\ A VOZ PORTALEGRENSE: Mário Silva Freire

sábado, janeiro 08, 2011

Mário Silva Freire

PARA UM DESENVOLVIMENTO SOLIDÁRIO

Que crescimento para os dias de hoje?

A ciência moderna, nas suas mais diversas especialidades, o conhecimento tecnológico, os meios financeiros, os recursos inimagináveis com que a Natureza dotou o planeta Terra e todo o potencial humano estão em condições de resolver a maioria dos problemas que se colocam à humanidade. E estes problemas são, fundamentalmente: a eliminação da fome e da pobreza, o combate à maioria das doenças, a redução dos resíduos industriais e a substituição dos combustíveis poluentes por fontes de energia renováveis. Ora, as dificuldades que se colocam para se resolverem estes problemas são, como foi dito em crónica anterior, de natureza cultural e espiritual e não de natureza económica ou técnica.
Existe uma busca de crescimento ilimitado. Os recursos naturais são depredados em nome desse crescimento. Mas, por detrás disso, encontra-se uma ânsia sem limites do lucro. A luta pelo poder, seja a nível individual, de grupo ou de país tenta substituir-se às relações de cooperação entre as pessoas, entre as instituições ou entre os países. Esquece-se (ou ignora-se) que existe uma só Terra e que todos nós somos irmãos, filhos do mesmo Criador.
Relembro um excerto da célebre resposta que o Chefe Seatle, em 1854, deu ao governo americano que queria comprar o território pertencente às tribos índias:
“… Como podeis comprar o céu ou o calor da terra? Tal ideia é-nos estranha. Se não somos donos da pureza do ar ou da refulgência da água, como podeis então comprá-los? Cada quinhão desta terra é sagrado para o meu povo (…). Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia são nossos irmãos. Os cumes rochosos, os eflúvios da planície, o calor que emana do corpo de uma doninha, e o homem, todos pertencem à mesma família”.
É, pois, na perda deste sentimento de família, de nos colocarmos à margem e acima da Natureza; no esquecimento de que ela não permite que sejam ultrapassados certos limites; no ignorar de que o seu uso constitui “uma responsabilidade que temos para com os pobres, as gerações futuras e a Humanidade inteira”, no dizer de Bento XVI, na sua última encíclica, que se filiam muitas das calamidades naturais que nos atingem e, principalmente, os que na pobreza já se encontram.
Por outro lado, assiste-se a um domínio dos mercados financeiros sobre a economia e a política. Acontece que estes mercados reflectem a ideologia que lhes está subjacente. E esta é a de se obter o lucro, mesmo que seja à custa dos mais débeis. Ora é aqui, igualmente, que Bento XVI denuncia esta cultura de ganância, onde os valores éticos e espirituais são remetidos para último plano.
Há que encontrar, então, um novo modelo de crescimento que não gere mais fome, desigualdades, desemprego, atropelos à Natureza…Ora isso só poderá passar pelo respeito da dignidade humana, por uma maior ética e solidariedade nas relações entre os Estados, as instituições e as pessoas e, enfim, pelo retomar de uma espiritualidade com base nos valores cristãos que, neste mundo em que nos movemos, bastante arredada anda do nosso convívio.
Mário Freire

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