\ A VOZ PORTALEGRENSE: Adriano Moreira

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Adriano Moreira

ADRIANO MOREIRA: UM SENHOR
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João Carlos Espada
jcespada@netcabo.pt

A frontalidade e elevação de Adriano Moreira, o seu sentido de independência pessoal, custaram-lhe sempre alguns dissabores. Mas deixaram-no bem com a sua consciência

Os leitores do Expresso terão lido a entrevista a Adriano Moreira, no sábado passado. Eu tive também o prazer de assistir ao lançamento do seu livro de memórias, ‘A Espuma do Tempo: Memórias do tempo de vésperas’ (Almedina), na sexta-feira anterior, na Sociedade de Geografia. E de ouvir as duas magníficas intervenções: a de Manuel Braga da Cruz, apresentando o livro, e a do próprio autor. Depois, fui para casa deliciar-me com a leitura do livro.
Não é possível resumi-lo aqui. Mas talvez possa dizer que há uma impressão forte que começa na primeira página: a da elevação do autor. O retrato de Trás-os-Montes e da família em que nasceu vai ser matricial de tudo o que nos é dito - e como é dito - a seguir. O sentido de dever, bem como o de honra, de independência e de dignidade não mais vão abandonar Adriano Moreira.
Há também um patriotismo genuíno, um «attachment» (para citar Oakeshott), aquilo que Adriano Moreira chama “a maneira de ser português”. Não se trata de um patriotismo abstracto, dedicado a uma ‘ideologização’ de Portugal. Ele inicia-se com um sentimento de pertença aos “pequenos pelotões”, como diria Burke: desde logo com a sua família, a sua aldeia, os seus conterrâneos.
É um patriotismo enraizado num sentimento de empatia, ou simpatia, para com os seus compatriotas e para com os seus modos de vida realmente existentes. É esta empatia que vai marcar o seu julgamento sempre afável sobre as ideias dos outros, e sempre mais rigoroso com as suas próprias.
As páginas sobre o período em que foi ministro do Ultramar são sem dúvidas das mais empolgantes. Apenas aí o professor concede um pouco do seu distanciamento. E relata com empenho o entusiasmo das reformas que impulsionou e do entusiasmo das populações - brancos, pretos e mestiços, como faz questão de dizer - em redor dele e das suas reformas.
O livro deixa-nos um retrato de Portugal, de uma época e daí suas mutações. Não há amargura, nem ressentimento, nem espírito de vingança. Há frontalidade, sem dúvida, e elevação. E coragem de exprimir pontos de vista que estão longe de corresponder às modas politicamente correctas; em boa verdade, que estão longe de corresponder a qualquer estreita obediência ideológica.
Esta frontalidade e esta elevação, este sentido de independência pessoal, custaram-lhe sempre alguns dissabores. Mas deixaram-no bem com a sua consciência. E entre aqueles que amam a liberdade e que sabem que ela não sobrevive sem independência, fizeram crescer a admiração por aquele grande senhor.

in, Expresso, 29 de Novembro de 2008
PRIMEIRO CADERNO 45

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