\ A VOZ PORTALEGRENSE: Mário Silva Freire

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Mário Silva Freire

O BEM COMUM – 8
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Globalização, saber e responsabilidade
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Como em quase tudo na vida, quer os objectos quer os acontecimentos podem ser encarados por mais do que uma perspectiva. O uso e os aproveitamentos que deles se fizerem é que irão ditar o seu grau de utilidade ou de periculosidade. O mesmo acontece com a globalização. Ela pode ser um factor de desenvolvimento humano, difundindo conhecimentos, disponibilizando recursos, deslocando factores de promoção económica para regiões menos desenvolvidas, assim como pode contribuir para a acentuação das desigualdades sociais, do incremento da pobreza e da exclusão.
Como evitar que os aspectos negativos da globalização se possam sobrepor aos aspectos positivos? Eis uma questão a que o Eng. Ludgero Marques tentou dar resposta no congresso a que estes artigos sobre o Bem Comum se têm vindo a referir.
Ora, uma economia globalizada tem que ser enfrentada por uma atitude de desenvolvimento local. É necessário incrementar o desenvolvimento de actividades económicas próximas para que se consiga fazer face às ameaças que provêm do longínquo. Ao dar-se qualificação aos quadros das pequenas e médias empresas, assim como aos trabalhadores, contribui-se para fazer face a essas ameaças.
Em Portugal, a qualificação dominante quer dos empresários quer dos trabalhadores da maioria das PMEs, as que constituem a quase totalidade do nosso tecido empresarial, é bastante deficiente.
Com a mudança de modelo de produção a que se assiste, em que as novas tecnologias assumem um papel primordial, a ausência de formação implica a exclusão dos sistemas produtivos que hoje dominam a sociedade. Mais: essa exclusão irá acentuar-se, quanto mais os nossos sistemas de ensino e de formação profissional, pouco exigentes, lançarem para o mercado de emprego pessoas com conhecimentos deficientes nos domínios básicos do saber e quase ausência de competências cognitivas que dificultam a compreensão, a análise e a síntese das informações.
Seria bom, pois, que as famílias se preocupassem mais com a aprendizagem dos seus filhos, colaborando com a escola para que ela fosse mais disciplinada e exigente. Só o conhecimento e a responsabilidade poderão abrir as portas para o emprego.
As empresas têm que se adaptar, para sobreviverem, a estes novos tempos. Igualmente lhes cabem responsabilidades quer na promoção de um desenvolvimento sustentável, através de meios respeitadores do ambiente, quer na prática de uma política empresarial que atenda à dignidade dos trabalhadores, aos valores éticos do mercado e à solidariedade social. Assim se fazendo, estará a construir-se o bem comum.
Com este artigo termina a série sobre o bem comum, a propósito do congresso promovido pela Conferência Episcopal, em Setembro passado.
Mário Freire
. in, O Distrito de Portalegre, 28 de Janeiro de 2010, p.7