\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

segunda-feira, maio 28, 2012

António Martinó de Azevedo Coutinho

IV – a palavra foi dada ao homem para servir o seu pensamento

A questão da palavra, colectivamente trabalhada pelos partidos políticos, não se esgota neste particular, embora interessante.
Retoma-se, por isso, a pertinente crítica de João Adelino Faria que suscitou estas reflexões. A sociedade civil actual, dando conta duma lenta evolução (!?) semântica, criou e usa hoje um sistema linguístico diverso daquele que aprendeu, pela subtil introdução de novos termos vocabulares e, sobretudo, pela alteração dos significados tradicionais que eram atribuídos a certas palavras. Já disto apreciámos antes alguns curiosos exemplos. Mas não devemos ficar por aí.
São quase infindáveis os campos sociais onde se verificam consideráveis e por vezes confusas mudanças na terminologia “corrente”. Nos domínios informáticos, onde este texto foi produzido e onde está a ser exibido, parece ter entrado no seu léxico específico um conjunto de cretinices vocabulares importadas ou adpatadas à pressa sem qualquer sentido crítico, até porque existem na nossa língua termos perfeitamente adequados a cada situação “renomeada”. Printar em vez de imprimir, deletar por apagar ou save por troca com gravar são apenas alguns exemplos gritantes desta informatizada confusão mental. Mailar ou googlar pretendem ser formas verbais aplicadas com inteira propriedade quando alguém envia correio ou pesquisa através do seu computador. O anglicismo site tomou, quase de vez, o lugar do portuguesíssimo sítio... O mesmo se passa com link “versus” ligação e fones em vez de auscultadores.
A nossa língua é demasiado analítica perante o sintético idioma inglês? E isso, só por si, explica o nosso conformismo, a nossa passiva subserviência vocabular? Teremos receio de passar por “totós”?
Encaremos agora outra família de disparates, estes de um foro menos especializado, mais comum.
Talvez tudo tenha começado nos Estados Unidos, onde as preocupações de adocicar o racismo latente produziram a invenção das designações afro-americanos ou hispânicos para denominar os negros ou os mexicanos, cubanos e outros originários latinos.
Na mesma lógica, nós agora chamamos empregadas domésticas ou auxiliares de apoio doméstico às criadas de servir; auxiliares de acção educativa ou agentes operativos aos contínuos; os caixeiros viajantes de medicamentos chamam-se modernamente delegados de informação médica; os caixeiros das lojas passaram a técnicos de vendas; os bandos étnicos são grupos de jovens; os operários e outros funcionários denominam-se, nesta revisão do léxico comum, colaboradores; as crianças irrequietas, com “bichos carpinteiros” (como antigamente dizíamos), passaram a sofrer de comportamento disfuncional hiperactivo; os cábulas assumidos devem ser tratados como alunos de desenvolvimento instável; os gordos e os magros são pessoas atingidas por uma  disfunção alimentar; os afectados por mongolismo sofrem, afinal, de síndroma do cromossoma 21; as mães solteiras inserem-se numa família monoparental; quem assume o aborto permite a interrupção voluntária da gravidez; os cegos são, afinal, invisuais, mas não denominamos os surdos de “inauditivos” nem os paralíticos de “inmovimentáveis”; os débeis mentais já têm sido classificados como indivíduos com atitude não vinculativa... Talvez, nesta linha, depressa se classifiquem os anões como cidadãos verticalmente desfavorecidos ou os grandes obesos como seres horizontalmente beneficiados... Talvez!
Estes disfarces da realidade, (provavelmente?) consagrados em nome de piedosas intenções de igualdade, na maior parte dos casos nada resolvem no campo da autêntica inserção ou reabilitação social, assim como na luta contra as discriminações.
As fábricas são unidades produtivas; a chaga social do analfabetismo nacional desapareceu ao dar lugar à iletracia; os maus alunos já não “chumbam”, ficando apenas retidos; as “discriminatórias” 1.ª e 2ª classes nos comboios sobreviventes denominam-se agora respectivamente, em muitos casos, Conforto e Turística e por aí fora, pouca-terra, pouca-terra e também pouco senso, pouco senso...
O novo-riquismo que parece ter dado a volta ao nosso léxico habitual assume diversas combinatórias onde a única regra perceptível é de fugir a sete pés de toda a lógica assente na tradição linguística. O próprio corporativismo parece ressuscitado quando se empregam, com ar pretensamente sério, expressões classificativas como “gramatiquês”, “eduquês”, “economês”, “futebolês” e outras, muito mais num sentido globalizador do que crítico ou sistémico.
Este linguajar, que tem vinda a tomar o lugar da linguagem, constitui uma ameaça  a que poucos parecem dedicar alguma atenção.
Trata-se de um autêntico círculo vicioso para o qual George Orwell (o autor de Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, O Triunfo dos Porcos e outras obras notáveis) atempadamente nos avisou, quando disse: “Se as ideias corrompem a língua, a língua também corrompe as ideias.”
O enriquecimento -e nunca a destruição ou o abastardamento- do vocabulário não serve apenas para falar “bonito”; serve sobretudo para pensar “direito”.
António Martinó de Azevedo Coutinho

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