\ A VOZ PORTALEGRENSE: Luís Filipe Meira

quarta-feira, abril 24, 2013

Luís Filipe Meira

Custódio Castelo no CAEP
 
Uma Noite bem Passada
 
Custódio Castelo é um homem de múltiplos talentos, peculiaridades várias e currículo invejável. Castelo domina a guitarra portuguesa como poucos e movimenta-se em diversas vertentes; solista, acompanhante e professor, pois leciona o 1º Curso Superior de Guitarra Portuguesa na ESART de Castelo Branco.
Começou a tocar viola aos 13 anos e a fazer o habitual percurso de grupos de baile e bandas de garagem. Mas o som encantatório da guitarra portuguesa que ia ouvindo nos discos de Amália depressa lhe prendeu a atenção e seria por cima desses mesmos discos que aprenderia a tocá-la. Mas a evolução seria de tal forma rápida que acabaria, mesmo sem fazer o tirocínio pelas casas de fado, por acompanhar a própria Amália, mas também Fernando Maurício e Manuel de Almeida, sendo ainda requisitado por estrelas da nova geração como Ana Moura, Mariza, Mafalda Arnaulth ou Camané. Curiosamente, o que também é demonstrativo da sua versatilidade como músico, empresta regularmente a sua guitarra, ao vivo e em disco, a duas “não fadistas”, Cristina Branco e Mísia. Como solista percorre diversos caminhos e sonoridades várias. Tendo Lisboa como ponto de partida, avança à descoberta de músicas e sons do mundo. Castelo não é herdeiro de Paredes, nem de Chainho, nem de Fontes Rocha – que reconhece como influência - mas bebe nessas fontes que mistura com os sons da lusofonia para construir uma música de grande universalidade, o que o leva a ser solicitado para as quatro partidas do mundo para concertos a solo ou para parcerias com músicos de diversas áreas.
No ano passado Custódio Castelo gravou Inventus, disco que chegará a cerca de 80 países e em que o músico presta homenagem a Amália, Fontes Rocha, Cesária Évora e, nas suas palavras, é o espelho do percurso e aprendizagem que foi fazendo ao longo dos anos.
Ora foi esta interessante e rica personagem que subiu no último sábado, ao palco do CAEP para um concerto de média expetativa.  
Castelo entrou em palco ao som do contrabaixo e da viola, cumprimentou o público com um respeitoso boa noite, tendo como resposta o silêncio de uma sala meio cheia ou meio vazia. O músico não desarmou, repetiu o cumprimento e em troca recebeu um desconfortável e sumido “boa noite”. Sentou-se e em vez de arrancar para um tema forte para quebrar o gelo, solicitou o público para o acompanhar num pequeno coro. O degelo estava em marcha, a partir daí foi sempre em crescendo até aos dois grandes momentos finais; o primeiro com a participação de dois guitarristas de Portalegre, António Eustáquio e Ricardo Gordo e o segundo com a interpretação magnífica de “ O Encantador de Tristezas”, suite de três andamentos de enorme intensidade.
Castelo é para além de músico brilhante, um excelente comunicador como ficou provado ao longo deste concerto em que, como fez questão de referir por diversas vezes, a partilha dos momentos foi ativa e constante. Pena foi, como referiu António Eustáquio, que a cidade não se tivesse mobilizado para receber condignamente um grande intérprete de guitarra portuguesa. Foi pena não ter aparecido mais gente pois teriam tido uma noite bem passada…

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