\ A VOZ PORTALEGRENSE: Crónica de Nenhures

segunda-feira, julho 02, 2012

Crónica de Nenhures

Desprezo
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Quando se deu a revolução corporativa do 25 de Abril de 1974, eu tinha dezassete anos. Esta revolução mudou o Regime, mas eu com aquela idade, nado, criado e vivido em Portalegre, nada sabia ou me interessava por política, interessado que era, isso sim, em futebol, vivendo o dia-a-dia do meu querido e glorioso Grupo Desportivo Portalegrense e também do Sport Lisboa e Benfica. Frequentava o cinema, Crisfal e Cine-Parque, comprava livros no Silvino e no José Maria Alves, onde tinha conta aberta, e frequentava as tascas e as cervejarias. Tinha um grupo restrito de Amigos, que principalmente me acompanhavam no Café Alentejano (o tempo do Café Facha é o a da minha meninice, quando acompanhava o meu Pai), e nos deliciosos almoços e lanches nas ditas tascas e cervejarias.
Porém, no Liceu Nacional de Portalegre já havia alunos politizados! Mas que, curiosamente, a quem não ligávamos. Esses, os tais politizados, eram gente ligada à Mocidade Portuguesa, que há muito deixara de ser de frequência obrigatória.
Ora se esses politizados pertenciam à Mocidade Portuguesa é porque se identificavam com o Regime do Marcellismo. Ninguém os obrigava a pertencer àquela organização política do Estado Novo. E, recorde-se que muitos deles foram em visita, com tudo pago pelo Regime, às então Províncias Ultramarinas, em viagens de cariz totalmente político e, claro, de propaganda política.
Se assim se comportavam em 24 de Abril de 1974, no dia seguinte, 25 de Abril de 1974, tornaram-se revolucionários, ditos anti-fascistas.
Essa gente foi da mais extremista durante o PREC, e principalmente no Verão Quente, um curto período do tenebroso Processo Revolucionário Em Curso. Estiveram em tudo o que de mais mau aconteceu naquele período, fazendo parte de partidos políticos da extrema-esquerda.
Em momento algum participei em qualquer actividade política antes da Revolução dos Cravos. Daí nunca ter tido nada a ver com o Estado Novo. Mas na Terceira República, e seguindo o que toda a gente fazia, comecei a ter intervenção política.
Sentindo-me próximo da Democracia Cristã, liguei-me à Juventude Centrista, a organização juvenil do Partido do Centro Democrático e Social.
Que horrendo crime para alguns que considerava Amigos, e para aquela gente extremista!
Rapidamente como que fiquei de quarentena, como que se formou uma espécie de cordão sanitário em torno de mim. Eu era infrequentável! Eu era Fascista!
E não esqueço quando tive que pedir protecção na Polícia de Segurança Pública, no Governo Civil, na campanha eleitoral para as Eleições para a Constituinte, porque eu junto com elementos da JC de Castelo Branco (a JC em Portalegre como que não existia, por força do medo que os seus elementos, que não eu, tinham dos extremistas) andávamos a colar cartazes do CDS. Parece que ainda estou a ver aquela canalha ululando em frente ao edifício do Governo Civil, querendo-nos linchar! Muitos vivem ainda hoje em Portalegre, e nunca mais lhes esqueci os rostos possessos de raiva e ódio. E de impotência!
Hoje estou afastado da política activa, mas mantenho-me fiel à Doutrina Social da Igreja, às Encíclicas dos Papas Sociais, no fundo à ideologia que era a da Democracia Cristã.
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Também hoje se diz que o Facebook é um mundo! E tal é mais do que uma frase feita, mas do que uma constatação é uma verdade.
Por convite do César Azeitona, um dos seus Administradores, entrei para um grupo intitulado «A Voz do Plátano».
Penso que em boa hora o fiz, uma vez que através de já centenas de fotografias está a ser feita uma História de Portalegre.
Todavia, este tipo de acontecimento, que é sempre mais do que meritório, tende muito a que se tente escrever, melhor, reescrever a história, ou a pequena história, através de inverdades, falsas verdades e bajulações, que são sempre serôdias.
Um ex-informador da PIDE nunca pode ser um anti-fascista, um Democrata. Ou pode?
Um bêbado, cujo mérito era a sua vida de excessos, não pode ser elevado á categoria de anti-fascista e à categoria de figura da Cidade. Ou pode?
Foi editada em «A Voz do Plátano» uma fotografia.
Digo que é, entre comas, uma fotografia assassina. É de um acto político durante o Estado Novo, já no seu estertor.
Se fosse possível identificar todos os presentes, e acompanhar os seus percursos políticos no pós-25 de Abril de 1974, de certeza que as surpresas seriam muito grandes. Ou talvez não, já que de certeza naquela altura o espírito democrático e anti-fascista enchia a sala.
Por todo o País, tal como quando da queda da Monarquia, os denominados Adesivos a seguir ao 25 de Abril foram mais do que muitos. E muitos deles ainda hoje escondem as antigas ligações ao Estado Novo através do seu esquerdismo, extremismo e oportunístico anti-fascismo.
Gente dessa tentou linchar-me. Canalha dessa chamava-me Fascista. Conheço-os. E eu desprezo-os!
Mário Casa Nova Martins

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