico Observatório pós-moderno.

Há cem anos, olhando as revoluções contrárias e paralelas – a dos bolcheviques na Rússia e a dos fascistas em Itália – Gramsci sublinhou a ocasional possibilidade de existir uma autonomia do político, do poder, do Estado e da sua conquista que escapava às relações de produção e até ao jogo das classes sociais e seus “interesses objectivos”. Tratava-se então de uma crise orgânica dos regimes e de um momento bonapartista que Lenine e Mussolini souberam aproveitar.

Os observadores da actualidade podiam dar mais atenção ao mestre e menos a teorias da conspiração, por mais científicas e subsidiáveis que se lhes afigurem.

Jaime Nogueira Pinto

https://observador.pt/opiniao/o-lugar-de-onde-se-observa/

terça-feira, maio 25, 2021

Desabafos 2000/2001 - XIX

A pouco mais de quatro meses, em Outubro, terão lugar eleições autárquicas.

Portalegre cidade e concelho têm a oportunidade de decidir entre ‘o mesmo’, ou a mudança.

Um inquérito de opinião, hoje, dirá que o PS, finalmente com um candidato credível, ganha com maioria relativa.

O segundo lugar é disputado até ao último voto entre CLIP e PSD, que tem, por uma vez, uma candidata que é mais-valia.

O PSD ganha um vereador ao CLIP, cuja imagem se desgastou ao longo de mandatos sucessivos.

O PCP perde o voto útil à esquerda, dada a figura do candidato socialista, e também perde o voto de protesto que irá para o Chega, mas mantém o vereador.

O Chega tem como candidato uma pessoa que há quatro anos teve papel de relevo nas listas do CDS. O descontentamento face ao declínio de Portalegre, cidade capital de distrito, pode ser a grande força do Chega, se conseguir capitalizá-lo.

O BE é residual, o concelho de Portalegre não é radical, não apoia extremismos e muito menos as políticas fracturantes que caracterizam esta força de extrema-esquerda.

Por fim o CDS. Há quatro anos, o CDS vivia momentos de grande entusiasmo e união em torno da candidatura de Nuno Figueiredo Moniz. Hoje, «aos costumes nada diz».

Como se lamenta o ‘desaparecimento’ do CDS!

A diluição do CDS no concelho de Portalegre, quer no PSD, quer no Chega, acontece porque os actuais dirigentes assim o quiseram. Houve tempo para o CDS construir uma equipa forte para este acto eleitoral. Tristeza!

Mário Casa Nova Martins

24 de Maio de 2021

Rádio Portalegre

quarta-feira, maio 19, 2021

O ROSSIO É DE TODOS!

O ROSSIO É DE TODOS!

Em 19 de Maio de 2019, faz hoje precisamente dois anos, o Sport Lisboa e Benfica sagrava-se campeão nacional.

Por todo o país e no estrangeiro os Benfiquistas saíram à rua a festejar o título.

Mas em Portalegre não foi bem assim.

A autarquia discricionariamente proibiu o cortejo automóvel no Rossio, a Ágora Portalegrense.

No passado dia 11 de Maio, os Adeptos do Sporting Clube de Portugal, festejando a conquista do 19.º título de campeão nacional, fizeram o cortejo automóvel pela cidade, cruzando em todos os sentidos o Rossio. E muito bem!

Há dois anos, quando o SLB foi campeão pela última vez, a mesma déspota autarquia proibiu o cortejo automóvel dos Adeptos Benfiquistas no Rossio!

Forças policiais, junto ao stand da Opel, junto à antiga Moagem, junto às Brasileiras, Junto à Casa de Santa Zita, não deixando descer a rua dos Canastreiros, impediam a chegada ao Rossio!

Salvo honrosas excepções, os Benfiquista “comeram e calaram”, aliás, hoje já nem se lembram! Miséria de gente!

Em Maio de 2019 não havia nada que justificasse tal decisão da autarquia. Ao contrário de Maio de 2021, não se vivia em «situação de calamidade» por causa da pandemia do covid-19. Mas aos Benfiquistas foi-lhes negado o direito de circularem livremente no centro de Portalegre! 

Sim, a autarquia foi discriminatória em relação aos Adeptos do Sport Lisboa e Benfica!

Os Benfiquistas de Portalegre foram tratados como de segunda, e não pode haver Portalegrenses de primeira e Portalegrenses de segunda!

Em Portalegre vigora uma ditadura bacoca, só possível dada a mansidão das gentes.

Mas esta gentalha tem o que semeou. E em Outubro irá semear do mesmo! Também não merece mais!

Discriminação, despotismo, autocracia, reinam em Portalegre cidade e concelho.

A lei do “quero, posso e mando” é lei!

Aguentem!

Mário Casa Nova Martins

terça-feira, maio 11, 2021

Desabafos 2020/2021 - XVIII

Paulatinamente a vida retoma a normalidade. Cada dia que passa mais longe parece estar a memória acerca da origem da pandemia, o vírus chinês, do qual resta a dor da perda de familiares e amigos, e das sequelas que ficam para o resta da vida naqueles que o vírus chinês atacou.

Como a História mostra, após a catástrofe, e a pandemia do covid-19 foi uma, os que ficaram querem recuperar o tempo perdido, voltar a viver habitualmente, mas a pressa desse re-nascer pode tornar-se perigosamente.

Mas uma coisa é certa, a vida não pára, e para lá de todos os excessos consumistas que se verificam, como se não houvesse um amanhã, o «pão e o circo» voltou à ordem do dia.

Tal como a máxima orwelliana, segundo a qual «todos são iguais, mas há uns mais iguais do que outros», no verão que se aproxima não abrirá a Piscina Municipal.

Por todo os concelhos do distrito de Portalegre abrirão piscinas, mas na capital de distrito, Portalegre, a sua Piscina Municipal, não vai abrir!

A mentira da sua recuperação é por demais evidente! Quando a fecharam, um vereador pomposamente «adiantou que o município já tem em marcha o projecto de requalificação da Piscina Municipal, que prevê que as instalações funcionem durante todo o ano como unidade de restauração, a colocação de equipamentos lúdicos no tanque destinado aos mais pequeninos, e a construção de balneários para apoio ao campo de futebol que fica na parte de baixo.»

O tempo passou e nada foi feito! Tudo falso!

Venham agora falar novamente no dito projecto, apregoem em milhões para a sua recuperação, mas não irão recuperar a Piscina Municipal!

Lamento que o meu partido, o CDS, ande desaparecido, e nada diga aos Portalegrenses sobre este e tantos outros assuntos de real interesse para o Concelho!

Porca miséria!

Mário Casa Nova Martins

10 de Maio de 2021

Rádio Portalegre

Desabafos 2020/2021 - XVII



O edifício dos Paços do Concelho, situado na Praça do Município, data do século XVII. Este edifício é da época Filipina do ano de 1634.

Destaca-se o ferro forjado das sacadas das janelas. A janela principal está encimada pelo escudo das armas nacionais. Dos lados existem duas lápides, uma com as armas do município e a outra afirmando o culto da Imaculada Conceição, que é a Rainha de Portugal desde o reinado de D. João IV. A fachada principal está dividida em três corpos, separados por pilastras graníticas, sendo o mais alto encimado por um frontão triangular.

Esta introdução serve para demonstrar a importância histórica e arquitectónica do edifício dos Paços do Concelho.

A sua importância prova também a própria importância que em tempo passado teve a Cidade de Portalegre, que hoje ainda é Cidade e a capital do Distrito do mesmo nome.

Pode não parecer aos mais distraídos, aos mais incautos, e sobretudo aos incultos que estão na política local, os quais ‘nivelam’ a Cidade Capital de distrito que é Portalegre a uma qualquer vila do Distrito de Portalegre!

Há décadas que o edifício dos Paços do Concelho foi abandonado. Então começou a sua degradação, a pontos de hoje ter partes arruinadas.

Há dias foram tornadas públicas fotografias de um desabamento, queda de reboco e telhas na zona do beiral, do lado da Rua dos Açougues.

As mesmas fotografias mostram o estado em que se encontra exteriormente os Paços do Concelho, sendo fácil inferir com está o seu telhado e o interior.

O Centro Histórico de Portalegre é uma ruína a céu aberto, e os seus Paços do Concelho, outrora ex-líbris da Cidade capital de Distrito, caminham para a derrocada!

Mário Casa Nova Martins

26 de Abril de 2021

Rádio Portalegre

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Fotografias de João Velez Afonso

https://www.facebook.com/groups/vozdoplatano/permalink/4072885782754157/


sexta-feira, maio 07, 2021

Hitler e Estaline


A estafada frase “a História é escrita pelo vencedor” encerra uma verdade inquestionável.

Contudo, há sempre quem, não temendo as consequências, ameaças e ostracismo, desafie a ortodoxia oficial e vá em busca da verdade. Da Verdade!

Há a História da Segunda Guerra Mundial, a história e a estória.

Em Portugal editam-se, e então nos últimos tempos tem sido um ‘fartote’!, livros sobre a estória da segunda guerra mundial, sempre o mesmo tema, sempre a mesma narrativa, sempre o mesmo culpado, e esses livros de estória vendem-se ‘que nem pães quentes’!

Há também, pouquíssimos, livros editados em Portugal que relatam factos e personagens daquele período da Guerra Civil Europeia 1914-1945 com rigor, com verdade histórica, como os de Ian Kershaw, Martin Gilbert ou Anthony Beevor. Mas sempre dando ênfase aos vencedores, não questionando a fundo as razões dos vencidos.

É por essa razão que se torna fundamental ler o livro de Rui Manuel Silva «O Lobo e a Hiena», que estuda as causas que levaram à intervenção alemã na então União Soviética.

Os documentos apresentados provam os porquês.

«O Lobo e a Hiena» foi editado pela Aletheia Editores, e, sendo uma obra que não segue os cânones ‘oficiais’, é difícil de encontrar em livrarias, mas encontra-se disponível no site da editora e também na Wook.

Quanto ao clássico sobre esta temática «O Grande Culpado – O Plano de Stalin para iniciar a Segunda Guerra Mundial», de Viktor Suvorov, existe apenas a edição brasileira. Dada a temática, nunca qualquer editora portuguesa se interessou em editá-lo.

Pelas mesmas razões, obras de Robert Conquest, sobre o Holodonor e outros temas soviéticos, nunca foram traduzidas em Portugal. Ou as de David Irving. As de Anne Apllebaum estão esgotadas e não serão reeditadas. E assim por diante.

Portugal, dito país de brandos costumes, vive hoje uma ditadura de pensamento único,  pior do que nos tempos da Segunda República!

Mário Casa Nova Martins

https://www.wook.pt/livro/o-lobo-e-a-hiena-rui-manuel-silva/20286139?fbclid=IwAR2B2hm7dRXIXF7vZub-Iqw8wX9oMxAU2UonPx_9_zhEkSI5OYZw0iN5AlA

https://www.aletheia.pt/products/o-lobo-e-a-hiena-o-plano-para-a-conquista-da-europa?_pos=1&_sid=91769e174&_ss=r&fbclid=IwAR2qQUxIFOvBm8X3T3kuqBGgSrB8Jh2AQJ10n_3L2d0OHPBS3a9IUfV67nQ


segunda-feira, abril 12, 2021

Desabafos 2020/2012 - XVI

A 7 de Abril de 2017 o CDS do concelho de Portalegre tinha já tornado público o nome do seu candidato autárquico, e sabia-se que ia concorrer a todos os órgãos autárquicos, conhecendo-se, inclusive, o nome de quem liderava a lista à Assembleia Municipa, e os das freguesias.

Passados quatro anos, hoje, dia 7 de Abril de 2021, em termos das eleições autárquicas do próximo outono, nada do CDS se sabe.

Nos mentideros da política local, consta que o CDS estará em negociações com o PSD para uma coligação.

A ser verdade, é um crasso erro político o CDS ir aliar-se ao PSD no concelho de Portalegre.

A candidatura do PSD em Portalegre é uma candidatura não ganhadora.

Portalegre não é Sousel e muito menos Arronches. Portalegre é a Capital do Distrito de Portalegre! Que não se esqueça, Portalegre não é uma vila, é Cidade Capital de Distrito!

Há muito que o PSD menoriza Portalegre ao compará-la a uma vila, ao colocá-la no mesmo patamar político que uma vila! Portalegre é Cidade e Capital de Distrito!

O PSD do concelho de Portalegre é o responsável pela famigerada dívida que asfixiou, que paralisou toda a actividade no concelho de Portalegre por parte da autarquia, que mais não podia fazer que pagar juros da dívida e amortizá-la.

Os Portalegrenses têm memória, e sabem que o PSD destruiu o futuro próximo do concelho!

É a este PSD, controlado pelo ‘Grupo das Finanças’, que o CDS se quererá coligar. Grande erro político! Não há ‘lentilhas’ que paguem este erro!

Em 2021, o CDS em Portalegre tem um candidato natural, melhor, um nome, uma candidata que tem todas as condições para repetir o magnífico resultado de 2017.

O CDS em 2021 não precisa, tal como em 2017, de se aliar ao PSD.

A candidata natural vive a Cidade e o Concelho como poucos. Sente e conhece os problemas das suas Gentes. Sabe como resolvê-los. É uma mais-valia para Portalegre.

Há anos que escreve sobre Portalegre. Pertence à sua vida política, social e cultural. Os seus sentires são o amor pela Terra que a viu crescer. A sua candidatura une o CDS de Portalegre, e penetra na sociedade concelhia.

Quem melhor para em 2021 liderar a candidatura do CDS à autarquia de Portalegre?

Mário Casa Nova Martins

12 de Abril de 2021

Rádio Portalegre

Presidência da Autarquia, Nuno Figueiredo Moniz, com Júlia Comprido, Paulo Andrade

Assembleia Municipal, Carlos Juzarte Rôlo

Freguesia da Sé e São Lourenço, Nuno Brito, com Célia Carreiro

Freguesia dos Fortios, Gracinda Esteves

Freguesia do Reguengo e São Julião, Marília Raposo

Freguesia de Alegrete - Lucina Aurora Baptista

Freguesia da Alagoa, Duarte Pinheiro Mendes

Freguesia da Ribeira de Nisa e Carreiras, Pedro Pinto

Freguesia da Urra, Luís Lupi


segunda-feira, abril 05, 2021

Tintin - Xavier Marabout 3

Xavier Marabout é um pintor francês que ousa imaginar uma vida sentimental em Tintin, através de quadros claramente inspirados em obras de Edward Hopper

sexta-feira, abril 02, 2021

Páscoa 2021

quarta-feira, março 31, 2021

Desabafos 2020/2021 - XV

O relatório "365 dias de pandemia", publicado no passado dia 18 de Março pela SIBS, empresa que gere a rede multibanco, analisa o impacto no consumo dos dois confinamentos e das restrições impostas pelo governo.

Hoje o comércio digital tem o dobro do peso, “subiu de 10% no 'antigo normal' para 18% no segundo período de confinamento”, face ao total das compras realizadas. Estes números demonstram “uma crescente adopção do canal digital”.

Por áreas, a alimentar e a secção de desporto são as que registam o maior crescimento de vendas on-line. O comércio alimentar aumentou 109% no primeiro confinamento e 97% no segundo, a venda de material desportivo subiu 114% no primeiro confinamento e 190% no segundo.

Aumentam as compras à distância, e nos pagamentos os consumidores evitam os contactos. A utilização de cartões com tecnologia ‘contactless’ está a aumentar de forma significativa. No segundo confinamento, 39% foram feitos com “contactless”, enquanto antes da pandemia estes pagamentos representavam apenas 12% do total.

As lojas físicas perderam vendas, sobretudo durante o primeiro confinamento. Entre 18 de Março e 3 de Maio, as compras nestes espaços caíram 47%, em comparação com igual período de 2019. Já entre 15 de Janeiro e 17 de Março de 2021, a queda homóloga foi de 29%.

A excepção a esta quebra são as mercearias e minimercados de bairro, onde as vendas aumentaram. Este sector “foi contra cíclico, por ter registado um número de transacções superior ao homólogo durante este ano de pandemia”.

As compras físicas e on-line nos transportes de passageiros e gasolineiras, além de outras operações relacionadas com mobilidade, que revelaram “diminuições significativas nas deslocações entre 18 Março e 3 Maio de 2020 (-64% face ao período pré-pandemia), e entre 15 de Janeiro e 17 de Março de 2021, onde a quebra na mobilidade em Portugal ficou pelos -45%”.

A análise destes dados pela SIBS mostra a gravidade da pandemia para a economia, que vai levar muito tempo a recuperar. Dias complicados estão no horizonte!

Mário Casa Nova Martins

29 de Março de 2021

Rádio Portalegre

terça-feira, março 30, 2021

Rotunda do Pirilau

ROTUNDA DO PIRILAU

Aquela que outrora era conhecida por Rotunda dos Dadores de Sangue, também conhecida pela Rotunda do Mamarracho, deu lugar a nova rotunda. O seu nome é ou será aquele que lhe quiserem dar, mas, por certo, sugestões de toponímia não faltarão.

É famosa e escultura de José Cutileiro, no alto do Parque Eduardo VII em Lisboa

Encomendada para celebrar o ’25 de Abril’, à sua forma simpática o Povo deu-lhe o nome de ‘PIRILAU’, o Monumento do Pirilau

O falo é sinónimo de fertilidade, e fértil será a terra que o tenha.

Lisboa já tem o seu, o ‘pirilau’. Será que Portalegre vai ter o seu, o ‘pirilau’ de Portalegre, o ‘pirilau’ portalegrense?

Portalegre terá aquilo que as suas Gentes quiserem.

Melhor, Portalegre tem aquilo que merece!

E Portalegre também mereceu um monumento ao qual as suas Gentes lhe possam dar, como em Lisboa, o nome de ‘PIRILAU’!

A dita rotunda foi a obras e delas surgiu uma chamada calçada portuguesa e no centro está implantando um objecto cilíndrico de notória altura.

A sua forma pode ser interpretada como um falo, daí se perguntar se, como em Lisboa, em Portalegre vai ter um monumento em forma de pirilau?

A assim ser, a dita rotunda pode muito bem ser baptizada com o simpático nome de Rotunda do Pirilau!

Sabe-se lá se a ideia do bonito monumento não partiu de uma Dama que, em final de ciclo, quer desta forma homenagear O Seu Mais que Tudo!!!

Que viva a Rotunda do Pirilau!

Mário Casa Nova Martins

sexta-feira, março 26, 2021

Tintin - Xavier Marabout 2

Xavier Marabout é um pintor francês que ousa imaginar uma vida sentimental em Tintin, através de quadros claramente inspirados em obras de Edward Hopper

quarta-feira, março 24, 2021

Tintin - Xavier Marabout 1

Xavier Marabout é um pintor francês que ousa imaginar uma vida sentimental em Tintin, através de quadros claramente inspirados em obras de Edward Hopper

segunda-feira, março 22, 2021

Jaime Nogueira Pinto - Educação

 Em 2003, quando ainda a procissão e o milénio iam no adro, Anthony Browne, um licenciado em Matemática por Cambridge, escritor, jornalista e colaborador do Times, publicou The Retreat of Reason – Political Correctness and the Corruption of Public Debate in Modern Britain. E a título de exemplo, começava por denunciar a cortina de silêncio com que, por puro pudor e paternalismo ideológico, a imprensa britânica tinha velado a incidência de HIV nas comunidades de migrantes africanos. E isso era só um vislumbre: a Grã-Bretanha, que “durante séculos tinha sido um farol da liberdade de pensamento, de credo e de expressão”, via agora “a sua vida intelectual e política acorrentada”, com “vastas áreas de conhecimento” excluídas do debate pelos novos moralistas.

Browne resumia depois a Longa Marcha do marxismo cultural, da escola de Frankfurt à contracultura euro-americana dos anos 60, e daí até à hegemonia académica, sobretudo nas Ciências Sociais e, mais especificamente, nos “Estudos” sectoriais, que as universidades norte-americanas irradiavam para o mundo.

E os “Estudos”, pós-coloniais, feministas, interseccionais, proto-LGBTQ+ – que, no seu melhor, começaram por ser sedutoras “paranóias de tipo interpretativo” com “a força e a estreiteza da loucura” (para usar a definição de Pessoa do “critério psicológico de Freud”), capazes de nos alertarem para realidades encobertas, de acordarem outros sentidos nas obras literárias, historiográficas ou filosóficas, de abrirem caminhos e campos de investigação e de criaram novas oportunidades de trabalho – foram tomados de assalto por zelotas.

Aconteceu também que o zelo destes zelotas, com o seu vocabulário esotérico (tanto mais complexo, sofisticado e “científico” na forma, quanto mais oco, medíocre e manipulador no conteúdo), se foi sobrepondo a tudo o resto… E foi seduzindo fundações burguesas e governos que, quais aristocratas francesas acarinhando nos seus salões as iluminadas ideias que haviam de cortar o pescoço aos seus filhos e netos, se foram rendendo ao charme discreto dos novos “sábios dos oprimidos”.

E assim os “Estudos” cresceram e multiplicaram-se, enchendo e dominando a academia e reinando sobre todos os animais exóticos da terra. E desdobraram-se em Centros, Fóruns, Iniciativas e Observatórios, subjugando aqui, domesticando ali, preservando acolá, mas observando sempre.

E eis que, em incansável demanda por opressores e oprimidos, por macro e micro agressões, por visões alternativas e por subvenções, os zelotas que, do alto dos seus observatórios de marfim, tinham começado por promover a nova moral, passaram a perseguir os recalcitrantes – passados, presentes e futuros. Cada tique de linguagem, cada acto, palavra ou omissão, cada desvio do pensamento correcto, neutro e inclusivo, cada cisco, por mais ínfimo, no olho de um “opressor”, ou de um autor consagrado ou de uma figura histórica celebrada, era escrupulosamente observado, pesado, medido, condenado. E não se pense que os “oprimidos” conheciam melhor sorte: a eles também se exigia que não saíssem do redil e que se cingissem à identidade em que os novos moralistas os encurralavam… É que se não parassem quietos e se não se deixassem ficar oprimidos como lhes competia, se começassem a pensar e a reivindicar individualidades e especificidades, como é que queriam que os detentores da nova verdade e da nova moral os libertassem, lhes arranjassem subsídios e empregos nos Centros, Fóruns, Iniciativas e Observatórios que eles controlavam e os sustentam?

“Pensamento correcto” foi uma expressão abundantemente usada pelos partidos comunistas nos anos 20 e 30; Mao Tsé-Tung repetiu-a incessantemente nos seus escritos. Correcto, era todo o pensamento que estava de acordo com a linha do Partido ou que batia certo com as categorias históricas e sociopolíticas cientificamente estipuladas pelo Grande Timoneiro. Fora dessa correcção, não podia haver pensamento – mas não deixava de haver consequências.

DO PENSAMENTO CORRECTO AO PENSAMENTO

NEUTRO E INCLUSIVO

Dir-se-á que agora, com o actual “pensamento neutro e inclusivo”, que actua essencialmente no condicionamento da linguagem, não há consequências. Ou não as haverá tão imediatamente brutais e fatais. Mas não deixa de haver supressão do pensamento “incorrecto”, ou seja, inibição do pensamento. E se a nova ortodoxia parece não aspirar já a um tradicional “assalto ao poder”, é só porque a influência constante e progressiva nas mentalidades, traduzida depois em leis e regulamentos, tornou o velho “assalto” irrelevante.

Fora do discurso consentido, todo o discurso poderá facilmente ser denunciado como “discurso de ódio”, ao sabor do zelo e da criatividade dos sacerdotes do novo credo e do seu Index. Acresce que esta ortodoxia é tendencialmente elitista, acarinhando os magos e desprezando os pastores, procurando colonizar preferencialmente, por doutrinação ou pressão, as elites funcionais – ou, para usar uma linguagem mais consentânea, “a população em cargos académicos, artísticos, mediáticos e empresariais”.

Mas se a resistência vem das maiorias que o pensamento “neutro e inclusivo” discrimina, como as classes médias profissionais, as massas populares e religiosas e o grosso da população “binária”; vem também das minorias que o mesmo pensamento cristaliza.

PORTUGAL NO BOM CAMINHO

É por isso que consideram urgente domar a linguagem e explicar ao povo e às crianças o novo credo. Para uma educação neutra, as identidades nacionais devem então ser substituídas por uma humanidade global, fluída, indistinta, volátil, inclusiva. Bandeiras, só talvez a do arco-íris, devendo a História nacional ser reavaliada à luz do que foram “verdadeiramente” os “chamados Descobrimentos”: nada mais do que uma empresa comercial lucrativa, racista, esclavagista e exploradora dos povos africanos e ameríndios.

E estamos no bom caminho: temos uma investigadora que quer anexar notas pedagógicas anti-racistas aos Maias de Eça de Queiroz, um deputado que quer destruir o Padrão dos Descobrimentos, uns anónimos que acham que vandalizar a estátua do Padre António Vieira é lutar contra o racismo, e um Conselho Económico e Social que acha fundamental para a nossa economia e para a nossa sociedade que se adopte uma nova linguagem. Não restam dúvidas: entre a profunda ignorância de quem aparentemente pertence à “população com baixa visão” mas que frequentemente descobrimos como parte da “população em cargos de gestão”, estamos mesmo no bom caminho.

São tempos estranhos para a razão e para o senso comum, sob estas acometidas orwellianas, tão apartadas de qualquer visão minimamente realista da natureza humana, da criatividade humana e do pensamento e da acção humana que têm tudo para acabar mal.

Segundo o novo código de Hollywood, para que um filme se candidate aos Óscares, deverá agora ter “pelo menos um actor ou uma actriz principais de etnias sub-representadas” (asiática, hispânica, afroamericana, nativa-americana); e o elenco secundário terá de ter, “pelo menos, 30% de mulheres, LGBTQ+ ou pessoas com incapacidade”, que deverão “estar também representadas, de alguma forma, no argumento”. Enfim, perante esta sua sequela gramsciana, empalidece, acabrunhado, o realismo socialista da Rússia de Estaline (que sempre tinha Dziga Vertov e Sergei Eisenstein).

É todo um novo catecismo laico, mas promovido com fúrias de Torquemada. Aplicou-se, consciente ou inconscientemente, um princípio de desconstrução marxista, que passou da “classe social” para outras determinantes. Onde, na Vulgata, havia Burgueses e Proletários, Exploradores e Explorados, Patrões e Trabalhadores, há agora o mais fluído binómio Opressor-Oprimido – ainda que com categorias igualmente inflexíveis, de raça, de género, de comportamento social e político.

E tal como Marx, Engels, Lenine e Trotsky, que não eram propriamente proletários, adoptaram “a teoria do Partido como vanguarda da classe operária” para puderem liderar a revolução, também os pioneiros da Correcção Política, que, na sua maioria, também não são propriamente “oprimidos de origem”, adoptam agora a teoria da vanguarda para poderem guiar e pastorear convenientemente os “novos proletários”. E assim como Marx e Engels sofriam com a adesão dos operários franceses e alemães ao bonapartismo ou ao socialismo patriótico, também os novos comissários políticos sofrem com os trânsfugas das modernas massas “minoritárias” ou “oprimidas” e sabem que não as podem deixar ao abandono. Têm de ser educadas e controladas. E, para isso, lá estão os capatazes, os quadros médios vigilantes, na Academia, no jornal ou na estação televisiva, prontos a seguir, por convicção, ignorância, ou dependência, a “linha geral” e correcta, a linha do Partido, e a punir os oposicionistas e os desviacionistas.

Para singrar neste mundo “neutro e inclusivo” há inúmeros filões a explorar, e as figuras e os escritores de outras épocas abrem toda uma vasta gama de apetecíveis e subsidiáveis possibilidades. E se ao ler Eça somos imediatamente confrontados com a ausência – e a necessidade, e a urgência – de notas pedagógicas anti-racistas, o mundo machista de Camilo, por exemplo, pleno de “discurso de ódio” contra “brasileiros”, de mulheres que acabam em conventos por paixões contrariadas, ou, pior ainda, que casam, têm filhos e estão contentes, afigura-se ainda mais necessitado de delações censórias. E Camões, e Gil Vicente, que riqueza para denúncias!

Lorena Germán, presidente do National Council of English Teatcher’s Comittee Against Racism and Bias in Teaching of English é um exemplo a seguir. À semelhança de Mao, que não gostava de Shakespeare ou o achava impróprio para as massas e por isso o proibiu durante a Revolução Cultural, Germán também não morre de amores pelo Bardo. Ou melhor, concede que “como qualquer outro dramaturgo” Shakespeare até terá um certo “mérito literário”, mas nada que ofusque a abjecta demonstração de “supremacia branca e colonialista” que os seus textos, e a importância que se lhes dá, exalam. E a violência, a misoginia e o racismo que descortina em Shakespeare, levam a professora a sugerir que se celebrem nas salas de aula “as vozes dos marginalizados”, até para mostrar aos estudantes “uma sociedade melhor”. Defende ainda que “é imperativo corrigir a mensagem que os educadores e os sistemas escolares dão às crianças”: Haverá uma linguagem “superior”? E qual deverá ser ela? Quais são as histórias verdadeiramente “universais”? Que História devemos transportar para o futuro?

CANCELAR SHAKESPEARE

Shakespeare não será, evidentemente, um dos eleitos, uma das vozes a transportar para o futuro. Até porque está longe de reunir os requisitos da nova linguagem e do novo pensamento neutro e inclusivo. É difícil encontrar um escritor onde a Humanidade, na sua grandeza e miséria, nos limites do sublime e da queda, no elenco dos sentimentos e dos sentidos, seja tão intrincada e completamente recriada – e isso, não só não é bom para as massas, como é, claramente, demais para a simplista e maniqueísta neutralização do pensamento que nos deverá guiar

Mas haverá palavras “neutras” para falar de paixão mais inclusivas do que as que Shakespeare usou em Romeu e Julieta? Será só de “branquitude” que nos fala quando disseca os caminhos da tragédia, da ambição e do poder em Júlio César? Ou quando nos confronta com o ressentimento, a malevolência e o ciúme, em Otelo? Sim, Otelo, o “Mouro”, ou o “Negro” de Veneza, o condotiere mercenário, integrado por Desdémona, mas olhado sempre como um “cristão-novo” pelos patrícios. E a revolta das “minorias”, não estará lá na tirada defensiva de Shylock, no Mercador de Veneza, ou na sombra de Caliban, na Tempestade? Pouco importa: deixámos de precisar de Shakespeare, que só por preconceito e por imposição racista resistiu a séculos de leitura; o que o mundo e os estudantes agora precisam, o que todos nós precisamos agora, e urgentemente, é de linguagem neutra e inclusiva.

Marx era um grande leitor e admirador de Shakespeare, lia-o aos filhos e a família chamava-lhe “O Mouro”, por causa da sua obsessão por Otelo. Via em Shylock o retrato do explorador e Timon de Atenas serviu-lhe de ponto de partida para uma reflexão sobre os paradigmas do ouro e do dinheiro. Mas isso eram outros tempos, tempos opressores, em que “a cultura” era mais depressa valorizada do que cancelada, e em que o pensamento não era ainda suficientemente neutro e inclusivo.

Felizmente, e para desgosto das Lorenas Germáns deste mundo, não são só as “maiorias opressoras” que reagem… Alguns dos mais qualificados membros pensantes das “minorias oprimidas” também fogem ao espartilho imposto, resistindo ainda e sempre à neutralização do pensamento.

A grande poetiza negra americana, Maya Angelou, estava bem ciente que Shakespeare era branco, inglês e do Renascimento, mas, recordando a sua própria condição marginal na Carolina do Norte dos meados do século XX, escreveu a propósito do Soneto 29 (aquele que começa “When, in disgrace with fortune and men’s eyes /I all alone beweep my outcast state”):

Shakespeare escreveu-o para mim, esta é a condição da mulher negra. Claro, Shakespeare era uma mulher negra. Percebo-o bem. Ninguém mais o sabe, mas eu sei que Shakespeare era uma “mulher negra”.

Estamos com ela. Resistimos e vamos resistir à neutralização do pensamento. Pelas maiorias e pelas minorias.