\ A VOZ PORTALEGRENSE: Abril 2012

segunda-feira, abril 30, 2012

António Martinó de Azevedo Coutinho

REALidades Um

Miguel Real é um pseudónimo. Quem se esconde por detrás deste? Será melhor sabê-lo, por ele próprio, em entrevista recente ao jornal Açoriano Oriental: “O marido da Filomena Oliveira, o pai do David e da Inês, o professor de Filosofia em Sintra, o amigo de um grande número de sintrenses. Esta separação é vital para a minha saúde mental. Sempre que o ‘Miguel Real’ me perturba, regresso ao ‘Luís Martins’; sempre que sinto o ‘Luís Martins’ atarantado, desorientado, fujo para o ‘Miguel Real’, que oferece uma caneta e uma folha de papel e que logo aquieta.
Miguel Real dispõe de uma considerável obra publicada e de bastantes inéditos, alguns acessíveis pela NET.
Conheço e aprecio uma parte dos trabalhos do autor. A sua modernidade deslumbra e inquieta, assim como impressiona a vasta amplidão, quase renascentista, das temáticas abordadas. Por exemplo, é da sua autoria um notável estudo sobre uma das facetas mais ignoradas de José Régio, a de crítico literário. Um dia destes, pelo seu manifesto interesse, talvez valha a pena aqui divulgar tal trabalho.
Miguel Real publicou recentemente duas obras, Nova Teoria do Mal (edição Dom Quixote, 2012) e A Vocação Histórica de Portugal (edição Esfera do Caos, 2012), pelo que foi entrevistado a este propósito pela jornalista Catarina Pires. O país tomou conhecimento das declarações do filósofo, professor e escritor através do Notícias Magazine n.º 1039, relativo a 22 de Abril. Não abordo, por agora, o conteúdo das obras citadas, ficando pela entrevista, donde retiro algumas passagens por si mesmas suficientemente reveladoras da dura e implacável análise política de Miguel Real.
A sensação com que se fica (...) é que nas últimas décadas vão para o poder os piores de nós. Dá impressão de que houve uma demissão das elites. Certamente os melhores emigraram. Portugal é um país pequeno e alguém que seja ousado e ambicioso tem sempre em mira sair daqui. A verdade é que depois dos pais fundadores da democracia portuguesa -Cunhal, Sá Carneiro, Soares, Freitas do Amaral- parece que veio uma leva de políticos de carácter tecnocrático que não são os melhores de nós, pelo contrário, são os mais oportunistas, aqueles que vêem a frincha da porta aberta e entram logo à espera da grande oportunidade. A elite reflecte o povo, mas não tenho a certeza de que hoje isso seja assim.”
Isto, que o autor declara logo nos inícios da entrevista, deixa desde logo antever o seu sentido crítico perante a qualidade da gente que nos tem governado. Depois de gerações inteiras em que o sucesso garantido passava pelos seminários, dá agora bem mais à conta ir para político do que para padre, com a vantagem de nem ser preciso estudar alguns anos. Modernamente, como lema ou projecto de vida, para muitos, basta o pontapé para a frente e fé no Partido...
No século XIX, Portugal, em termos de evolução cultural, industrial e até política, estava à frente da Escandinávia. Em finais do século XX, já estava muito atrás. Aconteceu qualquer coisa. E o que foi? Foram as elites portuguesas -o Estado Novo esteve cinquenta anos no poder-, influenciadas pela Igreja Católica, que nos bloquearam, com a história da pobreza e do pudor como virtudes. Quando entrámos na Europa estávamos a cumprir um sonho com duzentos anos, do marquês de Pombal, que era fazer de Portugal um país medianamente europeu.” (...) “O sonho da geração europeia era fazer que os duzentos anos pós-Pombal, que vinham em contínuos desequilíbrios, parassem. Passámos por sucessivas revoluções: a de 1820, depois a guerra civil, depois a Regeneração, em 1850, depois o Ultimatum, em 1890, dramático para o país em termos de humilhação, depois a Instauração da República, em 1910, depois o Estado Novo, em 1926, depois o 25 de Abril, em 1974. Mas quando é que acaba isto? Andamos há duzentos anos em revoluções e em cada uma vamos ser os melhores do mundo. Claro que nunca somos, mas a entrada na Europa, em 1986, gerou a esperança de que Portugal criasse a grande ausente da história do nosso país: a classe média. Por que somos tão desequilibrados? Por que andamos sempre entre o êxtase e a depressão? Porque não existe uma classe média maioritária, liberal nos costumes e espiritualmente humanista.”
Miguel Real põe assim o dedo numa certa ferida, hoje quase cicatriz. Para que nos vale a Europa ou, mais propriamente, esta “versão” de Europa? Afinal, do imbecil “orgulhosamente sós” de um passado sem saudades, teremos chegado ao “lamentavelmente mal acompanhados”?
Cá por dentro, de forma implacável, por que tem vindo a ser destruída a classe média, clássico fiel de uma balança agora perigosamente desequilibrada?
Sem claras respostas à vista, será melhor continuar a análise destas REALidades...
António Martinó de Azevedo Coutinho

quinta-feira, abril 26, 2012

António Martinó de Azevedo Coutinho

REALidades
*
Três textos em:
_ Segunda-feira, 30 de Abril de 2012
_ Quarta-feira, 2 de Maio de 2012
_ Sexta-feira, 4 de Maio de 2012

segunda-feira, abril 23, 2012

António Martinó de Azevedo Coutinho

JOSÉ RÉGIO VOA PELOS CÉUS DA EUROPA

Pode parecer um estribilho, mais ou menos místico, mais ou menos simbólico, evocando um ressoar da aura do poeta pelos universos cultos do Velho Mundo. Nada disso. O título é rigoroso, exacto, e algo distante da poesia e do simbolismo: José Régio voa, de facto, pelos céus da Europa. Também dos nossos, caseiros, porque, para o bem e para o mal, somos Europa... Até me atrevo a prognosticar que talvez haja uma grande probabilidade de ele voar, de vez em quando, sobre o próprio céu desta Portalegre onde viveu, sonhou, sofreu e criou a maior parte da sua obra. Acontece que a nossa cidade fica numa rigorosa vertical de algumas rotas aéreas de e para a Europa central, situando-se na serra um rádio-farol inserido na rede de orientação e de apoio aos voos comerciais.
É que José Régio também é um avião, mais concretamente um Airbus A320, dos que recentemente reforçaram a frota da transportadora aérea nacional, TAP.
Aqui há dias soube esta notícia pelo meu neto Manuel, quando voou para Londres. Interrogou-me depois, em estilo de provocação, sobre o nome do avião onde viajara. E, perante a minha natural ignorância, forneceu-me a resposta: José Régio! Naturalmente, ele conhece há muito o meu particular apreço pela memória do Homem e da Obra, não duvidando, portanto, de que tal revelação me seria grata.
Em boa verdade, todos sabemos que o nome de “baptismo” de naves ou aeronaves costuma servir de homenagem a vultos significativos da História ou da Cultura nacionais. É assim em todas as latitudes. O que talvez nem todos conhecêssemos -eu não o sabia!- era o facto de também ter chegado a vez do nosso Régio ser distinguido como patrono de um recente e moderno avião. E afinal isso já aconteceu há três anos, pois aquela aeronave de médio curso, com capacidade para 180 passageiros, foi recebida em Fevereiro de 2009...
Aqui fica apresentado, com o número de matrícula CS-TNQ 3769. Diz a ficha técnica que a sua engenharia construtiva possibilita um acréscimo de eficiência energética e ambiental de cerca de 8%. Acrescenta a TAP que este aparelho permitirá uma redução de emissões anuais de 2200 toneladas de dióxido de carbono e uma poupança de combustível na ordem das 700 toneladas.
Podemos ficar orgulhosos: José Régio ficará aqui associado à utilização de práticas e de tecnologias eco-suficientes que conciliam o crescimento com a protecção do Ambiente. Que nos lembre, nunca no passado, em vida ou depois dela, foi o autor da Toada de Portalegre lembrado como militante das causas ambientalistas. Aconteceu agora.
O “pacote” de aviões desta “família” incluiu outras nomenclaturas como Luísa Todi, Mouzinho de Albuquerque, Almada Negreiros, Aquilino Ribeiro, Florbela Espanca, Teófilo Braga, Vitorino Nemésio, Natália Correia, Gil Vicente, Alexandre O’Neill, Luís de Freitas Branco, D. Afonso Henriques, Rafael Bordalo Pinheiro, Columbano Bordalo Pinheiro, Grão Vasco e Eugénio de Andrade. Como se pode avaliar pela extensa relação, Régio fica em muito boa e diversificada companhia... Para já, este apreciável conjunto de novíssimas aeronaves serve algumas linhas existentes e opera nas mais recentes ligações da TAP com Moscovo, Varsóvia e Helsínquia, por exemplo.
O meu conhecimento deste facto não se resumiu à súbita e agradável revelação. Acabei de receber, dessas mesmas mãos familiares, a mais recente edição da revista de bordo da nossa companhia aérea, a UP. Quem esteja habituado a voar conhece as publicações que qualquer operadora coloca à disposição dos passageiros, fornecendo-lhe as mais diversas informações sobre a empresa, recursos turísticos, culturais, publicidade inerente e outros textos e imagens, sempre em língua “nativa” e na inglesa, com uma superior qualidade gráfica.
A UP relativa a Abril de 2012 inclui duas páginas (156 e 157) dedicadas a José Régio, na sua secção A Nossa Frota.
Num artigo que está a correr o Mundo, pelo menos a substancial parcela deste onde a TAP chega, o nosso maior vulto cultural vai dispor duma considerável e digna divulgação. O texto alusivo é curto e até conta com algumas incorrecções de pequena monta: Régio recebeu o Prémio Diário de Notícias em 1961 e não em 1966; vendeu o espólio da sua casa de Portalegre em 1964 e não em 1965; não foi aqui professor durante quase quarenta anos, mas 33 e incompletos; deixou muito mais colaboração no jornal O Primeiro de Janeiro do que em O Comércio do Porto e aquele, ao contrário deste, nem sequer é citado...  Enfim, deficiências da Wilkipédia que não anulam o interesse nem a validade desta oportuna divulgação.
Régio voa agora pelos céus da Europa e os ecos desta sua novíssima “aventura” ressoam por todo o Mundo... Esta é uma curiosa realidade onde se partilham a homenagem e a modernidade, numa dimensão quase insólita mas justa.
José Régio, de facto, continua vivo.
António Martinó de Azevedo Coutinho

domingo, abril 22, 2012

Fernando Correia Pina

Povo de marinheiros, de derradeiras
visões de império à pressa encaixotadas.
Em caravelas fomos. Em traineiras
voltámos  lamentando  águas passadas.

Povo de lavradores de inconsistentes
searas, de alheias sementeiras,
de rostos dos espelhos sempre ausentes,
de vozes confundidas com bandeiras.

Povo mudo que resistes como teia
aos ventos da fortuna e amanheces
como nação no fogo duma ideia

e que logo feito gente empalideces:
como te hei de dizer sem que a estranheza
faça de quanto digo cama e mesa?

terça-feira, abril 17, 2012

Luís Filipe Meira

Wraygunn no CAEP

A Estrada Perdida

Foi há alguns anos atrás, o Dr. Mário Soares era Presidente da República e dedicou uma das suas presidências abertas ao interior do país, percorrendo algumas capitais de distrito para, numa política de proximidade, se inteirar dos problemas inerentes à interioridade. A piada – se é que tem alguma – é que a presidência aberta começou em Beja, seguiu para Évora e saltou para Castelo Branco, deixando Portalegre a caçar gambozinos. Cito a história de memória e se bem me recordo falou-se na altura, que a ação foi desviada por um assessor portalegrense de Mário Soares, que não tinha boas relações com as autoridades locais da época. Este pequeno episódio é apenas um exemplo entre muitos similares, sobre esta cidade situada à beira duma estrada perdida a caminho de nenhures, cuja auto estima já viu melhores dias e que também já pouco se preocupa com aqueles que por aqui ainda se vão perdendo.
Este episódio ocorreu-me na noite do último sábado, ao entrar no grande auditório do CAEP, para assistir ao concerto dos Wraygunn de apresentação de L´Art Brut, o novo álbum do grupo de Paulo Furtado e deparar com uma sala desoladoramente vazia em confronto com um palco cheio de instrumentos. Não acredito que em Portalegre não haja duas, três ou mesmo quatro centenas de pessoas que gostem de rock´n´roll a sério e possam gastar dez euros num bilhete. Afinal os Wraygunn, a banda de Paulo Furtado a.k.a The Legendary Tiger Man, têm 1 EP e 4 álbuns, já andam há 13 anos na estrada, aqui e lá fora, e não devem nada, antes pelo contrário, aos Velosos, Xutos & Cº Lda. Pois são muito mais genuínos como o disco L´Árt Brut o prova à saciedade. L´Art Brut não é Arte Bruta mas sim uma espécie de “busca do Paraíso” como os próprios Wraygunn o definem. É um disco mais contido, mais subtil que o anterior Shagri-La mas, ainda assim um disco de puro rock´n´roll, onde uma poderosa secção rítmica - bateria, percussão, baixo e guitarra - prepara o campo de explosão para as divagações da guitarra e a agressividade da voz de Paulo Furtado, sendo tudo isto polvilhado ou equilibrado, se quiserem, pela soul nas vozes de Raquel Ralha e Selma Uamusse.
E chegamos ao concerto. Sala quase vazia, talvez um quinto da lotação, o palco ocupado por 7 músicos que ignorando a frieza da sala, avançaram como se a lotação estivesse esgotada.
Paulo Furtado reconhece que L´Art Brut é um álbum muito fácil de transpor para o palco, porque é simples, direto e foi quase todo gravado “live” no estúdio. Foi o que assistimos no passado sábado no CAEP, a transposição para palco dum magnífico álbum, o que só poderia terminar num magnífico concerto onde Paulo Furtado ainda deixaria a sua marca pessoal, invadindo a plateia e quase obrigando as pessoas a saltarem para a frente do palco e dançarem. Afinal estávamos num concerto de rock´n´roll…
O concerto, conforme disse, foi magnífico, a dúvida que me fica é se os Wraygunn num futuro próximo irão encontrar a Estrada Perdida para um regresso a Portalegre. E aqui cabe-me fazer votos para que esta cidade não desapareça num vortex temporal, como aconteceu a Pete Dayton no filme de David Lynch, “A Estrada Perdida”…

quarta-feira, abril 11, 2012

António Martinó de Azevedo Coutinho

O exame da quarta classe é fascista?
Confesso que não segui com a devida atenção toda a polémica -creio que ainda em curso!- desencadeada pela recente comunicação do ministro Nuno Crato sobre a reintrodução do exame no final do primeiro ciclo do Ensino Básico.
Sorri ligeiramente ou ri mesmo, a bandeiras despregadas, perante algumas argumentações a propósito proferidas por alguns ilustres parlamentares. Como se sabe, não é preciso apresentar o diploma da quarta classe para se ser deputado. E talvez esteja aqui a explicação.
Por exemplo, afirmar que a putativa decisão ministerial nos remete para os sinistros tempos do Estado Novo (o termo “sinistros” é da minha inteira responsabilidade) significa ignorar, em absoluto, o historial do ensino público em Portugal, desprezando os tempos da 1.ª República e, mesmo, a época monárquica constitucional.
Declarar que a reintrodução de tal exame significa o regresso à escola elitista é outra cretinice, apenas suportada pela demagogia. Mas os deputados -e outros políticos em geral- , como também se sabe, não são obrigados a revelar o seu QI. A simples honestidade intelectual deveria constituir um sério travão ao disparate público. Mas entre nós não é assim.
Não estou a defender a reintrodução do exame da quarta classe. Para assumir convictamente tal posição teria de reflectir sobre o assunto e existem outras coisas bem mais importantes para fazer. Mas abomino a mediocridade e por isso não fico calado.
O que acho, em fácil dedução, é que não estará nesse exame, não estará aliás em nenhum exame, a solução dos problemas da nossa Escola pública. É exactamente o mesmo que se passa com a abominável e já quase clássica revelação anual dos chamados rankings das escolas, sujeitando-as a uma absurda classificação relativa. Feira de vaidades ou ghetto desprezível, cada uma das escolas aí colhe um louvor ou um labéu que roçam, por vezes, a obscenidade. Ainda se a “classificação” servisse para nela pesquisar as raízes do insucesso, e depois para as remediar, vá lá, para alguma coisa valeria a exposição pública das nossas pedagógicas misérias... Mas não, para isso não serve, nunca servirá.
Aqui há uns tempos encontrei, entre os meus velhos papéis acumulados numa vida, algumas colecções de pontos-modelos de Exames de Admissão aos Liceus (e cá volto eu aos “elitismos”!). As datas remetem-nos para o ano lectivo de 1945-46, precisamente as do meu próprio exame. Olho para aquele material com um misto de saudade e de alguma incredibildade...
As instruções são implacáveis, com regras precisas que eliminariam as inocentes criancinhas candidatas ao mínimo deslize. E, de facto, eliminavam. Não era impunemente que nos sujeitávamos à dureza das provas, que exigiam, à semelhança de qualquer Olimpíada, uma severa e cuidada preparação específica. Aquilo, de facto, era um pouco mais do que um simples exame da quarta classe. Não quero entrar aqui em pormenores, mas o banal folhear daqueles conjuntos de folhas impressas assusta um pouco. Creio mesmo, pessoalmente, que talvez eu não estivesse, agora, em perfeitas condições técnicas para entrar no Liceu...
Os sucessivos mapas mudos da prova de Geografia (25 minutos) obrigar-me-iam a saber a altitude da serra representada pelo número 6, o nome do rio identificado pelo número 2, a cidade alusiva ao número 3, a linha férrea numerada pelo 1... Passando às nossas colónias (era assim a sua desginação oficial), a mudez dos mapas assumia uma ainda maior implacabilidade: em Cabo Verde, como se chama a ilha número 5, qual era a povoação angolana representada pelo número 3 e que cor tinha, aí, o distrito onde corre o rio Cubango... Nem sequer me atrevo a reproduzir as questões relativas a Moçambique, Índia Portuguesa, Macau e Timor.
As dificuldades em História (20 minutos) seriam facilmente (!?) ultrapassadas desde que soubéssemos relacionar as 6 personagens da coluna da esquerda com a autoria de 6 dos actos mencionados na coluna da direita, porém com 8 hipóteses; ou completar 6 acontecimentos de uma outra coluna da esquerda com outros tantos nomes, entre os dez constantes da coluna à direita...  Seria bastante conveniente saber-se qual destas batalhas tinha acontecido primeiro: Linhas de Elvas, Montijo ou Matapan... Ou qual destes factos se deu em último lugar: a conquista de Ceuta, as de Arzila e Tânger ou as de Ormuz, Goa e Malaca...
Neste breve resumo, deixo em claro a subjectivíssima prova de Redacção (45 minutos) e passo à de Língua Portuguesa (40 minutos). Entre outras exigências (36 no total), bastaria aqui classificar morfologicamente as palavras como, era, possível e viver ou ter a certeza de que mas é uma conjunção........, depois, um advérbio........., quem, um pronome...... e como, um advérbio.......  Ou saber mudar as formas verbais tinha acontecido para a 3.ª pessoa do singular do futuro perfeito do conjuntivo e matá-lo-iam para a 1.ª pessoa do singular do pretérito perfeito definido...
Deixemos para trás, por pura piedade, o Ditado (20 minutos!?). Assusta daqui saber que mais de 5 erros eliminariam o paciente, e que cada simples falta (em acentos ou pontuação) valia um quarto de erro, para calcularmos o elevado risco inerente, mesmo sem achordo ortographico...
Sinceramente, quase não me atrevo a descrever a prova de Aritmética e Geometria (60 minutos). Reproduzo, sem comentários, apenas cinco dos 16 problemas aritméticos constantes da acusação, perdão!, do impresso:
5 – Um comerciante vendeu por 75$20 (era então o escudo a moeda oficial!) um objecto que estava marcado para 80$00. De quantos por cento fora o desconto feito?
7 – Um ciclista demorou 4h 17m 8s de Coimbra a Castelo Branco. A que horas partiu de Coimbra sabendo-se que chegou a Castelo Branco às 11h 5m 6s?
9 – Um escultor tomou a seu cargo um trabalho que, para o cumprir, tem de fazer diariamente 3/90 da obra. Porém, teve a ideia de falar a um ajudante que faz metade do trabalho dele. Quantos dias tem de vantagem, trabalhando juntos?
11 – Um lavrador colheu nas suas três propriedades 500 moios de trigo (um moio, 60 alqueires). Numa colheu 0,3, noutra 3/5 e na outra o restante. Quantos alqueires teve na terceira?
13 – No meu jardim há um lago, cujo fundo tem a forma dum octógono regular, que mede 2m de lado e 1,5m de apótema. Quantos decalitros de água contém, se está meio e tem de altura 60 centímetros?
Havia ainda a prova de Desenho (45 minutos), integrando uma esquadria onde o paciente inscrevia as formas de um objecto de uso comum. Normalmente com “barrigas” simétricas e uma asa para desequilibrar o conjunto...
A toda esta provação sobrevivi, sobrevivemos muitos em sucessivas gerações. Não ficámos por isso nem mais sábios nem mais imbecis... Nem a nossa inteligência resultou mais aguda nem a nossa memória mais embaraçada...
Não posso portanto defender, por uma mera questão de lógica, a reintrodução pura e simples dos velhos exames. Mas, atenção!, hoje mudaram substancialmente as regras do jogo. Os alunos, os professores, os programas (ai!, os programas mais os currículos...), os pais, os ministérios, a maneira de ver e sentir todo a vida social, cultural e política envolvente (o contexto), tudo mudou radicalmente.
Assim, parece pura leviandade afirmar, instantaneamente, que o exame de quarta classe deve ou não deve ser reintroduzido. A ministerial “provocação” merece ser analisada com rigor, nos seus prós e nos seus contras. Não foi nada disto aquilo a que todos assistimos, em deprimente exibição pública, quase tudo ficando resumido ao habitual conjunto de lugares comuns, onde sobraram banalidades e disparates, onde faltou uma honesta e imparcial reflexão.
Como vai acabar a polémica? Espero e desejo que o pretexto permita uma discussão inteligente, informada e conveniente aos superiores interesses da Educação.
Sei, no entanto, que é pedir muito.
António Martinó de Azevedo Coutinho

domingo, abril 08, 2012

Fernando Correia Pina

Para o Carlos Garcia de Castro
neste ano de grande mortalidade

Ao certo nada é certo e de ilusão
em ilusão vamos vivendo os dias
sabendo de antemão que os dias são
para sempre sombras só de outros dias
de que deixamos breve relação
para redação das nossas elegias
amáveis trajos que nos vestirão
quando findar a ilusão dos dias.

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