\ A VOZ PORTALEGRENSE: Mário Silva Freire

quinta-feira, outubro 21, 2010

Mário Silva Freire

CRÓNICAS DE EDUCAÇÃO – XIX

Combater o insucesso escolar
com a psicologia ou com a pedagogia?

“É em respostas mais médico-psicológicas do que pedagógicas que deve centrar-se o combate ao insucesso escolar”. Esta é a ideia que se defende num artigo do dia 6 do corrente mês de Outubro, no jornal Le Monde, a propósito de um plano proposto pelo Alto Conselho da Educação de França para combater o insucesso escolar.
Este plano põe a ênfase na intervenção pedagógica, mediante um apoio escolar mais eficaz aos alunos, sugerindo, entre outras medidas, um ensino tutorial, um reforço da cultura humanista, a valorização da formação manual, uma maior autonomia pedagógica, assim como uma maior liberdade às escolas para recrutarem os seus professores.
Ora, os autores do artigo, dois pedopsiquiatras, contrapõem a este plano o facto de existirem numerosos estudos que indicam haver uma ligação estreita entre o insucesso escolar e as perturbações médico-psicológicas. Dizem eles que as perturbações psicológicas e psiquiátricas são raramente referidas nos debates relativos ao insucesso escolar. E, apresentando números, referem que as perturbações da aprendizagem, as perturbações da atenção, com ou sem hiperactividade, a depressão, as perturbações cognitivas, do comportamento e da personalidade, a esquizofrenia…estão quase sempre presentes em situações de insucesso escolar.
Nas ciências da educação, como ciências humanas, nem sempre a abordagem dos problemas pode ser feita a partir de um só modelo de intervenção. E este será o caso do insucesso escolar que, de uma maneira acentuada, apesar do facilitismo que impregna o nosso sistema de ensino, principalmente no básico, nos afecta. Ora, para se actuar sobre os fenómenos, há que conhecer as suas causas. E, relativamente ao insucesso escolar, uma parte significativa dos seus casos tem origem em problemas sociais: famílias disfuncionais, situações de abandono físico ou psicológico, separação familiar, carências económicas graves, desemprego, autoridade parental inexistente, ausência de regras em casa…
É claro que as duas maneiras de actuar sobre o insucesso escolar, a médico-psicológica e a pedagógica são excelentes terapêuticas, quando aplicadas não em alternativa mas, em complementaridade. O que me parece, contudo, é que se a sociedade deseja atacar de frente este grave problema da escola, terá que o fazer mais a montante, isto é, na família. É aí que se podem gerar os distúrbios psicológicos e os comportamentos inadequados que irão originar a falta de adaptação do aluno à vida escolar. É certo que muita desta actuação passa por medidas sociais que ultrapassam a própria escola. Outras, contudo, haverá, em que a escola, tentando promover uma educação parental adequada, poderia intervir de modo não só a prevenir mas a tratar este flagelo que invade a instituição escolar.
Mário Freire

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