\ A VOZ PORTALEGRENSE: Luís Filipe Meira

sexta-feira, setembro 06, 2013

Luís Filipe Meira

Economia Versus Filosofia
A 1ª edição do Andanças remonta ao ano de 1996 e nasceu pela mão de meia dúzia de apaixonados pela música e dança tradicionais com conceitos e filosofia muito próprios, no que diz respeito à preservação do ambiente e das culturas tradicionais. O crescimento exponencial do festival tem vindo a que, ao longo dos anos, os seus mentores estejam em permanente reflexão sobre a manutenção dos objetivos originais ou seja continuem o aprofundamento e divulgação das culturas tradicionais, mas à luz dos novos tempos. Numa palavra, a organização não quer deixar crescer um monstro incontrolável, preferindo a estabilização do projeto e o seu crescimento sustentado. Daí a mudança de local e uma nova aposta para 10 anos na barragem de Povoa e Meadas, local com magnificas condições naturais e geográficas. Por razões várias não estive no Andanças, mas estou perfeitamente identificado com o conceito e filosofia do mesmo. Daí ter ficado, numa primeira fase, surpreso, com as declarações de António Pita, vice presidente da Câmara de Castelo de Vide, ao jornal Alto Alentejo.
Cito:
(...) O Andanças é um festival frequentado por pessoas de classe média/alta, com capacidade de compra (...) (...) Castelo de Vide e a região precisam de eventos com pessoas com esta capacidade económica (...) (...) António Pita destaca o facto de ter ficado, claramente, desmistificado que este festival seria frequentado por pessoas com alguns hábitos anti-sociais mas sim " por pessoas que têm um nível de turismo que nos interessa" (...)
Surpreso, primeiro, irritado, depois e compreensivo, por fim. Foram os 3 estados de alma que vivi depois de ler estas demagógicas - estamos em campanha eleitoral - declarações do Sr. António Pita, que não entendeu absolutamente nada do conceito ou da filosofia do Andanças, nem dos seus frequentadores. O Sr. Pita vislumbrou apenas uma fonte de receita para o seu concelho. E depois? Dirão alguns... O dinheiro é sempre bem-vindo, dá imenso jeito e a promoção de um acontecimento deste tipo é perfeitamente legítima e estimável.
É verdade! O vil metal sobrepõe-se quase sempre a qualquer conceito cultural e filosófico e, as mais das vezes, é um fim e não um meio. Apesar disso, não posso deixar de perceber e concordar que a autarquia se tenha constituído parceira na organização deste festival com o intuito de promover o património cultural e turístico da região e dinamizar o comércio local. Afinal a dinamização e promoção da região é uma das suas atribuições. A questão não é essa, nem podia ser. A questão está nas razões que o vice-presidente encontrou para justificar a parceria, pervertendo totalmente os princípios que presidiram à criação dum festival deste tipo.
O Andanças é um festival muito peculiar do ponto de vista filosófico e conceptual, pois assenta em princípios libertários do corpo e da mente e tem objetivos muito definidos e alternativos em relação à sociedade de consumo, demarcando-se mesmo, de outros festivais que se parecem, cada vez mais, com feiras de publicidade. Daí a minha estranheza pelas declarações do Sr. vice-presidente que, certamente embalado pelo sucesso do evento, se entusiasmou e resvalou para a propaganda.
O Andanças não é uma zona livre de seres com práticas anti-sociais que possam por em causa a curte ecológica da classe média/alta, nem um festival hippie chic onde as classes A e B vão nos seus jeeps BMW, Volvo ou Audi, tomar o seu banho anual de cultura tradicional e ambiental.
O Andanças é um festival feito e frequentado por gente que, na sua maioria, perfilha o conceito, é interventiva e sabe qual a posição que quer ocupar na sociedade, para além de reivindicar e lutar para uma sociedade assente em princípios socialmente justos e ambientalmente corretos. O Andanças não é um evento onde a classe média/alta vá brincar aos festivais. O Andanças não é a Comporta, onde os ricos vão brincar aos pobrezinhos.
O Andanças não é nem pode ser uma zona de diversão para gente endinheirada sem as práticas anti-sociais a que o Sr. António Pita se referiu. Até porque e cito-o como mera curiosidade, proporcionalmente, houve mais gente detida no Andanças do que no FMM Sines ou no Sudoeste.
O Andanças pode e deve ser uma âncora importante para toda esta região que, como se sabe, tem poucas alternativas e recursos para a promoção do seu desenvolvimento socioeconómico. Serei o primeiro a reconhecer o mérito que a Câmara de Castelo de Vide, eventualmente na pessoa do seu vice – presidente, teve nesta parceria. Todavia o Andanças tem uma filosofia e uma prática definida que vale por si, que dispensa diversões, especulações e outras infelicidades à volta do seu conceito.
Luís Filipe Meira
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