\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

segunda-feira, junho 21, 2010

António Martinó de Azevedo Coutinho

O Congo foi, para os alunos do Secundário no meu tempo, uma matéria de estudo, embora sumário. Hoje, creio, até já nem será bem assim, talvez para pior ainda. Por isso, parece conveniente conhecer, ou recordar, algo de essencial sobre o tema.
A designação genérica de Congo refere uma vasta região no centro da África, dominada pelo grande rio navegável, com este nome, e ocupada desde a Antiguidade por tribos Bantos da África Oriental e por povos do rio Nilo, que ali fundaram os reinos de Baluba e do Congo.
Os navegadores portugueses chegaram ao Congo em 1484 e, poucos anos depois, o rei da região ter-se-á convertido ao catolicismo, que já tinha penetrado na Etiópia séculos antes. Em 1575, os portugueses invadiram Angola e transformaram esta região do Congo numa colónia. Entretanto, outros povos europeus foram ocupando mais territórios nesta zona.
É o caso do explorador inglês Henry Stanley que, em 1878, estabeleceu entrepostos comerciais no rio Congo, sob as ordens do rei dos belgas, Leopoldo II. Em 1885, na Conferência de Berlim, que dividiu a África pelas potências europeias, Leopoldo II recebeu o território como possessão pessoal, sob pretexto de civilizar os seus povos.
Em 1908, o chamado Estado Livre do Congo deixou de ser propriedade pessoal da Coroa e tornou-se oficialmente uma colónia da Bélgica, sob a designação de Congo Belga.
O que na realidade aconteceu durante o longo domínio pessoal de Leopoldo II sobre o Estado Livre do Congo rivaliza com os mais abjectos relatos da brutalidade humana. Sob uma hipócrita fachada filantrópica, foi ali estabelecido um regime de terror destinado à mais desenfreada exploração económica, sobretudo nos domínios da borracha selvagem e do marfim. Cada agente de Leopoldo tornou-se um tirano, com absolutos direitos de vida e de morte sobre os naturais congoleses, usando o trabalho escravo, a violação, a tortura e o próprio extermínio em massa.
Atrocidades quase indescritíveis reduziram a população do Congo, em apenas quatro décadas, de 20 para 10 milhões de habitantes...
Alguns historiadores colocam Leopoldo II a par de Hitler no rol dos maiores monstros da Humanidade, estabelecendo no entanto uma profunda diferença entre ambos: o estilo propagandístico do segundo versus a notável discrição do primeiro.
Porém, num Guiness da bestialidade humana, Leopoldo levaria a palma: 10 milhões de congoleses negros massacrados contra “apenas” 6 milhões de judeus (quase todos) brancos dizimados...
O Mundo, incluindo a Bélgica, viveram por demasiado tempo no “inocente” desconhecimento da barbárie que se vivia no Congo. Esta é, também, uma atenuante para Hergé.
Sob a sua máscara filantrópica, uma das proezas culturais de Leopoldo II foi a criação, em 1898, do Museu Real da África Central, precisamente a fonte principal de inspiração para a obra de Hergé em apreço.
O restante da história recente do Congo é mais conhecida.
Os seus movimentos nacionalistas iniciam-se em finais da década de 50, sob a liderança de Patrice Lumumba, opondo-se às tendências separatistas de rica região do Katanga.
Em Junho de 1960, o Congo conquista a independência com o nome de República do Congo. Lumumba, partidário da União Soviética, assume o cargo de primeiro-ministro do jovem país.
A maioria dos colonos europeus deixa em sobressalto o país e, pouco depois, eclode uma rebelião separatista comandada por Moisés Tshombé, que reivindica a região de Katanga. Lumumba acaba por ser assassinado em Janeiro de 1961, diz-se que devido à secreta participação do governo belga.
A ONU envia tropas para o Congo para conter aí as lutas separatistas. Quando os “capacetes azuis” se retiram, Tshombé torna-se primeiro-ministro mas renunciará pouco depois, em 1965.
Mobutu Désiré torna-se ditador, apoiado pelas multinacionais que operam no território. Durante a longa ditadura de Mobutu, na década de 70, o nome do país muda para Zaire e a sua capital (ex-Leopoldville) designar-se-á doravante Kinshasa.
Em 1994, mais de um milhão de refugiados ruandeses invadem o leste do Zaire e estabelece-se aí uma rebelião que leva Laurent Kabila ao poder. Foi em Maio de 1997, quando os rebeldes entram em Kinshasa, forçando a fuga e o exílio do ditador Mobutu.
Kabila adopta para o país a designação de República Democrática do Congo, suspende os partidos políticos e proibe manifestações. Novas amotinações geram então uma autêntica guerra civil, com todo o horror que esta comporta. O acordo de Lusaka, em Agosto de 1999, nada resolve e a ONU vê-se forçada a intervir, uma vez mais.
Em 2001, Laurent Kabila foi assassinado, sucedendo-lhe um seu filho, Joseph Kabila. Este esforça-se por conseguir a paz interna mas, após algum ligeiro interregno, o conflito regressa com maior intensidade em 2004.
As eleições de 2006, em que Kabila triunfou e procurou um entendimento com os oposicionistas, não resolveram o problema, ainda latente.
O que é hoje a República Democrática do Congo? Um país rico de recursos disputados por multinacionais, paraíso dos “senhores da guerra”, palco do abominável contrabando de armas, onde muitas crianças aprendem mais depressa a manejar uma arma do que a dominar os segredos da alfabetização.
Para muitos observadores imparciais, o Congo tornou-se a crise mais esquecida do Mundo. A sua interminável guerra civil é objecto das mais díspares interpretações, onde a verdade costuma ser censurada, manipulada ou escondida.
Onde é que já ouvimos isto?
Ao que relatam algumas fontes insuspeitas, contabilizam-se no Congo 10 milhões de mortos. Não, não se trata outra vez dessa macabra estatística dos tempos de Leopoldo II; este massacre é novo e conta, “apenas”, desde 1996...
António Martinó de Azevedo Coutinho
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Os dois clips de vídeo seguintes são bem demonstrativos da situação do Congo nos tempos coloniais e na actualidade.
O primeiro, com a chancela da BBC, é um excerto da série dedicada ao Racismo. Legendada em Português, recria de forma brutal as crueldades exercidas sobre a população negra e, depois, faz uma interessante análise ao Museu de Tervuren, precisamente aquele onde Hergé se documentou mais abundantemente.
O segundo, não legendado, é constituído pelo trailer de um documentário recente (2008) da autoria do cineasta Dan Balluff, intitulado Crianças do Congo: da Guerra às Bruxas. Revela sobretudo um pouco da drama dos refugiados e sobretudo a vida das crianças, as vítimas mais indefesas dos actuais conflitos internos, apesar dos esforços quase sobre-humanos das Organizações não Governamentais.
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