\ A VOZ PORTALEGRENSE: Maio 2015

quarta-feira, maio 27, 2015

Jaime Nogueira Pinto - O Islão e o Ocidente

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O sentido último da história não deriva apenas
da mera consideração do passado.
O ópio dos intelectuais, Raymond Aron

O livro contém duas partes distintas. A primeira é uma cronologia histórica das relações entre o ocidente e o islão, alicerçada em bibliografia clássica. A segunda tem por base uma bibliografia recente e nela é feita a análise interpretativa dos factos. Este dualismo torna «O Islão e o Ocidente – A Grande Discórdia» numa leitura com forma e conteúdo.
O Autor, Jaime Nogueira Pinto, foi após o golpe pretoriano de abril de 1974 um “derrotado da história” que soube ver e interpretar os sinais dos tempos, sendo hoje, a par de António Marques Bessa, referência maior da Direita intelectual portuguesa.
A Direita pouco tem produzido em termos de Pensamento nas últimas quatro décadas nas áreas da Filosofia e do Direito, com a excepção nas Ciências Sociais e estas a nível académico, ao ponto de ser a Esquerda a ´pensar´ a Direita, com as graves consequências que tal facto acarreta.
Todavia, em termos de História há trabalhos de grande valor e rigor. É nesta categoria que se insere esta última obra de Nogueira Pinto.
Para um conhecedor da História do Médio-Oriente, a primeira parte, que vai até ao capítulo IX, é um resumo da história dos tempos e das relações com o Ocidente. Não são esquecidos os principais momentos e acontecimentos, e fica-se com a noção real de antecedentes e consequentes.
Diga-se que a paixão do Autor pelo cinema acompanha a obra, ao trazer filmes como ajuda à compreensão e interpretação de épocas e factos. Poder-se-á questionar o rigor histórico desses filmes, algo que JNP não deixa, contudo, de em certas alturas referir.
A segunda parte tem o cunho pessoal do A., porque interpreta o que hoje se passa no Médio-Oriente. A visão de Jaime Nogueira Pinto do conflito do e no Médio-Oriente, é uma visão dir-se-á americanófila, pese embora as críticas que também faz aos EUA na forma como tem actuado e nas alianças que vai fazendo.
Hoje a Direita portuguesa não tem grandes referências em termos de geopolítica, quiçá, pela inexistência de um Pensamento fundamentado. Ao ser ‘pensada’ pela Esquerda, seja do ICS ou de outras áreas académicas ou não, como que a torna ´presa fácil’ de maniqueísmos, incapaz de pensar por si própria.
A análise que JNP faz da problemática que envolve a “Guerra das Civilizações” é um excelente caminho, princípio para futuros debates na área da História Contemporânea.
Os tempos são tempos que os tempos provarão serem tempos de mudança de paradigma, paradigmáticos.
 «Segundo algumas tradições apocalípticas, é em Megiddo, hoje parte de Israel, que se encontra o quartel-general do Anticristo. Toda a tradição esotérica judaico-cristã fala destes misteriosos lugares, perdidos e achados nos mapas da Terra Santa.» [cap. XI, pg. 237, ls. 26 a 29.]
Que a Profecia se não concretize!
«O Islão e o Ocidente – A Grande Discórdia» fica para a história como um livro de consulta, cuja actualidade se manterá para além dos acontecimentos que estuda e analisa. É um contributo importante para o ressurgimento de um Pensamento de Direita adaptado ao tempo presente.
Jaime Nogueira Pinto continua espectador atento da realidade que o cerca, e espectador comprometido com a sociedade a que pertence, na qual ele próprio é figura de referência.
Mário Casa Nova Martins
O ataque ao semanário Charlie Hebdo, em 7 de Janeiro, moveu e comoveu mais os europeus do que as mulheres escravizadas ou massacradas do Boko Haram na Nigéria, do que os egípcios coptas decapitados ritualmente, do que os cristãos crucificados às centenas no Iraque e na Síria. De onde vem toda esta desalmada violência, esta orgia de sangue e exibicionismo, a lembrar cenas da Antiguidade, limites da perversidade humana? Quem são os seus autores? Em que acreditam, o que querem e a que reagem? Alguém os comanda? De que fundas histórias e raízes vêm tão complexas divisões e seitas? Onde está a realidade e onde está o mito? Onde está a verdade e onde está o cliché?
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Ficha detalhada: O Islão e o Ocidente
Autor: Jaime Nogueira Pinto
Editor: Dom Quixote
Data de lançamento: Maio de 2015
ISBN: 9789722057578
EAN: 978-9722057578
Nº Páginas: 368
Encadernação: Capa mole
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terça-feira, maio 19, 2015

Desabafos, 2014/2015 - XVIII

Diz o ditado popular que «o mal de uns é o bem de outros». A verdade que contém nem sempre é linear, que o diga o que se passa actualmente entre a Grécia e os seus credores.
O ‘mal’ da Grécia nunca será o ‘bem’ quer dos credores, quer, principalmente da Europa, seja a que pertence à União Europeia, seja a outra.
A culpa do que hoje se passa na Grécia é dos próprios Gregos, que ignoraram a ‘história da cigarra e da formiga’. E não bastando isso, ao verem-se à beira do precipício, em vez de pedirem ajuda à ‘formiga’, aliam-se à ‘cigarra’.
Quando é sugerido ao governo grego a realização de uma consulta popular sobre a permanência, ou não, da Grécia no Euro, é o maior ‘presente envenenado’ que este país poderia receber. E ele foi feito pela Alemanha.
O que a princípio parecia uma novela de tipo mexicano, está hoje transformado num drama para a Grécia e por arrastamento para a Zona Euro. Se a Grécia sair do Euro, nada ficará a montante e a jusante, como dantes. As ondas de choque chegarão a todos os países, e os mais frágeis económica e financeiramente como Portugal, serão os mais atingidos.
Começa a ser tempo de a crise grega ter uma conclusão. Adiar não é solução, e com o passar do tempo, mais irá sofrer o povo grego. Mas isso parece não preocupar o governo de Atenas, preocupado que está em mediatizar a situação esperando que a mesma se resolva a seu contento.
Puro engano, como se alguma vez a demagogia e consequentemente a irresponsabilidade vencessem a batalha final!
A Grécia tem que rever o esquema de pensões e reformas, tem que alterar a lei laboral, tem que privatizar activos do Estado, e tem que controlar o défice orçamental.
Todos estes pontos acima enunciados, teve que Portugal intervencionar, e o facto é que conseguiu debelar a situação grave em que tinha mergulhado, a terceira desde o tempo da I República, e as três, todas nas últimas quatro décadas.
O governo grego, com uma retórica moldada pelo radicalismo de esquerda, recusa qualquer alteração do sistema, querendo a todo o custo iludir credores e instituições europeias, às quais pertence e perante as quais tem direitos, mas também tem deveres!
Será, eufemisticamente, um ‘verão quente’, aquele que a Grécia terá neste 2015.
in, Rádio Portalegre, Desabafos, 18/05/2015
Mário Casa Nova Martins

quinta-feira, maio 14, 2015

«Save the Cristians.»

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Nos dias de hoje, nesta Europa descristianizada, laica, na qual parece ter-se voltado ao tempo em que os Cristão terão que viver em Catacumbas, há tempo para tudo menos para se defender, em voz alta, os Cristãos vítimas de genocídio em muitas partes do Mundo.
E o exemplo desta não-defesa começa no Vaticano, onde a realpolitik é mais importante que a vida dos Cristãos, tornados Mártires.
É mais importante para o Vaticano ‘comungar’ com ditadores comunistas e ateus, como o caso de Cuba e do Comunismo cubano, do que ‘sujar os pés’ no sangue dos Cristão assassinados!
O Papa Jesuíta, o Papa Negro, convive com o Anti-Cristo paredes-meias.
E a Igreja Católica sofre, sem que a Hierarquia a queira defender!
Mário Casa Nova Martins

terça-feira, maio 12, 2015

O Diabo

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5 de maio de 2015, Semanário O Diabo, página 23
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sexta-feira, maio 08, 2015

Desabafos, 2014/2015 - XVII

O Governo concluiu a reforma do sector das águas, como objectivo essencial para a coesão territorial e uma medida de combate ao despovoamento, através da harmonização das tarifas entre o litoral e o interior, os primeiros com um aumento das tarifas e os segundos com uma redução das mesmas.
Com esta reforma vai-se assistir à agregação dos sistemas municipais de água, isto é, de 19 empresas do grupo «Águas de Portugal» passa para 5 sistemas, que serão «Águas do Norte», «Águas do Centro Litoral», «Águas de Lisboa e Vale do Tejo e EPAL», «Águas Públicas do Alentejo» e «Águas do Algarve».
Esta reforma permite que haja ‘cortes’ no grupo «Águas de Portugal», permitindo uma poupança total de 2700 milhões de euros, fruto da redução de dois terços dos órgãos sociais, passando o número de administradores de 70 para 20, e o número de directores de 300 para 150.
Todavia, uma dúvida permanece:
_ Será que este novo modelo vai ser mesmo implementado?
Sabe-se que a «Águas de Portugal» é um alforge de lugares de nomeação política a nível de administração e quadros intermédios. Também se sabe que existem mordomias que elevam os custos fixos em valores exorbitantes. E tudo isto pago com o dinheiro dos consumidores, cujo contrato com a empresa é de caris leonino.
Com este enunciado, parece difícil que esta reforma seja levada por diante.
Mas a verdade é que a larga maioria das empresas que compõem a «Águas de Portugal» estão em falência técnica e financeira, fruto da má gestão, pelo despesismo a que foram sujeitas.
A água potável, de que acima se fala, é um bem cada vez mais escasso no planeta Terra, a sua gestão gera guerras em certas partes do globo, e a tendência é para que estas aumentem.
Portugal, país rico em água potável, não tem uma política clara quanto a este importantíssimo recurso natural. O seu esbanjamento, é paralelo ao seu fraco armazenamento, dadas as potencialidades que existem.
É, por isso, de lembrar a importância que tem «o maior lago artificial da Europa», a Barragem do Alqueva, um projecto que levado ao seu limite é das maiores mais-valias que Portugal tem no presente!
in, Rádio Portalegre, Desabafos, 04/05/2015
Mário Casa Nova Martins

quinta-feira, maio 07, 2015

O Mito dos Seis Milhões

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O Mito dos Seis Milhões
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«Portugal levou seis milhões de escravos para o Brasil» é o título do artigo inserido nas páginas centrais do “Primeiro Caderno” do semanário “Expresso” de sexta-feira 1 de maio de 2015.
É dito em Portugal que são seis milhões o número de adeptos do Sport Lisboa e Benfica.
Voltando ao artigo do semanário, dito ‘de referência’, o subtítulo afirma que 12 milhões de escravos foram transportados para a América. Então, aos seis milhões transportados por Portugal, juntam-se outros seis milhões agora não transportados por Portugal.
Há outros exemplos, fora de Portugal, que falam do número 6.000.000, como o exemplo que é citado no livro de Don Heddesheimer, «The First Holocaust», segundo o qual esse era o número de judeus que durante a Primeira Guerra Mundial, 1914-1918, na Europa sofriam todos os males, utilizando-se, então, palavras como «extermínio» e «holocausto» para descrever essa mesma situação.
Também, com base na estimativa de que o exército do Rei David tinha um milhão, quinhentos e setenta mil soldados, a população da Palestina, naquela época, seria cerca de seis milhões de pessoas.
Voltando a jornais portugueses, a 27 de março passado, o “Diário de Notícias” trazia a notícia titulada «Seis milhões de habitantes obrigados a recolher obrigatório de três dias», referindo que “Presidente da Serra Leoa diz que a medida é "uma oportunidade para as comunidades participarem diretamente na luta para atingir zero casos [de Ébola] e de pensarem e orarem para a erradicação" da doença do país.
E no jornal “Record” de 30 de abril passado, o título da notícia era elucidativo, «António Salvador: «Vamos ter seis milhões a torcer por nós»». É que, dizia o Salvador, "Se o Sporting diz que tem três milhões de adeptos, nós vamos ter seis milhões na final da Taça de Portugal".
Muitos outros exemplos, uns mais antigos, outros mais recentes, poderiam ser apresentados acerca do Mito dos Seis Milhões.
Mito é a projecção reactiva no espaço social da linguagem e de outras formas sensíveis de visões fantásticas, de desejos, de terrores, de explicações do universo e da vida, a um primeiro nível, directo e imediato, de um modo de apreensão do real e de religião com o mesmo real sem a mediação rigorosamente consciente da filosofia, da ciência ou da teologia. (1)
Para Rudolf Karl Bultmann, “entende-se por mito aquilo que por tal se entende na história das religiões”. (2)
Existe uma relação entre Mito e Religião, e hoje em dia, ‘Seis Milhões’ transformou-se numa Religião, ultrapassado a etapa de número cabalístico.
Mário Casa Nova Martins
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(1)   M. Antunes, Biblos vol 3, Verbete 'Mito', pág. 901
(2)   M. Antunes, Biblos vol 3, Verbete 'Mito', pág. 900

quarta-feira, maio 06, 2015

Asterix & Obelix

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A Filosofia 'invadindo' a Nona Arte! Depois de «Tintin au pays des philosophes», e do "special Bande Dessinée «La vie a-t-elle un sains»", mais uma obra para ler e guardar.
Mário Casa Nova Martins

terça-feira, maio 05, 2015

O museu imaginário de Tintin

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Uma visita frustrante. Tirando alguns, poucos, originais, pouco mais a ver.
E com a agravante do Catálogo da exposição estar esgotado.

Mário Casa Nova Martins

segunda-feira, maio 04, 2015

A cantora careca

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Inesquecível!
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Única edição, conhecida, em português
Colecção «TEATRO NO BOLSO» - 8, s/d, Editora CONTRAPONTO
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Mário Casa Nova Martins

sexta-feira, maio 01, 2015

Fernando Correia Pina

Em documento da Biblioteca Pública de Évora anteriormente apresentado (*) registava-se a entrega do corpo de D. Sebastião, trazido de Alcácer-Quibir por intercessão conjunta de Filipe II de Espanha e do cardeal D. Henrique, às autoridades portuguesas de Ceuta, cidade onde viria a ter a sua segunda sepultura na capela-mor do mosteiro da Trindade. Durante quatro anos aí repousaram os despojos reais até que, em 1582, por ordem do mesmo Filipe II, então já primeiro em Portugal, os restos mortais do malogrado soberano foram daí trazidos para Faro de onde seguiram para a sua última morada, no mosteiro dos Jerónimos.
No documento que a seguir se transcreve, extraído de volume manuscrito existente na coleção de reservados da Biblioteca Nacional de Portugal, sob a cota ALC. 308, disponível online em http://purl.pt/26880/3/#/0 são descritas a passagem do préstito pela cidade e as cerimónias fúnebres que aí tiveram lugar nos dias 9 e 10 de dezembro de 1582, registadas pela pena de um dos intervenientes diretos, o cónego Jerónimo de Almeida.
Fernando Correia Pina

Entrada do corpo del Rei D. Sebastião

na cidade de Évora no ano de 1582 e
do que nisso se fez pelo Prelado e Cabido

Quinta-feira à tarde nove dias do mês de Dezembro de 1582 entrou nesta cidade de Évora funeralmente e com grande piedade de todos o corpo que se dizia ser de el rei de Portugal D. Sebastião primeiro deste nome que santa glória tem o qual se perdeu em África com todo seu exército português véspera de Nossa Senhora das neves 5 dias de Agosto de 1578, o qual corpo vinha do Reino do Algarve trazido da cidade de Faro na qual está a sé daquele bispado e aonde o haviam levado da cidade de Ceuta por ordem e mandado de el rei Filipe nosso senhor, tio do dito rei D. Sebastião a quem sucedeu neste reino de Portugal e todos seus senhorios o qual o mandou recolher e trazer do campo de Alcácer Quibir em África aonde foi a batalha e força da guerra em que se perdeu à dita cidade de Ceuta aonde estava depositado na sé dela, com a pompa e veneração devida até que o bispo de Ceuta que então era D. Manuel Seabra, com mais gente e companhia ordenada por Sua Majestade partiu com ele por mar até à cidade de Faro do reino do Algarve aonde desembarcou e ali por mandado e regimento de sua majestade se recolheu na sé de Faro do dito bispado do Algarve pelo bispo D. Afonso de Castelo Branco que então era e com o dito bispo de Ceuta que o vinha acompanhando com procissão solene do seu cabido e clerezia e mais gente da cidade.
Na dita sé de faro esteve até que sua majestade el rei Filipe que então estava em Lisboa com sua corte mandou recado para o trazerem dali e enviou fidalgos de sua casa e havia alguns que haviam sido privados e oficiais da casa do dito rei D. Sebastião para virem acompanhando seu corpo da dita cidade de Faro até Lisboa aonde em o mosteiro de Belém com os corpos dos mais reis passados príncipes e vassalos havia de ter sua sepultura.
Partiu o corpo de dito rei D. Sebastião da dita cidade de Faro do reino do Algarve por terra direito à cidade de Beja acompanhado dos fidalgos como dito é e vinha com ele o bispo do Algarve que trazia consigo o deão da sua sé D. Diogo Lopes e o arcediago dela o doutor Matias da Fonseca e o chantre e um cónego e o dito bispo de Ceuta era o que trazia o asumpo do corpo de el rei como o primeiro entregue dele.
Vinha este corpo metido em uma tumba pequena, cerrada e coberta toda por fora de tela de ouro com sua cravação miúda dourada coberta com um pano grande da mesma tela e com uma cruz pelo meio que rodeava o pano todo doutra tela mais rica de alcachofras e torçais de ouro ao redor.
Vinha esta tumba pelo caminho metida em uma caixa de andas em duas mulas formosas guarnecidas do mesmo jaez da tumba e ao redor delas doze tochas acesas as quais traziam doze moços da câmara de el rei, e uma cruz dourada grande alevantada diante das ossadas? A qual trazia um capelão de el rei e outros dois capelães com dois círios pequenos metidos em cada uma sua lanterna de prata grandes de uma parte e outra da cruz, a cavalo, e vinham oito fidalgos da casa de el rei acompanhando este corpo e ato. Vinham trinta capelães de sua majestade e todo [o] serviço de sua capela assim de ornamentos como de prata e muitos moços de capela e reposteiros que serviam no que convinha.
Com este acompanhamento vinha o licenciado Belchior de Amaral corregedor da corte com vara e alçada e trazia meirinho consigo e almotacé-mor de caminho para fazer prestes em todo lugar o necessário.
Chegados que foram a esta cidade de Évora ao cruzeiro grande da porta de São Brás extramuros no rossio dela no sobredito dia de 9 de Dezembro logo dali mandaram recado ao senhor arcebispo deste arcebispado de Évora D. Teotónio de Bragança tio do duque D. João de Bragança que ora é que estavam esperando aí para sua senhoria o haver de ir receber em pontifical com o seu cabido todo e clerezia e religiões da cidade como sua majestade lhe tinha mandado dar ordem e regimento ao dito arcebispo em Lisboa onde ao tal tempo andava em negócio com sua majestade o qual o mandou vir a esta cidade de Évora a esperar este corpo de el rei D. Sebastião para lhe fazer o recebimento na cidade.
Tangia-se a véspera na sé quando este recado veio da uma hora para as duas e logo sua senhoria mandou que se destangesse e recado a todos os cónegos que fossem presentes na sé para que logo se começasse a dizer a véspera e completa, e se disseram entoadas e acabadas fossem logo em procissão à porta da cidade e assim se fez com toda brevidade.
Acabada a completa antes das três horas sendo presente na sé todo o cabido e beneficiados dela com toda a clerezia e as religiões da cidade que puderam ir o senhor arcebispo se revestiu de amito alva estola cordão cruz peitoral capa de tela de ouro e mitra branca simples dentro na capela-mor da sé e daí com mitra na cabeça assistindolhe de uma parte com sobrepelizes sem capa Simão Mascarenhas, deão e cónego na mesma sé e da outra o licenciado Diogo Nunes Figueira tesoureiro-mor na dita sé começou a procissão a proceder e andar pela Rua da Selaria abaixo até à porta da cidade do Rossio de São Brás aonde estava o corpo de el-rei, e foram nela as confrarias e irmandades e religiões seguintes
Diante de todos no princípio da procissão ia a irmandade e confraria de Nossa Senhora dos Prazeres situada na igreja de Santo Antão da praça de Évora com todos os irmãos dela e cada um com sua vela branca acesa e a Irmandade da Misericórdia logo após eles com suas velas nas mãos, e logo a religião e ordem de S. Francisco e a de S. Domingos, e no couce junto da clerezia os padres de S. João da ordem de Santo Elói e logo todas as mais cruzes das freguesias da cidade com todos os clérigos priores e beneficiados dela.
Chegados que foram todos à Porta do Rossio, o senhor arcebispo assim como ia com seu cabido se foi pôr à porta da cidade da parte de fora do campo e aí estiveram esperando um pouco enquanto o corpo de el-rei se tirou das andas em que vinha nas azêmolas que até então o tiveram sempre nelas e deposto delas consertaram a tumba que vinha.
E logo os oito fidalgos que vinham com ele a tomaram nos braços pelos varais postiços que nelas se punham e por toalhas em que pegavam no meio e começaram a andar para dentro da cidade e à porta dela ficando a tumba no couce da procissão em meio do cabido e da capela de el-rei e seis tochas acesas de cada parte a que as traziam moços da câmara em corpo com suas espadas na cinta com a cruz da capela de el-rei levantada a qual trazia um capelão seu e dois outros com círios postos em acender nas [lanternas] cada um de sua parte da cruz começaram logo dois capelães de el-rei de boas vozes acantar Subvenit Sancti Dei, Occurrite Angeli com o salmo de Miserere Mei Deus verso e verso como se costuma nos enterramentos e respondia o cabido e a clerezia toda e as religiões.
O senhor arcebispo com seus assistentes tomou o seu lugar detrás da tumba e entre ela e ele ia a sua cruz que levava o tesoureiro da sua capela e atrás dele vinham os dois bispos o de Ceuta à sua parte direita e o do Algarve à esquerda com suas lobas curtas pretas sobre os roxetes como vinham pelo caminho e logo os governadores todos da cidade de Évora e câmara dela e justiças com capuzes de dó compridos e suas varas vermelhas na mão de cada um: juiz de fora vereadores procurador tesoureiro escrivão da câmara e os mais segundo seu costume e ordem.
Da outra parte da cidade vinham todos os fidalgos que havia nela e mais pessoas nobres que foram a este acompanhamento.
Nesta entrada e procissão todos os capelães de el-rei estiveram à mão direita assim por hóspedes, como por costume em que esta sé e cabido dela está de ir um ano nas procissões gerais ou votivas em que sua majestade for estando nesta cidade e a sua capela uma vez à mão direita e outra vez à parte esquerda e porque também havia lembrança no cabido que a derradeira procissão que se fez nesta cidade em que foi o mesmo rei D. Sebastião o cabido fora à esquerda.
A cruz da sé foi igual com a cruz da capela de el-rei e teve nisto igualdade o lugar da parte esquerda como o cabido.
Veio a procissão assim procedendo e andando pelas mesmas ruas do Paço Praça e da Selaria por onde fora até à sé e os fidalgos que levavam a tumba muitas vezes descansavam com ela porque cansava bem e a punham em um banquinho que dois reposteiros de el-rei traziam que servia de aquilo somente coberto com um pano de veludo carmesim.
Chegados todos à sé a tumba do corpo de el-rei se pôs assim como vinha em um faldistório alto que já estava prestes no meio da capela maior pegado com os degraus do altar maior cercada das tochas acesas e logo a cobriram com um pano grande de brocado que cobria todo o faldistório e tumba.
Depois disto feito um capelão de el-rei veio no meio da entrada da capela-mor começou o responso Memento Mei Deus cantado o qual disse muito bem, e acabado o senhor arcebispo revestido como vinha Pater Noster botando água benta sobre a tumba e houve incenso e incensou a tumba três vezes primeiro ao pé dela e depois toda à roda e disse a oração Inclina Domine Aurem Tuam e com ela acabou o dito requiesquat in pace se foi despir dos ornamentos e cada um se foi para casa.
Para os senhores dois bispos que vinham mandou o senhor arcebispo pôr um estrado e cortina nas costas dele armadas de grades de altar-mor no primeiro tabuleiro deles à parte da epístola com duas cadeiras grandes iguais juntas e ali se sentaram os bispos.
Quando a tumba do corpo de el-rei chegou à sé estava na mesma capela maior outra tumba pequena forrada toda de veludo roxo com cravação dourada com os ossos ou terra deles dos infantes que estavam enterrados em Nossa Senhora do Espinheiro que diziam ser duas filhas de el-rei D. Manuel e dois filhos de el-rei D. João o 3º todos meninos, e um destes filhos de el-rei D. João era já príncipe os quais sua majestade mandou que se trouxessem à sé para depois da vinda do corpo de el-rei juntamente se meterem na sua tumba e assim irem todos para o lugar de suas sepulturas a Belém.
Esta tumba com os ossos dos ditos infantes com a mesma guarnição de veludo e pano grande que a cobria se havia trazido ali ao outro dia em umas andas de el-rei e o senhor arcebispo por ordem que sua majestade lhe tinha dado foi ao mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro estar ao abrir das sepulturas e tirar dos ossos e com muita clerezia da cidade e com o prior e muitos padres do dito mosteiro os vieram acompanhar até à sé.
Chegados aos degraus do tabuleiro da sé da porta principal dela se tirou a tumba das andas e o cabido que estava já em procissão esperando ali os acompanhou até à capela maior levando-se a tumba pelas dignidades e cónegos mais antigos à capela maior onde se pôs em um faldistório alto que para isso ao meio dela estava posto coberto todo de veludo preto com dez tochas ardendo cinco de cada parte.
O senhor arcebispo lhe disse uma oração como está no batistério que é dos meninos pequenos defuntos assim como vinha sem tomar ornamento algum.
Ao dia seguinte que foi sexta-feira X dias de Dezembro depois de ditas as horas no coro até à noa por ser advento ao tempo da missa do dia se disse missa de requiem pela alma de el-rei que se tinha cantada muito solene oficiada pelos cantores da sé à qual esteve o senhor arcebispo e cabido e bispos e muita gente da cidade a qual disse por ordem do cabido o cónego Jerónimo de Almeida e dois beneficiados da sé à epístola e evangelho e no fim houve responso e oração o qual responso disse D. Fernando Martins Mascarenhas cónego da dita sé bispo que era e digníssimo do bispado e reino do Algarve.
Ao sábado seguinte pela manhã XI do dito mês depois das oito horas dadas e dita a prima no coro se começou outra missa cantada solene que também disse cantada o mesmo cónego e oficiada pelos cantores da sé, e dita ela ao responso Libera Me Domine o qual se disse a vozes por quatro cantores da sé, o senhor arcebispo revestido com capa e mitra depois de deitar água benta e de incensar a tumba disse a oração e estando já as religiões e clerezia todos juntos na sé e em ordem de procissão com o cabido juntamente, se tornou a levar a tumba com o corpo de el-rei pela mesma ordem com que veio o dia de antes pelos mesmos fidalgos que o trouxeram e foram assim até à porta da Rua de Alconchel que é o caminho direito para Lisboa, e o chantre da sé com outro beneficiado que também o ajudava iam cantando ambos os versos do salmo Miserere Mei Deus, com o Subvenit Sancti Dei como se fez quando se trouxe à sé e neste acompanhamento e procissão teve o cabido a mão direita e os capelães de el Rei a esquerda e o mesmo teve a cruz da sé com a de el-rei.
Chegados à Porta de Alconchel, estavam as azêmolas das andas com que havia de ir a tumba preste e logo ali sem haver responso nem oração alguma pelo prelado que ia revestido a meteram nelas os bispos e os fidalgos e capelães de el-rei que com ela vinham se puseram a cavalo e assim os que traziam as tochas acesas e começaram a caminhar com sua cruz diante e o senhor arcebispo se recolheu em uma casa que está entre as portas da cidade e ali se despiu dos ornamentos que levava depois se foi para casa e todos os mais que na procissão foram fizeram o mesmo.
Havia 13 anos e um mês e meio pouca mais ou menos que este mesmo rei D. Sebastião que Deus tem havia entrado por esta mesma porta da cidade a primeira vez que nela foi recebido com bem diferente recebimento de alegria e prazer de todo seu povo (et sic transit gloria mundi).
Eu Jerónimo de Almeida (desmerecido cónego) meio prebendado na dita sé e que muitos anos a rreo? Fui secretário da mesa dos senhores do cabido dela a todas estas coisas fui presente e vi passar e as escrevi direitamente só para minha lembrança e para que quem o lesse folgasse de saber o passado e em tudo louvasse ao Senhor por todas suas obras.

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