\ A VOZ PORTALEGRENSE: Jorge Luís Lourinho Mangerona

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Jorge Luís Lourinho Mangerona








Da minha janela...

Da minha janela vê-se o mundo, ou melhor, um mundo. Mais pròpriamente, da janela da minha sala de trabalho vejo uma nesga, uma parte desse mundo… Curiosamente, no mundo que vislumbro da minha janela, não domina a palavra “crise” mas impõe-se a expressão “Vende-se”. Levanto-me da cadeira e, ao nível dos olhos, leio “vende-se”, olho para baixo, para cima, para a direita ou para a esquerda e… vende-se”. Parece que o mundo está à venda ou, para sermos mais modestos,a cidade está à venda. É que as implacáveis placas parece que se reproduzem como coelhos e não só invadiram a minha avenida, como os bairros mais recentes, o centro histórico e os lugares mais recônditos e inesperados. Sim inesperados… porque é frequente encontrar a famigerada placa em trinta ou quarenta fogos de uma nova urbanização cuja construção prossegue, como se se esperasse uma vaga de interessados que só poderiam ser de outro planeta, já que não conseguimos atrair gente das cidades vizinhas e as aldeias estão desertas. Dá-se uma volta pela cidade e percebe-se a razão desta proliferação de placas: as urbanizações apareceram como cogumelos, aparentemente sem rei nem roque e o centro histórico esvaziou… É um assunto que já aqui abordei e que teria outras soluções, mas toca-me particularmente o esvaziamento do centro histórico; tendo nascido e vivido em duas ruas dessa zona, por onde passo frequentemente, entistece-me ver o abandono e desleixo a que estão votadas essas ruas, que parecem ter sido atingidas por um qualquer bombardeamento da segunda guerra mundial. Sei que esta questão não toca particularmente o poder político sempre avesso a sentimentalismos, mais preocupado com cifrões e números… Mesmo aqueles que se situam nas oposições contrapõem sempre números e cifrões. Porque toda a vida lidei com números, entendo que tais entidades abstractas não são mais que uma representação da realidade que envolve seres, pessoas e, por isso mesmo, sentimentos. Há quem deturpe, quem manipule números e estatísticas mas também parece haver quem se “embebede” com eles e esqueça completamente a realidade. Fruto de políticas erradas e desconhecedoras da realidade, resultado de desamor pela urbe, chegámos a uma situação em que, apesar do fabuloso enquadramento paisagístico, o melhor retrato da cidade é a placa “Vende-se” que continuará a “embelezar” edifícios como bandeira a meia haste, símbolo da nossa triste situação.

Jorge Luís Lourinho Mangerona

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