\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

sexta-feira, julho 10, 2009

António Martinó de Azevedo Coutinho

OLHANDO-NOS A NÓS MESMOS....
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Jardins de Portalegre,
memória, saudade e alguma indignação...
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Precisamente a terminar o ano de 2005, O Primeiro de Janeiro publicava um suplemento, intitulado Regiões, dedicado a Portalegre.
A capa deste anexo ao jornal continha a reprodução de seis fotografias de vistas de jardins portalegrenses, cinco das quais relativas à Corredoura. Duas destas, a preto e branco, mostravam a antiga rua ou estrada que descia do local onde hoje se encontra a Escola de S. Lourenço em direcção à Fábrica Real (actual CMP), enquanto as outras três, mais recentes e a cores, revelavam o largo fronteiro ao Banco José Duro e o lago, este em duas perspectivas algo distantes entre si no tempo.

Tudo isto soa hoje a grotesca ironia, porque tal publicação coincidiu quase rigorosamente com os episódios da destruição pura e simples destes sítios portalegrenses, a rua, o largo com os bancos e a construção (mais os azulejos neles integrados) e também o lago...
Já se tem aqui recordado esta triste e moderna crónica citadina, mas a verdade é que não será demais analisar com alguma atenção o seu significado e os seus efeitos.
Os mais velhos de entre nós podemos evocar a importância que desde sempre assumiram para a comunidade lagóia os seus jardins. Centros de convívio, de recreio e de cultura autêntica, constituiam pretexto para ler, ouvir música ao vivo (bandas militares e outros conjuntos, civis) a partir dos seus coretos, passear ou namorar, tomar uma fresca bebida ou um café (no Cedro Bar), praticar desporto (chegou-se a remar e a nadar no lago da Corredoura!), assistir a espectáculos de variedades, e outros, passar o tempo numa partida de cartas ou de dominó jogada ao ar livre, simplesmente conversar ou discutir...

Os mais novos, a partir de certa altura, passaram a dispor daquilo que foi, durante muitos anos, um excelente parque infantil, sito na Corredoura, com escorregas, baloiços, carrosséis, labirintos, zonas de areia, jogos tradicionais, relvados, sanitários, um pequeno espelho de água e até um recinto para patinagem e... trambolhões. Uma bem recheada biblioteca infanto-juvenil completava a elenco posto à disposição dos mais jovens portalegrenses.
O primeiro jardim a acusar os efeitos do “progresso” foi o Operário, de fortes tradições locais, ali frente à saudosa Fábrica Robinson e fruto da carinhosa iniciativa dos seus trabalhadores. Tendo perdido o coreto, os canteiros floridos, os bancos sombreados e a maior parte das árvores protectoras, tornou-se um banal parque de estacionamento, onde apenas sobrevive o pequeno lago com repuxo ao centro para recordar antigas glórias...

Entretanto, o romântico e largo passeio central (o “picadeiro”) do grande Jardim Público, a norte do Rossio, dera lugar a um belo relvado que sacrificara a lendária mas já quase obsoleta cascata, em polémica, embora conseguida, modernização.
Depois, como maléfico terramoto, aconteceu o POLIS. Entre nós, ninguém de bom senso recusaria a necessidade de uma criteriosa intervenção nos dois jardins públicos então sobreviventes, confirmado como estava o óbito do Operário. Mas, do povo expectante, talvez ninguém imaginasse a exagerada dimensão e a absurda incoerência da maioria das alterações produzidas.
Apenas se resume, aqui e agora, um pouco do lamentável historial desde então vivido.
No jardim público da Avenida da Liberdade, aconteceu a inopinada queda de árvores que deviam ter sobrevivido, provocaram-se algumas dispensáveis rugas na superfície relvada, implantaram-se umas pontes metálicas que conduzem os passeantes a sítio nenhum, semearam-se chamiços em vez de flores nalguns canteiros e colocaram-se bancos ao sol virados para os automóveis, estacionados ou em marcha. Recentemente, espécie de milagre em ano santo (leia-se: ano eleitoral), foi ali implantado um arremedo de parque infantil...
Os frequentes e tradicionais espectáculos de Verão que por lá aconteciam quase se extinguiram e parece terem emigrado de vez os dinâmicos torneios desportivos que ali tinham palco natural.

Na Corredoura, o desastre foi bem mais significativo. A destruição pura e simples do banco José Duro, assim como a do largo fronteiro, representaram, só por si, um inqualificável insulto histórico, paisagístico e cultural à memória de Portalegre e das suas gentes.
A substituição dos clássicos bancos por incómodos blocos de granito com lâminas metálicas a servir de encostos constituiu adequado complemento à radical alteração do piso da alameda central do parque, onde hoje “passeamos” sobre um empedrado digno das antigas vias romanas, com pesados e rijos paralelepípedos de granito. Felizmente, estas mudanças retiraram crianças e jovens dos seus antigos percursos cicloturistas de eleição pois, no caso contrário, graves acidentes já se teriam verificado pela conjugação entre a insegura trepidação provocada pelo irregular piso e o consequente embate nas perigosas arestas dos bancos.

Verifique-se, aliás, o comportamento dos peões, na sua luta quotidiana pelo conforto mínimo em termos de sobrevivência. Impedidos de atravessar transversalmente o parque, entre a Avenida George Robinson e a Rua de Olivença, eles percorrem a alameda central em curiosa fila indiana, preferindo ao disponível mas duro empedrado o estreito, liso e confortável “passeio” lateral.

A solução encontrada para resolver o eterno problema do degradado morro do Calvário, o antigo Piolho, parece bastante discutível aos olhos do portalegrense comum. Este compromisso entre os andares tipo “zigurat” e os paredões no estilo “muro das lamentações” surge como pesado, frio, feio, opaco e desnecessariamente dispendioso.

A destruição do lago e a sua substituição por uma parelha-de-tanques-com corredor-ao-meio tem-se revelado de uma incoerência a toda a prova, porque é inestética, porque não funciona e porque se transformou, no seu flagrante simbolismo, na mais clara e sistemática demonstração da incapacidade do actual Executivo em resolver com eficácia e prontidão qualquer “avaria” urbana. Para cúmulo, uma queda de parte do morro “sobrevivente” sobre um dos tanques (o que consegue conservar a água putrefacta lá dentro, sem a entornar) aconteceu há vários anos (!) e ali permanecem -até quando?- os seus destroços, com as terras e as pedras acumuladas num inútil monte de entulho. A própria segurança dos passeantes no local parece não preocupar os responsáveis...

Todos nos lembramos também da iluminação original do parque, em que ninguém acreditava, excepto o seu arguto inventor. Há meses, toda a área teve de ser esburacada para esconder os fios destinados a alimentar os novos candeeiros então implantados em substituição dos ineficazes “pirilampos”.
E fiquemos por aqui, com a demorada reencarnação do parque infantil da Corredoura, nestes tempos milagreiros, após a inglória morte da anterior versão. Mas aprecie-se, ao vivo, o estado lastimável em que já se encontram certos equipamentos lúdicos e o seu envolvimento...

A questão magna da animação dos jardins levar-nos-ia muito longe e nem sequer valerá a pena abordar, a tal propósito, as defuntas festas populares do Dia do Concelho, que tiveram como cenário privilegiado estes espaços. Hoje moribundos como toda a restante cidade, alguém conseguirá inverter o prolongado estado comatoso em que estão mergulhados os nossos parques públicos?
Se a sua consciência tal permitir, que responda sem demagogias quem souber.

António Martinó de Azevedo Coutinho

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