\ A VOZ PORTALEGRENSE: Luís Filipe Meira

quarta-feira, abril 09, 2014

Luís Filipe Meira

Dead Combo no CAEP
Lisboémia séc. 21

Há poucos dias um fotógrafo de Portalegre dizia-me, a propósito da diversidade dos momentos que mais gostava de fotografar, que gostava do mercado, do bulício das pessoas ao sábado de manhã, da mistura de cheiros, de cores e de gentes, e que só tinha pena que a máquina fotográfica não captasse os cheiros…
Na noite de sábado passado este pensamento assaltou-me por diversas vezes durante o concerto dos Dead Combo no CAE, já que a peculiaridade da música de Pedro Gonçalves e Tó Trips, pejada de imagens sonoras, tem uma forte componente cinemática que nos convida a dar largas à imaginação, faltando, poderia dize-lo, apenas os cheiros para completar um quadro sobre histórias manhosas de uma Lisboa, multicultural e boémia que vai sobrevivendo no limiar da transgressão.
Passaram dez anos sobre o momento em que Tó Trips e Pedro Gonçalves se encontraram fortuitamente num concerto de Howe Gelb. Como nenhum tinha carro regressaram a pé ao Bairro Alto, conversando e pensando que talvez valesse a pena, juntar os fracassos, as desilusões e os desencantos em que ambos andavam mergulhados para darem força a um projeto em que o céu seria o limite.
Foi o princípio de qualquer coisa que, a partir de Lisboa, foi crescendo paulatinamente entre histórias de faca e alguidar, de heróis e vilões, alguns reais, outros de banda desenhada, embaladas em sons do mundo. Qualquer coisa que se transformou num projeto de bases sólidas que chegou a “A Bunch of Meninos”, álbum editado há pouco mais de um mês que entrou diretamente para o primeiro lugar do top português de discos mais vendidos, bem como para o número 1 do iTunes e do Meo Music.
“A Bunch of Meninos” foi a base do concerto que os Dead Combo trouxeram a Portalegre no último sábado. A sala estava praticamente lotada por um público entusiástico e vibrante. No palco, uma espécie de altar iluminado com um imponente ramo de rosas no meio e rodeado por uma inaudita quantidade de violas, tudo enquadrado por uma tela para projeção de pequenos filmes ladeada por dois painéis gigantes com fotografias e quadros antigos. O cenário era fascinante e aumentava de alguma forma as expetativas e a curiosidade de ver ao vivo as músicas do novo álbum dos Dead Combo, que pela 1ª vez entravam diretamente para o top nacional de vendas.
O concerto começou tranquilo com “ Povo que Cais Descalço” e “ Waiting For Nick at Rick´s Café” - esta última numa clara alusão à tentativa frustrada de ter Nick Cave no disco a ler um poema de Pessoa - passando a um registo mais acelerado com a entrada no universo adolescente de “Miudas e Motas”; e no imaginário cinéfilo em “Mr. Eastwood”; seguindo as homenagens a Tom Waits, Edward Snowden, ao mítico Pacheco - guitarrista de Hermínia Silva - e à “Dona Emília”, senhora da limpeza da Galeria ZDB. Em Cachupa Man sentimos o perfume de África; em Rumbero provamos o rum manhoso que os turistas bebem na Brasileira; em Lusitânia Playboys assistimos à luta entre dois músicos de jazz e uns marinheiros no velho Cais do Sodré e em B.Leza houve uma tentativa, mais ou menos bem conseguida, de aproximar a morna ao fado. O tempo ia passando, mas ainda houve tempo para evocar Amália em “Esse Olhar que Era Só Teu” e homenagear a família, num recatado momento acústico em “Zoe Llorando” e “Welcome Simone”. Como sequência final tivemos três momentos poderosos com a recuperação de, “Eléctrica Cadente”, um dos primeiros temas da banda; uma aventura meio manhosa com mexicanos e mescal em “Dos Rios”; e o tema que dá nome ao álbum “A Bunch of Meninos”, título inspirado num governo holandês de 2008, mas que se pode perfeitamente aplicar ao governo português de 2014.
O primeiro encore evocou a desaparecida Feira Popular e os condenados carrinhos de choque em “Malibu Fair” e o grand finale chegou com “Lisboa Mulata”, o tema título do álbum anterior.
Foi um grande, grande concerto. A música dos Dead Combo está enraizada numa Lisboa boémia mas encontra-se em movimento permanente e em atualização constante. Tó Trips diz que qualquer coisa cabe na música da banda, “bebem uns shots no porto e depois arrancam para outro lado”. Se “Lisboa Mulata” cruzava os sons de uma Lisboa cosmopolita que, cada vez mais, recebe e mistura tradições, raças e credos num caldeirão global de grande densidade e riqueza cultural, “A Bunch of Meninos” é mais contido, mais íntimo e acústico tendo no entanto um lado bastante frenético e é neste compromisso entre o som das ruas dos bairros populares frequentadas por lisboetas malandros e o som dos quartos de pensões baratas que albergam emigrantes chegados de toda a parte, que a música dos Dead Combo se vai modelando.
O mês de Abril começou em grande para os melómanos de Portalegre e tudo à volta. Se no sábado tivemos os magníficos Dead Combo, que entraram para o 1º lugar do top de vendas discográficas e têm esgotado as salas por onde têm passado, amanhã, 5ª feira, é dia para The Legendary Tigerman apresentar no CAE o álbum, True, o novo 1º lugar do top de vendas nacional. Tigerman acabou de chegar de uma bem sucedida digressão que o levou a França, Suíça e Inglaterra e desde que chegou a Portugal tem também vindo a esgotar as salas por onde passa
Até lá.

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