\ A VOZ PORTALEGRENSE: Fernando Correia Pina

terça-feira, janeiro 22, 2013

Fernando Correia Pina

Carta de Cesário Verde em Portalegre

para o Carlos Rolo

São mais as memórias que os projectos.
No centro os pombos excedem as pessoas.
Por cada quatro avós há só dois netos
e as chaminés, perdidas já as coroas
de fabril fumo, vão alimentando
saudades e polémicas, às vezes.
Pelas ruas que se vão esvaziando
de lares, de pessoas, de ideias,
em assombradas lojas sem fregueses
lojistas sem futuro contam as teias.
No ar paira um cheiro a desalento.
- Ó filho, vai para longe. – Eis o refrão
dos pais embrulhando em bom conselho
a dor que lhes  vai no coração
de quem amou os filhos hora a hora
e os tem de mandar agora embora.
Nada  de operários de proletários gestos,
nem de campónios de modos castiços
e, quanto ao resto, vai havendo uns  restos
agarrados a empregos nos serviços,
a ressacar dos excessos crediários,
sempre a murmurar lamentações
pela crescente anemia dos salários
consumidos por ferozes prestações.
Porém, a terra é boa. Os sacrifícios
a que a topografia nos obriga
traduzem-se em sensíveis benefícios
visíveis no volume da barriga.
As ruas são airosas. O casario
é a cronologia em pedra e cal
do burgo pequenino que floriu
à sombra de uma mitra episcopal.
Fortes muralhas entre torres lançadas
dão-lhe a nobreza desse tempo antigo
em que meninas austeras, recatadas,
bordavam casamentos ao postigo.
Notáveis são as árvores frondosas,
oferendas de frescura no estio,
pelos jardins que correm como rio
de verdes águas  curvas, vagarosas.
Aos pés da cidade reina a horta
em ubérrimo solo trabalhada,
a verdura, porém, toda se importa
bem assim como a fruta, empacotada,
que da Espanha nos chega ou de além-mar
alimentando a global economia
que com falsos preços de arrasar
o campo e as aldeias nos esvazia.
Para lá das hortas há uns casarões
que são modernos pavilhões de caça
trocadas as espingardas por cartões,
com promoções à laia de negaça.
Teimosos, de louvar, uns resistentes
vão empurrando a mula e o arado
tratando como filhos as sementes
cujos frutos vendem no mercado.
Pingues as oliveiras. O azeite local
brilha sem mancha quando exposto ao sol
satisfazendo a luxúria estomacal
com teores baixos de colesterol.
Em contraciclo, o vinho daqui é
esperança maior do agricultor
e ao que cresce no Souto da Sé
aqui registo especial louvor,
sem menosprezo do que a Urra cria
ou do que o de Alegrete o nome alteia,
néctares suaves da nossa fantasia
macios recifes de alongada ceia.
Parece-me, porém, ser grave falha
- e o tempo me dará razão –
não preservar os vinhos de talha,
diversos, da antiga tradição.
As gentes, no geral,  a cortesia
fazem preceder a amizade
erguida devagar, dia após dia,
e este é o retrato da cidade
que sem ser grande podia ser melhor
que sem ser rica podia viver bem
que pensada à medida do que tem
em si própria acharia mais valor
sem sonhos de grandeza nem excesso
de zelo que às vezes arruína
o futuro em nome de um progresso
como se esse progresso fosse sina
que é forçoso cumprir como se não
houvesse outros futuros à nossa frente…
E aqui me despeço. O nevoeiro
que é marca da cidade desce denso.
A casa vou voltar. Com um imenso
abraço me despeço, companheiro.

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