\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

segunda-feira, novembro 08, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho

Já foi abordada a posição oficiosa da Sociedade Moulinsart a propósito do presente caso judicial.
Já antes do início deste, em 2007, a página patente na Web -(tintin.com, um excelente site, diga-se!- ostentava alguma curiosa informação sobre o tema Tintin no Congo. Entre a diversa documentação aí disponível encontra-se uma colecção de cadernos de viagem dedicados a alguns dos locais míticos que foram cenário das aventuras do herói. Assim, podemos saber que parte dos dossiers temáticos publicados se relaciona com o Médio Oriente, o Peru, o Tibete, a China, os Estados Unidos da América, a América do Sul e, precisamente, o Congo.
A página permite mesmo um acesso virtual às páginas da cada um destes pequenos, bem elaborados e densos álbuns.
De forma interactiva podemos folhear o dedicado ao Congo, dotado de 96 páginas em língua francesa, abundantemente ilustradas e contendo explicitamente um prévio “convite para descobrir o Congo de hoje e o de ontem, para abordar os temas da colonização e a visão de um mundo e de uma civilização muito diferentes dos nossos... sobretudo em 1930.” Enfim, um conteúdo aliciante que, de certo modo, corresponde a estes objectivos.
O sumário é composto por diversos capítulos: A Saber; Paisagens & Geografia; História; Nos vestígios de Tintin no Congo; Galeria de Fotos.
A Saber corresponde a uma breve introdução à actual República Democrática do Congo, nos seus aspectos sumários como país, superfície, população, etnias, língua, etc. Em Paisagens & Geografia dispomos duma apresentação genérica dos aspectos gerais, a costa, a orografia, e a hidrografia, com especial menção ao lago Tanganica e, sobretudo, ao rio Congo.

História é o primeiro capítulo com algum desenvolvimento, onde surge menção ao nosso navegador Diogo Cão que em 1485 atingiu o rio Zaire (ou Congo), sendo dos primeiros europeus em África digno dessa menção. David Livingstone, um missionário, merece também citação especial. Um mundo muito diferente do nosso - eis o subtítulo que nos introduz no contexto congolês de 1930, quando o imenso e rico território era uma colónia belga. A partilha de África por esses tempos, onde Portugal é também citado, constitui outra informação aqui incluída.
Segue-se uma abordagem, ligeira, às Origens do Colonialismo, da antiga Roma aos conquistadores espanhóis. O caso de Gibraltar é aqui referido, talvez um pouco a despropósito...
Em Retratos do Colonialismo relata-se sumariamente o drama da escravatura e o seu final. A reprodução de uma página com publicidade “colonial” a uma cadeia belga de grandes armazéns (Au Bon Marché) surge aqui, como ilustração.
O que se sabia do Congo, em 1930 - é a proposta seguinte, onde surgem naturais referências a Livingstone (novamente), a Gordon Bennet e a Stanley (o mítico boula matari). E atingimos, no relato, um ponto culminante -O Congo de Leopoldo II-, com lógicas alusões à Conferência de Berlim e, sobretudo, aos abusos e atrocidades cometidos na época... Ainda assim, a descrição parece-me algo “branqueada”.
Significativamente, o subcapítulo seguinte intitula-se Uma Fortuna que se chama Congo, incluindo-se a borracha, o marfim, o algodão, o cacau e o café, mais o óleo de palma. No domínio mineiro, contam-se cobre, diamantes, zinco, prata, platina, cobalto, manganés e chumbo. Como nota saliente, embora com expressão apenas a partir de 1940, está o urânio do Katanga, que permitiu aos Estados Unidos produzir as suas primeiras bombas atómicas...
Assim termina a parte descritiva, genérica, que aborda o “cenário” da aventura. Segue-se a abordagem propriamente dita a esta, sob a designação Nos vestígios de Tintin no Congo.
Em marcha com Tintin! evoca o embarque do herói em Anvers, no Thysville. Segue-se A Aventura começa no mar, onde podemos conhecer o paquete, antecedendo Com Tintin, a bordo do Thysville, Uma longa viagem pelo mar, A Cidade flutuante, até Tintin chega ao Congo. Os conteúdos de cada uma destas partes descritivas subentendem-se facilmente, apenas devendo destacar-se a riqueza e a variedade da original ilustração alusiva.
A Informação, versão congolesa 1930 constitui oportuna abordagem a um sector fundamental na época, onde encontramos uma rádio balbuciante e uma imprensa embrionária. Como nota mais significativa, registe-se a inclusão, local, do tam-tam.
Depois, Na Estrada, com Tintin refere a saga do Ford T, o “excelente modelo transariano”, assim descrito pelo vendedor.
Animais desconhecidos e As duas Paisagens congolesas (savana e floresta) são os naturais desenvolvimentos seguintes, onde o rio Congo e os seus afluentes dispõem de justa referência. Depois, vêm as Imagens da Colonização Belga, introduzidas por um significativo parágrafo: “O Congo que Tintin descobre está cheio de paternalismo, de humanidade e de espírito comercial.” Está aqui quase tudo...
Depois, o percurso do herói continua: Tintin na Escola, Os Homens-leopardo... e a Feitiçaria (com alusão ao animismo), O Crepúsculo, Um Périplo no Caminho-de-Ferro, O Preço do Comboio (a lembrança, cruel, dos milhares de mortos em seu nome sacrificados!) até ao Adeus ao Congo. Aqui, registe-se uma curiosidade: o voo de Tintin entre o Congo e a Bélgica (de 11 de Junho, quando se conclui a história, a 9 de Julho, quando “chega” a Bruxelas) significaria, ao tempo, uma marca para o Guiness - menos de um mês para percorrer 8.125 quilómetros!
Finalmente, a Galeria de Fotografias, muito bem recheada por imagens na maioria inéditas: os Aniotas, a escola, as liteiras, anúncios e capas da revista, decalcomanias alusivas (editadas em 1954, quando ainda não havia autocolantes), avisos na imprensa da época, o feiticeiro, soldados congoleses, o gramofone, uma histórica foto de arquivo com Hergé e o seu amigo (e discípulo) congolês Barly Baruti, etc.
E assim termina o interessante caderno de viagem dedicado ao Congo, sobretudo o do tempo da publicação original da história de Tintin “vivida” naquelas distantes paragens. Este seu mérito é, simultaneamente, o seu defeito essencial: o de se limitar a uma espécie de explicação ou justificação do antigo contexto, quase nada contribuindo para esclarecer, ou antecipar, as actuais e duras críticas.
António Martinó de Azevedo Coutinho

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