\ A VOZ PORTALEGRENSE: Mário Silva Freire

domingo, maio 10, 2009

Mário Silva Freire

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O SER E O PARECER
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Falar de educação é sempre falar do País que temos e daquele que desejaríamos ter.
Ora, a educação que temos, especialmente a que se refere à aquisição das competências básicas do cálculo, da leitura, da escrita, dos conhecimentos elementares do que somos como organismo vivo, como nos alimentamos, como respiramos…, mas também daquelas primeiras noções sobre o mundo que nos envolve, plantas, animais, mares, astros…, julgo deixar muito a desejar!
Talvez não seja muito convencional fazerem-se perguntas a uma dúzia de alunos, escolhidos aleatoriamente, sobre o conteúdo dos Programas, à saída de uma qualquer escola básica. Mas seria interessante vermos o resultado de um pequeno questionário referente, por exemplo, a alunos do 8º ano, ou seja, adolescentes já com 8 anos de escolaridade, se lhes perguntássemos:
- quanto é metade de 32?
- se 1 litro de leite custa 80 cêntimos, quanto pagaríamos por 6 litros?
- porque é que nos alimentamos?
- porque é que respiramos?
- quem foi o Infante D. Henrique? e Pedro Álvares Cabral?
- para onde fica o oeste?
- o que é a Estrela Polar?
Igualmente teria interesse saber como é que esses alunos fariam um resumo de uma pequena história que lhes tivesse sido dada para lerem.
Penso que se 10% desses alunos, escolhidos ao acaso, respondessem acertadamente a todas essas questões elementares dos Programas do Ensino Básico, escrevessem um pequeno texto sem erros ortográficos e de sintaxe calamitosos, com as ideias fundamentais expressas no texto, dar-nos íamos por muito satisfeitos! E esta minha opinião não é gratuita mas ela é resultante de um contacto que vou mantendo, regularmente, com adolescentes desses anos de escolaridade.
Várias vezes me pergunto como foi possível chegar-se a este estado de ignorância nos nossos alunos! É claro que vou vislumbrando algumas respostas quando eles me vão dizendo que, em muitas aulas, se faz muita coisa para além do aprender; quando o ambiente de turbulência constante é impeditivo quer da acção do professor com um mínimo de eficácia, quer da acção do aluno que o impede de aprender aquilo que se ensina.
Falta aos nossos alunos a consciencialização daquele princípio de que os actos têm que ter consequências. Eles sabem que, mesmo não trabalhando, vão transitando de ano; mesmo que se comportem incorrectamente para com os professores, nada lhes vai acontecendo; mesmo que algo ocorra dentro da escola que vá contra os seus interesses imediatos, têm os seus pais a fazerem coro com eles contra os professores, o director ou os funcionários.
Não sei se estou a generalizar em função daquilo que vou observando, mas julgo que na nossa escola pública, pelo menos ao nível do ensino básico, existe um clima quer de grande falta de exigência por parte da escola, quer de impunidade pelos actos incorrectos que são cometidos pelos alunos.
Perante este quadro, posso aceitar que os professores estejam desmotivados para procurarem as melhores estratégias para levarem os alunos a interessarem-se pelo que estão a estudar. Mas, a título exemplificativo, não poderia suscitar-se um maior interesse dos alunos se eles aprendessem a localização dos relevos e dos rios em frente de um mapa? Não prestariam eles mais atenção às aulas se as rochas que estão a ser estudadas pudessem ser observadas nas suas próprias mãos, acompanhadas pela explicação do professor? Não haveria um maior interesse pelo que se estuda se houvesse uma simples experiência dentro da sala de aula que ilustrasse a vaporização ou a condensação? A turbulência não seria reduzida se uma simples operação aritmética, que é feita pela máquina de calcular, fosse proposta de modo a incitar o aluno e exercitar os seus mecanismos de cálculo manual e mental? Não haveria mais gosto pela leitura e pela escrita se os alunos vissem na gramática um meio que os ajuda a melhor compreender um texto e a escrevê-lo melhor? Os comportamentos individuais ou generalizados de indisciplina não poderiam ser substituídos por uma discussão cooperativa em torno de temas dados pelos professores se os alunos, na sala de aula, estivessem agrupados em vez de estarem de costas voltadas uns para os outros?
É importante que se faça a avaliação do ensino. Mas ela, parece-me, deveria centrar-se na própria escola. Depois de efectuada esta avaliação que foi determinada para os professores e que tanta polémica tem gerado, pergunto-me:
- nos diferentes departamentos da escola e nas várias disciplinas, os métodos e as técnicas utilizados passarão a ter melhorias significativas?
- os recursos de que se dispõem passarão a ser mais adequadamente utilizados?
- a disciplina dentro e fora da sala de aula melhorará e estará ao serviço de uma aprendizagem eficaz e, em caso negativo, foram identificados os melhores meios para lhe fazer face?
- os professores com dificuldades passaram a ser convenientemente apoiados?
- os métodos de avaliação dos alunos melhoraram, contribuindo para o seu sucesso ou eles tenderão a perpetuar a sua ignorância?
- as estratégias de remediação escolar, de orientação escolar e profissional disponíveis, para os casos de insucesso escolar, passaram a ser convenientemente utilizadas?
Pode ser importante o alargamento da escolaridade obrigatória até ao 12º ano. Mas ela, na verdade, só terá um verdadeiro impacto no crescimento pessoal das pessoas e no desenvolvimento do País se corresponder a um autêntico acréscimo de saber e de competências. Se é só para constar nas estatísticas da União Europeia e no Conselho da Europa, então, mantenha-se a escolaridade que temos e façamos tudo para lhe dar conteúdo, eficácia e exigência. Sairá mais barato e será mais profícuo.
Mário Freire

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