\ A VOZ PORTALEGRENSE: Mário Silva Freire

quinta-feira, junho 03, 2010

Mário Silva Freire

DEUS, A CIÊNCIA E A CULTURA

A palavra cultura, no sentido lato, designa tudo aquilo com que o homem desenvolve os inúmeros dotes do corpo e do espírito de modo a procurar compreender melhor o universo pelo conhecimento e pelo trabalho; (…) formula, comunica e conserva, nas suas obras, no decurso dos tempos, as grandes experiências espirituais e as aspirações maiores do homem, para que sirvam ao progresso dum grande número e, até, de todo o género humano.”
(Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo)

Por isso, tentar conhecer o Universo é um acto cultural. Extasiamo-nos perante a imensidão das distâncias que estão em jogo. A nossa inteligência dificilmente consegue apreender os movimentos dos astros a velocidades inimagináveis, o nascer e o morrer das galáxias, fonte de um sem número de sois que a limitada inteligência humana mal pode conceber. E não podemos deixar de nos admirar como a Terra, no extremo da Via Láctea, tem sido resguardada das grandes convulsões cósmicas que foram tendo lugar ao longo dos tempos!
É um acto cultural tentar conhecer a Natureza. E quando o fazemos, verificamos quão difícil é compatibilizar o acaso com a harmonia que se vai desvendando ante os nossos olhos. Assim como é difícil explicar a origem e a manutenção da vida através dos inúmeros, complicados e rigorosos fenómenos físicos e químicos que regulam o respirar, alimentar, excretar, nascer, crescer...
A Ciência faz-se através da observação, da experimentação, do pensamento, da discussão. Através dela, tentam-se descobrir os mistérios, os que existem em nós e à nossa volta. Ela procura encontrar a verdade, isto é, a explicação imediata para os fenómenos, em cada época. Ora a verdade em Ptolomeu, de a Terra ser o centro do Universo, opõe-se à verdade de Galileu, de os planetas girarem à volta do Sol. Outras verdades foram variando ao longo dos tempos em relação a outros ramos do saber.
Mas será que a verdade científica se opõe à verdade de Deus, como criador de todo o Universo, da Vida e do Homem?
Ora, as duas verdades situam-se em planos diferentes e tentar misturá-las é querer confundir Ciência com Religião. E esta confusão é recorrente cada vez que há uma grande catástrofe natural; lá vem, então, o velho chavão de que se Deus existisse, não permitiria que acontecessem tais desgraças, como se Deus não tivesse mais que fazer do que ir modificando as leis com que dotou a Natureza à medida das contingências da humanidade!
É certo que a Ciência e a Religião podem colocar questões idênticas, mas as respostas a dar têm que contar com a relatividade da verdade científica e se, de acordo com a religião católica, é de Deus que tudo provém, nunca poderá haver contradição nas respostas dadas.
Mas a Ciência, além do saber e do desenvolvimento pessoal, como actos culturais, proporciona-nos o acesso à tecnologia. A tecnologia é a aplicação do conhecimento científico para conseguir um resultado prático. Foi a soma de muitos resultados práticos que originou a sociedade em que hoje vivemos. É esta sociedade que parece dar resposta a muitos problemas do homem actual. O carregar no botão, seja ele o da televisão, o do telemóvel ou o do computador, dá acesso a um tal número de conhecimentos, experiências e sentimentos que corremos o risco de passarmos a andar atrás do imediato e do acessório. E esquecermos que Deus existe e está presente nas nossas vidas! Pode, até, mediante um endeusamento da Ciência e da tecnologia, prescindir-se da existência do próprio Deus! Não será este esquecimento ou esta dispensabilidade de Deus uma das causas da perda dos valores, de que hoje tanto se fala?
Por outro lado, são os talentos que possuímos que permitiram que ao longo da História aparecessem obras de génio na música, arquitectura, escultura, pintura, literatura e em muitos outros domínios. São estas obras que nos deixam vislumbrar um pouco da magnificência de Deus, para quem crê que o homem foi feito à Sua imagem e semelhança.
Mário Freire

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