\ A VOZ PORTALEGRENSE: Mário Silva Freire

quinta-feira, março 04, 2010

Mário Silva Freire

CRÓNICAS DE EDUCAÇÃO
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Um sintoma de doença grave
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Diz-se, e com razão, que sem disciplina dentro da sala de aula, não pode haver ensino por parte do professor e, consequentemente, aprendizagem por parte do aluno. Ora, nas nossas escolas, predominantemente as do ensino básico público, e principalmente naquelas que acolhem alunos na adolescência, a indisciplina é uma moeda corrente.
As energias que deveriam ser gastas nas actividades específicas de ensino são, pelo professor, desperdiçadas no constante chamar da atenção dos alunos, na exasperação que ela gera, que pode chegar ao desespero, de não poder controlar as variáveis que não dependem exclusivamente de si e que o impedem de desempenhar com eficácia a sua função. A indisciplina gera, ainda, um desgaste físico e psicológico que lhe retira a motivação para ensinar e o ameaça no seu equilíbrio como pessoa. E um professor sem motivação abranda a exigência, torna-se mais absentista e espera que o tempo passe.
As consequências para os alunos traduzem-se no desperdício do tempo, não adquirindo conhecimentos nem desenvolvendo as capacidades de atenção, memorização, observação, análise e síntese, nem hábitos de ordem e de trabalho, nem respeito pela autoridade, que a atenção e a participação numa aula proporcionam e exigem.
Para o Estado, a ausência de disciplina na sala de aula tem tradução em gastos, seja nas instalações, equipamentos ou vencimentos, que se tornam quase inúteis e que pouco contribuem para a qualificação dos cidadãos, mas que concorrem para tornar o País cada vez mais ignorante e menos apetrechado para fazer face aos desafios do conhecimento que a actual sociedade nos coloca.
Mas há, ainda, uma outra consequência que tem reflexos directos nas famílias, principalmente as de menores recursos económicos e sociais. Devido ao facto de a escola não proporcionar as qualificações de saber e de capacidades adequadas aos seus filhos e por essas mesmas famílias terem dificuldades em os compensar, fora da escola, nas carências escolares, eles saem da escolaridade básica com grandes deficits. Consequências disso são os obstáculos que lhes vão sendo levantados quer ao longo da escolaridade subsequente, quer na escolha profissional, quer no ingresso no mercado de emprego. Isto significa que a escola, em vez de ser um agente que propicia, independentemente das condições económicas e sociais de cada família, uma igualdade de oportunidades, ela se torna promotora de desigualdades sociais.
Enfim, a indisciplina dentro da sala de aula é um sintoma de doença grave de que o sistema de ensino, muito especialmente o básico, enferma. Ela coloca-se a montante do ensino e da aprendizagem porque os vai condicionar. Nela intervêm vários factores. Tentar-se-á, em próximas crónicas, abordar alguns deles.

Mário Freire
in, O Distrito de Portalegre, 4 de Março de 2010, p.8

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