\ A VOZ PORTALEGRENSE: Comissão Justiça e Paz

segunda-feira, março 23, 2009

Comissão Justiça e Paz

COMISSÃO DIOCESANA JUSTIÇA E PAZ
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Diocese de Portalegre-Castelo Branco
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TEMPO DE ESPERANÇA…
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“A busca do bem comum supõe lucidez de discernimento e generosidade de comportamentos. Essa salvaguarda do bem comum sublinha a responsabilidade de todos, na consciência de que a harmonia da sociedade será irremediavelmente comprometida pela defesa de interesses particularistas.” (Documento da Conferência Episcopal de Junho de 2005).
Nesse ano de 2005, em que foi escrito este Documento, e naqueles que se lhe seguiram até Janeiro de 2008, as dificuldades decorrentes da situação económica e social que hoje nos assolam não tinham, ainda, os valores que agora se nos apresentam. Assim, considerando apenas o número de desempregados inscritos nos Centros de Emprego das cidades de Abrantes, Castelo Branco, Portalegre e Ponte de Sôr, de 2005 para 2008, houve uma descida, respectivamente, de 555, 241, 62 e 169. De Janeiro de 2008 para Janeiro de 2009, esses números inverteram-se, apresentando-se no final desse mês, em relação a Janeiro do ano anterior, com os valores de subida, respectivamente, de 378, 516, 123 e 216. Significa isto que num só ano, as cidades de Abrantes, Castelo Branco, Portalegre e Ponte de Sôr juntas, perderam mais emprego do que aquele que ganharam nos três anos precedentes.
Outro indicador da situação que actualmente se vive é o do número de pessoas que estão a ser apoiadas pelos Bancos Alimentares de Abrantes e Portalegre, os únicos instalados na nossa Diocese.
Assim, no que se refere a Abrantes, durante o ano de 2008, foram apoiadas, em média, cerca de 6500 pessoas por mês, vindo crescentemente o número de apoios a alargar-se à medida que o ano decorria. Relativamente a Portalegre, no ano de 2008, assistiu-se em cada mês a um acréscimo do número de pessoas à volta de 100. Actualmente, este apoio abrange 4000 pessoas por mês.
Sem se correr o risco de generalização, a conclusão a retirar destes dados não é difícil: em 2008 e nos primeiros meses de 2009, na zona abrangida pela Diocese de Portalegre-Castelo Branco, aumentou significativamente o desemprego e há um maior número de famílias com carências alimentares do que em anos anteriores.
Parece ter sido uma especulação financeira sem regras em que o lucro a qualquer preço era o lema, com repercussões desastrosas na economia global, que conduziu a este estado em que muitas famílias se vêem atiradas para situações de grande carência. Ora, o Estado, diz-se ainda no Documento citado, “tem, como primeira responsabilidade, administrar com rigor os bens públicos, constituídos pelo contributo de todos nós e deve fazê-lo garantindo bens essenciais, dinamizando e regulando a iniciativa criativa de pessoas e grupos”. Na busca das diferentes soluções que o Estado empreende, há valores que é preciso preservar e, entre estes, ressalta a subsidiariedade.
Esta diz que o Estado ou as grandes instituições se não devam substituir às organizações de menor dimensão que, por natureza, se encontram vocacionadas para o exercício de determinado tipo de tarefas, como sejam a da prática da solidariedade. “O fim natural da sociedade”, diz-se na Encíclica Quadragésimo Anno, “e da sua acção é coadjuvar os seus membros e não destruí-los nem absorvê-los”. São estas organizações menores que conseguem ter serviços mais humanizados; assim o Estado não ceda à tentação de se lhes substituir e não regateie os auxílios de que elas carecem para o exercício pleno das suas funções! Organizações como Caritas, Conferências de S. Vicente de Paulo…, a actuar nas diferentes dioceses, centros sociais, misericórdias e tantas outras de solidariedade social, pertencentes ou não à Igreja, estão, por se situarem mais próximas das pessoas, em melhor posição do que o Estado para prestar auxílio a quem dele precise.
E as empresas terão algum papel a desempenhar para combater esta grave conjuntura? Antes de mais, se elas fizeram todo o possível para manter os empregos dos seus trabalhadores, será já um relevante serviço que prestam à comunidade. O aproveitarem-se da crise para efectuarem despedimentos de conveniência é socialmente grave e condenável. O mecenato social é ainda uma forma de as empresas colocarem à disposição dos que precisam aquilo que retiraram do seu lucro. Ora, “se a busca de um lucro equitativo”, segundo o Compêndio da Doutrina Social da Igreja (nº341), “é aceitável, o recurso à usura é moralmente condenável.”
E nós, cristãos e não cristãos, que responsabilidades teremos que assumir neste contexto em que agora vivemos? Poderemos manter-nos indiferentes àquilo que está a passar-se à nossa volta? Para uma consciência que tenha um mínimo de responsabilidade social, há que actuar. Desde o voluntariado social em misericórdias, bancos alimentares, centros de apoio social, paróquias… até ao contributo monetário, maneiras de intervir não faltam. Assim se queira!
Se esta crise financeira, económica e social contribuir para
- modificar muitos dos nossos hábitos individuais e familiares, disciplinando o consumo, e nos ensinar a estabelecer uma hierarquia entre o que é verdadeiramente importante;
- reflectir e assumir uma cultura também dos deveres;
- tornar-nos mais atentos aos nossos vizinhos e comunidade mais próxima;
- alterar procedimentos das empresas, visando a racionalização e a criatividade, mas em que a ética seja a realidade sempre presente nas relações que estabelece com os trabalhadores, fornecedores, clientes e Estado;
- revalorizar o nosso tecido agrícola e florestal;
- o Estado prover melhor ao bem comum, sendo exigente para consigo próprio nos compromissos que assume e nas obrigações que lhe compete, erradicando o supérfluo, promovendo a equidade e o desenvolvimento de todos os cidadãos, sem discriminações,
então talvez essa mesma crise seja a precursora de um tempo de esperança, início de uma nova era com mais justiça social e mais paz.
Portalegre, 18 de Março de 2009
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COMISSÃO DIOCESANA JUSTIÇA E PAZ
Diocese de Portalegre-Castelo Branco
Presidente: Mário Silva Freire
Secretário: Mário Casa Nova Martins
Vogal: Carlos Juzarte Rôlo
Vogal: Elicídio Dinis Bilé
Assistente Religioso: Padre Marcelino Dias Marques

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