Mário Silva Freire
Basílica de São Pedro.
Olhar para dentro e para o lado
.
A vida resulta de um equilíbrio dinâmico e constante. Equilíbrio dentro de cada célula, dentro de cada organismo e equilíbrio entre este e o ambiente que o rodeia. Por isso, os organismos vivos, para se manterem e desenvolverem, necessitam que os elementos que os constituem actuem entre si de uma maneira regulada e harmoniosa. De igual modo, a relação que esses organismos estabelecem com o ambiente deverá ser adequada ao seu funcionamento e necessidades. Se essa relação sair de determinados parâmetros, a sua sobrevivência estará posta em causa e, em casos limite, poderão soçobrar.
O mesmo se passa com os organismos sociais, sejam eles a família, as associações, as empresas, as igrejas, as escolas… Estas instituições, para se manterem e desenvolverem, requerem que haja entre os seus constituintes relações de harmonia, tendo em vista o fim que perseguem. Claro que esses organismos sociais não são sistemas isolados; eles estão rodeados por outros sistemas, físicos e sociais. E, tal como para os organismos biológicos, o seu melhor ou pior funcionamento dependerá da qualidade da relação que eles mantiverem com os sistemas envolventes.
Tentando aplicar, um pouco, estas realidades, olho para um grande organismo social e religioso no nosso País que é a Igreja Católica. Desde há muito tempo que ela vem defendendo os princípios da fidelidade conjugal e da castidade antes do casamento. Talvez a sida nunca tivesse ocorrido se estes preceitos fossem aplicados! Mas a humanidade que possuímos é a que nos faz homens e mulheres, com todas as suas capacidades mas, também, com todas as suas limitações!
A sociedade, entretanto, mudou muito nos últimos cinquenta anos. Recordo, por exemplo, quantas expectativas tinham sido postas na posição da Igreja, durante o pontificado de Paulo VI, quando foi anunciado que iria sair uma encíclica sobre a regulação da natalidade e quanta frustração, depois, ocorreu no mundo católico com a publicação da encíclica Humanae Vitae, com repercussões que, ainda hoje, se fazem sentir.
Foi, pois, reconfortante ver que um elemento proeminente da Igreja em Portugal, o Bispo de Viseu, fazendo eco do pensar generalizado dos fieis, tornasse pública a sua opinião sobre a importância do preservativo, muito especialmente nas situações de infecção pelo HIV. Igualmente, a sua posição de solidariedade mas, também, de ajuda activa, relativamente aos membros da Igreja que são vítimas de violência doméstica calou fundo em mim, como católico.
Senti-me, igualmente, reconfortado ao ouvir as declarações que o Papa Bento XVI proferiu em Angola. Ele, corajosamente, proclamou, na presença do Presidente, que “os pobres reclamam o respeito dos seus direitos” e denunciou aquela “multidão de angolanos que vive abaixo da linha de pobreza absoluta”, pedindo uma “maior participação cívica de todos”. Fez, ainda, um apelo à paz e ao entendimento entre os povos, numa base de lealdade e igualdade e apelou para o papel que a mulher desempenha na sociedade angolana e para os seus direitos, tantas vezes espezinhados.
Só na interacção entre a hierarquia e os leigos, ouvindo-os e auscultando-os nas suas necessidades e preocupações, a Igreja pode continuar a ser reconhecida como a voz que anuncia o Evangelho. Não fechando os olhos ao que se passa ao lado, ao que entra nas nossas casas por várias vias, a Igreja conseguirá ser aquele elemento de compaixão perante os quotidianos sofridos de muitos dos seus membros e da própria humanidade. Quanto mais ela estiver identificada com os problemas das mulheres e dos homens de hoje, tanto mais a sua mensagem passará a ser ouvida e praticada.
Os ritos e os sacramentos podem ser factores importantes na vida da Igreja mas o mundo contemporâneo está mais preocupado e atento às obras que se praticam, às atitudes de coerência entre uma fé que se diz seguir, e os actos que, depois, se realizam.
Nos dias que agora vivemos, de profundas mudanças nos costumes, nos valores e nas prioridades, a Igreja tem que continuar a ser a instituição próxima dos fiéis. Essa proximidade avalia-se através das acções sócio-caritativas e de missionação, de que ela tem sido um pilar fundamental na ajuda a povos e comunidades. Mas essa proximidade também tem a ver com outras maneiras de entender as pessoas e a sociedade de hoje, sem que esse entendimento ponha em causa o grande legado que Jesus nos deixou: o amor a Deus e o amor ao próximo.
O mesmo se passa com os organismos sociais, sejam eles a família, as associações, as empresas, as igrejas, as escolas… Estas instituições, para se manterem e desenvolverem, requerem que haja entre os seus constituintes relações de harmonia, tendo em vista o fim que perseguem. Claro que esses organismos sociais não são sistemas isolados; eles estão rodeados por outros sistemas, físicos e sociais. E, tal como para os organismos biológicos, o seu melhor ou pior funcionamento dependerá da qualidade da relação que eles mantiverem com os sistemas envolventes.
Tentando aplicar, um pouco, estas realidades, olho para um grande organismo social e religioso no nosso País que é a Igreja Católica. Desde há muito tempo que ela vem defendendo os princípios da fidelidade conjugal e da castidade antes do casamento. Talvez a sida nunca tivesse ocorrido se estes preceitos fossem aplicados! Mas a humanidade que possuímos é a que nos faz homens e mulheres, com todas as suas capacidades mas, também, com todas as suas limitações!
A sociedade, entretanto, mudou muito nos últimos cinquenta anos. Recordo, por exemplo, quantas expectativas tinham sido postas na posição da Igreja, durante o pontificado de Paulo VI, quando foi anunciado que iria sair uma encíclica sobre a regulação da natalidade e quanta frustração, depois, ocorreu no mundo católico com a publicação da encíclica Humanae Vitae, com repercussões que, ainda hoje, se fazem sentir.
Foi, pois, reconfortante ver que um elemento proeminente da Igreja em Portugal, o Bispo de Viseu, fazendo eco do pensar generalizado dos fieis, tornasse pública a sua opinião sobre a importância do preservativo, muito especialmente nas situações de infecção pelo HIV. Igualmente, a sua posição de solidariedade mas, também, de ajuda activa, relativamente aos membros da Igreja que são vítimas de violência doméstica calou fundo em mim, como católico.
Senti-me, igualmente, reconfortado ao ouvir as declarações que o Papa Bento XVI proferiu em Angola. Ele, corajosamente, proclamou, na presença do Presidente, que “os pobres reclamam o respeito dos seus direitos” e denunciou aquela “multidão de angolanos que vive abaixo da linha de pobreza absoluta”, pedindo uma “maior participação cívica de todos”. Fez, ainda, um apelo à paz e ao entendimento entre os povos, numa base de lealdade e igualdade e apelou para o papel que a mulher desempenha na sociedade angolana e para os seus direitos, tantas vezes espezinhados.
Só na interacção entre a hierarquia e os leigos, ouvindo-os e auscultando-os nas suas necessidades e preocupações, a Igreja pode continuar a ser reconhecida como a voz que anuncia o Evangelho. Não fechando os olhos ao que se passa ao lado, ao que entra nas nossas casas por várias vias, a Igreja conseguirá ser aquele elemento de compaixão perante os quotidianos sofridos de muitos dos seus membros e da própria humanidade. Quanto mais ela estiver identificada com os problemas das mulheres e dos homens de hoje, tanto mais a sua mensagem passará a ser ouvida e praticada.
Os ritos e os sacramentos podem ser factores importantes na vida da Igreja mas o mundo contemporâneo está mais preocupado e atento às obras que se praticam, às atitudes de coerência entre uma fé que se diz seguir, e os actos que, depois, se realizam.
Nos dias que agora vivemos, de profundas mudanças nos costumes, nos valores e nas prioridades, a Igreja tem que continuar a ser a instituição próxima dos fiéis. Essa proximidade avalia-se através das acções sócio-caritativas e de missionação, de que ela tem sido um pilar fundamental na ajuda a povos e comunidades. Mas essa proximidade também tem a ver com outras maneiras de entender as pessoas e a sociedade de hoje, sem que esse entendimento ponha em causa o grande legado que Jesus nos deixou: o amor a Deus e o amor ao próximo.
Mário Freire



6 Comments:
Só conheci um padre que de armas na mão lutou pelos pobres: Camilo Torres.
O resto são panaceias para reacender a chama do capitalismo.
(Amigo Mário - perdoe este desabafo em sua casa mas não suporto a hipocrisia).
Leia-se a vida dos Borgias de Mário Puzo e contemple-se a Grandeza da Igreja.
Caro José Corvo
O dr. Mário Freire escreve este Texto de Opinião a título pessoal.
Mas não posso deixar de recordar que o dr. Mário Silva Freire é o Presidente da Comissão Diocesana Justiça e Paz da Diocese de Portalegre – Castelo Branco, á qual me honro de também pertencer.
É um Texto oportuno e de grande coragem, com o qual concordo.
Abraço.
Mário
I.G.
Reflexivo, como sempre, o Dr. Mário Freire, apresenta aqui um texto que bem merece ser divulgado, pela necessidade de debate em torno desta problemática. Não adianta passar ao lado, como se nada estivesse a acontecer. A sociedade mudou, e muda cada vez mais a um ritmo vertiginoso, levantando questões que antes não se punham.
Logo, lançar o debate, e proceder de acordo com os novos desafios é o "desafio" que se coloca a todos os quiserem contribuir para um mundo mais solidário.
O texto do meu colega e amigo Mário Freire reflecte aquilo que ele é: solidário, voluntarioso e amigo do seu amigo.
Na minha opinião não reflecte, infelizmente, o pensamento da Igreja: nem da hierarquia nem da maioria dos padres espalhados pelas paróquias.
Só a riqueza e a ostentação da Igreja permite a esta falar em acções sócio-caritativas, para além da missionação. Da pessoa do Mário Freire vejo-o mais falar de solidariedade e de voluntariado.
Não acredito nos discursos ambíguos dos responsáveis da Igreja e tenho dúvidas da verdade/sinceridade do Bem praticado por muitos dos seus párocos quando fazem tudo para anunciarem esse Bem nos jornais comunitários. Afinal os pastores da Igreja já se renderam aos media divulgando o que fazem, a maioria das vezes com o dinheiro dos cristãos dessas comunidades. Fazendo-o com insistência estão a anularem a humildade e a verdade sobre esse Bem.
A Igreja tem de dar, também, sinais de mudança procurando a Verdade sim, mas a verdade das coisas do quotidiano da nossa contemporaneidade.
Um abraço para os meus amigos Mários: Freire e Casa Nova Martins
Caro IG
Obrigado pela Visita e pela excelente análise que faz ao Texto do dr. Mário Freire.
Cumprimentos.
Mário
Caro dr. Avelino Bento
Uma “mais-valia” este Texto.
Cumprimentos.
Mário
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