\ A VOZ PORTALEGRENSE: Mário Silva Freire

sábado, novembro 07, 2009

Mário Silva Freire

Francês para consumo doméstico
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Admiro a coragem dos nossos emigrantes. Eles foram para um país estrangeiro, deixando famílias e haveres, em condições difíceis, quantas vezes sem dominarem a língua do país de destino. Só com uma vontade enorme de vencer, ultrapassando obstáculos, conseguiram ganhar a vida de uma forma honrada. Eles constituem para muitos de nós, os que cá ficámos, um exemplo no acreditar nas suas próprias capacidades, no não baixar os braços perante as dificuldades, no valor que atribuíram ao seu próprio trabalho, no terem substituído o carpir das mágoas pela procura activa de melhores condições de vida.
Posto isto, tenho que explicitar a minha mágoa por um comportamento que estes nossos compatriotas exibem nestas terras de Portugal, mais evidente durante o mês de Agosto. Fico confrangido ver estas pessoas, pais a falarem com os filhos, marido a falar com a mulher, amigos entre si, em vozes bem altas para que todos possam ouvi-los, a expressarem-se em francês.
Não acredito que a causa desse comportamento tenha sido uma mágoa para com o seu país que, nem sempre, os tratou como devia e os tivesse levado a banir do seu quotidiano a língua dos seus antepassados.
Penso que o desprezo destes portugueses para com a sua língua materna, daqueles que cá nasceram e aprenderam as primeiras letras e que, depois, as circunstâncias da vida os obrigou a sair do país, se radica em razões mais prosaicas e menos políticas: numa simples atitude de afirmação perante os que cá ficaram.
Ora, como explicar que o Estado Português tente divulgar e consolidar a língua que falamos, aquilo que, pelo menos, nos une a duzentos milhões de pessoas espalhadas pelo mundo, a nossa pátria, no dizer de Fernando Pessoa, e esqueça estes nossos compatriotas? Seria, assim, tão difícil os consulados que temos em França fazerem uma campanha de sensibilização junto dos portugueses que ali trabalham? Tente-se, ao menos, no início de Agosto de cada ano, nas fronteiras terrestres e aéreas, distribuir um panfleto aos nossos emigrantes chamando-lhes a atenção para esta situação. Não seria dispendioso e talvez resultasse!
Mário Freire

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