\ A VOZ PORTALEGRENSE: Nos Cem anos da República

sexta-feira, outubro 08, 2010

Nos Cem anos da República

Nos cem anos da República

«Ao cabo de longos e porfiados esforços os monárquicos
acabam de implantar a República em Portugal…»
Eduardo Schwalbach (1)

Celebrou-se ontem o Centenário da Implantação da República em Portugal. Mas as celebrações oficiais contemplaram apenas a visão da República que a oposição republicana e maçónica do Estado Novo tinha (2).
Ontem, como hoje, celebrar a República em Portugal não é consensual, como o não é a sua própria História. Os três períodos em que se pode dividir, estando-se presentemente na Terceira República, são tão distintos como todos não são fiéis ao espírito com que os republicanos nos tempos da Monarquia defendiam a sua implantação.
Eduardo Schwalbach era em 1910 correspondente do jornal Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, e a primeira frase que escreveu e que seguiu na carta datada de 6 de Outubro, explica de uma forma eloquente o que se passou em Portugal no tempo anterior ao fim da Monarquia. Os erros políticos quer dos Bragança, quer dos partidos monárquicos, conduziram ao fim do Regime.
O historiador Rui Ramos, em artigo, pergunta se alguém sabe que antes do 5 de Outubro já havia uma espécie de República em Portugal, embora com Rei. É que desde 1834 que a ideia de República faz parte da ideologia da época. E progressivamente o poder real vai-se diluindo, a ponto de em 4 de Outubro de 1910 Portugal ser uma República coroada.
As transigências dos monárquicos face às ideias, cada vez mais radicais, que os republicanos defendiam eram totais. Teixeira de Sousa, o último presidente do governo da Monarquia defendia que se devia «realizar dentro da Monarquia uma parte do programa [republicano]», endurecendo as medidas anticlericais e propondo uma reforma constitucional drástica que produzisse, finalmente, uma Monarquia essencialmente democrática», uma expressão que, de tão repetida, já se tornara um estribilho (4).
Quando é assassinado o Rei em 1 de Fevereiro de 1908, há muito que a Monarquia morrera. E os assassinos do Rei não foram só os dois Carbonários, também eles assassinados. É que no processo também há os assassinos morais. Foram Monárquicos quem armou os regicidas, como, entre outros, o Visconde da Ribeira Brava e o chefe dos Dissidentes Progressistas José de Alpoim. E a Rainha Amélia recebe no Paço Alpoim, quinze dias depois do Regicídio (5).
Acusado de apenas favorecer a Esquerda Monárquica, D. Manuel perdeu o apoio daquela facção que sempre lhe fora fiel. E quando ainda em Sintra a corte discute se o Rei deve ir para a cidade do Porto, pôr-se à frente de uma provável reacção conservadora, ela própria entende que os conservadores tinham perdido a confiança num Rei que só favorecera a Esquerda (6).
A Monarquia Constitucional foi o cadinho onde germinaram as ideias republicanas. As correntes monárquicas nunca foram capazes de combater o adversário que, com os erros que aquelas cometiam sucessivamente, ia-se implantando, primeiro em Lisboa, depois no Porto, onde a 31 de Janeiro de 1891 se dá o primeiro ensaio para a implantação da República, e finalmente por todo o país.
Quando às três horas da tarde de 5 de Outubro de 1910 o Rei e a família real embarcavam na Ericeira, rumo aos exílios, nada mais havia a fazer. Era o fim de um Regime e o início de outro.
As ideias republicanas também tinham adeptos em Portalegre, mas como em todo o país, foram sempre minoritários, como se prova pelos resultados obtidos a 28 de Agosto de 1910, quando das últimas eleições na Monarquia.
A seguir ao 5 de Outubro, sem a menor resistência, tomaram as rédeas do poder na cidade e no concelho. A sua praxis, durante a Primeira República, não foi diferente da seguida no resto do país.
Mário Casa Nova Martins
in, Alto Alentejo, 6 de Outubro de 2010, pg.17
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Bibliografia:
(1) Schwalbach, Eduardo – À Lareira do Passado, Memórias, Lisboa 1944, Edição do Autor, pg.286
(2) Pereira, José Pacheco – Portugal do século XX não vai só de 1910 a 1926, revista Sábado N.º 334, pg.13
(3) Ramos, Rui – Os três dias da revolução republicana, revista Sábado N.º 334, pg.62
(4) Bonifácio, Maria de Fátima – A Monarquia Constitucional 1807-1910, Texto Editores, Janeiro de 2010, pg.155
(5) Bonifácio, Maria de Fátima – A Monarquia Constitucional 1807-1910, Texto Editores, Janeiro de 2010, pg.173
(6) Ramos, Rui – Os três dias da revolução republicana, revista Sábado N.º 334, pg.68
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Apêndices

I - O Distrito de Portalegre
Ano 27 – N.º 1.793 – Quarta-feira, 31 de Agosto de 1910 – pg.1
Resultados da eleição para deputados no concelho de Portalegre, em 28 de Agosto de 1910
Candidatos
Coligação eleitoral
Visconde de Ollivã 567
Lourenço Caldeira da G. Lobo Cayolla 552
Adriano da Silva Monteiro 550
Lopo de Sampaio e Mello 537
Governamentais
Mário Augusto de Miranda Monteiro 818
António da Silva e Castro 804
João Paes Vasconcellos Abranches 799
José Caetano Rebello 778
Republicanos
José d’Andrade Sequeira 298
Caldeira Queiroz 274
Abílio Ferreira 272
Manoel Pinheiro 261

II - O Distrito de Portalegre
Ano 27 – N.º 1.806 – Domingo, 16 de Outubro de 1910 – pg.2
Comissão Municipal
Pela 1 hora da tarde de 14 do corrente, sexta-feira, tomou posse a nova comissão municipal deste concelho composta pelos srs. António José Lourinho, Adelino do Carmo Brito, António Augusto Niny, Thiago Henriques Morgado, Manoel Dias Ferreira, João Lopes d’Oliveira Santos, Matheus José Coelho, Joaquim Almeida e Manoel Campos.
Usaram da palavra os srs. presidente, António José Lourinho e secretário da câmara dr. José Lino Netto.
Os diferentes pelouros ficaram distribuídos da seguinte forma:
António José Lourinho: Secretaria e Instrução.
Adelino Brito: Obras públicas e limpeza.
António Augusto Niny: Mercados e feiras e pesos e medidas.
Manoel Dias Ferreira: Expostos e asilo.
Thiago Morgado: Iluminação.
João Lopes d’Oliveira Santos: Talhos e matadouro.
Matheus Coelho: Águas.
Joaquim Almeida: Cemitério.
Manoel Campos: Todos os serviços respeitantes às freguesias rurais.
Ficou também resolvido:
_ Saudar na pessoa do presidente o governo provisório da República, a pátria livre redimida pela República e depor uma saudade na campa dos que morreram pelas instituições republicanas.
_ Encarregar o sr. Adelino Brito de representar a comissão nos funerais do ilustre médico dr. Miguel Bombarda e vice-almirante Cândido dos Reis.
_ Que as sessões sejam às segundas-feiras pelas 10 horas da manhã.
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A posse foi dada pelo sr. António Maria de Mattos e ao acto assistiram muitas pessoas.
Atendendo às faculdades de inteligência e trabalho de que são dotados todos os cavalheiros, que constituem a nova comissão municipal, de esperar é, uma administração das mais correctas e zelosas. São estes os nossos votos.