\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

sexta-feira, junho 17, 2011

António Martinó de Azevedo Coutinho

ZERO  EM  COMPORTAMENTO
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A minha inclinação para o recurso aos arquivos cinéfilos emerge, novamente. Desta vez, evoco outro filme de arquivo, portanto dos tais mais próprios dos cineclubes que das salas de exibição comercial. Trata-se de Zero em Comportamento, realizado em 1933 por Jean Vigo, prometedor mas malogrado cineasta francês que morreu aos 29 anos. Realizou apenas quatro filmes, entre os quais este, de nome original Zéro de Conduite. Ficou como a sua criação mais conhecida, por ter abordado o problema das crianças que se revoltam contra o “sistema”, incluindo o escolar. Ao regressarem de férias para as aulas, os jovens deparam com adultos, educadores, que tentam discipliná-los, desencadeando a fúria infantil, tratada de forma poética, onírica, surrealista, libertária, quase anárquica...
Segundo alguns críticos, a liberdade é a temática central de Zero em Comportamento, sendo aí proposta aos espectadores uma realidade opressiva, contra a qual é lançado um grito de transformação. Nessa narrativa ficcional, as crianças rebeldes (ou revolucionárias?) rejeitam a sua alienação quanto a um universo quase irreparável...
Não surpreenderá o conhecimento de que, em certos sectores, a obra tenha sido considerada como um “filme maldito”.
O comportamento -o bom comportamento- tornou-se agora um factor de bênção, apto a compensar as falhas no rendimento escolar. Sirvo-me das informações, com toda a reserva a que elas obrigam, que a imprensa diária nos tem trazido com alguma abundância, em tempos recentes.
Vivi, no decurso da minha vida profissional enquanto professor, as discussões e decisões em torno do binómio rendimento/comportamento. Para além desta eterna questão, quase sempre dirigida no concreto a casos problemáticos, rigorosamente individualizados, aconteceu a mudança da tradicional classificação de 0 a 20 valores para a moderna avaliação de cinco níveis, de 1 a 5.
O dinâmico processo de avaliação, objecto permanente de uma atenta e quotidiana atenção, também necessariamente individualizada, por parte de cada professor, atingia o apogeu no final de cada período, em particular no último, onde se sintetizava a “justiça” pedagógica que ditava o destino de cada aluno. A aprovação ou a reprovação constituíam, na sua implacável alternativa, a “cúmulo jurídico” dessa sentença escolar. Em boa verdade, o que de essencial se avaliara tinha a ver, quase exclusivamente, com o rendimento escolar de cada aluno. A sua postura comportamental, por vezes complexa, dispunha de outros “tribunais” que, embora funcionando sob o mesmo tecto, não misturavam os dois universos. Estes, por vezes, contaminavam-se reciprocamente, isto é, uma criança dita “mal comportada” reflectia quase sempre essas práticas “desviantes” da norma expectável no seu próprio rendimento. Portanto, a sua “sanção” pedagógica resultava quase natural...
Não se conclua daqui que todos os alunos de fraco aproveitamento escolar teriam de ser, necessariamente, mal comportados. Porém, a relação entre estas vivências nunca dependeu de regras ou de regulamentos prévios.
No entanto, parece ser isto que agora se pretende, a partir das superiores determinações ministeriais. O Ministério da Educação recomenda às escolas que avaliem os seus alunos em três vertentes complementares: cognitiva (portanto o rendimento), de comportamento e de atitude. Estas três vertentes dispõem de pesos diversos ao longo dos sucessivos graus da escolaridade. Por exemplo, os comportamentos e as atitudes valem mais no ensino básico do que no secundário, onde se privilegia o rendimento. Na sequência destas orientações, cada escola deverá definir os critérios de avaliação, isto é, estabelecer com rigor as percentagens matemáticas com que cada vertente contribui para a decisão final.
Esta aparente liberdade será, no entanto, fortemente condicionada (ou orientada?) pelas metas definidas pelo Ministério para 2015, onde as notas têm de ser melhoradas, os chumbos reduzidos e os abandonos escolares eliminados.
Estas informações, que tenho como aceitáveis, ressaltam para a opinião pública das matérias alusivas abundantemente divulgadas pelos nossos meios de comunicação social.
A partir de tais pressupostos, apresentemos um ficcional argumento para novo filme, desta vez denominado Cinco em Comportamento, onde um aluno consiga 30% só por não faltar às aulas e aí respeitar colegas e professores (vertentes de comportamento e de atitude) e, apenas, 20% nos testes de avaliação (vertente cognitiva, de rendimento). Este (mau) aluno, por ter conseguido a sumativa quota de 50%, dispõe portanto de um 3 garantido como nota final, sendo aprovado...
Provavelmente, esta ficcional proposta não passa de um disparate, mas é um disparate autorizado pelas informações que nos chegam. Por estas e por outras, sinto-me cada vez mais grato, e mais feliz, pelos “atrasados” tempos em que fui mestre-escola!!!...
E, como se este cenário não bastasse, ainda há agora o anual ranking das escolas. Isto tudo junto não é mesmo, mas mesmo mesmo, digno de um Óscar?
António Martinó de Azevedo Coutinho