\ A VOZ PORTALEGRENSE: D. Augusto César Alves Ferreira da Silva

sexta-feira, julho 03, 2009

D. Augusto César Alves Ferreira da Silva

O que é um ‘coração bonito’
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Fátima, 10 de Junho de 2009
Começo por aqui: o Santuário de Fátima, hoje, floriu!
O Francisco não estava lá, nem se ouvia o seu pífaro. Mas o recinto falava dele com entusiasmo, e do seu aniversário. Sobretudo, ouvia-se dizer que tinha um ‘coração bonito’, e fazia-se um apelo às crianças e a todos os presentes, que cultivassem os mesmos sentimentos, a fim de alegrar os ambientes de cores e perfume. E vinha-nos à mente aquela cena em que Jesus acarinhou uma criança e, colocando-a no meio dos discípulos, disse-lhes assim; “Quem não se tornar como ela, não entrará no Reino dos céus”!
Depois, olhávamos para o recinto (pejado de gente, como em dia 13!) e tínhamos a sensação duma árvore florida, que se estendia desde a Igreja da Santíssima Trindade, até à escadaria
da Basílica. E era, na escadaria, que se viam as flores a derramar encanto e ternura (um encanto e uma ternura coloridos), reflectindo-se, por sua vez, no sorriso dos pais, dos catequistas, dos pastores e de todos). Que beleza imensa... que Senhora tão linda, mais brilhante do que o sol! Muita gente murmurava baixinho: o céu será assim? Não, não é assim... porque no céu até os ramos, o tronco e as raízes são flores em primavera. Em todo o caso, ‘um coração bonito’ pode imitar o céu ou fazer lembrar a confiança do Francisco, da Jacinta e da Lúcia, atraídos por Nossa Senhora e pelo conforto da Sua paz.
Entretanto, nos intervalos do canto (belamente adaptado e executado), da oração partilhada e da palavra feita interpelação e diálogo, ainda havia tempo e tentação para comparar tudo isto com o ambiente social e político do momento. E se dava para avaliar as diferenças, também dava para rezar: Senhora, dai-nos a paz e esconjurai a desconfiança e o medo, para que todos se sintam irmãos e possam rezar o Pai Nosso, com o fervor dos Pastorinhos.
Na realidade, um ‘coração bonito’ constrói-se com valores e com ideal; e deve empenhar a família, a escola e a sociedade na direcção da responsabilidade e da fé. Doutro modo, uma linguagem descomprometida, por conta da ‘autonomia’ e do ‘tanto faz’, gera azedume e mediocridade. Mas não acontece o mesmo com os apelos do céu, feitos mesmo a crianças ou através de crianças. Basta ouvir o Francisco, diante da irmãzinha e da prima: nós nunca havemos de pecar... nem mentir... nem esquecer aquela luz, onde víamos Deus e nos víamos em Deus. E, daí por diante, o essencial passava à frente das brincadeiras e distracções. Assim: as coisas mais pequeninas eram feitas por amor; a reparação assumida com urgência e como dever; e o rosto magoado de Jesus, por causa dos pecados dos homens, despertava nele uma solicitude permanente de consolação e desagravo. Ai, Francisco: se estas crianças que hoje vieram ao teu aniversário, se habituam a olhar para ti, com esse jeito de ser, de dizer e de fazer, vamos ter um punhado de apóstolos e maior esperança para o futuro! Jesus nunca obriga, mas atrai sempre e propõe (isto, na linha do que Nossa Senhora diz as três crianças: “estais dispostos a oferecer orações e sacrifícios pela conversão dos pecadores”?
Parabéns ao Francisco
Já perto do fim da celebração, foram soltados balões, que depressa se elevaram e desapareceram no horizonte. E, com eles, ia o nosso olhar, levando saudades ao Francisco, com sabor a parabéns. Parabéns de quê: de ter nascido há 100 anos? Também, mas sobretudo por ter descoberto tão cedo o importante da vida, à conta da Mensagem de Nossa Senhora e das confidências com ‘Jesus escondido’. E, então, passou-se o seguinte: do lado da escadaria, um movimento de solidariedade, no seguimento dos Pastorinhos (olhando o futuro com esperança); e do lado de baixo e até ao fundo do recinto, algum arrependimento do tempo perdido com banalidades, e um desejo de valorizar o futuro. Agora, que as crianças sintam dos adultos, estimulo e testemunho; e que os adultos se revejam na candura e transparência das crianças, que Jesus propõe aos discípulos, como sinal do Reino, mercê dum coração simples, aberto ao espírito das bem-aventuranças (aliás, “não é o que entra pela boca que torna o homem impuro, mas o que sai do coração!).
Falta um gesto final, envolto em segredo: muitos meninos e meninas trouxeram prendas ao Francisco (sobretudo, instrumentos da sua predilecção: flauta, fisga, barrete...); e o Santuário, tutelando o Francisco, pôs à disposição das crianças o que ele gostaria de lhes oferecer: uma sacola (semelhante à que ele usava a tiracolo), uma pequena biografia do Pastorinho, com os dados essenciais da sua vida, e um pedaço de bolo, significando a merenda que ele levava e, tantas vezes, oferecia a crianças mais pobres ou às ovelhas, para fazer sacrifícios. Foi um delírio, no meio da pequenada, revelando gratidão e súplica.
E, agora, a pergunta final:
Francisco, tu que foste tão discreto, generoso e contemplativo, durante a vida (uma vida muito curta mas fecunda)... que te propões fazer, agora, por estas crianças... e aos pais e catequistas que sugeres? A sacola, afinal, não é uma prenda, apenas; vale como um apelo, para que ninguém desperdice o tempo que lhe resta (muito ou pouco) e para que todos acreditem que sem convicção e sem ideal, a vida é levada pelocapricho da moda e deixa o coração vazio.
Obrigado, Francisco, por este dia belo, e parabéns pelo testemunho da tua vida. Se te soubermos imitar, teremos um ‘coração bonito’!

D. Augusto César,
Bispo emérito de Portalegre – Castelo Branco
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in, A Voz da Fátima, Ano 87, N.º 1043, 13 de Julho de 2009, página 1

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