\ A VOZ PORTALEGRENSE: Jorge Luís Lourinho Mangerona

quarta-feira, outubro 06, 2010

Jorge Luís Lourinho Mangerona

Centenários…

Lá se comemorou, com estardalhaço por parte do poder político e a completa indiferença do povo, o centenário da República. Quer a conjuntura quer as vicissitudes do regime justificariam uma maior contenção e mais reflexão. A propósito desta reflexão não posso deixar de recomendar a leitura do artigo do historiador Rui Ramos, publicado no Jornal Público, e não resisto à transcrição, com a devida vénia, de algumas passagens. Diz Rui Ramos na última parte do seu artigo: ” A I República, sem sufrágio universal, sem eleições justas e sem rotação pacífica no poder, não faz parte da linhagem da atual democracia. Também não foi equivalente ao Estado Novo, por lhe faltar uma ideologia de rutura com o liberalismo e uma máquina de repressão legal do mesmo nível”. Mais adiante escreve: “ Foi sob a república que emergiu uma nova cultura de nacionalismo tradicionalista, que não existia com significado antes de 1910, e que constituiria o oxigénio intelectual do salazarismo”. Que me desculpem o estilo mas Rui Ramos dá “um tiro no porta-aviões”.
Lembro-me de alguns amigos de Évora, já falecidos, que faziam do seu republicanismo um credo, uma religião que em nada destoava da de outros amigos da mesma cidade, que acreditavam “nos amanhãs que cantam”. Até nos rituais da celebração se equiparavam, com os seus bustos, as suas bandeiras, a sua ideologia intolerante e o ódio que partilhavam em relação à Igreja. Neste momento, face ao descrédito das instituições, não há ideologia que resista. Não é preciso estar muito atento para ouvir dizer a qualquer um: “São todos iguais, o que querem é poleiro!”. Aliás, ouvir duas das principais figuras do Estado falar na necessidade de garantir a “coesão nacional”, é a prova do falhanço do regime e de que, porventura, essa coesão não existe. Não acredito que em Inglaterra ou na Europa nórdica alguém se questione sobre o estado da coesão nacional. Relembro, para os mais distraídos, que me referi a monarquias e democracias que não vivem os momentos desesperados que vivemos.
Momento marcante deste centenário foi a inauguração de 100 escolas em nome do grande desígnio nacional que é a Educação. A Educação é desígnio nacional desde o século dezanove e tem enchido a boca a todos os políticos. Substitua-se educação por instrução e o programa das cem escolas pelo dos centenários e acredito que muitos se sintam arrepiados. Também acho que a Educação devia ser um desígnio nacional, porque não é verdade que o tenha sido até aqui, também acho que era necessário renovar algumas escolas mas aquilo a que assisti foi, muitas vezes, um desperdício, um atentado ao património ou um insulto aos pobres. Para além dos projectos de arquitectura discutíveis, dos corredores e espaços desnecessários, das climatizações que nunca funcionavam e dos materiais de fraquíssima qualidade, o que mais me incomodou foi o desperdício que levou a considerar inúteis estruturas, móveis ou equipamentos em período de vida útil. Para que nem tudo se perdesse foi necessário quem de direito fazer frente à poderosa empresa que tutela as obras. O despautério que se verificou foi de tal modo que operários ucranianos, entre o inocente e o irónico, comentavam que Portugal devia ser um País muito rico…Multiplique-se este panorama por cem e imagine-se quanto nos custou o que no dia do Centenário se inaugurou.
Jorge Luís Lourinho Mangerona

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