\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

sexta-feira, maio 18, 2012

António Martinó de Azevedo Coutinho

quatro – é a cultura, estúpido!

A frase rigorosamente histórica não é a reproduzida no título. Recordo o episódio original onde nasceu o popular estribilho que agora corre o mundo.
Foi na campanha para as eleições presidenciais norte-americanas de 1992. James Carville, um colaborador próximo de Bill Clinton na sua disputa com George Bush (pai), preparou certo discurso que terminaria com uma sintética frase-paródia: “É a economia, estúpido!”. Logo este provocatório estribilho se popularizou, ganhando diversas variantes, entre as quais “É a cultura, estúpido!”, que até já deu origem a uma série de interessantes iniciativas no Teatro São Luiz, em Lisboa.
O mais curioso é que cultura e estupidez em princípio se repelem, porque se situam nos antípodas da mesma e una realidade humana. Assim, a cultura seria uma arma de combate contra a estupidez, enquanto a ausência do acesso à cultura faria permanecer, ou agravar-se, essa estupidez.
Afirmam alguns investigadores da neurologia científica que a estupidez é parcialmente genética e parcialmente adquirida. Na primeira parcela integra-se a programação cerebral com que nascemos, sede de comportamentos mamíferos (logo, humanos) mais ou menos automatizados. Na segunda parcela, esses cientistas incluem a denominada enculturação, processo pelo qual o nosso sistema nervoso sofre os efeitos (positivos ou negativos) do ensino, da cultura, das aprendizagens, das imitações, etc.
Segundo estas teorias, a estupidez define-se como uma espécie de bloqueio na habilidade de receber, integrar e transmitir rapidamente novos sinais ou de elaborar respostas adequadas a novos estímulos.
O treino e o desenvolvimento das diversas modalidades da inteligência, sensorial, emocional, lógica, dedutiva, intuitiva e outras constituem, obviamente, uma forma de conter ou corrigir a estupidez.
Com toda a probabilidade, tudo isto será infinitamente mais complexo do que aqui fica nesta dúzia e meia de linhas. Foi, no entanto, o que sumariamente apreendi.
Alguns teóricos destas coisas complicadas chegam mesmo a afirmar que, apesar dos instrumentos colocados em acção nesta prolongada luta, como a Democracia, a Cultura, a Alfabetização, o Experimentalismo, a Psicanálise e outros, não puderam ser evitadas, ao longo da História da Humanidade, algumas graves epidemias mundiais de estupidez. Ironicamente, deduzem estes especialistas que a estupidez, tal como a morte ou a pobreza, esteve tanto tempo connosco, que a maioria das pessoas não pode conceber a vida sem ela. Há alguma dose de verdade prática nesta polémica afirmação, porque todos sabemos que a doença e a pobreza (também o desemprego!) carregam os seres humanos com marcas de cobardia,  tornando-os mais sensíveis para uma quase inevitável aceitação da estupidez como norma de vida, deixando por isso aos iluminados -os “chefes”- a responsabilidade de tudo decidirem em seu nome.
E aqui voltamos a reencontrar o universo da política. E a encontrar, também, as secretas motivações de certas intervenções ditas políticas, afinal destinadas a fixar a estupidez colectiva como base indispensável à prolongada manutenção, dita “democrática”, de alguns líderes.
Torna-se fundamental reflectir sobre estas questões e actuar em conformidade, para se produzir a inversão da lógica vigente nos comportamentos de um qualquer candidato a político que se  sente “autorizado” a cumprir, no poder, o contrário daquilo que, em campanha, jurara. É excessivo, e escandaloso, o que a este respeito tem vindo a acontecer entre nós, sobretudo nos finais do século XX e nestes inícios do XXI. E como na Europa globalizada acontece mais ou menos o mesmo, todos estamos a sofrer os terríveis efeitos derivados da irresponsabilidade destes políticos de baixo perfil e das suas medíocres políticas, onde sobra o materialismo e falta o espírito humanista. A Democracia tem as costas largas...
Ficam por aqui estas reflexões. Como seu termo, creio ser adequada a proposta de visionamento duma peça musical da autoria de um já desaparecido grupo brasileiro, “de intervenção”, aliás pouco conhecido entre nós: Legião Urbana.
O grupo, extinto após a prematura morte do seu principal fundador, Renato Russo (1960-1996), dedicou-se a um estilo próximo do pop e do rock, com um reportório pleno de crítica social e política, sobretudo virado para a realidade brasileira.
Escolhi o videograma Perfeição (da autoria de Renato Russo) por dois motivos convergentes: assenta na “celebração” da estupidez humana e ostenta a sua própria letra, o que me dispensa de aqui a reproduzir. Qualquer semelhança entre esta mensagem e a nossa realidade será mera coincidência? Que cada um conclua...
E saibamos encarar de frente a estupidez como algo que pertence à nossa própria condição. Mas saibamos também que, como desvio ou “doença” do carácter, é passível de fases, com estádios mais ou menos inócuos alternando com sérias crises, e que, embora não dispondo de vacinas seguras, até tem cura, e radical. Esta está ao nosso alcance, ainda que tal perspectiva muito custe a suportar a certos políticos da nossa praça...
Pudera!
António Martinó de Azevedo Coutinho
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