\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

segunda-feira, abril 18, 2011

António Martinó de Azevedo Coutinho

II – Somos todos moradores de Ferrel

“Em Março de 1976, o povo de Ferrel mostrou o caminho: Portugal, em busca de outra Índia, passou a ter no povo de Ferrel o seu Infante das Novas Naus.
Quando os pescadores e camponeses de uma pequena aldeia marítima do litoral de Peniche tocam os sinos a rebate para dizer NÃO! à central nuclear que lhes querem impingir, estão a lançar mão de um fundo telúrico ancestral para a abertura das novas rotas do futuro mundo. Graças a eles, Portugal pode, se quiser, se os Velhos do Restelo dos gabinetes da capital souberem recuar a tempo na sua loucura suicida, ser o primeiro país do mundo a pronunciar-se contra o holocausto nuclear no seu território”. (...)
SOMOS TODOS MORADORES DE FERREL
Grupo de Estudos Viver é Preciso, 8 de Junho de 1976

Frequento a aldeia de Ferrel com regular assiduidade. Muitas vezes ali tomo o pequeno almoço, nas excelentes pastelarias que possui (e todas com fabrico próprio!), ali adquiro os jornais diários e ali tenho, até, alguns amigos. É uma terra organizada e tranquila, no trajecto entre Peniche e Serra del Rey, junto à bela praia do Baleal. Os seus habitantes são gente empreendedora, que alterna o trabalho com a festa, sistematicamente vivida com intensidade.
Foi precisamente ali que, em 15 de Março de 1976 -vão já passados 35 anos-, o rebate tocado pelos sinos da igreja convocou a população em peso para o local onde tinham começado os trabalhos preliminares da construção da primeira central nuclear portuguesa. Então, a multidão interrompeu as actividades, destruiu os materiais, fechou as valas e avisou os técnicos, atónitos, de que arrasaria qualquer nova tentativa de recomeço...
Dois ou três episódios posteriores confirmariam esta enérgica e corajosa tomada de posição colectiva inicial, pelo que o projecto nuclear nacional ficaria por aí. Até hoje, como se sabe.
O que teria acontecido sem esta revolta popular, devidamente enquadrada por alguns raros activistas, dos quais se destacam José Carlos Marques, o jornalista Afonso Cautela ou o cientista Prof. Delgado Domingos? Seria aliás difícil adivinhar esse virtual futuro alternativo...

Por mim, que não tenho capacidade científica para entender plenamente os inflamados argumentos esgrimidos por especialistas do pró e do contra nuclear, deixo-me levar, pelo menos em parte, pelo coração e pelo sentimento.
O que sei, porque vejo, é que nesse mesmo Oeste -onde está Ferrel- constantemente crescem novas “florestas” de geradores eólicos nas cristas dos outeiros que povoam a zona. Não foi por acaso que o moinho de vento se constituiu de há muito como o símbolo visual desta região, que considero uma das mais bonitas e dotadas de todo o País. As fontes renováveis de energia, como o Sol e sobretudo o vento, são por ali assumidas enquanto tal. E lembre-se a propósito, como lógico complemento, que é também nesta costa que foi experimentado e vai ser instalado, em definitivo, um gerador eléctrico animado pela força das marés e das ondas...
Seremos todos moradores de Ferrel, no mesmo sentido em que o presidente Kennedy proclamou um dia, perante o Muro, que era berlinense. De facto, pelo menos nesse recanto algo anarquista que todos teremos bem cá no íntimo, somos contra todas as formas dominantes do Poder e as suas latentes ameaças.
O Muro ou a Central Nuclear separam, não unem, duas visões diferentes dum mesmo mundo. Qual é o lado onde reside a razão?
António Martinó de Azevedo Coutinho

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