\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

segunda-feira, junho 14, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho

Para encetar um tema será conveniente começar pelo princípio”. Provavelmente, seria assim que os manos Dupont/d opinariam a propósito. Embora eles, por enquanto, não sejam para aqui chamados, a putativa máxima vale, mesmo na sua ausência.
Na Bruxelas tranquila e romântica dos meados da década de vinte, no passado século, o jovem belga francófono Georges Remi, então com 18 anos, termina os estudos secundários e consegue emprego, como encarregado das assinaturas, no jornal diário de ideologia católica fortemente conservadora Le Vingtième Siècle. O director da publicação é o padre Norbert Wallez, um assumido admirador de Hitler e das doutrinas fascistas italianas.
Georges Remi, adoptando o pseudónimo Hergé, desenhava e publicava entretanto, num jornal de escuteiros, a série Totor C.P. des Hannetons, uma ingénua BD de estilo vivo e dinâmico, embora desprovido de real qualidade estética.
Em 1928, o padre Wallez cria um suplemento semanal do seu jornal, intitulado Le Petit Vingtième e destinado à juventude, nomeando Georges Remi como seu Chefe-de-Redacção. Aqui é criada, em 10 de Janeiro de 1929, a personagem Tintin.
A primeira reportagem do novel “jornalista” acontece na Rússia Soviética (bolchevista, como se dizia na época) e o seu resultado prático traduziu-se numa história mal desenhada, com 138 páginas a preto e branco, carregadas de um forte cunho anti-soviético, por vezes demasiado caricatural.
O oportuno sentido publicitário do padre Wallez organiza uma manifestação, ao vivo, fazendo uma Bruxelas quase em delírio receber um anónimo escuteiro disfarçado de Tintin, no regresso de Moscovo, encenação montada para as 16h08 do dia 8 de Maio de 1930, na Gare du Nord. Estava criado o mito...
O jovem Hergé, então com 22 anos motivados pelo sucesso, sonha enviar o seu Tintin à América do Norte, onde há os “gangsters”, os índios peles-vermelhas e os “cowboys”...
Mas os desígnios do seu exigente patrão não coincidem com tais objectivos. Para o militante padre Wallez, depois da missão na Rússia, o patriotismo solicita os serviços de Tintin noutras paragens: o Congo Belga. É que, desde que em 1908 o rei dos belgas Leopoldo II legara a imensa região africana à Bélgica, a colónia necessitava de homens e era preciso despertar vocações nesse sentido. Nem sequer a recente e longa visita real de Alberto e Elizabeth, em 1928, tinha obtido grande êxito.
O publicista belga J. Perier, no seu artigo “Sobre Literatura colonial” divulgado no jornal La Tribune Congolaise em finais de 1926, opinara sobre a justeza dos prémios de literatura então instituídos pela nossa Agência Geral das Colónias como uma forma adequada de Portugal modernizar a sua propaganda colonial.
Em Novembro de 1927, o jornal belga L’Essor Colonial et Maritime, publicado em Bruxelas, declarara que o desenvolvimento de um certo tipo de literatura tinha sido benéfica ao estímulo de aspirações nacionalistas vocacionadas para a causa da expansão ultramarina.
Neste febril contexto, uma ida de Tintin ao Congo poderia portanto constituir uma excelente e oportuna propaganda alusiva...
Sem grande entusiasmo, tal como acontecera com a virtual “ida” a Moscovo, Hergé estuda a lição encomendada pelo padre Wallez, visitando o Museu Real da África Central, em Tervuren, onde se documenta na recolha de imagens de pirogas e ídolos, do fantoche de um homem-leopardo e de alguns animais empalhados, assim como lendo Os silêncios do Coronel Bramble, romance de sucesso de André Maurois, editado em 1921, sobre a temática colonial.
E é assim que, nos princípios de Junho de 1930, o jovem jornalista Tintin parte para África, através das páginas de Le Petit Vingtième, suplemento infanto-juvenil do cada vez mais reaccionário semanário católico Le Vingtième Siècle.
Por uma mera questão de datas, Hergé não poderá colher sugestões no livro Terre d’Ébenè, editado nesse ano e da autoria de Albert Londres, onde se descreve a bárbara e alucinante construção do caminho-de-ferro congolês entre Ponta Negra e Brazzaville, assente sobre uma montanha de 20000 mortos negros. Georges Simenon, outro consagrado autor, denunciará num conjunto de reportagens, publicadas em 1932 na revista Voilá, essa mesma trágica epopeia comandada pela abusiva brutalidade dos colonos brancos. Os próprios genocídios em massa ali cometidos durante décadas sob a supervisão de Leopoldo II não eram, ao tempo, conhecidos pela opinião pública belga.
Do que também não resta a menor dúvida é do facto de George Remi nunca ter contactado com a obra de Joseph Conrad intitulada O Coração das Trevas e publicada em 1902, portanto quase três décadas antes destes episódios.
Profundamente anticolonialista e passado no Congo, entre os exportadores de marfim, o romance acabará, muito mais tarde, por orientar decisivamente o dramático filme de Francis Ford Coppola Apocalypse Now. Mas não exerceu qualquer influência sobre Hergé...
É de todo este complexo panorama que resulta Tintin au Congo, como o reflexo “politicamente correcto” de uma África, elementar e simples, avaliada a partir de Bruxelas. Nada do que então se passava por lá era levado a sério, não podendo por isso constituir o mínimo choque para a tranquila sociedade da época.
A história de Hergé, portanto, não poderia ter ultrapassado estas rigorosas e herméticas fronteiras, tornando-se uma sucessão de lugares-comuns imersos num dominante conteúdo de propaganda colonial. Os negros da história são simpáticos, preguiçosos, ingénuos e incultos, dominando mal a própria expressão oral (salvo algumas excepções), enquanto os brancos -especialmente os missionários- lhes levam carinhosa e paternalmente a boa palavra e alguns ensinamentos. Os visitantes vão lá sobretudo para caçar e para brincar com as feras. Enfim, em suma, o Congo é uma terra distante e exótica polvilhada de peluches e figurinhas de chumbo, onde a benemérita Bélgica exerce uma louvável missão civilizadora.
Hergé, enquanto moço-de-recados do todo-poderoso padre Wallez, merece bem o aumento de ordenado, que passa de 600 para 2000 francos mensais. E, ao casar nessa época com a sua camarada de trabalho Germaine Kieckens, será o padre quem abençoará a boda...
António Martinó de Azevedo Coutinho
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O clip de vídeo seguinte foi retirado de um interessante documentário intitulado Tintin et Moi. Realizado em 2003 pelo cineasta Anders Ostergaard, baseia-se nas célebres entrevistas efectuadas por Numa Sadoul a Hergé, em 1971. Lamentavelmente, a obra cinematográfica é praticamente omissa no respeitante às interessantes declarações do “pai” de Tintin quanto às acusações de racismo. No entanto, revela-se particularmente curiosa, sobretudo na reconstituição do período da vida de Georges Remi nos tempos da aventura de Tintin no Congo. Embora não legendado, este excerto do filme é bem revelador da vida quotidiana na Bélgica dos inícios dos anos 30 do passado século e daí o seu flagrante interesse.

Tintin et Moi:
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