\ A VOZ PORTALEGRENSE: Mário Silva Freire

sábado, abril 25, 2009

Mário Silva Freire

Edificio do antigo Magistério Primário de Portalegre
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O 25 de Abril e a formação de
professores do ensino primário
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As Escolas do Magistério Primário foram consideradas pelo poder político dos primeiros tempos da Revolução como um dos alvos prioritários a atingir. E isto porque se pretendia que essas escolas, a partir de então, passariam a ser as formadoras daqueles e daquelas que seriam referências importantes das futuras gerações. Os professores delas saídos, espalhando-se por todo o País, indo até ao mais recôndito e ignoto local, contactando com os pais e as populações, seriam o gérmen de que o País necessitava para poder transformar-se e aderir a uma nova mentalidade.
Por outro lado, Portugal, em 1974, revelava um índice de analfabetismo que o situava na cauda da Europa: cerca de um quarto da população não sabia ler nem escrever, de acordo com as estatísticas mais optimistas. Além disso, as zonas interiores e rurais, com populações mais envelhecidas e com desenvolvimentos económicos, sociais e culturais inferiores ao das zonas litorais e urbanas, apresentavam índices de analfabetismo ainda muito maiores.
Todas estas razões punham a ênfase numa nova formação de professores ao nível do ensino básico que, para além da memorização, pudesse fazer despertar as crianças para a criatividade, a participação, a cidadania. Que lhes revelasse as riquezas mas, também, as debilidades do meio em que viviam e que as preparasse para a vida de modo que um dia elas, como adultos, pudessem ser elementos activos, sem medos, quer na debelação dos males que as afligiam, quer na construção de um País mais desenvolvido.
A partir dessa altura, existia um novo mandato para os professores do ensino primário: o de contribuírem para a transformação da vida dos portugueses. Eles teriam que compreender a sociedade em que se inserissem e, depois, dinamizá-la e conduzi-la no sentido da justiça. Pretendia-se que os professores do ensino primário constituíssem como que um grupo de eleição para implantar os valores e os princípios de uma sociedade com menos desigualdades sociais. Por isso, foi feito um investimento na sua formação inicial, seja nos recursos humanos disponíveis, seja na valorização científica dos conteúdos a incluir nessa mesma formação. Daí, uma modificação dos planos de estudo, do recrutamento de professores e dos processos de avaliação. Os novos programas das Escolas do Magistério Primário tentaram, pois, reflectir esta preocupação pela criança e pela sociedade.
Mas, nada na escola é neutro. Os alunos aprendem coisas que ultrapassam aquilo que lhes é ensinado pela via institucional. E essas aprendizagens têm a ver com múltiplos factores: modos como os alunos se relacionam; modos como os professores se relacionam com os alunos dentro e fora da sala de aula; hierarquias explícitas e implícitas dentro da escola; expectativas explícitas e implícitas em relação aos alunos; relacionamentos dos alunos e professores com as crianças; formas de participação dentro da escola; interacções da escola com o meio envolvente e com a comunidade em geral… São todos estes relacionamentos, expectativas, interacções e vivências, não explicitados nos manuais ou programas, que ajudam a construir conhecimentos, valores e motivações e que adquirem uma importância, por vezes maior do que expressamente está estatuído através dos programas. É o currículo oculto que, fundamentalmente, define uma cultura organizacional e que, numa escola de formação de professores, assume uma importância maior.
Seria, pois, a partir destes dois tipos de currículo, o expresso e o oculto, que iria dar-se forma a uma nova concepção de professor do ensino primário; a ele iria pedir-se o desempenho de um conjunto de papéis, na sua prática profissional, entre os quais:
- conhecer, sob o ponto de vista sociológico, o grupo onde a criança está inserida.
- fazer a ligação do desenvolvimento educativo da criança a uma comunidade de referência; a criança não é alguém que está perdido numa massa mas uma pessoa que está inserida numa comunidade.
- intervir nas condições exteriores, de modo a proporcionar à criança um ambiente adequado, sob o ponto de vista pedagógico; o professor não se limitaria a ser um mero observador de situações desfavoráveis, mas tentaria, no que estivesse ao seu alcance, intervir para encontrar soluções.
- reflectir sobre as condições de vida das crianças, especialmente daquelas que, vivendo em situações precárias, se apresentavam como casos difíceis.
- assumir para com as crianças atitudes positivas de modo a incutir-lhes autoconfiança e esperança num mundo com menos desigualdades.
- e, tendo esses papéis bem presentes, conseguir ser um elemento fortemente potenciador das diferentes aprendizagens propostas nos Programas.

Se muitos dos que se arvoraram em protagonistas daquela época contribuíram para acicatar ódios, gerar desavenças, fomentar medos e confundir liberdade com libertinagem, outros houve que tentaram que a Revolução de Abril pudesse conduzir a um País com um maior desenvolvimento social e económico e onde a liberdade de opinião, o respeito pelos outros e a democracia constituíssem uma realidade. Se tal ainda não aconteceu, talvez uma das causas significativas seja a de não se ter encontrado um rumo para a educação que contenha aqueles princípios que estavam subjacentes na formação que se pretendia para os professores do ensino primário de então.
Mário Freire
(Director da Escola do Magistério Primário de Portalegre
no tempo da Revolução de Abril)

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