\ A VOZ PORTALEGRENSE: Mário Silva Freire

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Mário Silva Freire

O BEM COMUM – 3
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O lugar da religião
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Que relação tem a religião com o bem comum? Pode dizer-se que todas as comunidades religiosas buscam o bem comum. Este, no entanto, não se limita a proclamar direitos mas alarga-se aos deveres, na posição em que cada um se encontra. É no dar consciência desses deveres e desses direitos e fazê-los convergir para o bem colectivo que o papel da religião, muitas vezes, emerge.
A busca do bem comum tem que ser feita, tendo presente o valor da caridade. Se hoje se fala na laicidade do Estado, ela até pode ser vista como um aspecto positivo, na medida em que deixa espaço aberto à sociedade, devendo o Estado respeitar as especificidades dos diferentes elementos que a constituem. Ora, dentro das variadas confissões religiosas, de que a Igreja Católica é um bom exemplo, existem múltiplas organizações que, tentando fazer face às injustiças sociais e às contingências traumáticas da vida, se empenham em ajudar as pessoas nos mais variados aspectos das suas existências. Elas trabalham, dando valor à dignidade humana, contribuindo para que a pessoa não seja apenas um número, um objecto que pode ser descartável. Elas tentam dizer que os pobres têm direito àquilo que os outros têm a mais. Elas procuram seguir o preceito evangélico da caridade, para a construção do bem comum.
Mas será que uma sociedade sem Deus iria contribuir para essa construção? Se esse tipo de sociedade fosse construído, o horizonte da esperança ficaria fechado, no dizer de D. José Policarpo no Congresso da Conferência Episcopal. Deus tem que ter lugar na esfera pública e, muito especialmente, na política. Esta ficaria mais pobre e os direitos humanos mais diminuídos se Deus dela fosse excluído. Nessa exclusão perder-se-ia muito de uma educação humanizante que conduz a “projectos pessoais e comunitários que realizam, em cada tempo, a perene grandeza do homem”, como afirmou o conferencista.
Torna-se, pois, necessário que as sociedades e o Estado reconheçam o papel das religiões. Estas, dando importância a uma dimensão da vida das pessoas – a espiritual – e considerando os aspectos éticos que dessas religiões decorrem, contribuem para que todos os que intervêm no desenvolvimento de uma sociedade (Estado, empresas, meios de comunicação social…) adquiram uma maior consciência das consequências daquilo que fazem. A religião é, pois, um poderoso factor da edificação do bem comum.

Mário Freire

in, O Distrito de Portalegre, 17 de Dezembro de 2009, p.12

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O BEM COMUM – 2 / O papel do Estado

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O BEM COMUM – 1 / A caminho de um novo modelo social

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