\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

segunda-feira, outubro 18, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho

Passemos agora ao rol das personagens da história. Também aqui procuraremos manter um grau de exigência compatível com o que nos temos esforçado por seguir nesta detalhada análise de Tintin no Congo.
Assim, considerando como personagens os executores da acção narrada, sujeitaremos este critério às suas espécies básicas: os protagonistas e os figurantes secundários.
Obviamente, os primeiros limitam-se aos dois heróis, Tintin (o humano) e Milou (o animal, companheiro e cúmplice, quase um alter ego do seu dono). Porque têm estado, naturalmente, no centro das atenções não merecem agora qualquer explanação complementar, por supérflua.
Quanto às personagens secundárias, devemos considerar as humanas e as animais (enquanto “selvagens”, entenda-se!). Também estes últimos, porque já atrás abordados, não justificam agora nova alusão. Restam, portanto, as personagens secundárias humanas, negras e brancas...
Continuando na linha da habitual exigência formal, podem estas personagens ser classificadas como planas (ou “tipos”) e como modeladas (ou “caracteres”), segundo a revelação da sua vida interior e do seu grau de participação no enredo romanesco, sendo estáticas e desprovidas de vida interior ou, pelo contrário, dinâmicas, intervenientes e dotadas de alguma densidade psicológica. Como é óbvio, apenas nos interessam estas, pelo que esta rigorosa selecção limita o leque dos eleitos a uma reduzida lista: Coco, Muganga (o feiticeiro), o padre superior da missão e Tom. Como “suplentes”, a nível inferior, podemos admitir os reis dos Babaoro’m e dos m’Hatouvou e Gibbons...
Todos os outros participantes na aventura fazem-no através de uma quase nula intervenção actuante, reduzidos à mera função de figurantes. Talvez seja interessante, a simples título de curiosidade, referir alguns colectivos mais ou menos simbólicos: os marinheiros do paquete, os remadores da piroga, os habitantes das aldeias tribais (incluindo a dos pigmeus), os alunos da escola, os soldados do pelotão, os membros do gang, os tripulantes do pequeno avião...
Restará, neste breve capítulo dedicado a uma abordagem quase “académica” às personagens do álbum, reflectir um pouco sobre a qualidade moral ou cívica da sua intervenção. E, assim, retomaremos o essencial das nossas declaradas intenções: desmistificar as acusações de racismo e de xenofobia lançadas contra Tintin no Congo.
Convém evitar a classificação maniqueísta que tende a dividir as personagens entre “os bons” e “os maus”. Devemos avaliar cada figurante pelo seu comportamento concreto e pela tendência global evidenciada nas atitudes assumidas perante os valores morais ou cívicos em causa.
Assim, se quisermos situar cada uma das personagens, quer protagonistas quer secundárias, atrás arroladas, podemos facilmente juntar Tintin, Milou e Coco num grupo, claramente oposto ao conjunto formado por Tom e Gibbons. Entretanto, numa zona mais “neutra”, situaríamos os reis dos Babaoro’m e dos m’Hatouvou, assim como o feiticeiro Muganga.
Esta última “arrumação” merece um esclarecimento. O comportamento dos reis decorre, naturalmente, do continuum narrativo normal, limitando-se a fazer a paz e a guerra dentro dos usos e costumes tribais em vigor, como inimigos-de-estimação. Nada no seu comportamento ultrapassa aquilo que deles seria de esperar, inseridos no tranquilo quotidiano das suas comunidades, uma vez que as guerras-do-alecrim-e-da-manjerona fazem parte, incontornável, dessa normalidade.
Muganga, o feiticeiro, é a figura mais interessante do grupo. Ele começa por esboçar uma certa resistência à inconveniente popularidade conquistada por Tintin entre a sua tribo, pelo que se torna um fácil instrumento nas mãos de Tom. É assim que se presta à provocação duma guerra tribal e à tentativa de assassinato de Tintin. Porém, o seu comportamento desviante acaba por ser assumido e confessado, quando é salvo da morte pelo nosso herói, pelo que tão genuína contrição o devolve, tout court, à original condição de feiticeiro...
Em suma, e no essencial, teremos dois pequenos conjuntos radicalmente opostos: Tintin, Milou e Coco versus Tom e Gibbons.
Dois brancos assumem, assim, o paradigma da maldade, da perversa e declarada intenção de controlar a produção de diamantes no Congo, sem olhar a meios, usando o terror como arma fundamental, por procuração do sinistro gangster Al Capone.
Os negros seriam aqui meros e dóceis instrumentos, subjugados à criminosa ganância dos gangs internacionais, brancos... Onde estão aqui os sinistros indícios de racismo e de xenofobia? E, se por absurdo existissem, qual seria o seu sinal rácico? E quais seriam os seus instrumentos operacionais? Tintin, pela mão de seu pai, Hergé? É óbvio que não!
Curiosamente, esta magna questão foi tratada no volume Geo – Tintin grand voyageur du siècle, editado em 2003, pela Moulinsart. Aí, o jornalista independente Jean-Jacques Mandel assinou um notável texto intitulado Congo – L’Afrique sans rancune. Começa, significativamente, afirmando: “Tintin está vivo, vive em Kinshasa! Num Congo em guerra, a juventude fez dele o seu herói, porque ele usa uma única arma para sobreviver: o escárnio.”
E termina: “Ainda podemos acreditar em milagres. Como o dessas cinco diamantíferas no Kasaï Oriental, que pagaram cinco milhões de dólares americanos ao descobridor de um diamante extraordinário de 267,82 carates. Antes de ficar em segurança num local secreto, este fora confiscado num cofre pessoal de Kabila. Pelas últimas notícias, a jóia será objecto dum leilão público. Estimativa? Quase mil milhões de dólares... Questão: quem se lembra do “empresário” que enviou um Branco mal barbeado para liquidar Tintin durante a sua viagem pelo Congo? Resposta: Al Capone, ele próprio. Ele quis a pele de Tintin, pensando que este pretendia assumir o controlo da produção de diamantes... “Como bem vê, Hergé tinha tudo previsto!”, comentaram, sarcásticos, os nossos talentosos cartoonistas.”
O jornalista referia-se a uma associação de jovens desenhadores congoleses radicados em Kinshasa, admiradores da obra de Hergé e muito seguros na colectiva opinião de que o autor de Tintin no Congo apenas aí desenvolveu um compreensível sentimento paternalista que, embora caricatural, foi impiedoso na denúncia dos malefícios do colonialismo...
Para que conste.
António Martinó de Azevedo Coutinho

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