\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

sexta-feira, junho 01, 2012

António Martinó de Azevedo Coutinho

VI – a palavras loucas, orelhas moucas...

A deturpação do uso da palavra atingiu níveis que apeteceria considerar como anedóticos se não fôssem preocupantes.
Por exemplo, é frequente participarmos em conversações telefónicas para determinados gabinetes ou repartições, recheados de gente normalmente importante, recebendo no entanto respostas desconcertantes. Um exemplo, virtual, permite avaliar um certo modelo-tipo:
Alternativa A
- Desejo falar com o dr. X.
- O senhor dr. não se encontra. (Poderemos admitir que o dr. X, coitado, está de tal modo perturbado que não consegue reencontrar o seu equilíbrio ou, então, que anda todo o pessoal a vasculhar o prédio, das casas de banho às arrecadações, do sótão à cave, sem encontrar o pobre do dr. X, certamente perdido... É que, antigamente, em bom português, era costume responder: - O senhor dr. não está.)
Alternativa B
- Desejo falar com o dr. X.
- Quem gostaria...? (Aqui, para respondermos “à letra”, devemos dizer: - Com ele, naturalmente... A secretária ficará certamente desconcertada, incapaz de perceber que a pergunta certa, em bom português, teria sido: - Quem devo anunciar?)
Espécie de teatro do absurdo (talvez Ionesco o subscrevesse!), os diálogos surrealistas que o banal quotidiano nos proporciona constituem a prova de que um cretiníssimo novo-riquismo ou a mais pura estupidez se terão apoderado da simplicidade linguística que sempre usáramos com proveito e eficácia.
Quando lemos num jornal (ou ouvimos na rádio ou assistimos pela televisão) reportagens, entrevistas ou declarações, nunca teremos a certeza absoluta de dispormos -como receptores- dos mesmos códigos linguísticos dos emissores dessas peças, isto é, poderemos interpretá-las de modo bem diverso das intenções dos autores dessas mensagens. Este fenómeno comunicacional até seria normal (e saudável!) se o conseguíssemos desligar da deliberada demagogia que por vezes informa tais peças.
Eis alguns exemplos soltos:
- É preciso democratizar (ou privatizar) certos meios de comunicação. O princípio é provavelmente correcto, se a oculta intenção do decisor não consistir em entregá-los a gente da sua confiança...
- Temos de dialogar com todos os sectores da sociedade. Nada mais desejável, excepto se “todos os sectores da sociedade” se reduzirem às pessoas ou entidades que lêem pela nossa cartilha...
- Devemos lutar pelos nossos direitos. Por vezes, o significado deste lema pode ser: Sentimo-nos autorizados a obstruir ruas, incendiar autocarros, partir montras e invadir reitorias...
- Este governo é verdadeiramente fascista. Algumas vezes, esta “acusação” pode traduzir-se assim: Não nos deixaram destruir as cabinas telefónicas ou arrancar os semáforos, nem sequer pintar as paredes e até mandaram gorilas para nos agredirem, imagine-se!
- Verificou-se uma total adesão à greve. Pode significar: Estivemos presentes, com cartazes, megafones e tudo, todos os membros da direcção do sindicato!
- Já foi nomeada uma comissão de inquérito. Tradução (no geral) exacta: - Esqueçam-se de que aquilo alguma vez aconteceu.
Palavras loucas, orelhas moucas! Nem sempre é possível tornarmo-nos surdos voluntários, quando uma certa revolta interior nos impede de tal fingimento.
Flutuando entre a vulgar piroseira e o bacoco pretensionismo, saltam-nos à vista -escritas ou soletradas- algumas barbaridades linguísticas.
Hoje, por exemplo, quase ninguém recomenda a outrém que se concentre. A moda é dizer: -Foca-te! Aliás, pode usar-se uma variante, igualmente disparatada: - Focaliza-te!
Não existe, pura e simplesmente, o verbo “colapsar”, mas o substantivo colapso, que significa inibição repentina duma função vital ou, em sentido figurado, queda repentina. Tão simples como isto. No entanto, já todos lemos que determinado edifício “colapsou” e, até, que a Bolsa também “colapsou”... Estas aspas são da minha responsabilidade pois, nas notícias, nunca são colocadas.
Afirmar que uma lei possui determinadas virtualidades consiste numa pura aberração linguística, com a qual se diz exactamente o contrário daquilo que se pretenderia sublinhar. Virtual é irreal e nada tem a ver com virtude, que devia ser o termo a empregar.
Deslocalizar por deslocar, resiliente por resistente ou, mais frequentemente, estória por história, eis outros casos de imbecilidade vocabular com que esbarramos em cada página, a cada cena...
Tudo isto acontece no dia-a-dia mais vulgar, porque é escolhido deliberadamente o caminho da asneira, quando se pretende o da erudição. Enfim, haja pachorra!!!
Sophia de Melo Breyner Andresen (1919-2004) foi uma das nossas maiores poetisas. O Prémio Camões, que lhe foi justamente atribuído em 1999, consagrou uma obra invulgar em génio, coragem e inspiração. Do seu livro O Nome das Coisas (1977), retiro, com vénia, o poema Com Fúria e Raiva, datado de Junho de 1974.
Com fúria e raiva

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra

Com esta transcrição, calo por enquanto as Palavras à Solta...
António Martinó de Azevedo Coutinho

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