\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

segunda-feira, outubro 04, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho


Mudemos de temática, na intenção de abordar todos os aspectos essenciais dessa obra complexa que é o álbum Tintin no Congo. Nesta lógica, talvez se pudesse intitular a presente crónica de Os Animais e a Conservação.
O mais curioso -como nota prévia- é o facto de este tema se constituir como dos mais polémicos, embora contraditoriamente seja muito pouco referido (ou preferido) pelos acusadores de Hergé. Sendo a ecologia uma das questões magnas do nosso tempo, deveremos reconhecer que a luta contra os preconceitos raciais lhe leva vantagem, sobretudo social e política. No entanto, tudo está interligado.
Benoît Peeters, um dos mais completos e informados biógrafos do desenhador (Hergé - Filho de Tintin, ed. Verbo, 2007), não hesita em escrever aí: “Tintin no Congo não tem, no entanto, nada de grandioso. (...) Quanto à narrativa, é reduzida à expressão mais simples. É uma sequência de cenas entrecortadas por algumas páginas de propaganda colonial. A confrontação com o reino animal é a matéria essencial.”
Recapitulemos uma curta passagem das já citadas Entrevistas ao “pai” de Tintin:
Numa Sadoul: “- Gosta de animais?”; Hergé: “- Sim, gosto muito. E, justamente, sinto remorsos por ter morto ou feito sofrer um grande número de animais em Tintin no Congo!... Como pude mostrar uma tamanha crueldade? Não cesso de o lamentar, como outras acções censuráveis que terei realmente cometido!...”
A presente proposta considera, portanto, uma breve análise às relações do nosso herói com a fauna do Congo, tendo como ponto de partida estas duas citações.
O objectivo da ida do jornalista Tintin ao Congo Belga nunca resultou claramente explícito nas páginas da obra. Embora as suas ambíguas reportagens fossem antecipadamente disputadas por diversos representantes de grandes jornais (incluindo-se o Diário de Lisboa!), talvez a temática delas se inserisse, em particular, no universo dos safaris, a avaliar pelo depoimento inicial e por um posterior comentário de Milou.
Ao despedir-se de outros cães, no cais, o companheiro de Tintin declarou expressamente: “ - Sim, vou caçar o leão.”. Depois, já embarcado, comenta parte da bagagem: “ - Que grossos cartuchos!... Isto deve ser, certamente, para caçar o elefante!”.
A relação da dupla Tintin/Milou com o mundo animal é abundante e diversificada, através das páginas do álbum. Eis uma súmula:
• Durante a viagem, Milou encontra uma aranha e um papagaio (que o morde) e, logo após a chegada, é picado por mosquitos. Tintin, por sua vez, é quase electrocutado por uma raia eléctrica e luta contra um tubarão para salvar Milou.
• Após a chegada ao Congo, Tintin sai por diversas vezes, de espingarda em punho, para caçar (em abstracto); procurar carne para o jantar; caçar o “senhor leão” (a convite do rei dos Baoro’m); pela noite, organizar uma espera ao leopardo; caçar elefantes (a convite do superior missionário), etc.
• Dispara em vão sobre crocodilos; salva-se de um outro especando-lhe as mandíbulas com a arma; produz por engano um massacre de 15 antílopes (inspirado no romance Os silêncios do Coronel Bramble, de André Maurois); abate um macaco, esfola-o, veste-lhe a pele e assim salva Milou; reciprocamente, é depois salvo por este, que para tal arranca a ponta da cauda a um leão; mata uma serpente e evita assim a morte do traidor feiticeiro; castiga uma serpente-boa, pelo “inquisitorial” sistema do rabinho-na-boca; é responsável moral pelo abate de uns quatro crocodilos, que um missionário executa para o salvar; luta ardilosamente contra um (inofensivo) leopardo; provoca indirectamente (por desleixo) a morte acidental de um elefante, que antes queimara por intermédio de uma lupa; assusta e afugenta um leopardo (feroz) com a engenhosa utilização de um espelho; junto com Milou, disfarça-se toscamente de girafa para poder fotografá-la de perto; desfaz um rinoceronte através da inserção dérmica de uma carga de dinamite; derruba um búfalo por intermédio de uma gigantesca fisga de látex, etc.
A “catalogação” destes animais pelo uso de uma curiosa adjectivação já foi atrás referida, pelo que a não repetiremos agora. Enfim, todo este conjunto representa um considerável bestiário, que confere razoabilidade à sagaz análise de Benoît Peeters. Aliás, existirá no álbum um sinal susceptível de apoio ao acerto do autor: a grande vinheta constante na página de cobertura interior, que revela Tintin e Milou avançando prudentemente pela savana, tendo pelas costas um casal de leões ameaçadores...
Provará esta quase ignorada imagem que o objectivo principal do álbum é, com efeito, o encontro da dupla com os grandes animais ferozes e não com os africanos? Provavelmente, nunca teremos uma resposta inequívova a esta ambiguidade, que poderia forçar uma revisão de certas teorias, bem mais sinistras, elaboradas a tal propósito.
Alguns dos zoológicos e exemplares episódios não passaram em claro, ainda que -ao que se sabe!- nenhuma importante associação internacional de defesa dos animais tenha exprimido publicamente um vivo repúdio pela violação dos seus direitos. Porém, o caso da morte, esfolamento e uso da pele de um macaco como disfarce (antecedente de O Silêncio dos Inocentes!?) foi vivamente denunciado, como repelente, inqualificável e até insano, em bastantes sites e fóruns de debate público, na Web. Por seu lado, o esfacelamento do rinoceronte produziu um tal repúdio da parte de associações escandinavas, que as modernas edições do álbum para alguns países nórdicos tiveram direito a uma versão diferente, com a desordenada fuga do animal, assustado por um tiro fortuito, numa página propositadamente refeita por Hergé.
Outra nota interessante, neste domínio faunístico, é a que faz alusão a modelos bíblicos eventualmente implicados. Por exemplo:
• O leão, rei dos animais, tem na longa juba e na cauda sinais da força poderosa. Milou decepou-lhe a cauda e roubou-lhe, portanto, a força e o poder, numa metáfora que evoca Sansão e Dalila;
• O pecado original retirou à serpente (ou cobra), um símbolo genesíaco, as suas patas. Agora, é Milou que lhas “devolve”, conferindo-lhe os seus próprios e salientes membros, quando por ela engolido;
• A união do látex de duas árvores da borracha permitiu “reproduzir” a funda bíblica com que o frágil David (Tintin) venceu o gigante Golias (o búfalo). Milou evoca explicitamente o episódio, onde também se poderá “ler”, em alegoria, a vitória da civilização branca e cristã (a Europa) sobre a barbárie natural e selvagem (a África)...
Esta concreta alusão a uma das riquezas selvaticamente exploradas no Congo -a borracha- deve ser completada por uma outra -ao marfim- também ilustrada no álbum,
quando Tintin retira e carrega os dentes do elefante acidentalmente abatido por um macaco. E os diamantes, como se sabe, também entram na trama...
E terminamos precisamente pelo “medo ao macaco”, ancestral preconceito de que Coco se torna aqui um exuberante intérprete. Hergé usará o mito em aventuras posteriores, repetindo-o nos álbuns A Ilha Negra e Tintin no Tibete, assim como na apreciada e popular série Jo, Zette e Jocko.
Os Animais e a Conservação englobam conceitos ainda mal articulados nos tempos da génese de Tintin no Congo. Porém, é hoje pertinente uma crítica ao álbum sob esta luz inspiradora...
António Martinó de Azevedo Coutinho

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