\ A VOZ PORTALEGRENSE: Opinião

sábado, julho 21, 2007

Opinião

A velha crise da nova “direita”
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Quando começou a crise da “direita” portuguesa?
Com o fim do Antigo Regime e o começo da República laica, nas ruas de Lisboa?
Com as unanimidades, sociais primeiro, administrativas depois, do Estado Novo?
Com as ambiguidades da abertura Marcelista?
Com o 25 de Abril, e o exílio das duzentas famílias?
Com a morte de Sá Carneiro, que deixara de ter inimigo à direita?
Com a ascensão desenvolvimentista de Cavaco, esse grande eucalipto assexuado, que secou, ou obrigou a engolir, as diferenças entre lojas?
Com o tabu do mesmo Cavaco, que deixou órfãos muitos crentes?
Com o triunfo dos “pós-políticos”, que, vistos da “direita”, pareciam de “esquerda”, e vistos de “esquerda”, pareciam de “direita”?
Com a queda grave, a desilusão, a conspiração, o caos, que envolveu os últimos dias do governo de Santana Lopes?
Certamente que não foi a eleição lisboeta, tristonha e desoladora, que obrigou à “reflexão” de Portas, e à convocação de “directas” por Mendes. O voto esquálido e embaraçoso, traçado nos astros e na parede, foi uma consequência, não uma causa.
A verdade é que PSD e CDS/PP partiram para as intercalares com homens excelentes, mas que não eram candidatos à altura da prova.
A verdade é que partiram com ideias certas, mas propaganda confusa e errada. Um bom trocadilho de salão não é, forçosamente, um bom slôgane de campanha.
A verdade é que partiram com aplicação, mas sem convicção.
A verdade é que partiram num estado de atrapalhamento táctico e estratégico, esquecendo-se de compreender o “fenómeno” Carmona, de analisar os erros do passado, de estudar os riscos, de ouvir as várias famílias (políticas) envolvidas.
Dir-se-á que os líderes não tinham paz de espírito. Mas o problema era deles, como foi dos antecessores. Estes lidaram de formas diferentes com os seus fantasmas, reais ou imaginários.
Dir-se-á que não tiveram tempo. Mas o bom político produz o tempo certo.
As “direitas” não possuem só um problema de generais. A verdade é que já não dispõem de exércitos (eleitorais) permanentes. E os profissionais e contratados não chegam, numa guerra a sério.
Por onde andam as tropas?
A vida política faz-se hoje de maneiras atípicas e arrítmicas, em sítios imprevisíveis e com imensidades variáveis. Não é forçoso que as decisões essenciais residam em S. Bento e Belém. Nas associações e clubes, nos média e na academia, no mundo dos negócios e do desespero, nas redes sociais “marginais”, no suposto lazer, no activismo por causas únicas, passa “política” a rodos.
Quem continua a pensar em “ciclos”, esperando pelo calendário eleitoral como pela liturgia, contando os próximos votos como o terço, está perdido.
Por outro lado, não é certo que uma boa peça de gabinete, um bom pensador, um decisor de génio, um escritor com alma, seja o comandante ideal numa batalha.
E as “direitas” não contam, hoje, com esse chefe, vindo do povo e capaz de o entender.
Nuno Rogeiro
in, SÁBADO N.º 168 – 19 A 25 DE JULHO DE 2007, p.60

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