\ A VOZ PORTALEGRENSE: Novelas Im(prováveis) - Avelino Bento

quinta-feira, maio 21, 2026

Novelas Im(prováveis) - Avelino Bento

Ex. Sr. Prof. Dr. João Emílio Alves

Ex.ª Sr.ª Vereadora Eng. Lurdes Porto

Ex. Sr. Dr. Adriano Bailadeira

Meu Caro Prof. Dr. Avelino Bento,

Vivemos o momento da apresentação da última obra de Avelino Bento, professor jubilado desta Casa.

A anterior «Trilogias poéticas» segue «Quarent’ (Ena mais Poemas!)», e agora nesta obra Avelino Bento volta ao conto. Recorde-se a belíssima série de contos «Os últimos putos neo-realistas», memórias de uma infância feliz à beira-rio, assim como «A geração que quis ser feliz», retrato-novela também de memórias mas agora da guerra de África, onde esteve presente.

Mas foi com «No rio… onde começa o mar», que a sua poesia é pela primeira vez tornada acessível ao grande público, criando aí leitores para as obras que se seguiram, seja poesia, novela ou conto.

Fora destas temáticas, Avelino Bento publicou em 2003 «Teatro e animação: outros percursos do desenvolvimento sócio-cultural no Alto Alentejo», obra de uma dimensão transversal e multidisciplinar, primeiro passo no estudo contextualizado do teatro e animação sócio-cultural com reflexos nas dinâmicas culturais locais instituídas ou a instituir.

Seguiu-se «O meu blog deu-me o mundo – Antologia de textos sobre Cultura, Educação, Arte e Animação. Tributos», Instituto Politécnico de Portalegre, 2010.

O livro agora apresentado intitula-se «Três Novelas (Im)prováveis» e é constituído por novelas de amor, «A Balada para Yulipa Azarova», «Paredes comuns / Paredes meias» e «Abusados  / Abusadores».

Estas histórias ou estórias que o Autor apresenta em «três novelas (im) prováveis», onde o amor é peça central, têm uma escrita próxima dos romances camilianos. Curtos, escorreitos, num português vivo, trazendo temáticas da vida real, e onde aquela frase-feita “viveram felizes para sempre” é uma quimera.

Todavia, será o amor tema reservado aos romancistas e aos poetas? Romeu e Julieta, Werther e Charlotte, foram imortalizados por Shakespeare e Goethe. Para Werther a vida só teria sentido junto à sua amada Charlotte, Julieta e Romeu vivem um amor que só a morte separará.

Não se pode duvidar da realidade do amor e da sua importância. Ele é imanente a todo o ser humano.

Quem não conhece os amores de Pedro e Inês, D. Pedro I e D. Inês de Castro, que inspiraram Henry de Montherlant na sua obra «La Reine Morte»? Inês, ‘aquela que depois de morta foi rainha’.

E «A Ceia dos Cardeais», tão esquecida quanto bela, onde pela pena de Júlio Dantas, o espanhol cardeal Rufo, o francês cardeal de Montmorency e o português cardeal Gonzaga falam do seu grande amor. Longe da mocidade de outrora, lembram o grande amor das suas já longas vidas.

Lembrando Camilo Castelo Branco, Avelino Bento faz sair dos prelos mais uma obra, não de poesia, não de conto, mas constituída por três novelas de amor, «A Balada para Yulipa Azarova», «Paredes comuns / Paredes meias» e «Abusados / Abusadores».

Amores infelizes, trágicos, impossíveis, contrariados, enchem páginas de vasta obra de Camilo. Os seus amores não foram fáceis, tal como a própria vida. Essa conjunção reflectiu-se na obra literária. Mas tal facto fez com que a sua escrita percorresse o tempo sem perder vida e actualidade, muito pelo contrário. Camilo é contemporâneo, eterno.

É desses amores camilianos que Avelino Bento trata, de uma forma que comove mas que também deixa interrogações sobre a natureza humana das personagens, pessoas comuns mas com histórias de vida que deixaram marcas.

Na primeira novela é o desencontro que caminha ao longo do enredo, muito bem construído e com um final agridoce, onde o sentimento do amor, e também do amor filial, permanece e é perene.

A segunda trata de um amor juvenil que a distância e a circunstância separam. O reencontro é agradável, mas a crua realidade impõe-se, ficando uma saudade que o afastamento não irá apagar.

A terceira novela é a mais curta, mas a mais intensa. Trata de um amor que começa por ser apenas prazer, mas que com os anos se torna em puro terror. O fim é forte, ficando uma sensação de angústia e de alívio, simultaneamente.

As três formas de amor que as novelas de Avelino Bento apresentam não são de felicidade pura, muito menos a última onde ela nunca esteve presente. O Autor tem uma sensibilidade muito própria, que se reflecte principalmente na sua obra poética.

Também é um excelente contador de histórias. Nesta novelística, que é a obra presente, retracta a realidade da vida e do amor, que não é um “conto de fadas”, mas é aquele amor nunca esquecido, que deixa marcas profundas no ser.

Talvez por isso não é fácil amar, mas quando se ama, esse sentimento perdura eternamente. O amor incondicional, o amor romântico, o amor platónico, o amor físico, o amor místico, todas diferentes formas de amar, transportam o ser para formas sublimes de consciência e de prazer.

Stendhal fala no amor-paixão, no amor-gosto, no amor-físico e no amor-vaidade. Do primeiro refere o de soror Mariana Alcoforado e o de Heloísa e Abelardo. O segundo encontra-se em memórias e romances daquele Paris da segunda metade de mil e setecentos, lembrando Charles Duclos ou Louise d’Épinay. O terceiro é seco e infeliz. Quanto ao último, algumas vezes existe amor-físico, mas nem sempre, porque muitas vezes nem sequer há prazer físico.

O amor vive-se, sente-se. Aqueles que por uma vez tiveram o privilégio de amar, de ter um grande amor, como o de Romeu e Julieta, de Pedro e Inês, ao lerem esta obra de Avelino Bento, sentirão, por certo, esse ‘fogo’ que um dia os fez sentir aquela felicidade eterna, guardada para sempre na memória.

Avelino Bento é um Homem de Cultura, um Académico ligado às Artes, com uma vivência do Mundo extraordinária. Ao enveredar agora pela novela, mostra a sua polivalência na escrita.

Com esta obra quis também deixar um testemunho das suas viagens e dos lugares que conheceu e que amou. Évora e Canadá estão reiteradamente presentes no seu imaginário, seja poético, ou de prosa. Crente, com forte formação ideológica, deixa sempre viva essa marca na sua cada vez mais vasta obra. E jamais esquece o Teatro e a Dança, tal como as suas raízes da beira-rio, aquele Trancão que o encanta e comove.

O Autor lembra que neste livro aborda flagelos presentes no presente, como a violência doméstica ou a pedofilia.

Como escreve, «entre paisagens bucólicas, ambientes domésticos e memórias persistentes, estas três narrativas interrogam os limites da humanidade e convinda o Leitor a reflectir sobre as marcas que o amor deixa nas vidas e nas gerações.»

«Três Novelas (Im)prováveis» prova a importância de se conhecer o Autor. Ler Avelino Bento enriquece.

Auditório da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais

Portalegre, 16 de Maio de 2026

Mário Casa Nova Martins

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