\ A VOZ PORTALEGRENSE: Mário Silva Freire

domingo, junho 14, 2009

Mário Silva Freire

O PROFESSOR REIS PEREIRA
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Fui ver, na Galeria de Exposições da Câmara Municipal de Portalegre, uma exposição de pintura de homenagem ao Professor Reis Pereira, comemorando os 80 anos da sua vinda para a cidade de Portalegre. Esta minha ida à exposição fez-me evocar alguns dos momentos, como aluno desse Professor.
Ele esteve em Portalegre entre 1929 e 1962, como professor de Português e de Francês do Liceu, e foi nesta cidade que escreveu a maior parte da sua obra poética e em prosa com o pseudónimo de José Régio.
Recordo, ainda, a sua figura pequena e de faces angulosas, ao entrar na sala de aula. Os alunos levantavam-se, como mandava a boa educação daqueles tempos. Depois, começava a aula. E a aula iniciava-se pelo folhear lento da caderneta, aquele livrinho, estigmatizado por todos nós, onde se assentavam as nossas classificações ao longo do ano, quer das chamadas orais, quer dos exercícios escritos.
Lembro-me que, começando o folheio pelo princípio da caderneta, nós, alunos, sabíamos em que posição da turma o professor ia e, como tal, estávamos a par, em tempo real, como agora se diz, da nossa possibilidade de nos deslocarmos até à secretária. Confesso que aqueles momentos, da passagem lenta das folhas da caderneta, eram de grande ansiedade! Tomada a decisão sobre quais os contemplados a serem chamados, seguia-se o alívio para a maior parte da turma. Tinha escapado a uma prova de força. Mas a vez daqueles que agora se tinham livrado chegaria!
O que é que este ritual muito frequente, com as emoções que suscitava, nas aulas de Reis Pereira, pretende significar? Significava que ele, como professor, era muito respeitado mas não provocava especial simpatia. Nem, tão pouco, a procurava.
A sua exigência não enganava ninguém e isso obrigava-nos a sermos cuidadosos naquilo que dizíamos e naquilo que escrevíamos. Mas essa exigência era temperada pelo empenhamento que punha em actividades fora da escola, como a de organizador de récitas, em que colaborava informalmente com os alunos.
Mas foi essa exigência dentro da sala de aula que melhor conheci no Professor Reis Pereira e que muito me ajudou quer a organizar os meus processos mentais através da análise sintáctica das orações, quer a abrir novas dimensões à imaginação e à criatividade através da interpretação dada a um texto.
Nunca me esquecerei, a propósito das figuras de Cristina e Madalena, em A Morgadinha dos Canaviais, da distinção que ele nos propôs que fizéssemos entre o que era ser uma mulher bonita e uma mulher bela, aplicadas por Júlio Dinis, respectivamente, àquelas figuras.
Por outro lado, não sei se ele andava a par das modernas teorias pedagógicas; no entanto, aplicava muito frequentemente aos alunos o Efeito de Pigmalião que diz que o formular expectativas elevadas em relação ao aluno, faz com que este tente concretizar essas mesmas expectativas junto do professor. Quantas vezes ele me escrevia no final dos meus pontos: “Suficiente… mas esperava melhor!”.
Esta minha visita à exposição foi uma incursão na minha adolescência que me trouxe uma certa nostalgia mas, também, uma saudosa e grata recordação de um Professor que nunca esqueci.
Mário Freire

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