\ A VOZ PORTALEGRENSE: Leitura(s) de Férias

terça-feira, agosto 26, 2008

Leitura(s) de Férias

O MARIDO DA CONTORCIONISTA
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Flamínia conseguia morder o próprio tornozelo sem tirar os pés do chão. Especulava-se sobre o que Flamínia seria capaz de fazer no leito nupcial. E invejava-se o Cartão, beneficiário de tantas loucuras presumidas
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Durante anos, o Carlão foi alvo de especulações e inveja. Tinha se casado com uma contorcionista, Flamínia, que nos seus tempos de circo era chamada «A Mulher sem Espinha». Flamínia conseguia morder o próprio tornozelo sem tirar os pés do chão. Especulava-se sobre o que Flamínia seria capaz de fazer no leito nupcial. E invejava-se o Carlão, beneficiário de tantas loucuras presumidas. Logo o Carlão!
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«Logo o Carlão!» foi, durante anos, o bordão de todas as conversas sobre o casal e o que eles fariam na cama. Logo o pacato Carlão, que, na opinião geral dos amigos, tinha o apelo sexual de um rabanete. E as especulações sobre o que a contorcionista faria no seu parceiro sexual ganhavam um tom de espanto maior com a lembrança de que o parceiro era o Carlão, logo o Carlão. Que até se casar com a contorcionista suspeitava-se que fosse virgem. Que até se tomar o assunto preferido do grupo só era conhecido pela sua extrema sovinice. Logo o Carlão!
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Ninguém chegou a pedir ao Carlão que satisfizesse a curiosidade dos amigos e contasse como era a sua vida sexual com Flamínia. Ou, para não esquecer o respeito, dona Flamínia. E, diante do silêncio do Carlão, as especulações se multiplicavam. As possibilidades eram infinitas, a variedade de posições inacreditável. Para quem não recordasse ou não conhecesse o número da «Mulher sem Espinha» no circo, bastava lembrar que ela entrava no picadeiro carregada numa sacola de supermercado. Era tão flexível e dobrável que cabia dentro de uma sacola! E fora vendo-a morder o próprio tornozelo sem tirar os pés do chão que o Carlão decidira casar-se com ela, certamente pensando nas possibilidades e na variedade. Quem diria. Logo o Carlão, um «gourmet» sexual!
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A imaginação dos amigos funcionava:
— Ela pode botar uma perna por aqui, a outra por aqui, segurar aqui, ecom a língua...
— Ele pode dobrar ela assim, puxar uma perna para cá e...
Mas um dia o Carlão apareceu, sozinho e desconsolado, e sentou-se com o grupo. Tinha recém-chegado de viagem. Viajava muito. Tinha uma boa renda, mas só voava na classe económica e quando havia promoção. E um dos três amigos não se conteve:
— Carlão, não leva a mal. Mas você sabe que a gente vive especulando sobre a vida sexual, sua e da dona Flamínia. Nós...
— Eu não tenho vida sexual. A Flamínia tem.
Abriu-se uma clareira de espanto.
— O quê?
— Ela faz tudo sozinha. Não precisa de ninguém.
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E já que estava disposto a contar tudo, Carlão contou que escolhera a contorcionista porque precisava de uma companheira portátil. Quando viajavam, ela ia dobrada dentro de uma mala, e ainda sobrava espaço para acondicioná-la bem e protegê-la do frio do compartimento das bagagens dos aviões. Depois só precisavam cuidar para os hotéis não descobrirem que eram dois num quarto simples.
E porque é que ele estava tão desconsolado? Onde estava dona Flamínia?
— Em Singapura.
— Como?
— A bagagem extraviou.
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Quer dizer: as coisas nem sempre são o que parecem.
LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO
32 actual 09 Agosto 2008 Expresso

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