\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

domingo, janeiro 11, 2009

António Martinó de Azevedo Coutinho

CROMOS DA BD - II
(1946/47)

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A história contida na caderneta intitulada “Aventuras de Fred Bill - O Terror do Texas” é um western aos quadradinhos, ao típico estilo dos anos 40.
O tema foi exaustivamente tratado nos jornais infanto-juvenis da especialidade. Os seus autores - Orlando Marques e Vítor Péon - foram, aliás, pródigos no tratamento de muitas outras aventuras do género. Esta não escapa aos clássicos modelos de sucesso: a vingança em nome da justiça (dos homens ou de Deus), o eterno confronto racial (caras-pálidas e peles-vermelhas) e o amor (!?). Pelo meio do(s) conflito(s) gerado(s), eis-nos perante o mítico cenário do Far-West, onde cavalga um cavalo super-dotado, tudo enredado na dominante e secular luta entre o Bem e o Mal. O restante resume-se a meros pormenores...

Estes, no presente caso, são o comportamento do herói, Fred Bill, ao constatar o assassinato do pai, às mãos do bandido Johnston e seus sequazes. Numa movimentada epopeia de vingança, o novo “Terror do Texas” (epíteto herdado do seu falecido pai) persegue e mata o principal assassino. Porém, o justiceiro objectivo ficará incompleto, porque os cúmplices daquele escapam, enquanto o vingador fica entretido com inesperados acidentes no seu percurso. Entre estes destaca-se o feliz encontro com Walzir, filha do poderoso chefe pele-vermelha Guvan-Kichi, que salva a vida do herói. A nascente paixão entre ambos é interrompida pela inoportuna intervenção da tribo, que vai obrigar Fred Bill a prodígios de valentia. Depois, ainda terá oportunidade para devolver a anterior actuação de Walzir, evitando a sua morte. Tudo terminará, como convém, com juras de eterno amor inter-racial entre os dois apaixonados.
Eis o conteúdo essencial desta aventura de Fred Bill, o Terror do Texas, que recupera, adaptando-a, a história Três Balas inicialmente publicada no jornal de BD O Pluto. O facto de os nomes das principais personagens terem sido alterados - de Duke Carson para Fred Bill, de Wichita para Walzir ou de Wilson para Johnston - nada altera quanto ao fundamental, que se mantém no fio romanesco.
A forma assumida pela BD é a usual na época, seguindo a escola inglesa muito divulgada nos jornais portugueses dos anos 40 e 50. Embora os criadores americanos (e alguns europeus, sobretudo da Escola de Bruxelas) já tivessem atingido então um estádio de fusão narrativa entre texto e imagem, com uso adequado de elementos da rica linguagem dos quadradinhos, como o balão, o signo cinético, a onomatopeia e outros, a verdade é que a maioria dos nossos desenhadores quase se limitava a ilustrar os argumentos por meio de tiras de vinhetas desenhadas e devidamente colocadas sobre o texto.
Os 120 cromos produzidos por Vítor Péon, em tiras (ou bandas) de três unidades, procuram portanto acompanhar o ritmo narrativo constante do texto de Orlando Marques. Porém, este efeito comunicacional perde-se sem remédio logo a partir da primeira página, dada a riqueza literária quase gongórica ou maneirista da escrita. O que pode servir na perfeição a uma novela ou a um conto revela-se aqui manifestamente inadequado, pois uma rigorosa tradução icónica do rebuscado estilo literário usado exigiria, talvez, o triplo das folhas...
Aliás, a montagem das duas páginas finais revela esta disfunção narrativa, quando foi necessário sacrificar o espaço habitual das três tiras, então reduzidas a duas em favor do texto.
E o argumento escrito, em boa verdade, não precisaria de qualquer ilustração para ser totalmente compreensível.
Uma questão interessante que releva do mundo da comunicação diz respeito ao “descuido” com que foram montadas estas duas páginas finais. Com efeito, desprezando toda a lógica narrativa compatível com o sistema legográfico em uso nas civilizações ditas ocidentais - da esquerda para a direita, de cima para baixo - , a relação espacial entre as tiras de imagens e as colunas de texto foi alterada, propondo aos leitores menos avisados uma incoerência comunicacional ausente nas anteriores páginas. Os esquemas juntos ajudam a perceber esta diferença...Vítor Péon deu certamente o melhor da sua arte, no estilo de traço instintivo e directo, de toque inglês exuberante e quase barroco que o caracterizou e que lhe conferiu um lugar seguro no pódio dos melhores desenhadores nacionais de BD da sua época, ao lado de Eduardo Teixeira Coelho e de Fernando Bento, todos já desaparecidos. No presente caso, a impressão tipográfica dos seus desenhos traiu por vezes o colorido original e produziu alguns cromos algo esborratados.
Esta crítica tão honestamente objectiva quanto cruel - sinto-o! - não ofusca o valor da iniciativa nem afecta, sobretudo, um justo sentimento de gratidão para com os seus autores. Nem reduz a emoção com que agora, mais de sessenta anos após a saudosa vivência dessa juvenil prática de um saudável e didáctico coleccionismo, tal se evoca.
Aqui e agora, nestas memórias de cromos, a que prometo voltar um dia destes...
António Martinó de Azevedo Coutinho
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Post Scriptum - Ver:
CROMOS DA BD - I - (1946/47)

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