\ A VOZ PORTALEGRENSE: Convento de Santa Clara de Portalegre IV

sexta-feira, dezembro 21, 2012

Convento de Santa Clara de Portalegre IV

DOS MONUMENTOS ÀS PESSOAS - IV
 
O Distrito de Portalegre, N.º 5783, 28 de Maio de 1982
 
O Convento de Santa Clara
- Um pouco da sua história

Após a extinção das Ordens Religiosas e, neste caso, à medida em que as Religiosas Clarissas iam falecendo, começaram a acolher-se ao Convento, dentro dele e na sua cerca, como já aqui dissemos, algumas senhoras da nossa cidade e região.
Ali se acolheram para terminar, em paz, e longe do espírito do mundo, os seus dias.
Como também já aqui referimos, ainda existem nos nossos dias pessoas que se recordam das últimas senhoras que o habitaram, durante algum tempo, simultaneamente, com o funcionamento da nova Instituição de apoio às Raparigas, criada pela Senhora D. Olinda Sardinha.
Dissemos, no último apontamento, que a cedência do Convento para aquela finalidade trouxe problemas e criou uma situação de rotura entre o Governador Civil e a Comissão Executiva da Câmara Municipal, interessada em demolir a parte que estava em ruínas, com o fim de alargar a Rua de Elvas e, segundo informação oral para ceder parte do terreno libertado a um elemento da Comissão Executiva para que ali construísse a sua casa.
Ao verificar que a decisão da Câmara esbarrava com a firme oposição do Governador Civil, esse elemento, em jornal local, tenta desdenhar o venerando perfil moral da Senhora D. Olinda Sardinha que com a obra criada, vinha dar vida ao Convento fundado por D. Leonor Teles. Uma maliciosa aproximação das duas personalidades, tocou no brio do marido da ilustre Senhora o Dr. Laureano António Picão Sardinha – capitão médico nesta cidade que, com o jornal numa das mãos e o bengalim na outra, procura o tenente Lacerda Machado e confirmando este ser o autor do artigo, o prostrava com fortes bengaladas, desafrontando, assim, a Esposa da repugnante insinuação.
Estavam, então, na Comissão Executiva da Câmara, desde 26.7.1926, os Srs. Dr. Damião do Rio, capitão António Augusto de Sousa Oliveira, capitão Augusto Eduardo Marques, capitão Manuel Nunes Fidalgo, tenente Hildeberto Botelho Medeiros, tenente Joaquim Relvas e João Francisco Macedo, tendo-lhe associado (auto de posse de 19.4.1927) o tenente Francisco Lacerda Machado.
É com esta Comissão que mandara executar e já iniciara a demolição das casas, em estado mais ou menos ruinoso, adossadas ao Claustro do Convento que surge o conflito, de certo, porque esta demolição iria complicar, se não impedir, a entrada em actividade da «Obra de Protecção e Amparo de Nossa Senhora das Dores».
Mas nós vamos transcrever a Acta da Câmara que nos dá conta do incidente:
«Acta da sessão extraordinária da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Portalegre de 23.4.1927. À margem, Convocatória – Aprovação da Acta e Ofício do Ex.mº Governador Civil proibido (sic) a demolição…». Texto:
Ofício do Excelentíssimo Governador Civil do Distrito proibindo o prosseguimento da demolição do edifício do Convento de Santa Clara, usando para isso das atribuições que a lei lhe confere. O Senhor capitão António Augusto de Sousa Oliveira propôs se enviasse ao Ex.mº Governador o seguinte ofício: Sabendo Vossa Excelência particularmente pelo vogal desta Comissão Administrativa, Senhor tenente Lacerda Machado, do plano da mesma Comissão e com o qual Vossa Excelência concordou, sobre a demolição de uns prédios em ruínas, necessária ao alargamento da Rua de Elvas, ruínas estas colocadas a uns sete ou oito metros de distância do Claustro – única parte do Convento considerada monumento nacional (Decreto número oito mil quinhentos e dezoito, de 22.11.1922) e portanto não havendo nenhuma razão para se invocar o parecer da Comissão dos Monumentos Nacionais e como o Artigo sessenta e seis da Constituição Política da República Portuguesa e Artigo trinta e seis da Lei número 88 de 7.8.1913 dá autonomia às Câmaras Municipais e como a Comissão considera vexatória a imposição que Vossa Excelência faz na última parte do Ofício n.º 147, primeira secção de 23.4 – corrente, por unanimidade resolveu depor imediatamente nas mãos de Vossa Excelência o seu mandato. Sendo posta à votação foi a proposta aprovada por unanimidade…
Assinam todos os membros da Comissão. Isto passou-se no dia 23 de Abril. Logo no dia 26, surge o auto de posse da nova Comissão constituída pelos Senhores: Dr. António Biscaia de Macedo, Dr. Manuel Hermenegildo Lourinho, João Soares de Sousa Franco, capitão Paulo Monteiro e Manuel do Carmo Peixeiro.
Afinal, com o andar dos tempos, fez-se a adaptação pretendida, para a «obra», em questão, funcionar, e pôde também proceder-se ao alargamento da Rua de Elvas que, aliás, ia desembocar na estrada, através de duas ruelas, lembrando-se ainda algumas pessoas, mais idosas, das casas existentes entre as duas estreitas ruas, cuja demolição permitiu o desejado alargamento.
Padre Anacleto Martins
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