\ A VOZ PORTALEGRENSE: Sílvio Vieira Mendes Lima

domingo, setembro 12, 2010

Sílvio Vieira Mendes Lima

Sílvio Lima leitor de Garrett

Faz hoje, dia 12 de Setembro de 2010, precisamente noventa anos que Sílvio Lima autografou e datou o livro de Almeida Garrett «Frei Luiz de Sousa».
Certamente também neste dia terá escrito no livro como que uma introdução à Obra, e, quiçá, tê-lo-á lido no próprio dia. São apenas setenta e oito páginas, de uma leitura em português escorreito, um texto de uma vivacidade continuada e um drama que muito diz a quem cultivou a Arte de ser Português. Como Sílvio Lima o fez.
Sílvio Vieira Mendes Lima nasceu em Coimbra em 5 de Fevereiro de 1904. Quando lê o drama «Frei Luiz de Sousa» tem dezasseis anos, sete meses e uma semana, tendo em conta a data que escreveu no livro que cotejamos.
Naquele dia está de férias na praia da Figueira da Foz, praia que em toda a sua vida frequentará, primeiro com os Pais no mês de Setembro e depois de casado e devido à sua vida profissional em Agosto. Todavia, a sua relação com a Figueira Foz foi mais além do que a fruição da época balnear, tendo nesta cidade colaborado em jornais locais e feito conferências.
É um jovem, de férias e em vésperas de entrar na Universidade de Coimbra, quem lê o livro de Almeida Garrett. Sabe-se que Sílvio Lima se irá matricular no seu primeiro ano de Universidade na Faculdade de Medicina, curso que irá abandonar nesse mesmo ano, para no seguinte se matricular na Faculdade de Letras, onde terá um percurso brilhante quer como aluno quer como professor.
É, portanto, um jovem que queria ir para um curso na área das ciências o leitor de Garrett e não ainda o aluno de humanidades.
Este é um pormenor interessante, tendo em conta não as notas que Sílvio Lima deixou no livro, aliás, nenhuma, mas quanto aos sublinhados e traços verticais laterais.

Em primeiro lugar, Sílvio Lima tem a preocupação de escrever uma curta introdução, onde deixa pequenas mas importantes notas sobre as principais personagens, bem como afirma ser o enredo ficção da pena de Garrett.
O drama de Almeida Garrett foi estreado em 1843 e publicado em 1844 com notas do autor.
Decorre no século XVI, durante o Interregno, em Almada e retrata a vida de Manuel de Sousa e da sua mulher D. Madalena de Vilhena.
O seu primeiro marido, D. João de Portugal, apesar de se pensar que terá sido morto na batalha de Alcácer Quibir, está ainda vivo e regressa a Portugal tornando ilegítimo o casamento de Manuel e de Madalena.
D. Maria de Noronha é fruto do casamento de Manuel e D. Madalena, e é criada por um aio, Telmo Pais, que é leal ao seu antigo amo, D. João de Portugal, para além de ser contra o segundo casamento de D. Madalena
A primeira nota/observação surge na página trinta e um, na cena XII, quando Madalena de Vilhena pergunta ao marido Manuel de Sousa o que está a fazer.
Manuel de Sousa está a incendiar a casa para que os governadores do reino, fugindo da peste que grassa em Lisboa, não possam alojar-se em sua casa.
Ao dar importância apenas a duas falas, Sílvio Lima quer homenagear o feito de Manuel de Sousa, um acto de grande temeridade face ao poder dominante, mostrando um forte patriotismo num tempo em que a principal nobreza se colocara ao lado do espanhol.
O Portugal de 1920, o ano em que Sílvio Lima lê o livro, é um país à deriva.
Entre Janeiro e Maio, ‘a confrontação social entre os trabalhadores, o Estado, a pequena e média burguesia e o patronato atinge níveis elevados. Do lado do movimento operário, multiplicam-se as greves, as manifestações e os comícios, os atentados bombistas e os assassinatos. Aumentaram, também, os despedimentos, as iniciativas de assalto às sedes de sindicatos e jornais operários, as prisões e deportações de dirigentes e activistas sindicais, a mobilização sistemática de contingentes policiais e militares’. (1)
E de Junho a Setembro, ‘apesar das diversas medidas tomadas pelo Governo com o propósito de atenuar as dificuldades de abastecimentos e de reduzir o ritmo de subida dos preços, as dificuldades sentidas por segmentos amplos da população provocaram o ressurgimento, em diversas localidades do país, de «tumultos da fome» e de assaltos colectivos a lojas e armazéns de produtos alimentares’. (2)
Compreende-se que o jovem leitor de Garrett se impressione com este acto patriótico, tendo em conta o que o cerca em Portugal. Filho de uma Família da alta burguesia de Coimbra, onde o comércio e a indústria são os geradores da fortuna familiar, nunca tendo sentido qualquer tipo de dificuldades, não deixará de ser sensível à situação política, económica e social que à sua volta se desenrola.
Mais adiante, na página trinta e dois surge um sublinhado, que se refere à obra de Bernardim Ribeiro «Menina e Moça» e ao seu primeiro verso. «Menina e Moça» é a primeira novela pastoril da Península Ibérica escrita em português. A sua influência na literatura portuguesa é enorme, e de certeza que Sílvio Lima a teria lido antes, ou, mesmo, estudado no Colégio de São Pedro, onde era aluno interno.
E a beleza dos versos de Bernardim não terão deixado indiferente aquele Jovém de dezasseis anos e meio, cheio de sonhos e de quimeras. É mais importante que Sílvio Lima tenha sublinhado não o verso mas sim a análise de Maria à obra de Bernardim, “é o princípio d’aquele livro tam bonito”, e que ela, ao contrário da mãe, tão bem entende.
Nova referência acontece na página cinquenta e três. Aqui é uma crítica de D. João de Portugal aos seus parentes, crítica centrada em sua mulher, que alcançara a felicidade após julgar a sua morte.
Aqui Sílvio Lima tem a sensibilidade para sentir uma espécie de solidariedade para com D. João de Portugal, num momento dos mais dramáticos da obra, só suplantado pela cena XV entre Frei Jorge Coutinho e D. João de Portugal.
O segundo acto, que finda com a cena XV, termina da forma mais dramática, quando Frei Jorge pergunta ao Romeiro quem é. E aqui, página cinquenta e seis, Sílvio Lima sublinha e anota na margem esquerda com um xis e um parêntesis e na margem direita com um parêntesis.

Almeida Garrett e Sílvio Lima são figuras cimeiras da Cultura em Portugal. Cultivaram áreas do Saber diferentes, mas ainda hoje as suas Obras são objecto de leitura e de estudo. São ambos Mestres de uma Portugalidade vivida e sentida. Une-os também um amor à Pátria. Viveram tempos diferentes, que tiveram em comum tempos difíceis, muitos deles em que a independência de Portugal esteve em perigo, sempre pela cobiça de Espanha.
«Frei Luiz de Sousa» é uma obra patriótica, que é lida por todo aquele que sente ser Português!
Mário Casa Nova Martins

(1) História Comparada – Europa, Portugal e o Mundo, Volume II
Direcção de António Simões Rodrigues,
Círculo de Leitores, Novembro de 1966, pg. 288
(2) História Comparada – Europa, Portugal e o Mundo, Volume II
Direcção de António Simões Rodrigues,
Círculo de Leitores, Novembro de 1966, pg. 289
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Sílvio Vieira Mendes de Lima
Figueira da Foz, 12 de Setembro de 1920


D. Manuel de Sousa Coutinho (Frei Luís de Sousa) nasceu em Santarém em 1555, provavelmente. Partindo para o Oriente foi aprisionado por piratas mouros. Em Argel conheceu Cervantes, que sofria de igual sorte. Resgatado em 1577, regressou a Portugal em 1578 e casou entre 1584 e 1586 com D. Magdalena de Vilhena, viúva de D. João de Portugal. Morreu em 1632, no convento de S. Domingos de Benfica, e Madalena no mosteiro do Sacramento. Tudo quanto se refere ao aparecimento de D. João de Portugal é pura lenda, que só teve o mérito de inspirar Garrett no primeiro dos seus dramas.
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Autógrafo de Sílvio Lima
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Magdalena. Que fazes... que fizeste? - Que é isto, oh meu Deus !
Manuel. tranquilamente. Illumino a minha casa para receber os muito poderosos e excellentes senhores governadores d'estes reinos. Suas excellencias podem vir quando quizerem.
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é o princípio d'aquelle livro tam bonito
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Romeiro. Parentes!.. Os mais chegados, os que eu me importava de achar... contaram com a minha morte, fizeram a sua felicidade com ella; hãode jurar que me não conhecem.
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Jorge. Romeiro, romeiro ! quem és tu ?
Romeiro. apontando com o bordão para o retratto de D. João de Portugal. Ninguem.
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