\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

segunda-feira, setembro 27, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho

Outra das cenas “polémicas”, e também das mais discutidas e criticadas do álbum é a passada na sala de aulas da missão católica. Talvez seja mesmo, como imagem, a que mais vezes tem sido reproduzida. E a verdade é que apresenta vários motivos de inegável interesse.
Um deles refere-se à mudança temática da própria aula, da versão inicial, de 1930, em que Tintin substitui o padre Sebastião numa lição de Geografia, até à remodelação de 1946, onde o nosso herói ministra uma lição de Cálculo em vez do mesmo polivalente mestre.
Como lógica sequência desta alteração curricular, mudou o discurso pedagógico de Tintin. Assim, o original (1930) : “Meus caros amigos, vou falar hoje da vossa pátria: a Bélgica!...”, passou a (1946): “Vamos começar, se o desejarem, por algumas adições. Quem sabe dizer-me quantos são dois mais dois?... Ninguém?... Vejamos, dois mais dois?... Dois mais dois igual a?...”
Segue-se a cena da insólita intromissão de um leopardo na normalidade escolar. Também aqui se notam diferenças nas duas versões em confronto. Em 1930, Tintin interrompe uma frase didáctica e completa-a de forma simbólica, obtendo um oportuno e metafórico slogan... patriótico: “A Bélgica é aquilo a que eu chamo... ...um leopardo!”. Já na versão de 1946, a sequência tornar-se-á mais vulgar: “Então, quem pode responder-me?... Dois mais dois são?... São?... Um leopardo!!!”
A vinheta seguinte ainda é mais curiosa. A história original integra um significativo discurso moral, um apelo íntimo à heroicidade e uma invocação divina: “Atenção, Tintin, deves salvar os teus alunos. Prepara-te para te sacrificares! Meu Deus, dai-me forças para sustentar este duro combate!”. A remodelação posterior apagou, pura e simplesmente, todo este interessante desabafo, deixando Tintin só e mudo perante a fera...
Após o breve mas movimentado interlúdio que envolveu a inesperada aparição do leopardo e a feliz solução do incidente, Tintin retoma tranquilamente a aula: (1930) “Pronto, já está!... Ora falávamos na Bélgica!... A Bélgica é...”; (1946) “Pronto, já está... Dizíamos... Dois mais dois são?...”.
Nova interrupção, desta feita da responsabilidade de um humano que irrompe pela sala: (um negro, em 1930) “Bandido!... Foste tu que maltrataste o meu leopardo domesticado, um leopardo meigo e inofensivo, que vinha comer à mão. E agora ele chora e geme! Vais pagá-las, a mim, Jimmy Mac Duff, director do Grande Circo Americano!”; (um branco, em 1946) “Ah! Bandido!... Foste tu que maltrataste o meu pobre leopardo domesticado!.. Vais pagá-las, a mim, Jimmy Mac Duff, fornecedor dos maiores zoos da Europa!...”
Finalmente -já não é sem tempo!-, Tintin julga poder retomar a abalada tranquilidade pedagógica. E a aula prossegue, como se nada tivesse acontecido: (1930) “Pela terceira vez, repito-lhes, a Bélgica é...” ou (1946): “Pela terceira vez, pergunto-lhes, dois mais dois são?...”
Aqui, para aumentar a curiosidade, pode introduzir-se uma terceira versão, intermédia, relativa à divulgação de Tintin em Angola, n’O Papagaio. Publicada entre nós em 1941, esta cena dispõe da seguinte fala do improvisado professor: “Repito-lhes, pela terceira vez, que Portugal é o que...”
E eis que surge o superior da missão, ignorante de tudo o que sucedera, agradecendo a disponibilidade do improvisado profesor. Assim terminaram a prometedora carreira pedagógica de Tintin e este agitado episódio.
Creio, uma vez mais, que quase nada aqui escapa à filosofia que norteou, primeiro, a aparição da obra, depois, a sua reformulação. Tanto na linha original que descrevia e louvava a implantação e a obra das misssões católicas no Congo Belga, como no conjunto dos posteriores objectivos de “descongolização” do álbum, tudo parece coerente e lógico.
Assim, a evocação da pátria distante deu lugar a uma banal adição, tal como poderia ser substituída por uma lição sobre o corpo humano, uma revisão de regras gramaticais (bem necessária!!!) ou uma clássica redacção sobre a Primavera. Talvez possamos reprovar, no concreto, a deficiente qualidade das lições do padre Sebastião, pelo menos no que respeita à tabuada ou ao cálculo mental, uma vez que ninguém na turma sabia quantos são 2+2...
Esta adição não é uma operação matemática simbólica; é o seu grau zero de dificuldade. Poderemos concluir, portanto, que os (pequenos) congoleses eram intelectualmente incapazes? Na dúvida, talvez seja conveniente entender o episódio como mais uma subliminar crítica aos malefícios do colonialismo...
Já atrás se deixou uma alusão aos aspectos “místicos” que impregnam a obra, aqui patentes no “dramático” desabafo de Tintin. Pode ocorrer-nos a interpretação da responsabilidade paternalista para com os africanos, atribuída na época aos colonialistas. Ao tempo, a função civilizadora do homem branco era, também, uma missão divina... O oportuno desaparecimento deste balão mostra, pois, uma óbvia mudança de mentalidades nas épocas em confronto.
Resta analisar a radical alteração na personalidade -raça e profissão- de Jimmy Mac Duff. Em diversos álbuns posteriores, foi muito frequente esta mudança -aplicada a personagens pouco simpáticas- de um negro para um branco. Hergé, tal como demonstrou em vários testemunhos pessoais, sentiu-se injustiçado perante sucessivas acusações onde o seu suposto racismo foi tema dominante. É assim natural que algum sentimento de auto-censura o condicionasse, tentando antecipar-se a tais críticas, adivinhando-as, evitando-as ou resolvendo-as...
Aliás, um dos aspectos essenciais e desmistificadores no caso de Jimmy Mac Duff é o facto, provado pelas indiscutíveis ressonâncias da própria onomástica saxónica, de este -negro ou branco- ser mais um estrangeiro e não um congolês. Talvez, quem sabe, alguém do bando de Al Capone...
António Martinó de Azevedo Coutinho

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