\ A VOZ PORTALEGRENSE: António Martinó de Azevedo Coutinho

quarta-feira, maio 16, 2012

António Martinó de Azevedo Coutinho

três – breve colectânea da estupidez

Cada vez acredito mais num “dogma” literário: os escritores não são apenas gente que escreve bem; são sobretudo gente que pensa com invulgar elevação e que sabe traduzir os seus pensamentos com qualidade literária. Aprendi isto com Régio e tenho-o abundantemente confirmado. 
Escrever bem, no sentido de arrumar palavras com certo estilo, até um computador devidamente programado “sabe” fazer... Comunicar-nos com clareza e profundidade coisas superiores, mesmo quando inquietam, é próprio, apenas, de humanos excepcionais.
Rob Niemen e Robert W. Service pertencem ao domínio destes eleitos. Ensinam-nos que a “clássica” estupidez ocidental é a base do poder da maioria dos actuais políticos europeus. Por outro lado, e sabemo-lo de passados tempos ainda mais tenebrosos, esse seu poder reforça a perpetuidade da estupidez colectiva, em ciclo vicioso, quando subtilmente retira ao povo as principais sedes do acesso à legítima contestação: a educação e a cultura. Quando nos contentarmos, como as vacas, em dormir, comer, beber e nunca pensar, teremos atingido a perfeição desejada pelos políticos, ou seja, o grau máximo da estupidez.
A crença definitiva nas suas promessas, o crédito absoluto nos seus programas e a fidelidade inquebrantável para com as suas ideologias garantirão maciças votações populares, em vitalícia e “democrática” (!?) permanência no poder dos “melhores” (!?) de todos nós. Isto até já nos aconteceu e durou quase meio século...
Provavelmente, por estas palavras, serei para muitos um exagerado ou um estúpido visionário. Talvez mesmo um inesperado conspirador. Pois... é que a paciência e a tolerância têm limites!
Martin Luther King disse um dia: “Para criar inimigos não é preciso declarar guerra, basta dizer o que pensa.
É verdade, mas não é tudo. A este propósito, entendo que dizer o que pensamos nos coloca em paz com a nossa própria consciência e também serve para criar ou manter amigos.
A estupidez dos homens tem sido tema tratado por pensadores, ao longo dos tempos. Tratando-se dum sentimento ou duma filosofia de vida com larga adesão prática ao longo de toda a crónica humana, natural se tornou, portanto, que inúmeras alusões, algumas bastante curiosas e oportunas, tivessem sido expressas e registadas desde há muito.
Sem qualquer preocupação cronológica ou ideológica, aqui se deixam, em breve colectânea, algumas exemplares máximas sobre a estupidez.
Comecemos por Albert Einstein (1879-1955), o brilhante físico alemão, depois naturalizado norte-americano, que dispensa qualquer outra apresentação. Ele escreveu: “Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta.”
Na mesmíssima linha esteve o historiador francês Ernest Renan (1823-1892), ao dizer: “A estupidez humana é a única coisa que dá ideia do infinito.”
Já o médico e apreciado dramaturgo russo Anton Tchekhov (1860-1904) afirmou: “A universidade desenvolve todas as capacidades, inclusive a estupidez.”
Bertrand Russell (1872-1970), matemático e filósofo inglês de reputação universal, dedicou ao tema algumas das suas fabulosas reflexões. Eis duas delas: “A estupidez coloca-se na primeira fila para ser vista; a inteligência coloca-se na rectaguarda para ver.” (...) Um dos paradoxos dolorosos do nosso tempo reside no facto de serem os estúpidos os que têm a certeza, enquanto os que possuem imaginação e inteligência se debatem em dúvidas e indecisões.”
Gustave Flaubert (1821-1880) foi um destacado escritor francês. É da sua autoria a seguinte afirmação: A estupidez não está de um lado e o espírito do outro. É como o vício e a virtude; sagaz é quem os distingue.”
O historiador e filósofo alemão Friedrich Schiller (1759-1805) chegara ainda mais longe ao declarar: “Contra a estupidez os próprios deuses lutam em vão.”
Bertold Brecht (1898-1956), inspirado dramaturgo alemão, legou-nos uma herança cultural dotada de enorme impacto sócio-político. Aqui fica, para termo desta breve colectânea sobre o disparate, um dos seus poemas dramáticos, Aos que virão depois de nós,  alusivo à temática:
 Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de
estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não
recebeu a terrível notícia.

Que tempos são esses, quando
falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranquilamente a rua
já está então inacessível aos amigos
que se encontram necessitados?

É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nado do que faço
me dá o direito de comer quando tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa, estou perdido!)

Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que posso comer e beber,
se a comida que como tiro-a a quem tem fome?
se o copo de água que bebo faz falta a quem tem sede?
Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.
Prolongaremos um pouco mais este breve ensaio sobre a estupidez.
António Martinó de Azevedo Coutinho

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