\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

quarta-feira, maio 23, 2012

António Martinó de Azevedo Coutinho

II – não há má palavra se a puserem no seu lugar

Quando se aborda a questão do uso das palavras, nomeadamente das palavras escritas, lembro-me de certos episódios das crónicas jornalísticas indígenas em tempos febris, quando determinados títulos de um diário nacional de grande expansão fizeram algum furor.
Aí, as palavras boas, más ou eventualmente neutras (se as há!), desempenharam um influente papel em capas do Correio da Manhã. As suas deliberadas (e habilidosas) montagens gráficas pretenderam induzir sentidos ou interpretações orientadas para precisos fins eleitorais, num nítido desvio da imparcialidade a que um órgão de comunicação deveria, eticamente, estar obrigado.
No primeiro caso, o garrafal título VAMOS VOTAR NO PRIMEIRO (para evitar um segundo “escrutínio”), aponta claramente para o primeiro (candidato) na ordem da coluna vertical logo à direita. No entanto, aparentemente, uma mensagem nada teria a ver com a outra!
No caso seguinte, o título (lido na vertical) informa, inocentemente, que Eanes quer que todos votem. Para Solidificar Democracia, patriótico estribilho colocado logo abaixo, implica a continuação da anterior leitura: PSD... Duas frases, portanto, com uma sugestão de lógica complementaridade, em maiúsculas.
O terceiro exemplo mostra-nos como se pode fazer um claro apelo ao dever do voto na AD (Aliança Democrática), pela simples e “inocente” coincidência de ficarem justapostos os títulos de duas notícias “perfeitamente” distintas...
O último caso de propaganda eleitoral diz-nos que a AD vencerá, desta feita jogando apenas com maiúsculas dentro dum mesmo título.
As palavras escritas, desde que colocadas no lugar certo, como as palavras ditas, desde que pronunciadas no momento exacto, tornam-se eficazes, logo, “boas”.
E estes exemplos, apenas alguns escolhidos numa densa “selva” povoada por inúmeros casos similares, aconteceram em Democracia; logo, imagine-se o grau de manipulação da palavra susceptível de suceder em contextos ditatoriais...
Reflicta-se agora sobre a qualidade e o rigor informativos disponibilizados sobre um mesmo facto, utilizando apenas os títulos de primeira página de cinco vespertinos lisboetas -Diário Popular, Diário de Lisboa, A Luta, A Capital e Jornal Novo (todos já desaparecidos!)- alusivos a uma greve da Função Pública. As palavras usadas relatam o maior dia de greve depois do 25 de Abril, uma adesão maciça, dois fracassos e até adesões variáveis, portanto avaliações para todos os gostos... Quem tenha lido apenas um dos títulos terá ficado com uma opinião parcial, truncada, verdadeira, falsa, distante ou talvez aproximada sobre uma mesmíssima realidade. Qual foi, de facto, a verdade? A que serviço esteve a palavra? Que lugar, bom ou mau ou talvez assim-assim, lhe foi atribuído?
Pensemos nisto.
António Martinó de Azevedo Coutinho

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