\ A VOZ PORTALEGRENSE: Luís Filipe Meira

terça-feira, dezembro 04, 2012

Luís Filipe Meira

O Testamento Vital
de
Rui Veloso
Um bom disco, para um melómano inveterado ou para quem a música seja a arte suprema, é uma peça de coleção, a que se volta com maior ou menor regularidade, e nunca um objeto de consumo. Eu que tenho uns bons milhares de discos entre vinis, cds ou em suporte mp3 armazenados digitalmente, organizei uma playlist com algumas dezenas de registos que considero fundamentais, a que volto com regularidade para reviver ou descobrir novas emoções, deixando os outros em stand by para visitas mais espaçadas ou pontuais. A música só é boa se transmitir emoções, negativas que sejam. Um disco que cause indiferença é um nado morto, um disco que não deixe memória pouco mais é. O novo disco de Rui Veloso é mais ou menos isso.
Mas vamos por partes.ds ou em registos de mp3 armazenados em discos externos, tenho uma playlist com algumas dezenas de registos a que volto com regularidade para reviver ou descobrir novas emoções. A música só é boa se transmitir emoções, negativas que sejam. Um disco que cause indiferença é um nado morto, um disco que não deixe memória pouco mais é. O novo disco de Rui Veloso é mais ou menos isso. Como é possível que cerca de três dezenas dos melhores músicos portugueses se juntem para gravarem 13 canções num disco sem pinga de emoção, em que apenas duas ou três dessas canções justificam mais que uma audição??
Foi editado esta 2ª feira o álbum “Rui Veloso & Amigos” que assinala o regresso a estúdio daquele que nos idos anos 80 chegou a ser apelidado de “pai do rock português”, a propósito de um belo disco chamado “Ar de Rock”. Mas já passaram 32 anos sobre a vinda de Veloso do Porto para Lisboa para abanar o país musical ao som de canções como “Chico Fininho”,”A Rapariguinha do Shoping”, “ Donzela Diesel” ou causar genuína admiração por canções quase perfeitas como o “Bairro do Oriente” ou “Sei de uma Camponesa”. Os anos passaram, Veloso gravou em trinta e dois anos, nove álbuns de originais em estúdio, três ao vivo e uma compilação, o que me parece manifestamente pouco para um artista talentoso q.b. que chegou ao topo por mérito próprio mas… que por lá se vai mantendo artificialmente. E se dúvidas houvesse, este disco agora editado, que vai chegar à platina num ápice, é a prova provada das minhas afirmações.
O último disco de originais de Veloso, ”A Espuma das Canções”, data de 2005, desde aí Veloso não se retirou para um período sabático, o que seria normal para revitalizar a inspiração, antes optou por calcorrear o Portugal profundo em festas e romarias em concertos sofríveis ou lamentáveis e patéticos. Adoeceu, recuperou, mas a postura desrespeitosa e arrogante perante o público que paga para o ver, foi-se mantendo. As Festas do Crato testemunharam por duas vezes essa atitude censurável. Recordo que em 2009 teve uma atuação tão deplorável que um ano depois, em entrevista ao Expresso, considerou esse concerto como “ o que mais o marcou negativamente em toda a sua carreira”.
E assim, vá-se lá saber porquê, Veloso regressa a estúdio sete anos depois, não para mostrar que está vivo, que as falhas de inspiração e os excessos dos últimos anos foram acidentes de percurso que acontecem aos melhores e que são no fundo quase recorrentes na vida de uma estrela do pop/rock. Não, Veloso não veio negar o passado recente, mas confirma-lo. Com este “ Rui Veloso & Amigos” assina o seu testamento vital ou seja Veloso mostra que já não tem vontade própria e por isso convidou um grupo de notáveis da música portuguesa para o ajudarem, aconselharem, sugerirem ou fazerem mesmo uma espécie de revisão de algumas das suas canções antigas, porque a inspiração já não dá para novas composições.
Este disco faz-me lembrar um tributo ou uma festa de despedida a Rui Veloso ou seja uma dúzia de amigos juntaram-se e sem preocupações de maior, gravaram uma espécie de jam session. É evidente que tudo isto do ponto de vista técnico é irrepreensível. Bons músicos. Bons instrumentos. Bons técnicos. Bons estúdios…mas… “cadé” a inspiração? O desperdício é enorme… E os erros de casting são mais que muitos.
Carlos do Carmo e Camané cantam blues. Ricardo Ribeiro, tremendo fadista, tenta ir atrás de Veloso, sem nunca o apanhar, em “Nunca me Esqueci de Ti”? O dueto com Bernardo Sassetti que poderia ser um momento para a história, não só pelo desaparecimento prematuro do pianista, mas pela experiência que este tinha em duetos com cantores, como ficou provado na excelência do trabalho com Carlos do Carmo em 2010, é absolutamente confrangedor. A colaboração com Maria João e Mário Laginha é outro desperdício, pois não há um pingo de empatia durante a prestação. Dos momentos com Luís Represas, Tito Paris, Zeca Medeiros ou Expensive Soul nem vale a pena falar. Salvam-se, “Fado do Ladrão Enamorado” com Danny Silva, um tema em que a musicalidade lusófona existente no sangue dos dois músicos ajuda a construir pontes muito sólidas entre as duas personalidades saindo dessa ligação talvez o melhor momento do disco. “A Explicação das Estrelas” com JP Simões também não vai nada mal, pois a produção vestiu a canção à imagem de JP, Veloso não inventou e seguiu muito bem as pistas que apontavam para uma canção notívaga, muito perto da canção de baile em night club. A abrir há um rock/blues com Jorge Palma em módulo “Eric Clapton”, que vai muito bem esgalhado ainda que longe da transcendência. A fechar há um Fado Pessoano, tipo “We Are the World” ou “Do They Know it´s Chrismas”, tal a quantidade de gente de várias proveniências que está em estúdio. Este Fado Pessoano que entra com competência pelos caminhos da lusofonia, também não se sai nada mal. 
Será que e em balanço final poderei dizer que este Rui Veloso & Amigos é um mau disco?
Claro que não! Depois de ouvir uma boa meia dúzia de vezes o disco no seu todo e duas ou três canções mais interessantes, mais algumas vezes, não posso nem de perto de longe concluir que isto é um mau disco ou que nem deveria ter sido gravado, apesar de não trazer absolutamente nada de novo à música portuguesa e isso é que para mim é desconfortável. Afinal colaboram neste disco cerca de trinta músicos portugueses de topo e desse trabalho não há aqui nenhuma canção – apesar do álbum ser uma revisão – para mais tarde recordar…
Se Veloso queria fazer uma revisão acompanhada de algumas das suas canções teria que trabalhar muito mais e, eventualmente, seguir o exemplo de Sérgio Godinho, que em “ O Irmão do Meio” fez uma releitura, em dueto, de várias das suas canções conseguindo que, no mínimo, a maior parte fosse tão boa como os originais ou então arriscar como fez Carlos do Carmo que aos 78 anos de idade avança para a gravação de um disco de fados compostos pelo compositor clássico, António Vitorino de Almeida, acompanhados ao piano por Maria João Pires, uma concertista. Para não falar de Ana Moura que apesar de possuir um sólido circuito mundial como fadista, levou os seus músicos para Los Angeles e debaixo da batuta do Larry Klein, um super produtor de grande parte dos discos de Joni Mitchell, saiu da sua zona de conforto e arriscou a cantar “ A Case of You” da mesma Joni Mitchell e a entrar no estúdio com Herbie Hancock.  
“Isn´t it a pity?”  diria George Harrison… se ainda pudesse ouvir este disco.
Luís Filipe Meira