\ A VOZ PORTALEGRENSE: Luís Filipe Meira

quinta-feira, maio 31, 2012

Luís Filipe Meira


Teresa Salgueiro no CAE

Mistérios e Maravilhas

Teresa Salgueiro, a voz dos Madredeus durante mais de 20 anos, veio a Portalegre ao Grande Auditório do CAE apresentar o seu novíssimo disco, “ O Mistério”, nas lojas desde dia 8. A sala sem estar cheia apresentou-se bem preenchida por um público de meia-idade, entusiasta quanto baste, que deixava transparecer o conhecimento e admiração pela obra da artista.
Naturalmente que este concerto gerava diversas expectativas, afinal a carreira de Teresa Salgueiro sempre se confundiu com os Madredeus e ela própria reconheceu em entrevista a este jornal, que o estranho é se essa colagem não existisse, não renegando a experiência e assumindo que esse tempo faria sempre parte da sua vida. E aqui nascia outro desafio, percebermos se apesar de assumir o passado, a artista conseguia libertar-se desse fardo, positivo mas um fardo, e definir um novo rumo para o futuro. As experiências anteriores fora dos Madredeus tinham passado por diversas realidades musicais e segundo a cantora foram sempre em parceria, enquanto “O Mistério”, esse sim, está assumido como o primeiro disco a solo porque escreveu as letras, compôs, produziu e o disco teve tempo de maturação suficiente para se tornar naquilo que ela e os seus músicos, com os quais se identifica totalmente, quiseram. Portanto como se percebe as expectativas eram imensas.
Expectativas que foram razão suficiente para adquirir o disco e assim, ir para o concerto totalmente identificado com esta nova etapa da carreira de Teresa Salgueiro. É óbvio, que esta prática podia ser um risco, caso o disco fosse uma desilusão, o que não aconteceu, mas fez-me temer que o concerto pudesse cair nalguma monotonia, que senti a espaços durante a audição, o que me levou a ir para o CAE com expectativas já mais moderadas.
Percebo hoje que a audição intensiva e antecipada de “O Mistério” terá sido, eventualmente, um erro, pois o concerto deu-me uma perspetiva que, certamente por minha culpa, não tinha conseguido descobrir no disco, tendo-me proporcionado, nomeadamente através das letras, uma forma diferente de abordagem a uma realidade que eu julgava conhecer.
Chegados aqui, pode o leitor inferir - se gosta de música e não esteve no CAE - que perdeu um bom concerto de uma voz marcante da música portuguesa que, tudo leva a crer, encontrou o rumo próprio para uma carreira a solo e julgo poder afirmar, sem grande margem de erro, que não deverá ter grandes dificuldades em se impor aqui e lá fora, por mérito próprio e não por viver na área de influência Madredeus. Situação que não é virgem recorde-se que Rodrigo Leão também se impôs depois de ter integrado e saído da primeira formação do grupo de Pedro Aires de Magalhães, se bem que as variáveis não sejam exatamente as mesmas. Rodrigo Leão foi pilar importante na estrutura mas nunca foi o rosto do grupo como Teresa Salgueiro, daí ter sido mais fácil para ele livrar-se dessa identidade, apesar da música que faz também não estar assim tão longe do universo Madredeus.
 “The last but not the least” ou seja por último mas não o menos importante, uma palavra para os músicos que estão com Teresa Salgueiro, que fez questão de salientar a reciprocidade na identificação, assumindo que o projeto só arrancou porque sentiu que estes quatro músicos eram as pessoas certas para o fazer. Salta à vista que há aqui grande proximidade e cumplicidade entre todos, o que dá grande unidade ao espetáculo. Ainda assim terei que dar enfase à imensa qualidade de Rui Lobato – já vinha acompanhando a cantora no tempo dos Lusitânia Ensemble – percussionista e baterista de primeira água e sabe-se quão difícil é trabalhar percussões em música tão serena e tranquila como esta.
O título deste texto,” Mistérios e Maravilhas” foi uma chapelada a um velho disco dos Tantra, grupo de rock sinfónico dos idos anos 70, liderado por Frodo, alter-ego de um visionário chamado Manuel Cardoso. Este título ocorreu-me durante o concerto, já eu tinha pensado em “Celebrar a vida” expressão que a artista utilizou por diversas vezes. No entanto penso que  Mistérios & Maravilhas” define perfeitamente o que se passou no CAE no dia 22. O concerto levou-nos a celebrar a vida, celebrando a música, mas sempre envolto numa aura de mistério associado à magia e à beleza da vida e da música numa perspetiva luminosa e positiva, evitando as sombras, as trevas e os malefícios deste mundo, como está consubstanciado neste estrato de “Ando entre Portas” (…) Há-de haver uma saída/Um sinal de luz na minha vida/Vou abrindo as portas/ Quero ver/ O horizonte que estão a esconder (…)        
O concerto foi muito bom e estou convencido que me vai ajudar a abordar o disco numa outra perspetiva, quiçá mais otimista. É também para isto que os concertos de suporte à edição discográfica servem, para nos abrirem novos horizontes e assim fruirmos na plenitude, as propostas que nos são apresentadas.

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